Um dos aspectos discutidos por diversos autores ao redor do mundo quando o assunto é pesquisa-ação é com relação aos tipos de participação. Mas o que é participação na pesquisa-ação? Participação é cooperação? Participação é colaboração?
Tenório (1990) faz uma afirmação com relação ao termo participar. O autor diz:
O que se precisa entender é que participar é fazer política e esta depende das relações de poder percebidas. Que participar é uma prática social na qual os interlocutores detêm conhecimentos que, apesar de diferentes, devem ser integrados. Que o conhecimento não pertence somente a quem passou pelo processo de educação formal, ele é inerente a todo ser humano. Que se uma pessoa é capaz de pensar sua experiência, ela também é capaz de produzir conhecimento. Que participar é repensar o seu saber em confronto com outros saberes. Participar é fazer com e não para. (TENÓRIO, 1990).
“Participação é um processo a ser gerado. O processo inicia-se com intento participativo e prossegue pela construção de processos participativos em uma atividade dentro dos limites postos pelos participantes e as condições” (THIOLLENT, 2009, p. 12). Para Morin (2004, p. 67) a “participação exige engajamento pessoal, abertura à atividade humana, sem relação de dependência, onde o diálogo prevalece nas relações de cooperação ou de colaboração”.
Na visão de Henri Desroche (2006), a cooperação aparece como sendo muito mais exigente que a participação ou a simples colaboração, pois ela requer um maior grau de comprometimento e de reciprocidade entre os atores implicados. A pesquisa-ação pode adquirir uma dimensão do tipo cooperativo que parece mais complexo e bem superior à simples participação operando na pesquisa participativa mais praticada (THIOLLENT, 2009, p. 142).
Coughlan e Coghlan (2002), afirmam que pesquisadores ação fazem ação: pesquisadores ação não estão simplesmente observando acontecimentos, eles estão trabalhando ativamente para fazer acontecer. Neste sentido, os autores afirmam que a pesquisa-ação é interativa, pois requer cooperação entre os pesquisadores e clientes, e um ajuste contínuo para novas informações e novos eventos. Assim, a pesquisa-ação demanda envolvimento integral do pesquisador na tentativa de mudar a organização. (ÉDEN e HUXHAM, 2000)
É importante destacar que um dos principais focos da pesquisa-ação é a ênfase no papel do pesquisador (WESTBROOK, 1995). Dessa forma, um pesquisador ação é um participante na execução de um sistema, e ao mesmo tempo tem como finalidade avaliar certa intervenção técnica. Nesse sentido, esclarece que o pesquisador ação não é um observador independente, mas torna-se um participante, e que o processo de mudança torna-se o objeto da pesquisa.
Os autores Herr e Anderson (2005) e Greenwood e Levin (1998) dão atenção especial à posicionalidade do pesquisador. Baseiam seus argumentos sobre a distinção entre pesquisador insider e outsider, onde para Greenwood e Levin (1998), insiders são considerados os ‘donos’ do problema, mas eles não são homogêneos, igualitários, ou de qualquer forma um grupo ideal. Eles simplesmente são o próprio problema. Outsiders são os pesquisadores profissionais que buscam facilitar um processo destinado a resolver problemas locais. Insiders e outsiders são ao mesmo tempo iguais e diferentes. São diferentes porque a maior parte dos insiders tem que viver diretamente com os resultados de qualquer atividade de mudança em um projeto, enquanto a maioria dos outsiders pode sair. Outra diferença é a de que o insider tem influência central sobre o foco da atividade de pesquisa.
Em muitas situações, o papel do pesquisador na pesquisa-ação é empregado principalmente para facilitar o diálogo e promover a análise reflexiva entre os participantes, fornecer-lhes relatórios periódicos, e escrever um relatório final, quando o envolvimento do pesquisador terminou. Uma vez que a pesquisa-ação é realizada em circunstâncias reais do mundo, e envolve fechar e abrir a comunicação entre as pessoas envolvidas, os pesquisadores ação devem prestar muita atenção às considerações éticas na condução dos seus trabalhos.
A questão da participação para os pesquisadores da corrente francófona, tem em Henry Desroche um dos principais estudos a respeito das tipologias da participação (esta tipologia é abordada por Thiollent (2009, 2006), Morin (2004) e El Andaloussi (2004)), e vai desde uma participação integral, aplicada, distanciada, informativa, espontânea, usuária, militante até ocasional. Nesse sentido, a Tabela 1 traz a pesquisa-ação e suas tipologias de participações. A primeira observação com relação aos dados da tabela é com a simbologia utilizada (+, -), onde Thiollent (2006) salienta que não é para ser considerado como tudo ou nada, mas sim como ‘presença forte’ e ‘presença fraca’.
Tabela 1: Pesquisa-ação e tipologia de participações
DE
EXPLICAÇÃO DE APLICAÇÃO DE IMPLICAÇÃO TIPO DE PARTICIPAÇÃO
SOBRE Sobre a ação e seus atores
PARA
Para a ação e seus atores
POR
Pela ação e seus atores 1 + + + Integral 2 + + - Aplicada 3 + - + Distanciada 4 + - - Informativa 5 - - + Espontânea 6 - + - Usuária 7 - + + Militante 8 - - - Ocasional/Improvisada Fonte: Desroche (2006, p. 48)
Assim, estes oito tipos de participação constituem-se em possibilidades que abrangem desde a participação integral ou máxima na qual os três tipos de pesquisa sobre, para e por são enfatizados, até a participação ocasional ou mínima que se encontra em pesquisas iniciais (THIOLLENT, 2009). Para entender em profundidade o significado dos dados constantes desta tabela, estão em detalhes a seguir os tipos de pesquisa associados aos tipos de participação:
1- pesquisa de explicação ou pesquisa sobre: é uma pesquisa sobre a ação, mas sem ação. Deve responder duas questões: a) a ação sendo o que ela é, quais são as causas das quais ela é efeito? A decisão de tal ou qual alternativa não cabe ao pesquisador, e sim é responsabilidade do ator; b) a ação sendo o que ela se projeta ser, quais são os efeitos dos quais ela seria a causa?
2- pesquisa aplicada ou pesquisa para: é o ator quem dispõe, mas o pesquisador propõe. As aplicações podem ser esperadas e calculadas para contribuir com as mais diversas políticas, desde educação formal ou informal até planejamento centralizado ou descentralizado.
3- pesquisa de implicação ou pesquisa por: esta modalidade ocorre quer por implicação dos pesquisadores na ação dos atores, quer por implicação dos atores na pesquisa dos pesquisadores. Pode ser um ou outro ou, às vezes, um e outro. Assim, os autores de uma pesquisa tornam-se coatores de uma operação, e/ou os atores de uma operação tornam-se
coautores de uma pesquisa, seja qual for o guia que norteia ou essa copesquisa ou essa cooperação. Para Desroche é esse tipo de pesquisa-ação que seria a mais promissora.
Em outras palavras, as tipologias ocorrem no sentido de serem sobre, para e por. Sobre (explicação) os atores sociais, suas ações, interações. Para (aplicação) dotar de uma prática racional à prática espontânea. Por elas (implicação), ou seja, assumida por seus próprios atores. Com isso, o que amplia a tipologia são as formas de participação do pesquisador. O degrau da participação envolve a explicação, a aplicação e a implicação. O que é detalhado a seguir:
1- Participação integral: a pesquisa é sobre os atores e sua ação, bem como é feita por eles mesmos: são eles que a assumem e a gerem. Também é realizada para eles de acordo com suas estratégias.
2- Participação aplicada: a pesquisa é feita para eles, para exercer efeitos de experimentação, mas não é feita por eles, mesmo quando é feita sobre eles, a partir de uma “logia” (sócio...; psico...; antropo...). É a partir de uma pesquisa fundamental que se inicia a pesquisa aplicada. 3- Participação distanciada: a pesquisa é feita sobre os atores e eles estão associados coletivamente à unidade ou à oficina de pesquisa. A pesquisa é realizada em conjunto por eles e pelos pesquisadores. Porém, não é feita para eles e para sua ação. Prioritariamente, é feita para produzir um novo tipo de pesquisa que, no entanto, não é sobre eles.
4- Participação informativa: a pesquisa não é realizada nem para e nem pelos atores, mas é feita sobre eles. No que refere a pesquisa, eles estão sendo informados pelos autores que os tem observado, analisado, interrogado.
5- Participação espontânea: a pesquisa é feita sobre eles. É o caso de ação em que os atores sociais se identificam e se apoiam sobre seu agir para esclarecer seu caminho. É o ato da reflexão mediante a ação.
6- Participação usuária: é a pesquisa onde os atores não estão implicados na produção da pesquisa. É a pesquisa utilitária, ou seja, a dos utilizadores de um produto de marketing, e que pode incluir a propaganda. Aqui, os atores não participaram da concepção (explicação) e da realização (implicação) do que a eles é endereçado (aplicação).
7- Participação militante: sem passar pelo percurso de uma pesquisa –explicação – sobre, a pesquisa é feita pelos atores e para eles. A pesquisa militante incorre no risco de doutrinação
e autolegitimação. O engajamento dos atores é admirável, o desejo de mudança é notável, mas ao grupo pode faltar espírito crítico, o que levaria à uma ação ilegítima (Morin, 2004). 8- Participação improvisada/ocasional: é a participação do autor (e/ou do ator), intelectual sem compromisso, entregue a uma improvisação em que se mesclam criatividade e fantasia, seriedade e ecletismo. Ele (o pesquisador) não premeditou ou escolheu a pesquisa. Foi a pesquisa que um dia o escolheu. Ele não pesquisa nem “sobre”, nem “para” e nem “por”. Pesquisador de acaso, ou por acaso. Porém, as vezes é ele quem descobre.
Do inter-relacionamento entre pesquisadores (autores) e atores no processo de pesquisa-ação, associado a um espaço de interlocução, resulta uma construção do conhecimento para a qual é necessário apreender a dimensão cultural, as diferenças de linguagens, as posturas sociais, as percepções e as interpretações. Morin (2004, p. 57) reforça as ideias de Desroche onde declara “uma pesquisa em que os autores de pesquisas e os atores sociais se encontram reciprocamente implicados: os atores na pesquisa e os autores na ação”.
Desta forma, pode-se dizer que os projetos denominados pesquisa-ação requerem tanto dos autores quanto dos atores desempenhar papéis participativos em ambos os lados, os dos atores e dos autores. Isto se dá de tal forma que um “entra” no espaço do outro, de maneira que esta troca se torne de forma substancial, mais do que participativa, se torne cooperativa no sentido de viver a ação e refletir sobre ela para encontrar a melhor solução para determinada situação.