3. Resultater
3.2 Strømmålinger
De acordo com Capponi (1999, p. 77) “foi dentro da oposição sindical que o povo da caminhada aprendeu a fazer política”. Ao falar do povo da caminhada será que Capponi inclui as mulheres? Talvez sim. Pois, acompanhando a politização da Diocese, muitas mulheres “cresceram” quebrando o grande tabu de que a política não era coisa para pobres e mulheres. Elas, por meio dos “grupos de Evangelho tinham consciência de fazer política através do movimento ‘custo de vida’ e das associações populares” (CAPPONI, 1999, p. 69).
Para Giulani (2004, p. 646), a mobilização das mulheres rurais não se deu na prática sindical, mas
A partir de debates sobre as condições de vida realizados em pequenos grupos, a maioria de matriz religiosa ligados às pastorais, mas também grupos de matriz laica formados a partir de mobilizações de resistência às expulsões de moradores das fazendas. É importante registrar que, em todos esses casos, são as mulheres que tomam a iniciativa de promover as reuniões, organizá-las e dirigi-las (GIULANI, 2004, p. 646).
Portanto, foi nas CEBs que as mulheres trabalhadoras rurais da Diocese de Goiás iniciaram sua politização nas décadas de 1970. Pode-se então dizer que as mulheres camponesas, indiretamente, por meio da Igreja, participaram do movimento sindical, mas não na sua direção.
A politização das mulheres tornou-se mais fecunda na década de 1980. Além de continuarem atuando na oposição sindical e se organizarem nas CEBs, participaram em outros movimentos e organizações sociais/populares.
Para Betto (1985) o cenário nacional imposto pela ditadura militar fez com que ocorresse uma politização dentro da Igreja nas décadas de 1970 e 1980.
Ao suprimir os canais de participação popular, o regime militar fez com que esse mesmo povo buscasse um novo espaço para se organizar. Esse espaço foi encontrado na Igreja, única instituição do país que, por sua índole histórica, escapa ao controle direto dos poderes públicos”. [...] O cerceamento dos canais de crítica e oposição ao regime militar, mormente após o AI-5, fez com que a voz profética da Igreja comprometida com a pastoral popular ressoasse hegemônica na defesa dos direitos humanos e na denúncia das arbitrariedades cometidas em nome da segurança nacional (BETTO, 1985, p. 20-22; 91).
Nos finais de 1970 e início de 1980 a ditadura militar brasileira dá sinal de esgotamento ao mesmo tempo em que cresce a pressão popular. Vem o chamado período de “abertura” política, com o fim do bipartidarismo e a inclusão de outras agremiações partidárias na política nacional. Desse modo, a Igreja deixa de ser o espaço hegemônico das organizações populares (BETTO, 1985, p. 92). Entram em cena os novos partidos políticos.
O Partido dos Trabalhadores foi o que ganhou mais adesão das mulheres militantes da Igreja de Goiás, bem como foi o “partido francamente apoiado pela Diocese” (PESSOA, 1999, p. 147). Sobre a relação da Diocese de Goiás com o PT eis as conclusões da avaliação diocesana de 1981 (apud CAPPONI, 1999, p. 71):
O PT especialmente deve ser dos trabalhadores mesmos. A Igreja como tal não pode entrar no partido. A tarefa da Igreja é conscientizar o povo, esclarecendo o que está em jogo, apontando o perigo de ser tapeado por políticos que tentam entrar no PT ou enganam o povo com promessas e presentes; e fazendo com que o povo tenha condição de votar livremente.
No ano de 1982, na décima segunda Assembléia diocesana (apud CAPPONI, 1999, p. 71), a Diocese de Goiás incentiva seus fiéis a militarem no partido político:
A Igreja de Goiás sempre se preocupou com a ação política dos cristãos. A fé é a força libertadora que leva à ação política. Fé e política, na vida dos
cristãos, devem andar sempre juntas, até às últimas conseqüências. Por isso todo cristão deve ter uma prática política, inclusive partidária.
Motivadas por essas decisões diocesanas muitas mulheres das comunidades de base se envolveram ativamente no PT, desde sua fundação. No ano de 1982, quando foi reconhecido oficialmente pelo Tribunal Supremo de Justiça Eleitoral, ano da primeira eleição do partido, houve mulheres das CEBs que se candidataram a vereadoras e até mesmo a vice-prefeita27. No entanto, não encontramos nenhuma como presidente do partido ou candidata a prefeita. Na compreensão de P.M.C.G. isso ocorreu por duas razões: “uma porque acho que a gente não confiava muito na gente mesma. [Outra] pelo excesso de trabalho. Tinha que ser ao mesmo tempo esposa, mãe, trabalhar pra sobreviver, pra manter a casa e a luta. Então era difícil, tinha que viajar” (P.M.C.G. Anexo T).
O depoimento anterior parece revelar a forte carga do patriarcalismo implícito sobre as mulheres, mesmo naquelas das CEBs e do Cristianismo da Libertação. Conforme Saffioti (1992, p. 193) “As relações de gênero, evidentemente, refletem concepções de gênero internalizadas por homens e mulheres. Eis porque o machismo não constitui privilégio de homens, sendo a maioria das mulheres também suas portadoras”.
Não acreditar na outra mulher pode significar a superioridade do homem sobre elas. Ser esposa, mãe e trabalhar para manter a casa pode exprimir que o mundo do doméstico, do privado, era o mundo reservado primeiramente e de competência da
mulher. Enquanto o mundo do público, fora de casa, da política era por excelência o mundo do homem28.
Somente no final da década de 1980, com a Constituição de 1988, e por toda a década de 1990, as mulheres conquistarão importantes direitos que lhes abrirão possibilidades de participação na vida política.
Apenas com a Constituição Federal de 1988 é conquistada a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres na família e na sociedade. [...] Nos anos de 80, antes da promulgação da Constituição, foi criado o conselho Nacional dos Direitos da Mulher. [...] Na década de 90, difundiu-se a perspectiva de gênero nos estudos acadêmicos e nas políticas públicas e multiplicaram-se as ONGs sobre gênero e Mulher e constituição de redes e articulações de mulheres. Inúmeros direitos e dispositivos constitucionais são regulamentados, a exemplo da Lei do Planejamento Familiar (1996/97); Lei da União Estável (1996); Cotas na Política (1995/97); Proteção ao Trabalho da Mulher (1995/1999); Assédio Sexual (2001) (RODRIGUES, 2001, p. 134).
Atuantes na vida pública partidária, assim como no movimento sindical e nos movimentos populares/sociais as mulheres pobres da Diocese de Goiás avançaram no seu processo de emancipação. Entretanto, a emancipação total, ainda não chegou. Permanece nas antigas instituições masculinas (Igrejas, sindicatos, partidos políticos) relações desiguais entre homens e mulheres. Mas, apesar das mulheres não terem conquistado a emancipação, pode-se afirmar que conquistaram emancipações.
28 As discussões levantadas pelas feministas e pelos estudos de Gênero vão quebrar com essa dicotomia
entre o mundo privado e o mundo do público. Vão afirmar que o privado, ou seja, o pessoal é também público. Assim elas deslegitimam a compreensão de que o que é feito com a mulher dentro de casa, entre quatro paredes é algo que só se refere à intimidade da família. (RODRIGUES, 2001, p. 131-142).
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Querendo identificar uma trajetória de participação e emancipação feminina de mulheres socialmente desfavorecidas, tanto pelo fato de sua condição de trabalhadora popular quanto pela sua condição de mulher em uma sociedade patriarcal, chega-se ao fim deste trabalho percebendo-se os limites por ter sido feito por um homem.
Por mais que se tenha utilizado dos recursos científicos, com uma rigorosidade metódica no recolhimento e na análise dos dados, ainda assim é um homem que escreve sobre mulheres. Porém, discutir gênero é discutir as relações entre as pessoas. Pensar a situação das mulheres por meio do gênero é pensar as relações das mulheres com os homens e vice-versa. Dessa forma, eis a importância de um homem discutir tais relações, por mais limitado que seja. A mudança nas relações sociais, para uma situação de mais igualdade e respeito ao outro, proposto pelos estudos de gênero, requer mudanças de pensamento e de práticas dos homens e das mulheres. Nesse sentido, o autor quis contribuir com esta pesquisa, para que possam surgir novas relações sociais mais justas e humanas.
Contudo, pensar apenas as relações interpessoais entre homens e mulheres na sociedade parece não ser suficiente para entendê-la e contribuir para fazê-la melhor a todas/os. Entende-se que é preciso pensar as relações sociais também pelas categorias de classe social e raça. Foi nesse intuito que o presente trabalho propôs articular a categoria de gênero com a categoria de classe social ao pesquisar a participação das mulheres na Diocese de Goiás nas décadas de 1970 e 1980.
Apesar da Igreja Católica ser uma instituição dirigida por homens, as mulheres constituem a parcela maior dos seus membros. Na Diocese de Goiás a realidade da intensa presença das mulheres não escapou à regra. Quando a Diocese optou integrar- se ao movimento latino-americano do Cristianismo da Libertação, as mulheres pobres vivenciaram uma realidade até então não experienciada.
As mulheres abastadas e suas classes dominantes, que tinham um certo domínio e privilégio no interior da Igreja, perderam a sua hegemonia. Já as mulheres das classes dominadas tiveram atenção preferencial da Igreja com a chegada de Dom Tomás Balduíno e com as transformações ocorridas na primeira metade da década de 1970.
A Diocese de Goiás, fazendo opção de classe pelos pobres lança-se em mudanças internas para atender a esse propósito. Surgem os Grupos de Evangelho - que mais tarde serão chamados de CEBs. A Diocese se denomina Igreja do Evangelho e Igreja da Caminhada. Dentre os pobres que participaram da nova orientação eclesial, a parcela maior era composta pelas mulheres, que também constituíam maioria na liderança das comunidades de base.
Participando das CEBs, muitas mulheres pertencentes às classes populares fizeram um processo de emancipação e autonomia. Deixaram de viver unicamente no mundo do privado, da casa e da família, para serem lideranças na Igreja, no mundo do público. Aprenderam a se auto-valorizar, a perceber sua potencialidade e sua capacidade, tornando-se assim agentes sociais. Participaram de muitos movimentos sociais por melhorias das condições de vida. Por fim, elas encontraram na Diocese de Goiás e na sua opção pelos pobres espaços e mediações que ocuparam, através dos quais puderam forjar conquistas pessoais e sociais. Os dados recolhidos e analisados,
sobretudo os depoimentos das mulheres, mostraram a força que o sagrado tem em suas vidas.
Os grupos e instituições religiosas como produtores de éticas, pensamentos e práticas, provocam mudanças sociais. A religião das mulheres pobres engajadas no Cristianismo da Libertação – Diocese de Goiás – provocou transformações subjetivas e objetivas para as classes subordinadas e para as mulheres que a elas pertencem.
A partir dessa experiência pode-se afirmar que a religião, dada a determinadas condições, pode contribuir para se tecer mudanças no status quo da sociedade e pode servir como instrumento das classes populares e das mulheres em suas lutas emancipatórias.
Na finalização da presente dissertação, percebe-se o quanto ela é limitada, pelo fato de não ter abordado vários outros aspectos da problemática e por ser apenas uma análise no campo da sociologia da religião. Portanto, faz-se necessário que outros campos da investigação religiosa se debrucem sobre as discussões aqui propostas, pois, só assim se terá uma compreensão mais aprofundada do objeto em questão. Mesmo não tendo a pretensão de dar conta de todo o problema, esta pesquisa quer contribuir para entendê-lo por meio da análise sociológica.
Verifica-se que apesar da forte estrutura hierárquica e patriarcal da sociedade e da Igreja, as mulheres pobres, participando das CEBs e das atividades religiosas da Diocese de Goiás, tiveram grandes conquistas. Se não conseguiram a sua total autonomia como mulheres, elas conseguiram emancipações – no plural -, que foram decisivas para sua constituição como sujeitos livres, autônomos.
Após as considerações gerais, acrescento que tenho consciência que este trabalho não respondeu aos importantes questionamentos que pairam sobre as CEBs
atualmente e nem aprofundou sobre os limites e desafios que as comunidades de base precisam superar na sua realidade.
Atribui essa ausência a dois motivos que se entrelaçam. Primeiro, porque esses questionamentos/limites/desafios necessitam de um maior aprofundamento em suas análises. Segundo, se eu o fizesse, acredito que sairia do foco principal deste trabalho, que é analisar as possibilidades que as CEBs proporcionaram às mulheres pobres que delas participaram, nas décadas de 1970 e 1980, na Diocese de Goiás. Ou seja, investigar uma trajetória de emancipação feminina num determinado tempo e espaço.
Entretanto, a título de exemplo, apresento alguns desses questionamentos. Será que, ao assumirem responsabilidades nas CEBs, as mulheres pobres não estariam aumentando a sua jornada de trabalho e conseqüentemente a exploração sobre elas?
Será que, as CEBs têm realmente um rosto feminino? Uma vez que, assuntos como sexualidade, afetividade, práticas reprodutivas e desejo não são tratados de forma mais ampla.
Diante de uma Igreja hierárquica, com poder centralizado nas mãos de homens celibatários, as mulheres pobres realmente têm poder de decisão nas CEBs?
Vários autores, entre eles Lesbaupin (1999), Ribeiro (1999), Lemos (2000; 2005), Peralías (2005), vêm dando possíveis respostas a esses questionamentos.
Compreendo que, um grande limite das comunidades eclesiais de base, que as impede de realizar um processo de libertação plena, de emancipação total das mulheres, é o fato delas pertencerem a uma sociedade patriarcal e a uma Igreja androcêntrica. Nesse sentido, concordo com Ribeiro (1999), quando teoriza que a realidade de subordinação das mulheres não mudará de forma rápida e sem constantes
lutas. Que esses limites vividos pelas comunidades de base e pelo Cristianismo da Libertação, em relação ao gênero, devem ser reconhecidos para que mulheres e homens possam descobrir outros espaços a serem ampliados e conquistados.
Apesar do número de mulheres ter crescido em encontros, estudos e formações, os homens ainda têm mais possibilidades e disponibilidades para participar, quando estes incluem viagens (RIBEIRO, 1999). Essa situação é um desafio concreto que as CEBs precisam superar, a fim de construir, no seu interior, relações mais igualitárias entre homens e mulheres.
Embora as comunidades de base e o Cristianismo da Libertação sejam importantes espaços que favorecem um processo pedagógico de emancipação das mulheres das classes populares, ainda permanecem desigualdades de gênero. No entanto, ao perguntar às mulheres de Goiás como se davam as relações entre homens e mulheres e como em uma Igreja machista, hierárquica e clerical as mulheres tiveram essa participação e esse processo de emancipação, elas não externaram sua percepção de haver machismo. Isso porque elas se referiam às décadas de 1970 e 1980. Porém, essa desigualdade de gênero na Diocese de Goiás apareceu quando falaram do período anterior à chegada de Dom Tomás e no momento atual.
Segundo Löwy (2000), dentro da Igreja Católica está ocorrendo uma reação conservadora, contrária ao Cristianismo da Libertação. Realidade que ele chama de Contra-ofensiva. Essa contra-ofensiva foi verbalizada pelas mulheres entrevistadas ao falarem de “fechamento”, de “retrocesso”, de “diferente”, no contexto atual da Igreja. Realmente, a atual conjuntura da Igreja parece estar diminuindo os espaços que favoreciam um processo de emancipação das classes populares e das mulheres pobres. Isto ratifica o que foi defendido neste trabalho: que mediante determinadas
circunstâncias históricas, a religião poderá servir para manter o status quo ou para questioná-lo e subvertê-lo.
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