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In document ”Ulv i Norge” (sider 64-175)

Uma das possibilidades de mudança categorial consiste na verbalização por meio de predicados verbo-nominais ou ‘perífrases verbo-nominais’ (abreviados PVN, Azpiazu, 2004). Nesses, o predicado verbal é constituído por um V finito semanticamente esvaziado – um verbo-suporte (V-sup) – e por um componente nominal, tipicamente um N deverbal. O conjunto forma um predicado verbal complexo que atua como constituinte mais ou menos coeso e expressa um evento. O V-sup estabelece uma relação entre dois nominais, como no exemplo de (87):

(87) O preço do petróleo teve aumento.

A coesão entre o componente verbal e o componente nominal do PVN pode, em alguns casos, ser comprovada pela existência de formas paralelas em lexema simples (88a). Outras vezes, como em (88b), ocorre um predicado verbal cujo V é mais bem caracterizado como ‘V genérico’, mas não coocorre necessariamente com V lexical. Isso mostra que um EstC pode ser expresso tanto em expressões verbais sintéticas quanto em analíticas e que a variabilidade se estrutura entre o lexical e o gramatical.

(88) a. fazer investimentos – investir ter lucro – lucrar

pôr em dúvida – duvidar dar explicações – explicar pagar indenização – indenizar tomar uma decisão – decidir

fechar um acordo/entrar em acordo – acordar estar em vigor – vigorar

b. fazer aplicações de maior risco ter demanda

manter o foco ganhar escala perder valor sofrer impacto

Observa-se que os V-sup mais neutros, e mais comuns, como ‘fazer’, ‘dar’, ‘ter’ e ‘pôr’, têm pouco conteúdo semântico específico, enquanto ‘pagar’, ‘tomar’, ‘fechar’ e ‘entrar’, além de entrarem em construções de suporte ou expressões fixas, também atuam como Vs plenos e Vs genéricos. Os Vs genéricos encontram-se próximo de construções que se enquadram nas ‘colocações’, quando estão ligados a constituintes nominais (Sinclair, 2000; Alves, 2002, Carvalho, 2005). A escala entre PVN e colocação depende tanto do V-sup, quanto do N deverbal. Em ambos, o componente referencial é o núcleo semântico e informativo, contém algumas características verbais (sintaxe interna) e, assim, dita a predicação.

Já o V-sup apenas permite a complementação das categorias não-expressas pela NLZ, por exemplo, TAM e Pessoa. Portanto, é palavra gramatical, isto é, um operador, que expressa relações. Entra na construção apenas com seus valores semânticos básicos que definem seu modo de ação (Aktionsart): [± dinamicidade] e [± controle], segundo discussão em Dik (1997a). A distinção justifica-se pelo tipologia de V segundo parâmetros semânticos, estabelecida pelo autor 4 grupos. A tipologia de V consiste em:

• V de ação: [+din], [+contr] • V de processo: [+din], [-contr] • V de estado: [-din], [-contr] • V de posição: [-din], [+contr].

É importante ressaltar, no entanto, que o modo de ação se estabelece não no predicado verbal isolado, mas na predicação toda, ou seja, na combinação com os argumentos obrigatórios (Dik, 1997a). Esse fato também reforça a interdependência entre os componentes de um PVN.

Se é uma das funções de um V-sup de acrescentar valores verbais mínimos a Ns deverbais com quais formam um determinado modo de ação, então, em outros casos, como em (88b), os mesmos Vs ligam-se a nominais mais específicos ou a conceitos de uma AE. Embora as construções com nominais não-deverbais geralmente não tenham formas verbais simples paralelas, levam à integração funcional dos constituintes como predicados verbais. Esse processo pode ser chamado de ‘verbalização’. Os valores semânticos básicos presentes nos V-sup são de Vs de ação para ‘fazer’, ‘pôr’ e ‘dar’, por exemplo; de V de processo para ‘ganhar’; de V de estado para ‘ter’ e de V de posição para ‘manter’. Outros V-sup podem ter marcos para diversos tipos. Veja, nos exemplos em (89) a (93), como o V-sup em ‘ter fôlego’, ‘dar novo fôlego’, ‘ganhar novo fôlego’, ‘perder fôlego’ e ‘mostrar fôlego’ integra um nominal de conteúdo especializado e expressa diátese, de forma lexical, sem precisar recorrer a construções gramaticais da passiva. A indicação das relações entre os argumentos ocorre, então, por verbalização feita com esse tipo de V. Os PVNs interessam para a discussão sobre a nominalidade das LEsp, pois são construções de predicação verbal com traços de predicação nominal.

(89) “A alta do dólar é recente, e a expectativa é que a moeda não tenha mais muito fôlego para subir em relação ao real”, afirma o chefe da área de análise de um banco de investimento. (VE-26-10)

(90) O empréstimo cobre as necessidades de financiamento da Argentina até o fim do ano, e dá fôlego à equipe econômica em um momento em que aumentam as dúvidas no mercado em relação à capacidade de o país honrar seus compromissos. (VE-26-10)

(91) São fundos que acompanham o juro overnight e ganharam novo fôlego a partir de agosto graças às turbulências internacionais e à interrupção da trajetória de diminuição do custo básico do dinheiro. (VE-26-10)

(92) Produtividade americana perde fôlego [manchete]

(93) O destaque do dia ficou por conta das empresas de telefonia, especialmente as celulares, que mostraram fôlego para recuperar parte das perdas acumuladas no ano. (GM-03-11)

Os PVNs acima confirmam que, junto com o V-sup, vêm importantes informações gramaticais: eventividade, valência e estrutura argumental, também com as relações semânticas estabelecidas e restrições semânticas determinadas pelo V e pelo nominal

(subcategorização). ‘Ter’ e ‘mostrar (fôlego)’, em (89) e (93), são V de estado, sendo o último mais lexical; ‘dar’, em (90), é V de ação; e ‘ganhar’ e ‘perder (fôlego)’, em (91) e (92), são Vs incoativos, voltados ao Agente. A distinção entre ‘dar’ e ‘ter’ também implicam em diferentes marcos para a estrutura argumental e a configuração das funções semânticas. Com ‘dar’, o Arg-1 é Agente e o Arg-2 é Paciente, e há um eventual terceiro argumento. Com ‘ter’, o Arg-1 é Experienciador. Uma oposição semelhante ocorre entre ‘ganhar’ e ‘perder’, do mesmo modo como ocorre em ‘causar (impacto)’ e ‘sofrer (impacto)’ em (88b). Mostrar-se-á, mais adiante, que, para a expressão desse tipo de diátese – a incoatividade - existem, no português, recursos morfológicos, como ‘-izar’ para ‘ganhar/tornar-se’ e ‘des-’ para ‘perder’, para formar lexemas verbais simples.

O tipo de PVN com N genérico em (89) a (93) é um exemplo menos característico para construções de V-sup. Neves (2000) e Alves (2002) consideram-no mais lexical, portanto, menos gramatical do que os V-sup com N deverbal em (88a). Alves (2002) aborda as construções com V-sup como recurso i) para a verbalização e ii) para criar terminologia e usar conceitos especializados, que expressam EstC de forma predicativa. Para a autora, estas construções distribuem-se entre graus de fraseologia variados e se agrupam em quatro tipos, mesmo levando em conta o fato que as divisões nem sempre são nítidas. As construções com V de ação são do Tipo 1, assim como a maioria daquelas com outros V-sup, incluídas as diatéticas. Os PVNs com N genéricos correspondem ao Tipo 2 ou 3 das unidades fraseológicas verbais (UFV), dependendo das características semânticas e sintáticas do componente nominal: o Tipo 2 contém N deverbais e o Tipo 3, outros tipos de N. Alguns autores, como Barón & Herslund (1998), só consideram as construções com V-sup agentivo ‘fazer’; ainda outros incluem ou enfatizam os Vs mais genéricos (Lorente et al., 1998; Lorente Casafont, 2002; Bevilacqua, 2004).

As construções com N deverbal, por exemplo as de (88a), encaixam-se nas predicações nominais e são relevantes para a discussão sobre a distribuição entre nominalidade e verbalidade na predicação, já que a categoria semântica EstC de uma oração se baseia em elementos verbais e nominais. A idéia de ‘redistribuição’ é pertinente na escala de nominalidade e, do mesmo modo, quando a perspectiva é de uma forma básica de predicação, que atualiza a categoria semântica EstC por meio de um componente tipicamente verbal e outro tipicamente nominal na unidade lingüistica ‘oração’. Pode-se constatar que os traços

verbais característicos que se perdem na NLZ são repostos pelo V-sup, levando novamente ao equilíbrio no EstC. Veja, em (94), como o Arg-2 do V pleno ‘aumentar’ (95) é expresso:

(94) Isso indica que, na avaliação dos especialistas do banco, há possibilidade de aumentar o preço dos derivados de petróleo no país sem pôr em risco a política de metas inflacionárias. (VE-27-10)

(95) Os fundos cambiais foram beneficiados pela desvalorização do real, acentuada a partir de julho pelas turbulências no mercado internacional causadas pelo aumento do preço internacional do petróleo e ampliadas pelo resultado ruim da balança comercial brasileira. (VE-07-11)

Já em (95), o NAct/NActi ‘aumento (do preço)’ contém verbalidade e, como tal, é predicativo e relacional. Pode ser integrado na oração com V-sup como ‘ter’, ‘haver’ ou ‘fazer’, ou outros (‘dar’), dependendo do EstC a ser expresso. Em ‘ter aumento do preço do petróleo’, o núcleo predicativo continua no N deverbal, com toda a informação e com parte da estrutura argumental mantida (Arg-2). Já que o nominal é relativamente autônomo, o V-sup pode ser suprimido ou acrescentado com facilidade, por exemplo, quando forma um constituinte próprio e é visto como Ent-1, por ser do tipo ‘NActi’ (95). Como outro indício de o V-sup ser apenas operador e o nominal assumir o conteúdo semântico, constata-se que os V- sup não permitem NLZ, por serem elementos gramaticais. Assim, não ocorrem formas em NAct de V-sup, mas, sim, NAct com Vs plenos e com alguns Vs genéricos, mesmo quando são parte de colocações (‘entrada no mercado’, ‘prestação de serviço’, ‘ganho de escala’ etc.). De acordo com o modelo de FDG, os PVNs permitem a investigação das características interpessoais, semânticas, lexicais e categoriais, bem como das estruturais. As características interpessoais estão circunscritas aos subatos adscritivo T e referencial R, as funções pragmáticas, à distribuição entre Tópico e Foco. As caracteristicas estruturais dependem da seleção de operadores ou morfemas livres. Já a distribuição do conteúdo lexical para expressar EstC, é feita pelas categorias lexicais prototípicas: lexemas verbais e lexemas nominais. Como as categorias lexicais estão sendo mantidas, o que muda é a distribuição do conteúdo semântico. Os quadros a seguir ilustram as duas possibilidades discutidas: o Quadro XXXII representa a predicação com V pleno e SRef do exemplo ‘o governo aumentou o preço do petróleo’, e o Quadro XXXIII, uma predicação com V-sup e SRef.

QUADRO XXXII:PREDICAÇÃO COM V PLENO E SREF:

‘O governo aumentou o preço do petróleo’

R T R

| | | o governo aumentou o preço do petróleo

Tópico Foco

+ V + N

QUADRO XXXIII:PREDICAÇÃO COM CONSTRUÇÃO DE V-SUP E SREF DEVERBAL: ‘O preço da gasolina teve aumento’

R T R

| | |

o preço do petróleo teve aumento

Tópico Foco

+ V + N

Diferentemente da construção com V pleno do primeiro quadro, o PVN do segundo quadro apóia o ato adscritivo em um morfema livre com pouco conteúdo semântico e concentra a informação no constituinte nominal. Isso leva à distribuição do conteúdo semântico entre ‘aumentar o preço (do petróleo)’ e ‘ter aumento’ nos exemplos. Observa-se que o nominal em R e com Foco, do Quadro XXXIII, contém os parâmetros semânticos do EstC de forma reduzida, já que estes passaram a ser atualizados pelo morfema livre que representa o operador. O marco deste último exemplo assemelha-se aquele do exemplo ‘o preço do petróleo aumentou’. Isso comprova, não só que o componente verbal e o nominal se completam, mas também que os marcos das formas paralelas estão relacionados (‘ter aumento’ para ‘aumentar’, quando monovalente).

Por outro lado, os PVNs não se aplicam a todas os tipos de NLZ, mas apenas a um tipo particular de deverbal, uma instância de um evento (NAct) com interpretação de IndObj, isto é NActi. O que, por muitos autores, é chamado de ‘N genérico’ nas construções de V-sup

(Neves, 1999), na verdade, é uma base em categoria semântica Ent-1, já que ainda há um componente suficientemente ‘verbal’ para formar uma Ent-2. Isso demonstra que o N deverbal nos PVNs é um componente menos verbal na escala da nominalidade, mas ainda nominal o bastante para ser referencial, um N. Para NAct nos PVNs (‘(dar um) aumento’), portanto eventos, há também restrições em relação i) ao tipo de modificadores, pois somente são possíveis ADJs que indicam propriedades que se referem a modo, freqüência, fases e duração do evento; ii) à presença de determinantes, uma vez que eventos em si não são contáveis.

Nas construções de V-sup, a presença do N deverbal em forma de NActi também é comprovada pela possível ocorrência de artigos e outras marcas de contabilidade, a não ser que este mesmo deverbal esteja a caminho de lexicalização por meio de Ns genéricos ou pluralia ou singularia tantum (88a). Na verdade, o grau de referencialidade do N define-se em função do grau de lexicalização do PVN. Quando o componente nominal é ‘genérico’, ou seja, quando tem interpretação de NActi, não é instanciado e pode vir sem artigo. Por outro lado, são NActi específicos por natureza: são contáveis e representam Ent-1 que se localizam no espaço. A individuação nos PVNs não-lexicalizados justifica a suposição de que ocorre uma reinterpretação do denominal em Ent-2 para um IndObj (Ent-1), justamente para constituir a organização prototípica de uma predicação, um evento. Assim, apesar das reestruturações ocorridas no PVN, procura-se manter o equilíbrio entre verbalidade e nominalidade, entre adscrição e referenciação e entre a distribuição categorial V – N, mesmo estando ambos à margem das formas prototípicas.

Além da variação no arranjo de informação e da função pragmática Foco, a construção com [V-sup + N deverbal] permite mais possibilidades sintáticas do que o lexema verbal pleno AUMENTAR. Neves (1999) cita a variação sintática por qualificação, restrição e referência do SN destacado por V-sup, assim como, entre outros, as posições variadas na oração (97). De fato, esses fatores constituem antes o resultado do que a origem do ato referencial no constituinte nominal. Veja, a seguir (96), alguns exemplos citados por Neves (1999) para as possibilidades sintáticas de construções com V-sup:

(96) qualificação do nominal: ter aumento excessivo

restrição do nominal: os aumentos ocorridos nas últimas semanas redução da valência: houve aumento

diátese em expressão analítica: ter aumento de preços = os preços foram

aumentados

ocorrência em posições variadas no discurso: por exemplo como agente da passiva, ilustrada em (95).

Com base na discussão anterior, pode-se postular que até mesmo o caminho inverso – o de incorporar o componente nominal em uma forma verbal simples – se deve à essa mesma aproximação ao protótipo de expressão de um EstC. Um PVN representa um exemplo mais nominal, enquanto uma forma verbal com o nominal incorporado leva a predicação verbal ao extremo. Muitas construções com formas paralelas, por exemplo, as de (88a), podem ser explicadas por esse mecanismo semântico-gramatical (‘fazer investimentos – investir’; ‘ter lucro – lucrar’; ‘pôr em dúvida – duvidar’ etc.), sendo que a apresentação formal é apenas conseqüência dessa reestruturação (acréscimo do sufixo categorial, redução da valência, processos morfofonológicos devido à condensação a uma forma simples, entre outros).

No entanto, no português, um componente nominal não-deverbal dificulta o processo gramatical de ‘incorporação’ e apresenta algumas restrições. Na formação lexical desse tipo, o nominal deve conter preferencialmente mais características verbais do que nominais, assim como o operador verbal é mais do tipo agentivo, correspondente ao V-sup ‘fazer’. Já um ADJ como base, ou seja a verbalização de propriedades e estados, é mais freqüente com ‘-izar’, como mostrado nos exemplos (102) a (105). A variante analítica é privilegiada quando os SRefs representam conceitos específicos (‘manter o foco’, ‘ganhar escala’, ‘perder valor’ etc.) ou quando haja lexicalização em fraseologismos com N genéricos (‘fazer parte’, ‘perder a chance’, ‘pôr em cheque’ etc.).

Com isso, a questão da existência de perífrases, ou melhor, de construções analíticas do português, pode ser abordada de maneira mais sistemática. Em primeiro lugar, a tipologia morfológica das línguas românicas propicia as diversas construções analíticas, como as perífrases verbais para a expressão analítica de operadores verbais (Olbertz, 1996) e a distribuição categorial e referencial nos PVNs, discutidas no decorrer da seção. Observe, em (97), que todas essas formas analíticas contêm uma forma nominal (infinitivo, gerúndio, particípio passado ou NAct). Por mais variadas que sejam as funções de cada uma dessas construções analíticas, percebe-se que o elemento nominal consta em uma dessas formas menos verbais listadas: infinitivo, particípio, gerúndio, ou NActi.

(97) → Perífrase verbal: ele começou a fazer, vai fazer, pode fazer, está fazendo, tem feito, gostaria de ter feito etc.

→ Perífrase verbo-nominal: ele fez a revisão, teve muitos gastos, entrou com pedido etc.

As formas perifrásticas também constituem um importante procedimento morfológico de explicitação estrutural de operadores, e também são básicas para a criação lexical e categorial em V. Pelo fato de composição e incorporação não serem produtivas no português, e ser mais restrita a formação de Vs sintéticos, essa é uma das poucas maneiras de formar novos predicados verbais no português (Azpiazu, 2004; Câmara Jr, 1970; Bauer, 2004; Rocha, 1998; Basílio, 2004). De fato, isso corrobora a afirmação de Hopper & Thompson (1984:745) de que, em muitas línguas, os recursos derivacionais especializados para formar Vs são menos freqüentes e menos produtivos do que os recursos derivacionais para formar N, uma vez que há maior tendência de um evento ser visto como instância que um IndObj ser visto como evento. Essa tendência privilegia as construções analíticas verbais por meio de Vs auxiliares, Vs modais, V-sup e até mesmo de V-lig, como a análise dos próximos capítulos vai mostrar.

Mas ainda há algumas possibilidades para à derivação verbal com sufixos categoriais no português, uma vez que, diferentemente do inglês (Clark & Clark, 1979), a mudança categorial de N para V exige marcas morfológicas sufixais, sendo que, exceto os sufixos com a vogal temática em ‘a’, todos estão fossilizados. Permanecem, contudo, restrições similares às do inglês nos casos de haver Vs denominais. Entre outros, Clark & Clark (1979) citam algumas restrições em relação à finitude das formas denominais. Para os autores, pevalecem as formas nominais (infinitivo, gerúndio, particípio) no uso, as quais caracterizam os predicados verbais complexos em geral. Além disso, há possível ambigüidade para o não- especialista, já que os locutores devem conhecer o contexto para poder interpretar a forma verbal. Veja, por exemplo, os lexemas BURILAR, de ‘trabalhar (algo) com burilo/elaborar com cuidado’ (98) e ACORDAR, de ‘fazer um acordo’, (99) a (101).

(98) ... não está claro se as duas partes conseguirão burilar um novo acordo que o atual expire em dezembro [sic]. (GM-27-10)

(99) A ordem no Itamaraty é acordar o empresariado para o debate em torno da Alca. (GM-06-11)

(100) Acordou-se com os chilenos fazer uma exportação-piloto. (GM-06-11)

(101) O volume de energia acordado no mercado 'spot' nesse primeiro lote de contratos liquidados equivale, segundo Fraga, a cerca de 5% de toda eletricidade movimentada no sistema interligado. (VE-07-11)

Os dados confirmam que as formações inovadoras verbalizadas com ‘-ar’ dificilmente ocorrem em formas finitas de primeira ou segunda Pessoa SG e PL, mas, de preferência, em infinitivo (98) ou na terceira Pessoa SG impessoal, com ‘se’ (100). As restrições em (98) e (101) são provavelmente de origem morfofonológica, uma vez que a mudança no acento dificulta o reconhecimento do N incorporado à forma verbal. Além disso, é a forma ‘acordar’ passível de criar ambigüidade inicial, como aquela em (99) – que não corresponde a ‘fazer um acordo’ –, e é evitada nas suas formas finitas. Uma exceção é o uso impessoal que mais se assemelha à passiva (‘foi feito um acordo’), por exemplo, em (100). O mais comum, no entanto, é o particípio para expressão resultativa, em (101), pois, em termos semânticos, ‘acordado’ está próximo à interpretação de um NActi.

Um dos morfemas mais verbalizadores do português e ‘-izar’, que expressa a incoatividade a partir de propriedades (Gallén, 2000). Essas são principalmente expressas em forma de ADJ (‘viável’ – ‘viabilizar’, ‘comercial’ – ‘comercializar’), mas também em N (‘capital’ – ‘capitalizar’, ‘dolar’ – ‘dolarizar’, ‘valor’ – ‘valorizar’). Coexistem construções com V-sup para expressar as diversas nuanças incoativas e suas contrapartes negativas, a começar com ADJ (102), estado (103), passando para Ns que designam IndObj, em (104) e (105).

(102) tornar viável – viabilizar, tornar inviável – inviabilizar

ganhar viabilidade – viabilizar-se; perder viabilidade – inviabilizar-se (103) ganhar estabilidade – estabilizar-se

perder estabilidade – desestabilizar-se

(104) ganhar valor – valorizar-se, perder valor – desvalorizar-se transformar em valor – valorizar, subtrair valor – desvalorizar (105) ganhar fôlego – perder fôlego

ganhar escala – perder escala

Observa-se que, no português, há correspondências regulares entre verbalização analítica e sintética de propriedades e estados, evidentes na relação entre o V-sup ‘tornar’, ‘ganhar’ e ‘perder’ e os Vs com morfema ‘-izar’, com diátese em ‘se’ ou não. O V-sup/V genérico ‘tornar’ aparece quando a propriedade passa a ser aplicada ao Paciente; ‘ganhar’ e ‘perder’ aparecem quando a propriedade passa a ser aplicada ao Agente. Noções de Polaridade são expressas pelos prefixos ‘in-‘ e ‘des-‘. As equivalências ‘-izar’ e ‘-izar-se’ vinculam-se mais facilmente a propriedades e estados. No caso de IndObj, (104) e (105), observam-se algumas restrições na verbalização sintética, as quais parecem estar relacionadas com a alienabilidade. ‘Valor’, ‘capital’, ‘dolar’ são todos IndObj e estão voltados para o

Paciente. Designam conceitos da AE que são alienáveis, ou seja, podem ser adquiridos ou alienados. Em oposição aos valores, ‘fôlego’ e ‘escala’ designam referentes inalienáveis.

Percebe-se nitidamente que não é bem a categoria lexical, como ADJ e alguns tipos de N, que direciona a regra de formação de Vs derivados incoativos, mas a tipologia de entidades. No português, as Propriedades (Ent-zero) são as mais propensas para formar Vs sintéticos, assim como estados (propriedades duradouras). IndObj (Ent-1) vinculam-se ao morfema verbalizador somente quando são alienáveis e quando o processo é voltado para o Paciente. IndObj relacionados à inalienabilidade apenas podem recorrer a construções com V- sup. Interessa, então, que as categorias lexicais se subordinam à tipologia semântica e às características morfossintáticas de uma língua. Fora disso, aplicam-se as restrições em relação

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