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4.4 Vassdrag langs fylkesvei 342

4.4.1 Strandaelva og Bonbekken

Pessoas, grupos, categorias e entidades coletivas são vítimas das estruturas do sistema neoliberal. Neste contexto estruturalmente injusto, a libertação da pobreza deve passar, necessariamente, por transformações também estruturais da sociedade. Não se trata, portanto, de lutar somente pelo desenvolvimento econômico dos povos, mas pelo

resgate integral da dignidade da pessoa humana: racial, étnico, cultural e de gênero.

Nas últimas décadas, o sofrimento do povo é fator de articulação crescente do processo de conscientização e organização sócio-política, transformando estas vítimas num potencial de construção de uma nova sociedade, de um mundo novo. Devido aos efeitos globalizados da miséria, a luta contra a mesma deve efetivar-se mundialmente.

De 1967 a 1971, os países da América Latina são fortemente marcados pela crise do capitalismo internacional e por uma sucessão de golpes militares. É um período histórico de miséria, estruturas de violência e derramamento de sangue. Simultaneamente, havia também grupos políticos organizados que resistem e alimentam a esperança de possíveis transformações sociais e democráticas.

A compreensão crítica deste momento histórico, favorecida pelas orientações do Concílio Ecumênico Vaticano II e pela, então recente, carta encíclica "Populorum progressio"57, colabora para que Medellín se abra para uma ação sócio-transformadora. Denuncia que o Continente se encontra “numa situação de injustiça que pode chamar-se de violência institucionalizada”58. Adverte, assumindo uma afirmação de Paulo VI, que “populações inteiras,

57 PP 32.

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desprovidas do necessário, vivem numa dependência que lhes corta toda a iniciativa e responsabilidade, e também toda a possibilidade de formação cultural e de acesso à carreira social e política”59. Conscientiza a população de que o subdesenvolvimento, a marginalização, a desigualdade e a opressão dos grupos dominantes constituem problemas os mais graves da América Latina60. Denuncia a política armamentista e o intervencionismo das "nações poderosas contra a autodeterminação dos povos fracos, que sofrem os efeitos sangrentos da guerra e da invasão".61 Pede aos organismos internacionais competentes, decididas e eficazes medidas62.

Medellín anuncia que “esta situação, exige transformações globais, audazes e profundamente renovadoras”63 que devem acontecer “a partir de dentro, isto é, mediante uma conveniente tomada de consciência, adequada preparação e efetiva participação de todos”.64 Os meios a serem utilizados serão “uma ação dinâmica de conscientização e organização65 dos setores populares, capaz de urgir os poderes públicos, muitas vezes impotentes

59 DM, Paz, II, 16. 60 Cf. DM, Paz, I, 1-6; II,.15. 61 Cf. DM, Paz, III, 29,.32. 62 Cf. DM, Paz, III, 32. 63 DM, Paz, II, 16. 64 Ibidem, II, 15.

65 Sobre as organizações, Medellín acrescenta ainda que é preciso:

“Alentar e favorecer todos os esforços do povo para criar e desenvolver suas próprias organizações de base, pela reivindicação e consolidação de seus direitos e busca de uma verdadeira justiça”. Paz, III, 27.

em seus projetos sociais, sem o apoio popular”.66 Desta maneira a luta contra a miséria, adverte Medellín, será uma verdadeira guerra que devem enfrentar nossas nações, sem violência67.

Na opção pelos pobres e pelos outros a Igreja na América Latina e no Caribe traçou, em seus documentos, seu caminho e seu programa de evangelização. A luta pela sobrevivência participativa a partir dos excluídos não visa uma simples inclusão no mercado neoliberal mas a mudança global do sistema estrutural das nossas sociedades68.

Neste processo os excluídos não são somente vítimas de um sistema de que precisam ser resgatados, mas atores da transformação do mesmo sistema. São sujeitos do atual desenvolvimento que envolve toda a sociedade.69 No dizer de João Paulo II, os excluídos são os protagonistas da própria promoção e evangelização.70 Esta mudança radical é possível, se com a questão do pobre, do excluído, é reconhecida e construída também a questão do outro. Sua alteridade – diferença e diversidade constitutivas de identidade - é a arma de resistência mais eficaz. “É o muro que separa o colonizador do santíssimo dos povos colonizados”71. É o lugar da reconstrução do terceiro sujeito das atuais transformações humanitárias.

Numa ética em que a lógica da transformação se opõe à

66 DM, Paz, II, 18. 67 Cf. DM, Paz, II, 19.

68 Cf. SUESS, Paulo. Missão, caminho de libertação. Em: VV.AA. O

Evangelho nas culturas, p. 104.

69 Cf. DP 485.

70 Cf. JOÃO PAULO II. Em: DSD, Mensagem aos indígenas, n. 6.

71 SUESS, Paulo. Evangelizar a partir dos projetos históricos dos

lógica da exclusão, o terceiro sujeito, cobrador das promessas do moderno sistema neoliberal, tem o papel de esclarecimento e guia perante as mudanças globais.72 Persegue o projeto de construir uma aproximação entre os povos cuja matriz tenha o seu referencial na proximidade do Deus da Vida que estabelece novas relações entre grupos sociais e indivíduos e entre a humanidade como um todo e a criação73.

Em nossos dias, portanto, a construção da nova sociedade há de acontecer num mundo que luta pela própria autonomia74, pela autodeterminação política e pela cidadania, pela participação democrática, pela igualdade dos direitos/deveres e da diversidade de orientações ideológicas75. A visão de um mundo novo dos pobres, afirma Paulo Suess, não é uma visão pobre, mas a construção de uma nova sociedade que há de realizar-se através das conquistas da modernidade, purificada da apropriação neoliberal.76 A opção solidária pelos excluídos visa sempre ao protagonismo dos outros, nunca ao agir em lugar dos mesmos.77 Por isso, a missão eclesial consistirá sempre em estar a serviço das causas dos humilhados para comprovar sua fidelidade a Cristo e tornar-se verdadeiramente a Igreja dos pobres de

72 Cf. Idem. Missão, caminho de..., op. cit., p. 105.

73 SUESS, Paulo. Desafios do paradigma da inculturação. Proximidade aos

pobres na diversidade de suas culturas, “manuscrito”, p. 6.

74 Cf. GS 36.

75 Cf. SUESS, Paulo. Missão, caminho de..., op. cit., p. 103. 76 Cf. Ibidem, p. 103.

77

hoje, a partir das conquistas da pós-modernidade.

A solidariedade dos excluídos entre si, concomitante à solidariedade dos incluídos que se convertem, vem organizando e fortalecendo uma vivência sócio-econômico- alternativa. É o projeto de uma sociedade construída a partir de um processo de conscientização e formação crítica que resiste ao extermínio dos pobres. É uma organização articulada na comunhão e na partilha fraterna da fé e dos bens, em benefício de todos. O futuro é construído não somente na articulação de grandes movimentos, mas também a partir das ações e práticas cotidianas e das diversas lutas locais e parciais78.

As vítimas do sistema resistem, criando cada vez mais alternativas de sobrevivência. Organizam-se através de lutas populares para adquirir saneamento básico, moradia, terra, escolas, postos de saúde, atendimento sanitário; através de movimentos sindicais; de grupos de pressão da sociedade civil; de associações de bairro; associações por categorias; através da organização de pequenos produtores; de organizações não governamentais (ONGs). Projetam e alimentam a utopia de uma sociedade sempre em construção, pela qual vale a pena lutar e dar a vida pela vida que desabrocha nos seres excluídos.

78 Cf. ANDRADE, Paulo Fernando Carneiro. Novos paradigmas e teologia

latino-americana. Em: FABRI, dos Anjos Márcio (Org.). Teologia e novos