Na normativa portuguesa, podemos encontrar as restrições básicas para a exposição aos campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos numa gama de 0 a 300 GHz na Portaria n.°1421/2004 de 23 de Novembro de 2004. Nesta procura-se a prevenção de diferentes patologias para as diferentes restrições básicas, como se explica no trecho a seguir:
“Entre 0 Hz e 1 Hz prescrevem-se restrições básicas para a densidade do fluxo magnético de campos magnéticos estáticos (0 Hz) e para a densidade de corrente dos campos variáveis no tempo até 1 Hz, a fim de prevenir efeitos sobre o aparelho cardiovascular e o sistema nervoso central; Entre 1 Hz e 10 MHz prescrevem-se restrições básicas para a densidade de corrente, a fim de prevenir efeitos sobre as funções do sistema nervoso; Entre 100 kHz e 10 GHz prescrevem-se restrições básicas para a SAR8 fim de prevenir o stress térmico em todo o corpo e um aquecimento localizado excessivo dos tecidos. Na gama de 100 kHz a 10 MHz prescrevem-se restrições tanto para a densidade de corrente como para a SAR; Entre 10 GHz e 300 GHz prescrevem-se restrições básicas para a densidade de potência, a fim de prevenir o aquecimento dos tecidos à superfície do corpo ou próximo dela.” [22]
Figura 6 - Restrições básicas para campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos (0Hz-300GHz). [fonte: [22]]
Para uma melhor compreensão, a mesma Portaria indica níveis de referência para ajudar que restrições básicas sejam cumpridas. Estes níveis só poderão ser aplicados quando o
8 Taxa de absorção específica de energia. Define-se como o ritmo que a energia é absorvida por unidade
corpo humano for uniformemente exposto à radiação, não valendo assim para exposições localizadas como no caso do uso do aparelho de telemóvel.
Figura 7 - Níveis de referência para campos elétricos, magnéticos e eletromagnéticos (0Hz - 300GHz, valores eficazes não perturbados). [fonte: [22]]
Capítulo 3
Design e tecnologia
“As roupas têm evoluído para cumprir uma série de requisitos práticos e de proteção. O meio ambiente é cheio de perigos, e o corpo precisa ser mantido numa temperatura média para garantir o conforto e a circulação sanguínea. O homem do campo precisa de se refrescar, e o pescador precisa de ficar seco; o bombeiro precisa de proteção contra as chamas, e o mineiro contra gases tóxicos. Os reformadores do vestuário têm geralmente colocado a utilidade acima das considerações estéticas.” [23] Seguindo a história do design, podemos dizer que esta priorização da funcionalidade no vestuário da qual nos fala Sue Jenkyn Jones, teve início juntamente com as ambições do modernismo. Com este movimento, veio uma reação contra os objetos de pouca relevância. Os designers desta época, inspirados pela teoria estética da Bauhaus9, “a forma segue a função” [24], passaram a ser instigados para “desenhar o uso dos objetos” [25].
Com o mesmo princípio bauhauseano, Ezio Manzini em [4], explica que o criador deve responder às questões de responsabilidade, dando um contributo positivo para a construção de um mundo habitável. Tendo em conta esta forma de pensar e assumindo o conceito de que a roupa é a interface entre o utente e o meio onde ele se encontra [5], os designers atuais impulsionados pelos anseios dos consumidores preocupados com o presente cenário mundial, descrito no capítulo anterior, começam a interessarem-se por transformar a arte da moda em desenvolvimento científico. Desta forma, os projetos de moda passaram a integrar uma gama de requisitos como função, performance, proteção e conforto, além de agregar valores atentando questões de funcionalidade, ergonomia e facilidade de uso [7].
Perante esta enorme demanda, as novas criações integram química orgânica, nano tecnologia e eletricidade com a moda, desenvolvendo projetos de carácter inovador, onde buscam alternativas que possibilitem recarregar dispositivos com energia renovável, causando menos impacto no meio ambiente, constroem roupas que possam gerar eletricidade, limpar o ar, ou até mesmo desenvolvem novos artefatos para a proteção da saúde dos seres humanos.
Assim, podemos dizer que a presente geração de designers se adapta a um novo processo de criação para atender a este novo mercado, pensando antes de iniciar qualquer desenvolvimento, quais são as reais expectativas dos consumidores, como nos explica Bryan Lawson:
9 A Bauhaus foi a primeira escola de design do mundo e uma das maiores e mais importantes
“They have to learn to understand problems that other people may find it hard to describe and create good solutions for them. Such work requires more than just a ‘feeling’ for materials, forms, shapes or colours; it requires a wide range of skills.” [26] Além disso, estes criadores de moda também passam a dar um sentido real aos seus produtos, unindo conhecimento e criatividade que, segundo Castro em [27], são os principais critérios para projetos inovadores.
Essa nova maneira de pensar sobre a construção do vestuário também pode ser chamada de “Fashionable wearables”, que é o ato de criar novas peças ou acessórios de moda que combinem a estética e o estilo com a tecnologia funcional [6]. Desta forma, o que vestimos passa a ter um novo conceito explicado por Sabine Seymour:
“As designers of fashionable wearables, we view end users as fashionable beings who are attentive to style and the powerful potential of wearable technologies. Our design philosophy is based on the notion that garments are the immediate interface to the environment and thus are a constant transmitter and receiver of emotions, experiences, and meaning.” [6] Interpretando a atual demanda do “desejo tecnológico” dos consumidores de moda e, agregando a preocupação com os riscos para a saúde devido à poluição eletromagnética, surgem duas novas vertentes para guiar o processo de criação de novos produtos “Fashionable wearables”. Nas subseções a seguir, relataremos o estado da arte destas vertentes, que nos auxiliará a entender melhor a proposta desta dissertação:
§ Vestuário de proteção: projetos relacionados com a electrosmog;
§ Vestuário inteligente: projetos funcionais que envolvam a recolha de energia ambiente.
3.1 Vestuário de proteção
Como mostrado anteriormente, muitas dúvidas ainda persistem no assunto da influência dos CEM na vida dos seres humanos. Assim, têm surgido ao longo dos últimos anos projetos relacionados com a electrosmog, ora em caráter artístico/experimental, ora em caráter funcional/comercial. Seja qual for o âmbito, o importante aqui é destacar estas novas concepções que, de uma forma inovadora e criativa, servem para alertar ou prevenir, a população deste inimigo invisível.
3.1.1 Projetos artísticos/experimentais
Intitulado “Taiknam Hat”, este é o projeto mais inusitado relacionado com a poluição eletromagnética. Em 2008 Ebru Kurbak, Ricardo Nascimento e Fabiana Shizue, em parceria
com Ogaki Japan e a University of Arts and Industrial Design da Àustria, criam este chapéu cinético que reage com as mudanças dos níveis das radiações eletromagnéticas [6].
Sensores verificam constantemente a existência de ondas eletromagnéticas (OEM), enviando a informação em tempo real a um microcomputador que ativa um motor integrado na estrutura mecânica do chapéu, fazendo com que as penas que enfeitam o mesmo se movimentem [28].
Figura 8 - "Taiknam Hat". [fonte: [6]]
Em 2010, um dos mesmos autores do projeto anterior, Ricardo Nascimento, em parceria com Thiago Hersan desenvolveu um vestido inspirando no Orixá Iansã, do candomblé brasileiro, um vestido denominado e-ansã. Este vestido desfruta de um sistema muito semelhante ao anterior: 4 antenas verificam constantemente as ondas emitidas pelos telemóveis na atmosfera e enviam em tempo real a informação a um microcomputador que ativa 110 micro-ventiladores (os mesmos que são utilizados nos computadores), criando um efeito de “roupa ao vento” no vestido [29].
Ambos experimentos são uma forma de materializar o espaço imaterial das ondas eletromagnéticas, com o simples objetivo de sensibilizar a consciência social para o aumento da electrosmog.
(a) (b)
Figura 9 - Projeto e-ansã (a) demonstrando o movimento do vestido quando capta as ondas eletromagnéticas emitidas pelo telemóvel e (b) estrutura do vestido. [fonte: 29]]
3.1.2 Projetos funcionais/comerciais
Em 1995 o designer Koji Hamai desenvolveu dois casacos inovadores para a época, utilizando têxteis inteligentes. “Gradation” é feita de um tecido 100% poliéster revestido em ambos os lados com uma fina camada de titânio. Já o “Dry fish” é uma peça futurista e é feito a partir de um não-tecido 100% poliéster, revestido com uma fina camada de aço inoxidável. Ambas as peças além da proteção contra as OEM, permitem a respirabilidade da pele e ainda protegem o utente dos raios ultravioleta (UV) e infravermelhos, fornecendo também isolamento térmico [30].
(a) (b)
Figura 10 - Projetos do designer Koji Hamai (a) "Gradation" e (b) "Dry fish". [fonte: [30]]
Recentemente, o designer de inovação Vito di Bari, criando soluções futuristas para a MilanExpo 2015, desenvolveu o O2 Pram, que é o único carrinho de bebé capaz de proteger as crianças contra os altos níveis de poluição ambiental. Desenvolvido com um fino tecido barreira anti-eletromagnetismo, este carrinho bloqueia todos os campos de ondas eletromagnéticas. A fim de ajudar os pais a determinarem se um ambiente é seguro para o bebé, o O2 Pram tem um visor eletrónico que adverte para os perigos invisíveis.
Quando os níveis de poluição excessiva são detectados, um indicador avisa para fechar a tampa do carro, que é feita de tecido transparente que protege contra os raios UV, e então fornece uma notificação quando o ambiente interno dele está limpo. O tecido do interior do O2 Pram deve ser lavado ocasionalmente, mas os medidores da quantidade de poluição absorvida notificam aos pais quando é o momento para a próxima lavagem. [31]
Figura 11 - Diferente gama de tecidos do "O2 Pram". [fonte: [31]]
Outra referência em vestuário de proteção é a empresa ElectroSmogShielding10, que desenvolve diferentes tipos de peças comerciais de blindagem eletromagnética. Em especial, esta empresa possui um vestido para grávidas, feito com tecido composto de 34% poliéster, 41% algodão penteado e 25% fibra de metal, esta última para fazer a alta blindagem, protegendo a grávida de 98% das OEM prejudiciais. Este artigo não contém resistência à lavagem [32]. Os produtos desta empresa mostram grande eficiência de proteção mas precisam ainda de desenvolvimento de design.
Seguindo esse exemplo mas, inovando no design, as grandes marcas também começam a incorporar nas suas coleções peças funcionais. A exemplo disto, a Diesel lançou em 2010 um modelo de calça jeans em denim composto de 1% de carbono e 99% de algodão apresentadas, entre outras características, como sendo protetoras das ondas eletromagnéticas de computadores e telemóveis [33].
10 É o distribuidor no Reino Unido dos Produtos YShield, especializada no varejo de artigos para proteger
(a) (b)
Figura 12 - Projetos comerciais (a) vestido protetor de radiações para grávidas [fonte: ElectroSmogShielding] e (b) calças Diesel/Lapo [fonte: Guia Jeans Wear]
3.2 Vestuário Inteligente
A crescente preocupação com o meio ambiente fez com que a comunidade científica começasse a pensar em novas alternativas para fontes de alimentação de circuitos eletrónicos, resolvendo assim o problema associado às baterias existentes no mercado. Estas, além de possuírem um baixo ciclo de vida, ainda levantam problemas ambientais relativos ao depósito das mesmas após o seu uso.
Sendo assim, surge uma nova tecnologia no mercado denominada “energy harvesting”. Esta, também conhecida como “recolha de energia do ambiente” é a capacidade que alguns dispositivos têm de recolher energias dispersas no meio ambiente. Estas energias recolhidas podem ser das mais variadas fontes, sendo exemplo disso a vibração ou energia mecânica, eletromagnética, termoelétrica, micro fluxo de água, solar, eólica e biológica.
O importante aqui não é exatamente qual a energia utilizada, mas sim a capacidade dos dispositivos “se auto alimentarem”. As aplicações são em diversos tipos se projetos, desde acessórios de moda até roupas funcionais que monitorizam sinais vitais.
Em 2007, a estudante Elena Corchero criou em parceria com Crispin Jones, uma coleção de acessórios denominada “Solar Vintage”. Os produtos desenvolvidos (leques, colares, pulseiras,
chapéus-de-chuva, e etc...) possuíam células fotovoltaicas flexíveis e orgânicas11, que alimentavam uma série de LED’s. Durante o dia estes artefatos exerciam a sua função habitual e à noite serviam de luzes decorativas para a casa, utilizando a energia solar armazenada. Os componentes eletrónicos foram integrados diretamente no têxtil recorrendo a bordados feitos com fios condutores [6].
Figura 13 - Leque da coleção Solar Vintage [fonte: [6]]
Em 2008 [34], o designer Sang-Kyun Park em parceria com a Yanko Design criou um chapéu-de-chuva um pouco diferente. Chamado de “LightDrop’s”, este acessório feito a partir de um tecido de polivinilideno (PDVF), uma membrana condutora que acende LED’s, transforma a energia potencial das gotas de chuva que fluem na superfície do chapéu-de- chuva em energia elétrica que alimenta os LED’s embutidos. Assim, a luminosidade do guarda-chuva varia em função da intensidade da chuva. [34]
11 Não fabricada à base de silício.
Figura 14 - Light Drops Umbrela [fonte: Yanko Design]
Os materiais piezoeléctricos também são uma novidade com diversas aplicações a serem exploradas. Em 2011 [35] a operadora telefónica francesa - Orange - desenvolveu o protótipo de uma t-shirt para captar e transformar ondas sonoras em cargas eléctricas, que usa um filme piezoeléctrico como microfone. Chamada de “Sound Charge”, esta t-shirt utiliza a energia recolhida para carregar telemóveis e, segundo os seus criadores, esta tecnologia, para além de poder mudar o carregamento dos dispositivos móveis, pode influenciar as tendências de moda, fazendo com que designers passem a integrar este tipo de soluções inteligentes nas suas peças.
Também no corrente ano 2012 a revista brasileira Galileu [36], publicou uma reportagem intitulada “Como vão ser suas roupas no futuro”, fazendo uma rápida abordagem sobre diversos projetos de moda tecnológica, dentre eles, o chamado “The Solar Soldier”. Este é um projeto do Reino Unido que se baseia em roupa com propriedades termoeléctricas e fotovoltaicas para gerar energia através do calor humano. Esta roupa pode fornecer energia contínua para rádios e GPS.
Figura 16 - The Solar Soldier [fonte: ABC News]
Capítulo 4
Antenas flexíveis
“Particularly in the design of electronic appliances, interactive systems and computational things, there has been an increased interest in ‘experience design’ and in designing the ‘user experience’”. [25] Desde a invenção do relógio digital, os dispositivos eletrónicos portáteis tornaram-se parte integrante do quotidiano dos indivíduos. A dependência cada vez maior da moderna tecnologia fez com que o desenvolvimento de sistemas wearable tenham sido cada vez mais rápidos.
Por isso, num futuro não muito distante, o ser humano poderá conter sobre si uma gama grande de dispositivos e sensores, embebidos no vestuário. Este é um crescente interesse tanto nos domínios civis como nos militares. No que diz respeito ao domínio civil, além do interesse dos dispositivos de comunicação para a transferência de media de entretenimento, fontes de informações e interação social, há ainda um grande apelo aos sensores médicos que possam manter uma comunicação constante entre utilizador/monitor, ou até mesmo no desporto para controlar os sinais vitais dos atletas. Já no domínio militar, com a miniaturização dos sistemas de monitorização, aumenta o desejo de reduzir a carga sobre os militares, facilitando a sua movimentação.
A nova geração de peças de vestuário que será capaz de realizar esta monitorização contínua, requer uma antena que possa ser discretamente integrada na roupa, sem perturbar o movimento do utilizador ([32]-[33]). Sendo assim, as antenas vestíveis significam o elo de ligação para tornar a roupa parte integrante das propostas de comunicação, uma vez que os aparelhos eletrónicos fazem parte da rotina das pessoas.