3. Teoretiske perspektiver:
3.8 Strategi E - Strategi O – to hovedstrategier for endring:
SOLIDÁRIO
Vale ressaltar que o termo 'empreendimento econômico solidário' se consolidou como um conceito emergente do pensamento latino-americano, tendo como seu precursor o chileno Luis Razeto que, no início dos anos 80, assim classificou as iniciativas de grupos pobres das periferias urbanas, as quais estruturavam organizações econômicas, a partir de seus próprios recursos financeiros e da ajuda mútua entre si, no intuito de satisfazerem suas necessidades básicas (GAIGER, 2009).
O empreendimento econômico solidário (EES), segundo a Secretaria de Economia Solidária do Ministério da Trabalho do Brasil, mediante o sistema de informações da economia solidária, é caracterizado como “ organizações coletivas de trabalhadores (as) que exercem a autogestão na realização de atividades econômicas de forma continuada ou permanente” (CULTI et al. 2010, p.10).
Para Verano (2001), são “tipos de atividade econômica baseados na associação voluntária, na propriedade comum dos meios de produção, na gestão coletiva, no exercício de poder pela comunidade de trabalhadores e no esforço mútuo em prol de interesses comuns” (VERANO apud GAIGER 2005, P. 182).
O conceito, segundo Gaiger (2009), compreende “as diversas modalidades de organização econômica, originadas da livre associação de trabalhadores, nas quais a cooperação funciona como esteio de sua eficiência e viabilidade.” (GAIGER, 2009, p. 181). O autor destaca, ainda, que esses empreendimentos adotam arranjos coletivos na posse dos meios de produção, no processo de trabalho e na gestão dos processos, mediante a socialização dos meios de produção e da autogestão. E se apresentam sob a forma de grupos de produção, associações de trabalhadores, cooperativas e empresas de autogestão. Nestas organizações, coexistem atividades econômicas, de cunho educativo e cultural, em que prevalecem o sentido de comunidade de trabalho e o compromisso com a coletividade na qual se inserem (GAIGER, 2009).
Os conceitos e as características, pontuados até aqui, destacam a natureza desses empreendimentos, como empreendimentos orquestrados por outra racionalidade produtiva, fundada no solidarismo econômico. Nesta perspectiva, a atividade econômica desses empreendimentos visam tanto à geração de resultados econômicos efetivos como a ganhos extraeconômicos (GAIGER, 2009).
Sob esta ótica, o trabalho coletivo é canalizado em favor dos que dele participam, alterando, assim, a noção de eficiência produtiva, conforme destaca Gaiger: “O trabalho consorciado age em favor dos próprios produtores e confere, à noção de eficiência, uma conotação bem mais ampla, incluindo a qualidade de vida dos trabalhadores e a satisfação de objetivos culturais e ético-morais” (GAIGER, 2009, p. 181).
Ao refletir sobre a QVT no ambiente de empreendimentos econômicos solidários, tem- se que resgatar a fala de Coraggio (2000), o qual reforça o fato de que o empreendimento solidário não almeja acumulação de capital, ao contrário, visa à melhoria da qualidade de vida de seus membros.
Na abordagem de Cattani (2003), a economia solidária deve garantir ambientes democráticos de trabalho e consolidar práticas não alienantes de trabalho, ou seja, criar um ambiente em que os trabalhadores se envolvam concomitantemente com atividades de produção e de tomada de decisão.
Tomando como referenciais de análise os conceitos de empreendimento econômico solidário e de eficiência de Gaiger, podem-se extrair alguns elementos que distinguem o que seja QVT no contexto de empreendimentos econômicos solidários, bem como os fatores e as dimensões de validação dessa QVT.
A abordagem teórica de Gaiger enfatiza o papel tanto da economia solidária como do empreendimento econômico solidário (EES) em relação ao tema QV e QVT, na medida em que vincula os objetivos da economia solidária e dos empreendimentos econômicos solidários com o compromisso de prover qualidade de vida do trabalhador e do grupo sob o ponto de vista econômico, cultural e ético-moral, visando à preservação da vida biológica e social dos indivíduos em níveis moralmente aceitáveis (GAIGER, 2009).
Considerando a instância de QVT relativa aos objetivos econômicos no âmbito do indivíduo e do grupo, e dos pressupostos, das dimensões e dos indicadores de análise da autogestão em Cooperativa, pode-se aglutinar enquanto fatores de QVT, os seguintes aspectos:
- participação econômica dos membros - este fator de QVT se refere ao atendimento dos pressupostos de igualdade econômica garantida a todo e qualquer membro cooperado, mediante a participação igualitária dos membros, a partir dos seguintes indicadores: cotas de investimento inicial no empreendimento; participação efetiva nas decisões relativas ao uso de sobras e resultados financeiros da cooperativa para autofinanciamento da atividade econômica desta, para investimento em infraestrutura, capacitação tecnológica e/ou capacitação de seus membros;
- distribuição de sobras e perdas entre os membros – este fator de QVT se refere ao justo compartilhamento dos resultados (positivos ou negativos) da cooperativa por seus membros, mediante os seguintes indicadores: critérios definidos democraticamente e legitimados por todos os membros cooperados; modalidade de distribuição de sobras e perdas legitimadas por todos os membros cooperados;
- remuneração equitativa pelo trabalho realizado – este fator de QVT se refere à definição de sistema de remuneração e de recompensa pelo trabalho realizado, de acordo com os princípios de equidade e de justiça social, a partir dos seguintes indicadores: critérios de criação do
sistema de remuneração, instituído democraticamente por todos os membros cooperados; sistema de recompensa legitimado por todos os membros cooperados;
- compromisso com a eficiência e com a geração da viabilidade econômica da cooperativa – este fator de QVT se refere à responsabilidade individual e coletiva com a perenidade da cooperativa em prol do interesse comum do grupo diretamente implicado, a partir de sistema de indicadores de desempenho da cooperativa desenvolvidos com a finalidade de mensurar e assegurar a viabilidade econômica desta: legitimação por todos os membros cooperados.
Com relação à instância de QVT relativa aos objetivos culturais no âmbito do indivíduo e do grupo, e aos pressupostos, às dimensões e aos indicadores de análise da autogestão em Cooperativa, podem-se aglutinar, como fatores de QVT, os aspectos:
- oportunidades de capacitação profissional interno e externo ao ambiente de trabalho – Este fator de QVT se refere às ações, no âmbito interno e/ou externo da cooperativa, voltadas para o desenvolvimento profissional dos membros da cooperativa, a partir dos seguintes indicadores: estrutura de desenvolvimento interno e/ou intercâmbio com instituições de formação profissional; existência de fundos específicos para promoção do desenvolvimento profissional dos membros da cooperativa;
- oportunidade de intercâmbios externos com outras organizações e instituições – este fator se refere às ações de fomento ao intercâmbio de conhecimento e a interação do membro cooperado com instituições não-governamentais, públicas e/ou privadas com o intuito de ampliar a visão deste em relação ao ambiente externo à cooperativa, mediante os seguintes indicadores: estimulo à participação de membros cooperados em eventos externos; estímulo ao contato de membros cooperados com fornecedores, clientes, instâncias governamentais, e/ou instituições não governamentais, e organizações públicas e/ou privadas, órgãos representativos do movimento cooperativista e movimentos sociais;
- oportunidades de interação social – este fator de QVT refere-se a ações que visem ao equilíbrio de dedicação entre a atividade econômica da cooperativa e outras instâncias da vida social privada do membro cooperado, tais como família, religião, lazer e convívio social extracooperativa, a partir de indicadores, regras e procedimentos, instituídos democraticamente sobre carga horária de trabalho, distribuição de funções e responsabilidades
acerca da atividade econômica; regras e procedimentos democraticamente instituídos e legitimados pelos membros sobre períodos de afastamento do trabalho.
Com relação à instância de QVT relativa aos objetivos ético-morais no âmbito do indivíduo e do grupo, e aos pressupostos, às dimensões e aos indicadores de análise da autogestão em Cooperativa, pode-se aglutinar, como fatores de QVT, os aspectos:
- igualdade de direito de participação nos pleitos para cargo de gestão – este fator refere-se ao acesso irrestrito a todo e qualquer membro cooperado se voluntariar para cargo de gestão e de ser eleito democraticamente, de acordo com o pressuposto de igualdade, a partir de indicadores: regras e procedimentos decidas e legitimada pelos membros sobre o processo de candidatura e de eleição a cargo de gestão;
- igualdade de participação e direito de voto nos fóruns de tomada de decisão – este fator refere-se à garantia da participação ativa do membro cooperado em fóruns de tomada de decisão com igual poder de voz e voto, a partir de indicadores: tipo de fóruns de tomada de decisão e respectiva instância de poder de decisão; participação em assembleia geral; acesso à informação; liberdade de expressão e argumentação; definição de regras e de procedimentos para tomada de decisão, definidos democraticamente e legitimados pelo grupo implicado;
- acesso irrestrito às informações sobre a cooperativa – este fator refere-se à liberdade de acesso a toda e qualquer informação da cooperativa relativa à atividade econômica e ao interesse de cada membro e do grupo implicado, de modo a garantir a igualdade de acesso à informação, a partir de indicadores: formas de comunicação entre instâncias de gestão e demais cooperados; tipos de documentos informativos disponíveis; periodicidade de divulgação de informações, referentes à viabilidade econômica da cooperativa;
- identidade com a atividade econômica – este fator refere-se ao sentimento de pertencimento e de realização como membro cooperado da cooperativa, a partir de indicadores: percepção de bem-estar no trabalho; percepção de atendimento a necessidades materiais; percepção de aprovação e apoio familiar à condição de cooperado; percepção de crescimento/desenvolvimento social; percepção de aceitação e compartilhamento dos pressupostos cooperativistas;
- liberdade de opinião – este fator refere-se à liberdade de expressão sem discriminações sociais, raciais, de gênero, políticas ou religiosas, garantindo o pressuposto da igualdade, a partir de indicadores: percepção do membro cooperado sobre a liberdade de expressão no ambiente da cooperativa,
- liberdade de criação – este fator refere-se à oportunidade e à liberdade para exercitar a criatividade na realização do trabalho e o reconhecimento de autoria por inovação, sob o pressuposto da ajuda mútua e da reciprocidade, a partir de indicadores: oportunidade de diversidade de atividade, flexibilidade de tempo, ações de estímulo à criação e à inovação no ambiente de trabalho; intercâmbio de experiências entre cooperados;
- clareza quanto ao regulamento interno de conduta social e profissional – este fator refere-se ao cumprimento de normas e de procedimentos democraticamente definidos e legitimados pelo grupo implicado, a partir de indicadores: conhecimento do estatuto da cooperativa e do regulamento interno; participação na definição de regras e procedimentos; cumprimento de punições por desconhecimento de normas de conduta.
- acesso igualitário ao sistema de justiça – este fator refere-se ao acesso democrático e igualitário ao sistema de justiça legitimado pelos membros da cooperativa, a partir de indicadores: acesso irrestrito aos mecanismos de defesa e de recursos estabelecidos democraticamente e legitimados pelos membros cooperados; ocorrências que implicaram em tomada de decisão e/ou julgamento de membro cooperado e cuja percepção tenha sido de justiça social positiva.
Quadro 16 - Fatores de QVT em Cooperativa e as dimensões de análise
Fatores de QVT em
EES Referencial Teórico Dimensões de análise Indicadores
Relativo aos objetivos econômicos Refere-se ao atendimento dos pressupostos de igualdade econômica garantida a todo e qualquer membro cooperado mediante a participação igualitária dos membros Participação econômica dos membros igualitária;
Cotas de investimento inicial no empreendimento; participação efetiva nas decisões relativas ao uso de sobras e resultados financeiros da cooperativa para autofinanciamento da atividade econômica da mesma, para investimento em infraestrutura, capacitação tecnológica e/ou capacitação de seus membros.
Fatores de QVT em
EES
Referencial Teórico Dimensões de análise Indicadores
Refere-se ao justo compartilhamento dos resultados (positivos ou negativos) da cooperativa
por seus membros,
Distribuição de sobras e perdas entre os membros;
Critérios definidos
democraticamente e legitimados por todos os membros
cooperados; modalidade de distribuição de sobras e perdas legitimadas por todos os membros cooperados.
Refere-se à definição de sistema de remuneração e recompensa pelo trabalho realizado, de acordo com os princípios de equidade e justiça social, Remuneração equitativa pelo trabalho realizado, instituída e legitimada democraticamente pelo grupo diretamente implicado.
Critérios de criação do sistema de remuneração instituído democraticamente por todos os membros cooperados; sistema de recompensa legitimado por todos os membros cooperados.
Refere-se à responsabilidade individual e coletiva com
a perenidade da cooperativa em prol do interesse comum do grupo
diretamente implicado, Compromisso com a geração de resultados econômicos Sistema de indicadores de desempenho da cooperativa desenvolvidos com a finalidade de mensurar e assegurar a viabilidade econômica da mesma, e legitimado por todos os membros cooperados.
Relativa aos objetivos
culturais
Refere-se às ações, no âmbito interno e/ou externo da cooperativa,
voltadas para o desenvolvimento profissional dos membros
da cooperativa.
Oportunidades de capacitação profissional;
Estrutura de desenvolvimento interno e/ou intercâmbio com instituições de formação profissional; existência de fundos específicos para promoção do desenvolvimento profissional dos membros da cooperativa. Refere-se às ações de fomento ao intercambio de conhecimento e a interação do membro cooperado com instituições não- governamentais, públicas
e/ou privadas com o intuito de ampliar a visão
destas em relação ao ambiente externo à cooperativa. Oportunidade de intercâmbios externos com outras organizações e instituições. Estímulo à participação de membros cooperados em eventos externos; estímulo ao contato de membros cooperados com fornecedores, clientes, instâncias governamentais, e/ou instituições não governamentais, e organizações públicas e ou privadas, órgãos representativos do movimento cooperativista, e movimentos sociais.
Refere-se a ações que visem ao equilíbrio de
dedicação entre a atividade econômica da
cooperativa e outras instâncias da vida social
privada do membro cooperado, tais como: família, religião, lazer, e
convívio social extracooperativa Oportunidades de interação social Regras e procedimentos instituídos democraticamente sobre carga horária de trabalho, distribuição de funções e responsabilidades sobre a atividade econômica; regras e procedimentos
democraticamente, instituídos e legitimados pelos membros sobre períodos de afastamento do trabalho.
Fatores de QVT em
EES
Referencial Teórico Dimensões de análise Indicadores
Relativa aos objetivos ético-morais
Refere-se ao acesso irrestrito a todo e qualquer
membro cooperado se voluntariar para cargo de
gestão e de ser eleito democraticamente, de acordo com o pressuposto
de igualdade.
Igualdade de direito de participação nos pleitos para cargo de gestão.
Regras e procedimentos decididos e legitimados pelos membros sobre o processo de candidatura e eleição a cargo de gestão.
Refere-se à garantia da participação ativa do membro cooperado em
fóruns de tomada de decisão com igual poder
de voz e voto.
Igualdade de participação e direito de voto nos fóruns de tomada de decisão.
Regras e procedimentos decididos e legitimados pelos membros sobre o processo de candidatura e eleição a cargo de gestão.
Refere-se à liberdade de acesso a toda e qualquer informação da cooperativa
relativa a atividade econômica e ao interesse
de cada membro e do grupo implicado de modo
a garantir a igualdade de acesso a informação
Acesso irrestrito as informações sobre a cooperativa.
Formas de comunicação entre instâncias de gestão e demais cooperados; tipos de documentos informativos disponíveis; periodicidade de divulgação de informações referentes à viabilidade econômica da cooperativa. Refere-se ao sentimento de pertencimento e realização como membro cooperado da cooperativa. Identidade com a atividade econômica Percepção de bem-estar no trabalho; percepção de atendimento a necessidades materiais; percepção de aprovação e apoio familiar à condição de cooperado; percepção de
crescimento/desenvolvimento social; percepção de aceitação e compartilhamento dos pressupostos cooperativistas. Refere-se à liberdade de expressão sem discriminações sociais, raciais, de gênero, políticas ou religiosas garantindo o pressuposto da igualdade. Liberdade de opinião.
Percepção do membro cooperado sobre a liberdade de expressão no ambiente da cooperativa.
Refere-se à oportunidade e liberdade para exercitar a criatividade na realização
do trabalho e o reconhecimento de autoria
por inovação sob o pressuposto da ajuda mútua e da reciprocidade.
Liberdade de criação.
Oportunidade de diversidade de atividade, flexibilidade de tempo, ações de estímulo à criação e à inovação no ambiente de trabalho; intercâmbio de experiências entre cooperados.
Refere-se ao cumprimento de normas e aps
procedimentos democraticamente definidos e legitimados
pelo grupo implicado.
Clareza quanto ao regulamento interno de conduta social e profissional. Conhecimento do estatuto da cooperativa e do regulamento interno; participação na definição de regras e procedimentos; cumprimento de punições por desconhecimento de normas de conduta.
Fatores de QVT em
EES
Referencial Teórico Dimensões de análise Indicadores
Refere-se ao acesso democrático e igualitário
ao sistema de justiça legitimado pelos membros
da cooperativa
Acesso igualitário ao sistema de justiça.
Acesso irrestrito aos mecanismos de defesa e de recursos
estabelecidos democraticamente e legitimados pelos membros cooperados; ocorrências que implicaram em tomada de decisão e/ou julgamento de membro cooperado e cuja percepção tenha sido de justiça social positiva.
Fonte: Elaborado pela pesquisadora, 2012.
O quadro 16, de fatores de QVT em Cooperativa foi construído com base nos fundamentos teóricos colhidos do modelo de Fatores Críticos da Gestão de QVT, buscando realizar adaptações possíveis entre os fatores: conceito de QVT, legitimidade, práticas e valores organizacionais, qualidade/produtividade, e perfil do gestor, com a ambiência da economia solidária e do empreendimento solidário do tipo cooperativo. E, no referencial teórico da economia solidária, em particular nas abordagens teóricas de Gaiger (2009), Mance (1999), e Coraggio (1999), foi fundamentado pelos conceitos de Empreendimento Econômico Solidário (EES), Bem-Viver e de Eficiência, pelos pressupostos de solidariedade e de cooperação apropriados pela Economia Solidária, e retratados pelo modelo de autogestão, cujas raízes se encontram no Cooperativismo.