4.4 Vassdrag langs fylkesvei 342
4.4.1 Strandaelva og Bonbekken
A partir do Globo Repórter, analisamos como uma produção da cultura, sediada em suportes audiovisuais eletrônicos, sofre alterações de conteúdo e de mediação com o real. Vemos como a confiança cega nesse novo mediador ambiental e cultural transforma-se em espelho pervertido do “corpo” doente do planeta Terra. Assim, temos problemas comunicacionais com o meio quando tomamos como intermediadores apenas equipamentos audiovisuais e suas imagens.
A maior potencialidade técnica dos meios de comunicação não parece fazer com que as pessoas vejam mais e melhor o seu próximo e o seu redor. A cobertura televisiva sobre diversas culturas mundiais, por exemplo, não acabou com a intolerância religiosa nem cessou os rancores entre países conflitantes. O hot money, que aquece as economias e que viaja por fibra ótica não resulta em benefícios sólidos nos países de periferia dos quais se aproveita. O mundo contemporâneo chegou a um patamar notável de desenvolvimento tecnológico e comunicacional. Redes de satélites e fibra digital conectam o planeta por fluxos de informação nunca antes imaginados. Trilhões de dólares em forma de números flanam por bolsas de valores e milhões de pessoas sabem em tempo real o que acontece há quilômetros de distância, além de “se conhecerem” por meio de grupos de discussões e amigos pela Internet.69
Mas trazer imagens da realidade para perto de nós também transformou-nos em frios espectadores do mundo. Guerras, fome e desgraça alheia nos são alheios, uma vez que estão efetivamente longe. E fatos próximos, por não serem intermediados pelas mídias, tornam-se invisíveis e inexistentes para nós. Convivemos com o mundo por nossos olhos.
Na ânsia de tudo consumir e tudo entender no mundo das comunicações on-line, desligamo- nos das primeiras referências tidas do mundo e de nós mesmos: nosso corpo, seu tempo e sua espacialidade. Tais elementos essenciais para a mediação do homem com o mundo são rejeitados em dias de comunicação eletrônica e visual.
Notamos assim o extremo paradoxo da vida humana contemporânea, em que o indivíduo encontra-se isolado do mundo e atirado em uma crise comunicacional, ao mesmo tempo em
69
Finalmente foi alcançada a Aldeia Global que Marshall McLuhan previra, a partir do desenvolvimento de infra-estruturas materiais para a comunicação, tais como trens e estradas, e imateriais, como as ondas elétricas:
Graças às primeiras foram ampliados os espaços geográficos da experiência humana, sem que necessariamente seja necessário perder o contato com o entorno imediato. (...) Com a segunda classe de infra-estruturas são criados espaços imateriais, espaços de experiência que apensas ocorrem na imaginação e muito em particular na TV. Perde-se com elas o lugar, o tempo e a sensorialidade, isto é, tem-se lugar para uma descontextualização da informação e da comunicação. (ROMANO, Vicente: Ecologia de la comunicación. Pré-print.
que vive com um sem número de parafernálias e técnicas de conexão (virtuais) que supririam todas suas carências informacionais e humanas. Tal crise revela a necessidade de um estudo que vá além de teorias funcionalistas. Aqui, emissão, recepção e ruído se dizem suficientes para explicar a comunicação e excluem o homem do processo, como se aquela existisse ele.
Torna-se necessária a adoção de uma teoria comunicacional em que o homem é peça -chave para todo tipo de comunicação, quer seja pela temporalidade e pela espacialidade
corporais, suas materialidades e virtualidades sejam essenciais para se entender o processo comunicativo. Para tanto, adotaremos os conceitos de mídias primárias, secundárias e
terciárias de Harry Pross.
As mídias primárias são os meios de contato elemental humano. Trabalham com o aroma, a visão, a pele, os movimentos, o tato, o paladar, sentidos que são o começo e o fim de toda a comunicação humana. Não necessitam de aprendizagem além da natural que os próprios sentidos desenvolvem para serem criadas e assimiladas pelos homens, pois começam e terminam no corpo. Como o suporte das mídias primárias é o próprio corpo, estas são limitadas espacial e temporalmente, porque perecem com a morte do homem. A mídia primaria é presencial e momentânea. Norval Baitello Junior esclarece o processo de comunicação proposto por Harry Pross sobre o corpo:
Afirma ele (Pross) que toda comunicação ou todo processo comunicativo - não importa quantos aparelhos esteja usando - começa no corpo e termina no corpo. Não haveria rádio, televisão, telefone, computadores em rede, se não tivéssemos no início e no final de qualquer mídia um corpo vivo. Não teríamos enfim comunicação se na frente de um aparelho (de telefone, por exemplo) e atrás do outro aparelho (de telefone, fax, televisão, rádio, etc) não houvesse pessoas. (BAITELLO Jr., Norval. O tempo lento e o espaço nulo. Mídia primária, secundária e terciária. 2001: 4)
Já as mídias secundárias consistem nos meios técnicos empregados do lado da produção (emissor), mas não da parte do consumo (receptor). É a presença do homem registrada em suportes externos ao seu corpo, coisas, seja na pedra, seja em textos de livros. Para Harry Pross (1971:128), são
Aqueles meios de comunicação que transportam a mensagem ao receptor, sem que este necessite de um aparato para captar seu significado, portanto são mídia secundária a imagem, a escrita, o impresso, a gravura, a fotografia, também em seus desdobramentos enquanto carta, panfleto, livro, revista, jornal (...). (PROSS, Harry in BAITELLO Jr., Norval. O tempo lento e o espaço nulo. Mídia primária, secundária e terciária. 2001: 3)
Por esse desligamento do corpo, o homem necessita de um processo de aprendizagem para criar e consumir essa mídia, uma tentativa humana de se prolongar espacial e temporalmente, deixando suas marcas (imortais) para outros homens. A mídia secundária é eterna e não necessita do homem para prosseguir na terra.
As mídias terciárias, por sua vez, compreendem os aparelhos técnicos utilizados pelos extremos do processo comunicativo, como rádio, televisão e o telefone. A mídia terciária, assim como diz Pross (1971:226):
São aqueles meios de comunicação que não podem funcionar sem aparelhos tanto do lado do emissor quanto do lado do receptor. (PROSS, Harry in BAITELLO Jr., Norval. O tempo lento e o espaço nulo. Mídia primária, secundária e terciária. 2001: 4)
As mediações terciárias transmitem informações elétricas e imateriais, que não carregam consigo o suporte. Necessitam de “tradutores”, conversores de sinal, para fazerem a mensagem do emissor, codificada em ondas, ser compreendida pelo receptor. A mídia terciária prossegue o caminho aberto pela secundária, ao abrir espaço para a intermediação das máquinas entre os corpos, e impõe a estes a sina do analfabetismo tecnológico, já que não podemos ler um disco laser ou ver sinais de satélite sem CD players ou televisões. E trouxe de volta a mortalidade do homem, pois a eletricidade um dia cessa, por atuação voluntária do homem ou não.70
Pesquisadores da teoria da mídia vêem nesse novo “Mal do Século” como uma descompensação do homem, de seu corpo e dos outros seres (mídia primária) em detrimento das mídias eletrônicas (terciárias), assim como afirma Baitello (2001:7):
Subtraiu-se a única dimensão restante e passamos a ter o corpo que não ocupa nenhuma dimensão no espaço. Isto acontece quando nosso corpo é transformado em um ponto, em um número (...), este corpo passou a ser nulodimensional, não ocupando mais nenhum espaço que não seja o espaço virtual do não-espaço. (...) Somos um número, um ponto. E um ponto não necessita o espaço em nenhuma de suas dimensões. Com isso está criado um corpo destituído de sua corporeidade. Um corpo não-corpo. (BAITELLO Jr., Norval: O corpo e suas linguagens. 2001: 7)
70
Dada a gigantesca e aparentemente inevitável dependência do desenvolvimento humano para com a mídia terciária, não se pode imaginar que esse processo possa ser interrompido, bem como restringir a comunicação humana a apenas uma dessas mídias, principalmente com os poderosos meios de comunicação imbricados nas vidas das pessoas. Romano diz que (2004):
... o estudo das mídias sempre está relacionado com a união entre as formas primitivas de expressão humana e os últimos sistemas técnicos que relativizam estas formas de expressão. (...) O homem transforma as mídias secundárias e terciárias em técnicas cada vez mais refinadas para transportar suas mensagens a um espaço cada vez maior e em um tempo cada vez mais curto. (ROMANO, Vicente: Ecologia de la comunicación. Pré-
Não trocamos experiências com pontos de luz, apenas os consumimos. Não temos ferramentas comunicacionais para interagirmos com os pixels da televisão. Os instrumentos para a comunicação mais primordial do homem, os cinco sentidos, são deixados de lado em detrimento de uma mediação de luzes e sons da mídia terciária. Abrimos mão do corpo humano, suas referências espaciais e temporais, para tentarmos reencontrar o sentido das coisas em imagens televisivas. As coisas do mundo parecem mais próximas de nós, já que entram em nossas casas através da televisão. Mas nunca estivemos tão longe da vida, do encantamento e do sentido do mundo, já que nos restam apenas parcas abstrações do real, as imagens televisivas, para nos apegarmos. Assim como explica Malena Segura Contrera:
Depois de tantas explosões, resulta que sofremos da falta de sentido. Anestesiando os sentidos do tato, do paladar e do olfato, seguimos buscando sentido apenas onde muitas vezes não há nada além de uma lógica perversa de mercado, luzinhas piscando e imagens vazias se sucedendo (espetacularmente, é claro).
Afinal, se os sentidos estão no corpo, quem vai abdicando da comunicação primária (em prol das maravilhas da comunicação virtual) perde também a capacidade semiótica, e passa a se mover em um mundo em que tudo não faz sentido. E o argumento de que a cinestesia provocada pelas linguagens visuais seria capaz de recontactar o homem a essa estética viva sobre a qual vimos falando resulta muito duvidoso. (CONTRERA, Malena Segura: Mídia e pânico. 2002: 68)
As características negativas que o apego à mídia terciária carregam, tais como a sensação de perda da corporeidade, da noção de espaço e de tempo humanos, tendem a ser diluídas e superadas simbolicamente dentro de uma produção cultural, mesmo que esta também seja
terciária. Sabemos que não teremos chance de conhecer regiões inóspitas do globo, por isso, aceitamos as imagens do local como únicas formas de mediação que teremos acesso. É a comunicação das compensações e das perdas. O mundo contemporâneo estimula a comunicação ampla e irrestrita do homem com as imagens produzidas pelo homem. Até a natureza, tão procurada por nós nos canais de televisão, fica por detrás dos textos culturais adaptados para a mediação eletrônica. Amar a natureza pelos olhos grudados em uma tela é um retrato da decadência comunicacional entre os indivíduos e seu meio.