Segundo Raposo (2004), o historiador grego Heródoto, em 440 a.C., já citava o trabalho do guia profissional em sua famosa História. O autor cita também que as principais atividades do guia da época caracterizavam-se por orientar soldados em terreno desconhecido, servir de intérprete, arranjar acomodações, alimentação e transporte para os seus clientes. Funções estas muito semelhantes às do guia de turismo atual.
O turismo, semelhante ao que conhecemos hoje, teria surgido na Europa no século XIX. Segundo Fuster (1974), o inglês Thomas Cook teria sido um dos principais precursores do turismo na modernidade, ao realizar a primeira viagem coletiva
organizada em 1841. Mas o deslocamento de pessoas com objetivo de conhecimento e lazer é registrado já na época da descoberta da América por Cristóvão Colombo, em 1492. Notadamente, essas viagens eram realizadas pela elite da sociedade, devido ao seu altíssimo custo.
Para Rejowski (2002), com o Renascimento foi favorecido o desejo de explorar e descobrir, estimulando deslocamentos pela necessidade de aprender e adquirir cultura. Em torno de 1670, há registro de alemães, poloneses, dinamarqueses, holandeses e ingleses se dirigindo à França com estes objetivos.
Eram propostos dois circuitos: o petit tour, Paris e sudoeste da França, e o
grand tour, que compreendia também o sul, o sudeste e a Borgonha. Daí
surgiu a expressão fazer o grand tour, que começou a ser utilizado na Inglaterra nos séculos XVII e XVIII. (REJOWSKI, 2002, p. 36).
Entre os séculos XVI e XIX, os Grand Tours ficaram muito conhecidos, realizados principalmente por jovens de famílias abastadas acompanhados de tutores ou professores. Estes tutores assumiam um papel muito similar aos guias atuais, agindo como intérpretes e conselheiros sobre a forma de se comportar em determinada região. Os roteiros duravam entre dois e oito anos e visitavam países europeus como França, Itália e Alemanha, e, em alguns casos, se estendiam a Espanha, Portugal e Grécia. O objetivo principal dos Grand Tours foi a promoção da educação e cultura de seus participantes (JAFARI, 2000) e, segundo Rejowski (2002), a educação dos nobres não era considerada completa, a menos que eles passassem de um a três anos viajando pela Europa.
Já no final do século XVII, o tema das grandes viagens como forma de experiência e aprendizado aparece na literatura, como As aventuras de Telêmaco (1699), escrita pelo Bispo François Salignac de La Mothe Fénelon16. O objetivo da narrativa, dividida em dezoito livros, foi educar o Duque de Borgonha, neto de Luís XIV, segundo na linha de sucessão.
Mais tarde, a prática de viagens de experiência educativa será defendida na obra do filósofo Jean-Jacques Rousseau17, intitulada Emílio (1762), considerada uma espécie de tratado da pedagogia natural. Rousseau (1999) considera que a educação deve permitir a formação do ser humano tal como ele é na sua natureza. Para isso, propõe três tipos de educação:
16Nascido na França em 1651 e falecido em 1715.
17Nascido em 1712 e falecido em 1778, o filósofo suíço será um dos fundadores do pensamento político moderno. Suas contribuições foram em diversas áreas, como política, literatura, música e educação.
[...] a educação que vem da natureza (desenvolvimento das faculdades e órgãos); a educação que vem dos homens (usos desse desenvolvimento); a educação que vem das coisas (a experiência pessoal sobre os objetos) (MARTINEAU, 2010, p. 165).
Para Rousseau (1999), a criança deve ser ativa durante seu processo de aprendizagem, devem-se fornecer as ferramentas necessárias para que ela possa conhecer por si mesma, a partir do processo de observação e experimentação. A obra Emílio, cujo título refere-se ao personagem fictício, divide-se em cinco partes, sendo que cada uma delas trata de uma maneira particular da aprendizagem da criança e de uma fase específica do seu desenvolvimento. A quinta parte, ou Livro V, que compreende dos vinte aos vinte e cinco anos, é chamada pelo autor de idade da sabedoria. Trata da educação política de Emílio e sua inserção na ordem civil, discorrendo também sobre a educação feminina.
A formação do aprendiz, nessa última etapa descrita por Rousseau, se dará por meio de viagens a outros países, e será exigido um estudo mais aprofundado dessas culturas e lições de direito político, justamente nas regiões consideradas berço da civilização ocidental. Trata-se de viagens de exploração, observação e experimentação, tal qual os Grand Tours.
Não viajamos, pois, como passageiros, mas como viajantes. Não pensamos somente nos dois extremos, mas também no intervalo que os separa. A própria viagem é um prazer para nós. [...] Observa-se todo o lugar, volta-se para a direita e para esquerda, observa-se tudo que é agradável; pode-se parar nos lugares interessantes. Se eu vir um rio, margeio-o; um bosque cerrado, caminho sob sua sombra; uma gruta, visito-a; uma pedreira, examino seus minerais (ROUSSEAU, 1999, p. 576-577).
Neste tipo de viagem, o preceptor ou professor assumia o papel de guia e mediador cultural, apoiando e assessorando seu pupilo. Eram viagens bastante dispendiosas e poucos podiam realizá-las. Entretanto, à medida que a tecnologia de transportes se desenvolve, possibilita maiores deslocamentos em menos tempo, o que gradualmente diminui os custos, abrindo espaço para viagens para outras camadas sociais.
Considera-se que Thomas Cook, um pastor batista inglês, tenha sido o primeiro a comercializar os roteiros turísticos em maior escala, tendo sua primeira excursão organizada em 1841 dentro da própria Inglaterra. Por organizar viagens em grupos, Cook podia negociar melhores tarifas, além de oferecer a segurança de seu acompanhamento durante as excursões. É assim chamado de pioneiro no ramo de
agenciamento de viagens e guia de turismo moderno, sendo um formato de viagem ainda muito utilizado.
O advento da bicicleta, popularizada em fins do século XIX, deu maior autossuficiência de locomoção a muitas pessoas, permitindo que o homem fosse dono de seu próprio transporte, podendo ir a toda parte, em grupo ou sozinho. Segundo Gastal e Castro (2008), ciclistas começaram a cortar o território dos países europeus e até a empreender viagens e excursões mais longas. Esse deslocamento em massa demandava tantas e tão variadas informações e reserva de alojamentos, mapas de caminhos e proteção de toda ordem, que na França, em 1890, foi fundado um clube para os turistas em bicicleta. Assim surgiu o Touring Club da França, o mais antigo do mundo.
Os Touring Clubs se transformaram em clubes de fomento e proteção ao turista em automóvel, acompanhando seu crescimento. Entre alguns dos mais antigos Touring Clubs, estão: o Touring Club Italiano, em 1894; o Deutscher Touring Club, em 1900; o Touring Club Royal de Belgique, em 1895; o The Automobile Association, na Inglaterra, em 1905; e o Touring Club Argentino, em 1907. A proliferação dos Touring Clubs como clubes de turismo se deve a uma política de reciprocidade de serviços, necessária para facilitar os deslocamentos dos viajantes que percorressem estados e nações estranhos à sua residência. Isso significava que qualquer sócio do Touring, de qualquer parte do mundo, teria assistência no Brasil, como se fora um sócio local. Da mesma forma, os brasileiros sócios do Touring, em viagem ao exterior, gozavam de ampla proteção e assistência dos clubes (GASTAL, CASTRO, 2008).
Em 1898 foi fundada uma entidade mundial para congregar os Touring Clubs do mundo: a Alliance Internationale de Tourisme - AIT, com sede em Genebra, Suíça. A organização reuniu os Touring Clubes de cinco continentes, que representavam muitos milhões de associados. Segundo Gastal e Castro (2008), a Alliance Internationale de Tourisme é uma atuante entidade universal promotora do Turismo como meio de comunhão internacional, progresso da humanidade e paz entre as nações. Também realiza importantes estudos de natureza técnica que visam o aperfeiçoamento do Turismo.
Entretanto, a partir do século XX, mais precisamente após a Segunda Guerra Mundial, o turismo teve maior desenvolvimento, como consequência da produtividade empresarial, do aumento do poder de compra das pessoas, além do desenvolvimento de tecnologia em transportes.
O novo modelo industrial trouxe também uma mecanização do trabalho. A monotonia do cotidiano, o estresse, o esgotamento físico e psíquico fizeram surgir nos indivíduos uma necessidade de se desfazer temporariamente das condições normais de trabalho e reconstituir as forças físicas e mentais. O tempo livre, nesse período, foi aumentado devido à legislação que previa a redução dos horários de trabalho e passou a ser totalmente preenchido pelo lazer (KRIPPENDORF, 1989).
Os três fatores: facilidades de transporte, aumento da renda e do tempo livre da população deram início ao chamado turismo de massa, no começo da década de 1950. É provavelmente deste período que surge a expressão “a indústria sem chaminé”, se referindo ao turismo como uma atividade que não poluiria como o modelo de produção em ênfase nesta época. De fato, o turismo não produz fumaça como a indústria, entretanto há diversos impactos muito mais complexos, mas que ainda não eram previstos ou estudados no período. Por sua própria natureza, o turismo busca ambientes e sociedades singulares e frágeis, gerando consequências ambientais e sociais adversas que acabam por neutralizar este benefício econômico.
O turismo de massa caracterizou-se por viagens econômicas com todos os serviços inclusos, em forma de pacotes, organizados por agência de viagem ou operadora turística, ocasionando um crescimento vertiginoso. Também chamado de boom turístico18, o fenômeno pode ser verificado nas estatísticas realizadas pela Organização Mundial do Turismo (OMT) no Brasil. O estudo registra a cifra de 25 milhões de entradas internacionais em 1950, aumentando sucessivamente e chegando a 198 milhões de pessoas em 1973 (REJOWSKI, 2002). Ou seja, em um período de 23 anos, o fluxo de visitantes internacionais sextuplicou.
Em um plano ideal, o turismo deveria gerar apenas impactos positivos na área de destino e para os seus residentes, como melhoria nas condições econômicas, promoção da cultura local, preservação da tradição e proteção de recursos ambientais. Segundo Mercer, na obra Turismo Global (2002), compreende-se que o turismo surge sob milhares de aspectos e pode ter consequências sociais, ambientais, econômicas e políticas boas e más, dependendo de seu tamanho e forma, da medida
18 O chamado boom do turismo refere-se a um período de massificação possibilitado por fatores como
estabilidade política, consolidação da classe média, avanços tecnológicos na comunicação e transportes, gerando um crescimento considerável do turismo no período de 1950 a 1973. Segundo Rejowski (1996), em 1950 a Organização Mundial de Turismo registrou 25 milhões de chegadas internacionais, com crescimento sucessivo, chegando a 198 milhões em 1973.
em que seu crescimento é ou não controlado e da perspectiva de quem o está analisando.
Os primeiros estudos sobre essas consequências trataram dos aspectos econômicos, já que era o mais fácil de quantificar e mensurar. Segundo Archer e Cooper (2002), além dessas razões, havia a esperança de demonstrar o benefício econômico líquido que o turismo implicava na sociedade de destino, e supunha-se que a renda gerada pela atividade turística poderia compensar qualquer impacto negativo.
O boom do turismo ocasionou sua exploração desenfreada e, muitas vezes, pouco responsável perante o meio ambiente em um sentido amplo. Percebeu-se a necessidade de satisfazer não só o visitante e o empresário, mas também o residente da localidade de destino (REJOWSKI, 2002).
Já nos anos 1980, começaram a surgir alternativas para o turismo em contraponto à exploração desenfreada. Procurou-se aplicar o conceito de capacidade de carga a fim de limitar a quantidade de turistas de cada local, diminuindo os impactos.
Os novos turistas, ou chamados pós-turistas, estão ditando as regras de condução no cenário turístico atual. O que faz um turista escolher este destino e não aquele é a possibilidade de satisfação de suas necessidades e a presunção da qualidade do serviço que lhe será oferecido.
A expressão pós-turista é uma referência à pós-modernidade. Segundo Urry:
A pós-modernidade envolve uma dissolução das fronteiras, não apenas entre a alta e a baixa culturas, mas também entre diferentes formas culturais, tais como o turismo, a arte, a educação, a fotografia, a televisão, a música, o esporte, as compras e a arquitetura (URRY, 2001, p. 117-118).
Segundo o autor, a era da comunicação de massa transformou o olhar do turista. Barreto (2000) apresenta dado da década de 1980que demonstram que as preferências de turistas eram organizadas pela seguinte ordem de importância: 88% gastar dinheiro, 60% ver belezas naturais, 44% conhecer um novo lugar, e apenas 48% compreender a cultura local. Na década seguinte, a mesma pesquisa registra grandes mudanças nas prioridades de interesse de turistas: 88% compreender a cultura, 73% ver as belezas naturais, 72% perceber novas perspectivas de vida, 57% visitar um novo lugar. Segundo Barreto (2000), esta procura por cultura tem levado a um crescimento do turismo urbano e, dentro deste, a uma procura por turismo
histórico, artístico e cultural, fomentando também oportunidades para os profissionais que trabalham com a mediação cultural, como os guias de turismo.
Seguindo esta linha, na década de 1990, o conceito de sustentabilidade surgiu aplicado ao turismo, sendo definido por Swarbrooke (2000, p. 3) como “[...] desenvolvimento que satisfaz nossas necessidades hoje, sem comprometer a capacidade das pessoas satisfazerem as suas no futuro”.
Em 1º de outubro de 1999, a Organização Mundial do Turismo (OMT19), representantes do setor turístico mundial, delegados de estados, territórios, empresas, instituições e organismos se reuniram na Assembleia Geral em Santiago do Chile, e proclamam os princípios do Código Ético Mundial para o Turismo. Os princípios são:
a) contribuição do turismo para o entendimento e respeito mútuo entre homens e a sociedade;
b) o turismo, instrumento de desenvolvimento pessoal e coletivo; c) o turismo, fator de desenvolvimento sustentável;
d) o turismo, fator de aproveitamento e enriquecimento do patrimônio cultural da humanidade;
e) o turismo, atividade benéfica para os países e as comunidades de destino; f) obrigações dos agentes do desenvolvimento turístico;
g) direito ao turismo;
h) liberdade de deslocamento turístico;
i) direito dos trabalhadores e dos empresários do setor turístico; j) aplicação dos princípios do código ético mundial para o turismo.
São princípios voltados para uma maior valorização dos destinos turísticos e de suas comunidades, buscando a promoção do respeito à cultura e ao patrimônio locais, além da sustentabilidade de desenvolvimento.
Susana Gastal (2004), em seu artigo Da prática à teoria: pensando o turismo, cita que a teorização quanto ao fenômeno turístico no mundo foi disseminada apenas nos anos 1990, quando vários núcleos universitários passaram a olhá-lo nas suas implicações também socioculturais e, assim, como objeto de reflexão acadêmica e pesquisa qualitativa. Este é o mesmo período das publicações de Jafari e Tribe, que corroboram o quão recentes são esses estudos.
19 A instituição denominada World Tourism Organization (WTO) foi criada em 27 de setembro de 1970,
Após este breve contexto sobre o desenvolvimento do turismo no mundo, veremos a seguir dados sobre a história do turismo no Brasil, e em seguida, o seu crescimento no Rio Grande do Sul.