Há elementos, na performance, que produzem materialidades próprias do espaço performativo, este que, independentemente da arquitetura ou do espaço público onde se dá tal acontecimento, proporciona sua espacialidade. A espacialidade assim emerge na e através da performance, da mesma maneira que elementos como a corporeidade e a tonalidade. A espacialidade que se inaugura com a performance é, como ela, efêmera e pode abrir possibilidades relevantes para as relações entre performer (ator) e público, assim como para a percepção e todo tipo de movimento de pessoas, objetos, luzes, sons, que, por sua vez “podem transformar esse espaço instável e flutuante” (FISCHER-LICHTE, 2008, p.107). As formas através das quais essas possibilidades são usadas, tratadas ou mesmo subvertidas interferem no espaço performativo que reinstaura outra espacialidade para a performance.
Fischer-Lichte, abordando os elementos que compõem a materialidade da performance, destaca a tonalidade como a presença de todas as possibilidades de sons participando do estabelecimento do espaço performativo. A tonalidade tem forte potencial afetivo e sintetiza o transitório.
O som tem repercução e percepção imediatas, toca facilmente e afetivamente as pessoas, estende o espaço performativo, brinca com os limites do dentro e fora da performance, traz para seu universo o que está ao redor e caracteriza-se por inexistir no momento seguinte de seu surgimento. Nada mais efêmero.
A música, as vozes ou outras sonoridades são o conjunto que constitui o espaço aural68e que dissolve os limites do espaço performativo. A tonalidade escapa ao controle de qualquer um, já que se constitui dos sons do performer e da performance, assim como os que vêm da audiência; portanto, está ligada ao acaso e pertence à esfera dos eventos mais que do trabalho de arte.
O espaço aural, assim como o espaço performativo, desloca-se frequentemente, quebrando limites pré-determinados e estendendo-os para além do espaço geográfico e
68 Não possuímos a palavra aural em português, por isso ela permanece no texto em inglês. Procurei entender o
significado do espaço aural abordado por Fischer-Lichte (2008, p.122) por meio da palavra aura, o que me permite pensar que este espaço é o estado de espírito que vai emanar da performance, uma vez que os sons têm a capacidade de imprimir naquele que os escuta estados que podem ir da melancolia à euforia.
arquitetural onde acontece a performance. Portanto, o espaço da performance é uma conjunção de territórios físicos e psicoafetivos, pois o evento acontece em algum lugar geográfico, seja a cidade, a natureza, ou um espaço arquitetônico, muitas vezes um lugar específico para o qual a performance foi pensada e longe do qual ela inexiste. O espaço da performance é também o espaço para onde as materialidades se estendem e, da mesma maneira, é o espaço interno do performer, o de seu self e o de sua memória, assim como o de seus interlocutores – a audiência – pois é nesse lugar que a performance verdadeiramente atua como processo de provocação e transformação.
Importante ressaltar, entre os tipos de sons, as vozes, pois estas são sonoridades que criam não só uma atmosfera, mas também uma forte corporalidade. Esses sons fazem parte de um processo que envolve por inteiro o corpo.
A voz serve à palavra falada, mas desta se tornou independente e tal descolamento tem sido explorado desde os anos 1960 pela performance arte e pelo teatro. Desde então, a tensão gerada entre a voz e a linguagem é emblemática para a performance que busca garantir que sua individualidade seja sempre ouvida sem nunca desaparecer por detrás da linguagem. Fischer-Lichte salienta que enquanto a linguagem é capaz de mentir, o corpo é compreendido como verdade e autenticidade. A voz, materialidade corpórea evidente, vem de dentro de uma existência particular para tomar lugar no espaço e na significação do ouvido alheio. Corresponde, portanto, a uma verdade corporificada que se expressa por meio de sua entonação, sensualidade, suavidade ou agressividade. Por sua própria materialidade, a voz é capaz de provocar afetos e escapar do poder da racionalidade. Ela expressa o sujeito-corpo sendo no mundo para o outro e, por sua materialidade, é linguagem sem, necessariamente, tornar-se significado, ou seja, é capaz de se fazer ouvir por si mesma.
A voz produz tonalidade, uma vez que ressoa no espaço; enfatiza corporalidade porque deixa o corpo através da respiração, sendo material que somente acontece em momentos em que o ser se transporta para fora de si e, também, registra espacialidade, por ser som que se expande no ar e para os ouvidos do espectador. Dessa maneira, a voz une tonalidade, corporalidade e espacialidade. Tendo sua materialidade sido gerada constantemente na performance, a voz produz um elo para o relacionamento entre duas subjetividades, preenchendo o espaço entre elas. A voz audível toca quem a escuta.
Como elemento capaz de ser capturado por objetos tecnológicos, pode aparecer na performance junto das sonoridades em acontecimento, como uma colagem de som, participando desse modo de uma segunda camada de materialidade.
A materialidade de uma performance também é gerada pela contribuição das subjetividades individuais que colaboram para esse surgimento, mas não são exatamente capazes de determiná-lo ou controlá-lo.
Fischer-Lichte (2008) ressalta que a materialidade da performance não é simplesmente dada, pois representa um fenômeno emergente que surge e desaparece ao longo do processo. Dessa maneira, é preciso considerar a temporalidade, que embora não seja um elemento que construa materialidade, constitui a condição que possibilita o seu surgimento no espaço.
Na organização e estruturação do tempo da performance se dá o ritmo no qual a corporeidade, a espacialidade e a tonalidade entram em relação com o outro e regulam suas aparições e desaparecimentos no espaço. Sendo assim, o ritmo é considerado um princípio organizador que se destina à regularidade. Nele o que é previsível interage com o imprevisível. É na troca entre repetição e desvio que se dá a cadência, pois somente a repetição não é capaz de criar ritmo. O ritmo “des-hierarquiza” os elementos da performance e possibilita que eles apareçam isoladamente. Cada elemento de uma performance possui sua própria temporalidade, que pode ser transferida para outro elemento através do ritmo temporário. O espectador pode perceber, simultaneamente, diferentes temporalidades.
Fischer-Lichte (2008) pontua que o ritmo é um princípio baseado no corpo humano, cujas batidas do coração, a circulação do sangue e a respiração possuem seu próprio andamento. Da mesma maneira, os sons que o ser humano emite ao falar, os movimentos que desempenha para caminhar, dançar ou realizar outras ações expressam sempre um tipo peculiar e pessoal de ritmo. Assim, é possível dizer que o corpo humano é sem dúvida ritmicamente sintonizado e que na realização de uma performance os movimentos também são ritmicamente desempenhados, podendo os ritmos do performer provocar os ritmos pessoais de cada espectador, alterá-los ou ser por eles alterado.