A Itália era considerada uma “nação jovem” (MANN, 2008, p.142) pelo pouco tempo de
sua existência, por isso Mussolini acreditava que ela deveria ser gerida pelas novas gerações, não somente por aquelas que lutaram na Guerra, mas por aquelas que nasceram durante ela. A figura do jovem simboliza o futuro, já que eles devem tomar as rédeas quando as antigas gerações saírem de cena. Mussolini sabia disso, pois deposita suas forças nessa ideia de
transformar o movimento no “partido dos jovens e do futuro”. Para tanto, foi necessário criar
uma simbologia que fizesse os jovens identificarem no fascismo a resposta para as suas dúvidas, aproximando assim o movimento das novas gerações.
Como demonstrado na seção Violência, o rito de passagem da infância para a fase adulta era uma das armas simbólicas do fascismo, mas havia outras: “Jovens simbolizam vigor e ação: ideologia se juntou aos fatos. Os heróis e mártires fascistas morreram jovens para poderem entrar
no Panteão – símbolo representativo das novas expressões dos ideais nas formas artísticas.”
(GRIFFIN, ELDMAN, 2004, p.151)
A juventude italiana teve, desde que surgiu o movimento, certa atração pelo fascismo, pois esse se apresentava como uma alternativa sedutora dentre as duas linhas políticas mais fortes existentes naquele tempo: o liberalismo e o socialismo. Entretanto, não é somente esse fato que fez os jovens se aproximarem do fascismo, mas também a ideia de que o fascismo construiu em torno de si um movimento novo, de jovens que sabem dos problemas reais e que estão prontos para um futuro totalmente novo.
Benito Mussolini apresenta, em um de seus discursos de 1921, chamado de Fratelli dei
lavoratori, non nemici! (Irmão de trabalho, não inimigos!) o pensamento fascista sobre o que é o
jovem italiano: “E digamos a todos: Pequenos e Grandes homens da cena política nacional, digamos: abram caminho que passa a juventude italiana, que quer impor a sua fé e a sua paixão”
(MUSSOLINI, 1921, p.129)65. O que Benito Mussolini pretende, citando a juventude em seu
discurso? Elevá-la à condição de segmento social mais importante e participativo da política italiana. Os fascistas enxergavam que o mundo havia mudado com a guerra e nada melhor do
65 E diciamo a tutti: piccoli e grandi uomini della scena politica nazionale, diciamo: fate largo che passa la
que os jovens que cresceram nesse novo mundo tomarem-no para si. Esse ideal era
compartilhado por Filippo Tommaso Marinetti: “A guerra já havia revelado a verdadeira força
italiana, a força dos jovens, violenta, anti- tradicional e ultra italiana” (MARINETTI, 1924,
p.158).
Além dos jovens ex-combatentes, os estudantes – tanto universitários quanto os do ensino
básico, que eram considerados muito jovens para se alistarem – também se sentiram atraídos
pelos ideais fascistas: “Foram complementadas principalmente por estudantes demasiado jovens
para lutarem, mas aparentemente movidos por sentimentos nacionalistas igualmente extremos”
(MANN, 2008, p.144).
Esse fanatismo se devia ao fato de que esses jovens também não se sentiam representados pelos antigos partidos, não achavam seu ideal inovador, e muito menos os achavam capazes de fazer as modificações necessárias para o crescimento da nação. Por esses motivos, o número de estudantes universitários que se filiavam ao partido era muito maior que dos outros e também era
um número significativo dentro das fileiras fascistas “Os estudantes representavam nada menos
do que 13% de todos os membros, com o impressionante quociente de 9,3%” (MANN, 2008,
p.151).
Além de um discurso nacionalista que procurava elogiar os jovens como o futuro da nação, o fascismo se tornava mais atrativo também pela figura de seus líderes. A política italiana, e também a europeia, eram dominadas principalmente por anciões. Antes de Mussolini, o Primeiro Ministro mais novo a chegar ao poder tinha mais de 70 anos, o que demonstrava aos jovens e aos fascistas que essas pessoas não promoveriam mudanças e manteriam as coisas como estavam. “Muitos da nova geração estavam convictos de que os homens de barbas brancas responsáveis pela guerra, que ainda se agarravam a seus cargos, nada entendiam de suas inquietações, quer tivessem o na guerra ou não.” (PAXTON, 2007, p.92).
Benito correspondia a esse desejo em seus discursos:
Vocês sentem que o leme do Estado não retornará mais aos velhos homens da velha Itália: nem a Salandra, nem a Sonnino, nem ao chorão Orlando, nem ao porquinho Nitti? Não percebeis vós que o leme passa por uma transição espontânea de Giovanni Gioliti, o homem bastante neutro, de 1915 a Gabriele d’Annunzio que é um homem
novo? (aplausos, ovações prolongadas: Viva d’Annunzio). (MUSSOLINI, 1921, p.129)66
Mussolini e a alta cúpula do movimento eram o oposto desses políticos. Todos eram
novos, não chegando a ter mais que 50 anos: “Ao contrário do acontecia em outros partidos,
praticamente nenhum líder tinha mais de 50 anos.” (MANN, 2008, p.142). Mussolini tinha 38
anos em 1921, quando esse discurso foi proferido, e, mesmo com a pouca idade, ainda agia como se tivesse menos idade ainda. Adorava demonstrar seu tronco e as cicatrizes de guerra, era atlético e sempre fazia exercícios; quando chegou ao poder, era comum ver o Duce andando pelas ruas de Roma com seu Alfa-Romeu esportivo em alta velocidade. Benito Mussolini tentava manter jovens sua aparência e imagem, para assim continuar atraindo esse público.
Para o fascismo, os jovens tinham que ser moldados para o futuro; tinham que entrar em suas fileiras, pois eles eram o futuro e o progresso que os fascistas desejavam para toda a Itália.
Porém, não deveriam se esquecer do passado que fez com que a Itália se tornasse grandiosa: “eu
vejo entre vocês as crianças que são a aurora da vida e poucos abraçam e beijam um velho
garibaldino, um sobrevivente daquela Itália heroica.” (MUSSOLINI, 1921, p.181)67. Em outras
palavras, os jovens que desejavam entrar para o movimento fascista deveriam caminhar sempre
para frente, em direção ao progresso e ao futuro da Itália, mas deviam sempre olhar para trás,
para perceberem de onde veio o passado glorioso de seu país. Somente assim a revolução que os fascistas tanto defendiam poderia se realizar.