Em qualquer população há sempre mais pessoas com problemas de saúde mental ou perturbações mentais do que aquelas que procuram ajuda especializada nos serviços de saúde ou mesmo junto de profissionais especializados na área da Saúde Mental e Psiquiátrica (Goldberg e Huxley, 1992). As razões poderão ser de várias ordens, de onde se destacam duas: ou alguns desses indivíduos conseguem lidar com os seus problemas de forma eficaz ou com ajuda e apoio mais informal (família, amigos); ou há relutância na procura de ajuda (desconhecimento, estigma, vergonha) (Leach, 2003).
Em relação aos estudantes universitários, existem diversas razões pelas quais os estudantes com problemas de saúde mental tenham relutância em procurar ajuda, apoio ou aconselhamento. Se por um lado haverá uma possível crença de que conseguem lidar com os seus problemas ou que eles irão desaparecer, por outro há duas barreiras muito fortes: o receio do tipo de resposta que possa ser dada ao seu problema; e o forte estigma que ainda recai sobre a saúde mental e as suas perturbações (Leach, 2003).
Um significante número de estudantes vê a necessidade de procurar ajuda como uma fraqueza ou algo a esconder e não como uma via válida de abordar os seus problemas. Como resultado alguns estudantes não irão receber qualquer tipo de apoio enquanto outros irão deixar arrastar a sua situação até níveis mais graves, profundos e difíceis de tratar. Uma das principais razões apontadas por alguns estudantes porque não recorrem aos serviços de apoio é devido ao meio académico ser altamente competitivo e o receio que isso possa afectar futuramente a sua carreira profissional.
Com base numa investigação feita pela Oxford Student Mental Health Network (OSMHN) (Leach, 2003) são as seguintes as principais crenças que afectam a disposição dos alunos na procura de ajuda para os seus problemas de saúde mental:
Falar sobre o assunto não ajuda
Poderá afectar o meu percurso académico/profissional Toda a gente irá saber
Irei ser hospitalizado
Eu consigo resolver o meu problema Estigma sobre a saúde mental Eu não tenho qualquer problema O meu problema não é assim tão grave Se ignorar o problema, ele irá desaparecer Não há nada a fazer.
Para alguns estudantes com problemas de saúde mental, os amigos e os funcionários (docentes e não docentes) da instituição onde estuda são uma importante fonte de aconselhamento e incentivo para a procura de ajuda profissional. De um modo geral estes estudantes apresentam ainda alguma capacidade de discernimento e autoavaliação o que lhes permite aceitar o conselho de pessoas da sua referência e ir à procura de ajuda. No entanto há outra faixa de estudantes em que a não procura de ajuda já poderá, por si só,
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ser reveladora da deterioração da sua situação. Ainda segundo OSMHN (Leach, 2003) o protelar a procura da ajuda por parte dos estudantes universitários com problemas poderá significar o agravamento dos seus problemas de saúde mental:
O estudante tende a isolar-se
O estudante permanece em sofrimento
Os outros estudantes (em especial os mais próximos) sofrem igualmente Outras pessoas em seu redor perdem a paciência
O(s) problema(s) agrava(m)-se
O(s) problema(s) persiste(m) indefinitivamente O estudante tem fraco rendimento escolar O estudante abandona os estudos.
Diversos estudos revelam o aumento dos problemas na saúde mental dos estudantes. E as instituições de Ensino Superior, conscientes deste agravar da saúde mental e da necessidade de prestar aconselhamento, orientação e psicoterapia, têm procurado acompanhar aumentando os serviços de apoio psicológico a disponibilizar aos estudantes (Santos, 2011).
A intervenção de apoio psicológico, a este nível institucional, tem por objectivo a promoção do bom desenvolvimento dos estudantes assim como a prevenção das perturbações. Mas também deve estar atento àqueles que estão em risco ou apresentam problemas de forma a poder dar apoio mais terapêutico e, em caso de necessidade, o encaminhamento para os serviços especializados das unidades hospitalares (RESAPES, 2002).
Para Gonçalves e Curia (1988) citados por Santos (2011), são três os tipos de apoio prestados aos estudantes universitários:
1. Serviços Remediativos
Consistindo em apoio terapêutico ou psicoterapia aos jovens com problemas que careçam de atenção profissional imediata e que poderão conduzir a situações de depressão, abandono escolar ou suicídio.
2. Serviços Preventivos
Em que se procura identificar e controlar factores de risco tentando assim diminuir a incidência de determinados problemas. Neste tipo de apoio elaboram-se programas de promoção e educação para a saúde para os momentos de maior impacto como a entrada na universidade ou a saída da universidade.
3. Serviços de Desenvolvimento Pessoal
Indo além da identificação dos factores de risco, há a procura de optimização do desenvolvimento psicológico no sentido de ajudar os estudantes a alcançarem o seu potencial máximo.
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As instituições têm assim duas áreas onde actuar: uma quando os estudantes pedem ajuda; outra na prevenção. Com a primeira respondem aos problemas de saúde mental dos seus estudantes preocupando-se e protegendo-os, proporcionando não só bem-estar académico mas também o seu desenvolvimento pessoal. Com a segunda faz-se a aposta em programas de gestão de stress, ansiedade e bem-estar assim como acerca do reconhecimento de sinais de alarme de comportamentos desadequados sintomáticos de distúrbio ou sofrimento mental.
Um outro aspecto a explorar – e que não tem tido grande expressão nas instituições portuguesas – é o envolvimento de outros estudantes – peer counselling. Geralmente são os colegas, vistos como mais acessíveis e credíveis (Santos, 2011), que se apercebem dos primeiros sinais ou incentivam o colega com problemas a recorrer aos serviços de apoio. Os estudos realizados em Portugal têm mostrado o impacto que tem, no sucesso dos alunos no Ensino Superior, a inexistência de competências consideradas adequadas para fazer face aos obstáculos e desafios que irão encontrar ao longo do percurso académico (RESAPES, 2002). Num estudo sobre factores de sucesso/insucesso nos alunos do 1º Ano dos Cursos de Licenciatura em Ciências e Engenharia no Ensino Superior nos anos 1998/2000, mostrou que a maioria dos alunos do 1º ano afirmou ter tido dificuldades relacionadas com os estudos e aprendizagens, com problemas de atenção e concentração e gestão dos tempos de estudo, assim como com problemas de ansiedade (RESAPES, 2002). Outro estudo anterior (1991/1995) que incidiu sobre 537 estudantes de vários estabelecimentos do ensino superior de Lisboa, verificou-se que os jovens com piores resultados estavam mais deprimidos, com menor autoestima e menor capacidade de projectarem o futuro (RESAPES, 2002).
Sendo um facto verificar-se o aumento dos serviços de apoio e orientação nas Instituições de ensino, estes serviços de acompanhamento psicológico deverão ter como objectivo principal apoiar os estudantes nos processos de ensino, aprendizagem e desenvolvimento assim como potenciar as capacidades dos estudantes na prossecução dos seus estudos, situando os seus objectivos específicos a nível da prevenção, do desenvolvimento e do cuidar.
Seja como for, as instituições de Ensino Superior deverão estar atentas e não subestimar o facto de o investimento na Saúde Mental dos estudantes ser muito vantajoso em termos de custos/benefícios quer para as instituições quer para os estudantes quer ainda para a sociedade em geral (Archer e Cooper, 1998).