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9.4 Economic activity in more detail

9.4.3 Store Norske Spitsbergen

A feira mundial de Nova Iorque em 1939 foi, para o autor, o evento que sintetizou os vários sublimes anteriores: o dinâmico, o geométrico e o eléctrico. De acordo com Nye, esta feira marca a transição no que era até então considerado sublime: dos objectos individuais maciços, passando pelos processos industriais até às simulações de horizontes. De facto, esta feira enfatizou horizontes miniaturizados do futuro e a criatividade dos laboratórios de investigação e desenvolvimento empresariais, que já durante a grande depressão norte-americana afirmavam poder resolver a crise económica e criar um mundo melhor. Dominada mais por empresas do que por nações, os expositores simulavam a vista de um avião – o objecto que maior atenção e espanto causava na época - para mostrarem aos visitantes vastos horizontes do futuro. Apesar do primeiro tema da feira ser dedicado a George Washington, foi o segundo que obteve mais atenção por parte dos expositores: Como podem a ciência e a tecnologia definir o futuro? Curiosamente, ao invés de isolar a ciência e a arte, a organização optou por mostrar estes temas como algo que permeia todas as outras coisas, ilustrando a sua interpenetração nas funções da vida moderna. De acordo com Nye, esta forma de organização da feira demonstrou também como as empresas tinham penetrado em todas as formas de vida social (Nye 1994, p. 209). As empresas tiveram um sucesso marcante nesta feira mundial, pois basearam as suas apresentações na mistura de todas as formas de persuasão possíveis naquela altura, para criar uma síntese das experiências sublimes: uma visão olímpica do futuro. Neste quadro, as grandes companhias norte-americanas demonstraram de uma forma dramática que o mundo, longe de estar terminado, estava agora a começar. De acordo com Nye, esta forma de sublime tecnológico não procurava demonstrar o poder da razão, mas sim impressionar e pacificar o visitante da feira. A exposição mundial foi, no entender do autor, uma experiência quase religiosa de escapar para um futuro ideal igualmente acessível a todos.

Os desenvolvimentos científicos e tecnológicos do início da segunda metade do século XX, trouxeram o terror de volta ao objecto tecnológico e apagaram as ilusões naives de que a ciência seria intrinsecamente benéfica. De facto, a descoberta da bomba atómica e o desenvolvimento de mísseis (para a guerra fria) e foguetões (para a corrida ao espaço), trouxeram o medo profundo da aniquilação total, em particular quando o míssil guiado tornou a bomba atómica uma ameaça imediata, e cada avanço para o espaço sugeria mais vigilância e mais vulnerabilidade. A percepção pública neste período era a de que a combinação destas duas tecnologias justificavam um grande apoio à investigação espacial, não pelos seu méritos mas como elementos de segurança nacional.

A descoberta da bomba atómica em meados da década de quarenta deixou os próprios cientistas espantados com as forças inesperadamente libertadas durante a explosão. Este espanto foi famosamente captado pela citação emocionada de Robert Oppenheimer da escritura hindu: “I am become Death, destroyer of worlds”. Nye revela que, em geral, os cientistas e gestores envolvidos na construção das primeiras bombas, sabiam que tinham aumentado a sua reputação nos meios científicos. As explicações mais comuns relativamente à construção destas armas por parte dos cientistas envolvidos relacionavam- se com o patriotismo, o avanço da ciência e a proteção do “mundo livre”. Outra explicação repetidamente adiantada pelos cientistas relacionava-se com questões de virilidade masculina e verbalizavam-se na utilização de expressões como “dar à luz” significando construir a bomba que ao explodir expressava o nascimento de um “filho”. No entanto, para o público em geral estas bombas atómicas representavam tão só uma

“nuvem de morte sem cara” (Nye 1994, p. 229), e uma fonte de um sublime terror (p. 234).

Décadas mais tarde, o sublime tecnológico colectivo revela-se de uma forma marcante durante as celebrações da construção da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, em 1986. Para o autor, este sublime colectivo foi marcado pela introdução já conhecida de tecnologias de iluminação, mas apelando às cores da bandeira em celebrações emitidas por televisão para todo o país, projetando assim o sentimento de júbilo do sublime tecnológico colectivamente patriótico. Para além disso, o autor interpreta as partidas dos foguetões espaciais do Cabo Canaveral como as peregrinações duma América laica, à procura de uma epifania para reencontrar um sublime romântico perdido nos excessos tecnológicos anteriormente mencionados (e.g. mísseis nucleares).

De uma forma recorrente ao longo do livro, David Nye compara os desenvolvimentos do sublime tecnológico com a definição do sublime Kanteano. De acordo com Kant, o sublime relaciona-se com a natureza e pode ser apreciado como uma sensação de espanto e entusiasmo solitário por parte do observador. Por outro lado, o sublime tecnológico persistiu como uma alegoria americana ao longo de dois séculos, distanciando-se de forma crescente das definições de Kant. De facto, este sublime, primeiro descrito pelas civilizações da antiguidade clássica, reemergiu no século XVIII com a apoteose da razão e o advento da industrialização, desligando-se progressivamente da natureza que lhe deu origem. Para o autor, os americanos apresentam uma particular afinidade com grandes descontinuidades na experiência sensorial, incorporando sensações muito diferentes, resultantes primeiro do sublime natural e depois do tecnológico ao percorrer nomeadamente as cataratas do Niagara, o Grand Canyon, o transporte ferroviário, as pontes suspensas, os arranha-céus, o horizonte das grandes urbes, as iluminações das invenções, a electrificação dos cartazes publicitários, as feiras tecnológicas mundiais, as explosões atómicas e os foguetes do programa espacial norte-americano.

Para além disso, o sublime tecnológico também não esteve sempre de acordo com a estética Kanteana, que se caracterizava por uma emoção universal acessível a todos. De acordo com Nye, o sublime tecnológico americano apresenta uma rápida obsolescência e foi para aqueles com maior poder político, económico e social particularmente mais relevante, tendo sido sempre discriminatório para com os trabalhadores de etnias ou profissões socialmente desvalorizadas ao longo dos tempos analisados no livro.

Por último, o autor apresenta o sublime do consumidor como uma emoção passível de ser socialmente discriminante, nascida na sociedade da segunda metade do século XX. De facto, este sublime pode ser descriminatório pois assenta na capacidade financeira da classe média para dele poder usufruir em visitas ao “novo” Grand Canyon, à Disney World ou a Las Vegas. Para o autor, a noção de sublime do consumidor contém uma contradição nos termos, pois não só nega a existência do transcendental deduzível de um “objecto” natural, como também nega a exaltação, a dificuldade e a imensidão do selvagem e do não-humano (Nye 1994, p.290). Em Las Vegas o autor encontra a expressão completa do sublime do consumidor, onde um mundo de fantasia se abre às classes médias norte-americanas. É uma paisagem de surrealismo capitalista, onde a ordem criada pelos humanos parece substituir totalmente e acriticamente a ordem da natureza, numa combinação de luzes, pesos, ilusões e representações do mundo do fantástico. Estas emoções aparecem misturadas com a excitação do jogo, que contém o terror da catástrofe financeira e a alusão a um grande “jackpot” (Nye 1994, p. 294). Esta

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mistura é portanto uma epifania não só marcada actualmente pela racionalidade e a dominação social, mas também que foi reduzida à corrida das estimulações, numa escapadela do mundo do trabalho para a classe média norte-americana.

Na sua interpretação, quiçá demasiadamente extensa dos grandes marcos históricos da sociedade norte-americana, Nye distingue o deslumbre americano pelo objecto tecnológico com raras comparações europeias, deixando o leitor não americano algo distanciado da narração. De uma forma mais interessante, a introdução de tecnologia é vista pelo autor como uma atividade humana e, portanto, como um facto social resultante do avanço tecnológico e embebido num contexto civilizacional mais vasto, onde se narram, com alguma riqueza, a história das escolhas humanas.

Referências

Nye, David E. (1994) American Technological Sublime, Cambridge, MIT Press, 362 páginas. ISBN: 0262640341