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Chapter 6: Discussion

U- Pb dating of volcanic rocks

6.3 Stratigraphic relationships in the outer Hardangerfjord area

A história mostra que o jogo de forças e de poder que permeiam o cenário do público e do privado na esfera da educação vai muito além das intenções educativas. Assim, após se formarem Célia Cendón e Rosa Cendón, sendo essas as primeiras normalistas verdadeiramente ibiaenses, por questões declaradamente políticas35 não conseguem espaço na

iniciativa pública. ―O papai fez três salas de aulas perto da horta, porque o prefeito não combinava muito com o papai, então não quis nos colocar no Grupo Escolar. Aí papai falou: vamos fazer uma escola pra nós! Então o papai fez três salas de aula e nessas salas de aulas nós dávamos aulas de manhã e à tarde‖. (ENTREVISTA 2).

De acordo com Souza (2010) a maioria do corpo docente do Grupo Escolar de Ibiá até 194036 era constituído por professoras leigas e estagiárias, dependendo a escola de professoras designadas vindas de diferentes municípios mineiros. Naquele momento, além de poder servir ao Estado como professoras formadas as irmãs Cendón37 também desenvolviam, de acordo o imaginário da época, certo fascínio pelo Grupo Escolar. Lembrando que para muitos professores, especialmente as mulheres, trabalhar nos Grupos Escolares nesse período significava o máximo da ascensão na carreira do magistério, dado que os cargos superiores estavam reservados ao sexo masculino.

Quando eu fazia a 3ª, a gente falava 3º ano, não era série. Estudava numa casa que era adaptada. O Grupo ficou pronto depois. Então nós encontramos o Grupo novinho. Esse é o melhor de Ibiá viu! Depois não fizeram outro

35 O clientelismo como forma de dominação perde espaço à medida que os direitos civis vão se estabelecendo,

mas ainda hoje está muito presente na sociedade brasileira, urbana ou rural, especialmente em tempos de eleições. Desse modo, o clientelismo expressa uma prática patrimonialista na medida em que aqueles que estão próximos dos cargos de poder fazem valer seus interesses privados e dispõem dessa prerrogativa como lhes parecer conveniente.

36 Ao analisarmos os documentos dessa escola, observamos grande atuação de estagiárias até 1940, pois não havia escola Normal para formação de professores no município até 1937. Todavia, em 1937 é instalada a Escola Normal São José, e em 1940 essa instituição diploma sua primeira turma, indo ao encontro dos interesses do Grupo Escolar de Ibiá, que carecia de professoras formadas. (SOUZA, 2010, p.108).

melhor do que este não. Então nós passamos para lá. Ajudamos a carregar as carteiras, felizes! O grupo novinho, muito bem construído, janelas grandes. Foi motivo de felicidade passar a estudar no Grupo. (ENTREVISTA 1).

Entretanto, ao serem questionadas sobre o motivo de não terem sido chamadas para lecionar no Grupo Escolar, Célia Cendón afirma que seria muito mais lucrativo investir em uma escola privada. ―É porque com a nossa escola nós ganhávamos mais que as professoras do Grupo Escolar. A questão era o dinheiro. Então não teve um dia de começar a escola. Quem fundou a escola foi a sociedade, ela que nos elegeu‖. (ENTREVISTA 1).

É importante ressaltar que um dos diferenciais da Escola Santa Terezinha era oferecer um ensino ministrado de acordo com a nova pedagogia numa perspectiva de maior controle e qualidade.

Uma vez teve uma amiga nossa que falou assim: Célia você podia me dar

uma classe na sua escola. Mas, eu resolvi que seriamos só nós. A Zifinha38

formou no Colégio Normal São José e veio lecionar, depois a Vicentina. Nós tínhamos uma maneira de ensino pessoal. Se pegássemos outras pessoas estranhas e depois? (ENTREVISTA 1).

Assim, em todo seu período de vigência a Escola Santa Terezinha se configurou como escola familiar, sendo seu quadro composto por professoras formadas o que dava à escola certo status.

Todavia, como mencionado no capítulo 2 deste trabalho, o governo mineiro define qualidade como oferta ao aluno de um ensino sob medida, ou seja, um ensino individualizado, compatível com suas aptidões e características biopsicológicas e com as necessidades do meio. Na prática, esse conceito traduz a garantia, ao aluno, de um ambiente cientificamente organizado para a aprendizagem, tendo em vista a aplicação da metodologia da Escola Nova. Em síntese, o conceito de eficiência e qualidade, com tratamento científico dos problemas educacionais, oferta ao aluno de um ensino adequado à sua natureza, às suas aptidões e à sua adaptação ao meio social, confere à educação um grau de especificidade que possibilita ao governo não só restringi-la aos órgãos técnicos, mas também interferir na prática desenvolvida nas escolas. Nesse sentido, a Escola Nova se dissemina particularmente nas Escolas Normais como podemos constatar pelas falas das depoentes e mediante análise documental.

Tinha que ser teórico e prático porque naquele tempo estava em grande conversa a Escola Nova, que é a escola justamente contra a escola antiga do soletração. E a Escola Nova era assim, era pra trás, começa da história, fazia o pré-livro (contar a história dos três porquinhos, por exemplo). O pré-livro chamava Método Global e justamente pra ir contra aquele método que aprendia a letra e depois falava, ―B, A, Bá‖ ―L, A, Lá‖, chegaram à conclusão que falar o nome da letra não altera no falar. O que manda é a sílaba, método silábico. Tanto que sou pessoalmente, muito mais o método silábico, mais prático do que o método global de Erik Day, Anita, Claparred, Dewey, Pedro Nandon, e ate hoje ele é adotado nas escolas. (...) Era obrigado a ministrar para os meninos, porque na Escola Normal de Formiga tinha o curso do 4° ano primário que era um curso que a professora que estava estudando tinha que dar aula. Para aprender a dar aula. Clamava-se escola anexa. Você vê que a gente estudava e lecionava. (ENTREVISTA 1).

Mediante leitura criteriosa dos trabalhos de conclusão do Curso Normal de Célia Cendón e Rosa Cendón pudemos constatar que o enfoque científico e psicológico no tratamento dos problemas educacionais realça o caráter científico e natural das desigualdades de aprendizagem, camuflando os reais motivos da diferenciação das crianças. Nesse sentido, a Escola Nova induz à legitimação das diferenças individuais, reforçando as diferenças sociais; de forma que a escola é apresentada como uma resposta às necessidades manifestadas pelo indivíduo, institucionalizando o sentido de uma ação democratizante do Estado. O trecho extraído, em sua forma original do trabalho de conclusão do Curso Normal de Célia Cendón, nos aponta algumas especificidades do modelo de ensino disseminado e implantado, que busca atender ao contexto político-econômico e sócio-cultural no qual se encontrava o Brasil, especialmente os rincões das Gerais.

As varias observações de psicólogos têm nos mostrado cousas interessantes: às vezes muito grandes diferenças psicológicas, em crianças da mesma idade, e que recebem as mesmas influências (que um grande fator) do meio onde vivem. Por isto preocupa-se hoje, vê-se que é necessário que se ministre um ―ensino que ajuste as diversas formas de espírito‖, que há de recebê-lo. Não quero dizer com isto que devemos banir o ensino coletivo que é de grande vantagem sob o ponto de vista social, pois seria contradizer os grandes mestres: a escola é uma sociedade em miniatura. Como disse, encontramos alunos da mesma idade que se diferem muito psicologicamente. Na verdade têm as qualidades de seus processos psíquicos, singularíssima; não só a qualidade mas também a capacidade das funções mentaes, isto é, a quantidade. Encontramos pessoas que têm muito boa memória e que têm diminuída a capacidade de aquisição. Outro tem a mesma cousa mas em grau menor; um terceiro pode possuir estes caracteres invertido etc. Estas cousas todas podemos verificar por meio de ―testes‖ mentaes que nos mostrarão problemas interessantíssimos. Podemos por meio deles conhecer os

processos de reação às excitações exteriores de cada individuo. Os tests ainda nos revelam as tendências, os interesses, auxiliando assim, muito à professora. Mas, quais as causas das diferenças individuaes? Podemos mencionar dois grandes fatores: a hereditariedade e o meio. Tem todos dois grandes influências, e também grande número de partidários. Muitos psicólogos afirmam ter a hereditariedade maior influência que o meio, outros opinam ter a educação (digo assim por ser um termo mais próprio, dizem os mestres, e que também o verificamos, tornando educação na sua mais ampla

concepção) maior influência. A Eugenia trata de melhorar a raça fazendo-se

uma seleção dos indivíduos que hão de assegurar a sua existência; proíbe-se portanto o casamento de pessoas degeneradas pelo alcoolismo ou outro tóxico, pois já se tem provado que os caracteres adquiridos se transmitem.Na Alemanha proíbe-se a procriação dos indivíduos afetados por qualquer doença transmissível. Seguindo-se estas regras impossibilita-se o nascimento de crianças que tragam qualquer deficiência física ou intelectual, que vem apresentar problemas graves para que vêm os pais e professores, principalmente na época da sua educação. Ao envés de procurarmos taes dificuldades, sigamos os conselhos de Eugênia, impossibilitando o nascimento de taes pessoas. Este capítulo não é de grande importância para os professores, e sim para os pais. Mas aqueles devem seguir com atenção e interesse estes estudos, para que tenham mais indulgência para com os alunos, não castigando-os desnecessariamente, provocando assim uma revolta justa dos mesmos. Com taes conhecimentos os mestres procurarão

ver se os alunos ―não podem fazer‖, esta ou aquela cousa, ou se ―não querem

fazer‖; porque muitas vezes o aluno não executa este ou aquele trabalho

escolar porque não pode executá-lo. Vemos, portanto, o valor da

hereditariedade. (CÉLIA CENDÓN, 1932).

De acordo com o elucidado acima, espera-se do professor algo mais que a simples transmissão de conhecimentos. Esperava-se que ele despertasse no aluno a vontade de aprender e que desenvolvesse suas habilidades intelectuais/individuais e que fosse capaz de manter a disciplina. Nesse sentido, a metodologia da Escola Nova contribuía para a organização das turmas, de forma a possibilitar a homogeneização das classes, dando ênfase às atividades de socialização (auditórios, excursões, associações de leitura), além de garantir a legitimidade do processo de diferenciação mediante mecanismos que ocultassem a influência da origem social do aluno na aprendizagem. De maneira que o conceito de educação mais prática voltada para a competência incluía a ideia de uma educação diferenciada, segundo o papel que se esperava de cada indivíduo na sociedade.

Nessa perspectiva, o trabalho de conclusão do curso Normal de Célia Cendón nos revela tanto no tratamento da temática, Diferenças Individuais, como no parecer final da banca examinadora (como podemos constatar na imagem abaixo) a ênfase dada à visão salvacionista da escola moderna. A imagem positiva da Escola Nova como sendo esse método e/ou metodologia o fim de todos os males da educação camufla a realidade socioeconômica

por não permitir uma análise crítica da situação de ingresso e permanência das crianças no processo de escolarização.

Vê-se que para uma pessoa de 17 anos, falar sobre isso, o crescimento mental da criança. É porque quando eu estudava, esse tema passou pela professora de psicologia: crescimento mental da criança, influência do meio e da hereditariedade é um tema meio complicado. A banca examinadora era composta de médicos, em Formiga para compor o corpo docente da escola eles chamavam pessoas de lá mesmo, médicos, engenheiros, estas pessoas que tem curso superior. Então na banca examinadora, o dia que fui fazer a minha defesa dessa tese fiquei muito devotada. Eles fizeram perguntas, eu já tinha lido muito sobre o assunto, e fui respondendo. Depois eles fizeram uma rodinha e ficaram discutindo o tema: ―não, eu acho que a hereditariedade

tem muito mais força sobre a formação mental psicológica da pessoa‖, outro

médico de lá, ―não eu acho que o meio‖. É um tema instigante!

(ENTREVISTA 1).

Figura 8: Parecer de avaliação da monografia de Célia Cendón (1936). Fonte: Acervo particular de Célia Cendón, 2010.

Uma concepção francamente salvacionista convencia-se de que a reforma da sociedade pressuporia, como uma de suas condições fundamentais, a reforma da educação e do ensino. No período em apreço, esse espírito salvacionista adaptado às condições postas pelo governo Vargas e posteriormente no governo de Juscelino Kubstichek, enfatiza a importância da formação dos cidadãos e da modernização das elites, acrescida da consciência cada vez mais explícita da função da escola no trato da questão social.

É comum imaginar-se que os mecanismos de discriminação existentes no sistema educacional são conjunturais acessórios, produtos de carências momentâneas: falta de recursos para construir mais escolas, para treinar mais professores, para melhorar a qualidade do pessoal docente, para melhorar o material didático, para dar bolsas de estudos e, finalmente, para escolarizar mais cedo as crianças da classe trabalhadora, a fim de diminuir os efeitos

danosos da educação familiar ―insuficente‖. (...) Essa crença constitui mais

um aspecto da função dissimuladora do pensamento educacional a respeito da verdadeira natureza dos seus próprios mecanismos. A análise da realidade educacional do Brasil não permite essa crença havendo mais recursos (materiais humanos e financeiros), eles serão redistribuídos de um modo tal que se reeditem os mecanismos de discriminação, como vem ocorrendo na política educacional. Acontece que a discriminação vai ficando, a cada passo, mais dissimulada. (CUNHA, 1989 p. 58).

Nesse contexto, a função social do Estado é a de permitir a cada indivíduo o desenvolvimento de seus talentos, em competição com os demais, ao máximo da sua capacidade. Acredita terem os diferentes indivíduos atributos diversos e é de acordo com eles que se atingem uma posição social vantajosa ou não. Daí o fato de o individualismo presumir que os indivíduos tenham escolhido voluntariamente, no sentido de fazerem aquilo que lhes interessa e de que são capazes, o curso que os conduziu a certo estágio social de pobreza ou riqueza. O texto abaixo reforça esse princípio da doutrina liberal, o individualismo não só aceita a sociedade de classe, como fornece argumentos que legitimam e sancionam essa sociedade.

Se pudéssemos abranger com a vista, o mundo ou pelo menos uma parte dele, teríamos a ocasião de notar que desde o mundo inorgânico até a vida agitada dos seres mais parecidos que sejam todos os objetos da terra submetidos a um exame minuncioso apresentariam diferenças distintas. Já se tem provado isto, mesmo no mundo inorgânico. Numa grande praia não acharíamos, por muito que procurássemos dois grãos de areia perfeitamente iguaes. Um escritor também nos diz que não há dois pedaços de cristal, mesmo que tenham as mesmas dimensões geométricas, que sejam perfeitamente iguais; pois, numa observação meticulosa, veríamos com

espanto que minúsculo átomo os difere. Assim acontecendo com os seres inanimados, porque não existe esta diferença com muito maior domínio nos seres animados? Poderemos notá-lo num simples e ligeiro relance de vista sobre um grupo que se nos apresente. (...) Estes são bons, trabalhadores honestos e procuram ganhar a vida banhados de suor; aqueles são verdadeiros parasitas, que vivendo às espersas dos alheios, ainda lhes tira às vezes um momento de tranquilidade quando não os auxiliam. Este outro é ladrão, aquele assassino e um terceiro farceador. E porque tanta diferença em pessoas do mesmo meio? Que é que os distingue tão distintamente? É a individualidade que se nos apresenta com toda a sua pujança, com toda a sua força, com toda a sua superioridade. (...) Os alunos de uma classe constituem um problema singular, tem cada qual o seu modo de agir, de resolver os problemas, de reagir às excitações afetivas vindas do mundo exterior que ali são representadas pela professora e colegas. (CÉLIA CENDÓN, 1932).

Dessa forma, a doutrina liberal rejeita os estratos sociais cristalizados, mas não a divisão da sociedade em classe. Assim, influenciada pelos princípios liberais a fundadora da Escola Santa Terezinha afirma que os homens são naturalmente diferentes. E leva-nos a refletir sobre a origem socioeconômica das famílias das crianças que frequentam essa escola. Mediante a afirmação apresentada quando questionada sobre a classe social dos alunos matriculados na escola: ―Eram filhos de juízes, médicos, agiotas, ferroviários, coitadinhos‖ (Célia Cendón, 2010). Célia Cendón na verdade reafirma o que apontamos no capítulo anterior sobre a opção da elite ibiaense pela Escola Santa Terezinha.

Não obstante, é importante ressaltar que a sociedade em mudança, num contexto de nacional-desenvolvimentismo, exige que se forneça a cada indivíduo os meios para participar, de acordo com as suas potencialidades, do conjunto das necessidades dessa sociedade. Nesse aspecto, a educação é uma instituição social fornecedora dos meios a fim de que o indivíduo compreenda o significado dos termos: civilização, progresso e modernidade e se aproprie das habilidades e competências necessárias para contribuir para as mudanças em trânsito.

A partir dos talentos ou vocações individuais (que a escola tem capacidade de despertar e desenvolver) que o indivíduo adquirirá sua posição, isto é, o indivíduo ocupará na sociedade a posição que seus dotes inatos e sua motivação determinarem e, assim, de acordo com suas próprias aptidões, irá encontrar seu lugar na estrutura ocupacional existente. A educação liberal não considera os alunos ligados às classes de origem, não só considera privilegiado ou não, mas trata-os igualmente, procurando habilitá-los a participar da vida social na medida e proporção de seus valores intrínsecos. Desta forma, ela pretende contribuir para que haja justiça social, levando a sociedade a ser hierarquizada com base no mérito individual. Donde se conclui que a ascensão ou descensão social do indivíduo estará condicionada à sua educação, ao seu nível de instrução, e não mais ao nascimento ou à

fortuna que dispõe. Isto porque o talento está no indivíduo, independente de seu status ou condição material. (CUNHA, 1989, p. 35).

Assim, a necessidade de aumentar a oferta de escolarização conduz a um enganoso sinal de democratização. O projeto de sociedade igualitária apenas substituía uma elitização a priori, produzida pelas condições precárias de vida que negavam o acesso à escola à maior parte da população brasileira e pela ausência do poder público na oferta de escolas em quantidade suficiente para todos. A capacidade individual não exclui da seleção, por si só, os elementos sociais que também nela interferem. De fato, a escola única, pensada nos Manifestos de 1932 e 1959, não conduz à sociedade igualitária e sequer altera as condições de marginalidade no usufruto dos benefícios do desejado nacional-desenvolvimentismo por que passava o Brasil.

3.2 Da iniciativa pública à iniciativa privada: Grupo Escolar Dom José Gaspar e Escola