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Strategisk planlegging i praksis – Intervju med Alexandre Chemetoff

Jane Pinheiro: Milhões de adolescentes em todo o planeta têm se aventurado cada vez

mais no mundo das imagens em movimento. A maioria não se contenta em manter o resultado do seu trabalho em um disco rígido pessoal, procura janelas onde possa mostrar e expor o que produz. Essa produção e circulação alucinantes de audiovisuais têm como bomba propulsora a democratização dos avanços tecnológicos e as mudanças ocorridas na internet nesse início de século.

A captação digital de imagens por meio de telefones celulares, câmeras fotográficas com função vídeo, webcams, está cada vez mais acessível possibilitando que mais pessoas produzam fotografias e audiovisuais.4

Houve um salto, também, no que diz respeito à edição dessas imagens. Quem conheceu a produção de vídeos em VHS, ou super-8, sabe que depois de captar determinadas cenas com tranquilidade, a dificuldade de edição continuava impedindo que um filme não fosse concluído, a não ser que a pessoa estivesse disposta a desembolsar algum dinheiro contratando um profissional da área ou comprando equipamentos sofisticados.

Hoje, pode-se realizar uma edição básica de vídeos digitais em vários modelos de telefones celulares, smartphones, tablets, através de ferramentas on-line como aquelas disponibilizadas pelo YouTube e o WeVideo – A edição de vídeo em nuvem permite que se edite um vídeo totalmente on-line, sem que um programa de edição esteja instalado no computador.5 O YouTube também disponibiliza, desde 2008, uma biblioteca de músicas

e efeitos sonoros que podem ser utilizados nos vídeos postados no site.6

Uma edição primorosa e a pós-produção das imagens em casa, sem que seja necessário desembolsar um centavo, já é uma realidade. Excelentes programas de edição, pós- produção, equalização de cor e efeitos especiais em audiovisuais, usados por profissionais em todo o mundo, estão acessíveis desde que se tenha um computador conectado, com uma configuração razoável, para baixar gratuitamente pela internet suas versões piratas. No Brasil, esses programas também estão à venda em banquinhas no meio das ruas e mesmo em sites no formato DVD. No que diz respeito ao tratamento da imagem digital pós-captada, portanto, pode-se obter uma qualidade profissional por meio de um computador doméstico.7

Todos e qualquer um pode lançar-se na rede, disponibilizando sua produção pessoal para milhões de pessoas ou acessando a produção de outrem utilizando o computador, celular, smartphone, tablet. A despeito da forte investida contra a pirataria comandada principalmente pelo governo dos Estados Unidos e as grandes empresas de entretenimento,8 encontramos disponíveis na web desde os maiores clássicos do cinema

às pequenas e despretensiosas produções amadoras – Conheço um adolescente cinéfilo, presente nessa conferência, que já baixou cerca de duzentos e cinquenta filmes de

C

ONFERÊNCIA

DE ABERTURA

cineastas de todos os tempos e lugares por meio da internet. Os filmes estão catalogados, com ficha técnica completa, sinopse e prêmios, por meio de um software de locadora de vídeos, também conseguido na internet.

Se essa democratização das tecnologias acarretou um aumento na produção, circulação e acesso de audiovisuais por adolescentes, trouxe consigo inúmeras questões.

Percebe-se, por exemplo, que devido à dificuldade de captação de áudio com qualidade nos equipamentos populares, muito do que se tem produzido – e que vemos disponibilizados na web –, utiliza artifícios estéticos para driblar esse problema. Estaríamos de volta ao cinema mudo, com uma banda sonora substituindo o velho pianista e legendas como os antigos letreiros?

Em 2007, um artigo apresentado no Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação apontava para a possível fertilidade criativa decorrente da dificuldade de captação adequada de áudio a partir dos telefones celulares com câmera. Os autores acreditavam que esses telefones fariam “desabrochar um olhar incomum para a cinematografia, promovendo uma maneira muito particular de escrever com imagens e pouquíssimo som.” 9

Será que a facilidade de uma câmera sempre à mão, registrando todos os momentos, nos leva de novo aos primórdios do cinema quando, maravilhada, a multidão acorria às projeções do cinematógrafo para ver, como diz Edgar Morin,10 o já visto, o almoço do

bebê?Não seria, também, em busca de rever momentos prosaicos da vida cotidiana que alguns dos milhões de acesso no YouTube são realizados? Seria a mesma motivação dos primórdios que levaria mais de oitocentos e dez milhões de pessoas a acessarem um pequeno vídeo de um bebê mordendo o dedo do irmãozinho? 11 A observação feita por

Morin de que “Não era pelo real, mas pela imagem do real que a multidão se comprimia às portas do Salon Indien”,12 poderia ser aplicada aos portais da internet. Segundo ele,

“Lumiére percebera que a primeira curiosidade do público iria incidir sobre esse espelho

da realidade. Que antes de mais nada, as pessoas iriam maravilhar-se ao voltarem a ver

tudo aquilo que normalmente não as maravilha: as suas casas, as suas caras, o ambiente da sua vida familiar”.13

Parece-me que, embora comunguemos ainda da mesma fixação na magia do duplo, da imagem do real, reside na exposição da privacidade, uma das grandes diferenças daquilo que nos propunham os primeiros filmes do cinematógrafo. Porque, característica marcante do nosso tempo, atravessando as cortinas do cotidiano público, o que vemos nas telas interconectadas dos computadores é a intimidade, o quarto e aquilo dantes visto apenas entre quatro paredes. Aqui, refiro-me não a intimidade como sinônimo apenas de vida sexual. Mas a toda sorte de informações que até bem pouco eram consideradas segredo, como aquelas angústias dantes confessadas exclusivamente a um diário trancado a cadeado.14 Paula Sibília, em seu livro O show do eu, utiliza o termo “éxtimo”

para denominar essa paradoxal exposição global do que nos acostumamos a chamar de íntimo.15 Nele também encontramos essa curiosa citação da Time: “É possível aprender

mais acerca de como vivem os norte-americanos apenas observando os ambientes onde transcorrem os vídeos exibidos no YouTube – todos aqueles quartos bagunçados e aquelas salas cheias de bugigangas esparramadas – do que assistindo a mil horas de televisão aberta”. 16 Gabriel Sotomaior, também faz referência a esse quarto tornado

público por meio de vídeos postados no YouTube.17 Essa exposição rasgada da vida

privada nos vídeos do tipo autorreferente, autobiográfico, vídeo-diários é um dos poucos aspectos abordados nas produções acadêmicas acerca dos audiovisuais produzidos por adolescentes.18

Mas não é apenas a intimidade do seu quarto, ou a intimidade roubada do outro, que eles nos mostram. Produzem também ficções, vídeos experimentais e denúncias. Nessa Mostra teremos acesso a alguns desses vídeos em que a câmera, apontada desde si

MOSTRA IMA

GINÁRIA

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mesmo, percorre outros horizontes de possibilidades. Encontra-se com mestres do cinema, com poetas, escritores, ativistas políticos, paisagens inusitadas. Essa produção fértil, reveladora de nosso presente e mensageira do nosso futuro, já que podemos pensar que nos adolescentes encontramos nosso devir mais próximo enquanto humanidade, não tem sido investigada pela academia. É esse viés esquecido e negligenciado que me seduz.

A circulação virtual de audiovisuais produzidos por adolescentes no início do