5 PERSONKRETS
5.3 Stnavl. § 18
Em todos os encontros em que Joana nos fala de umbanda, refere-se muito à sua mãe: D. Chiquinha, que foi quem tudo lhe ensinou. Portanto, para falar de seu terreiro, precisamos falar também da primeira mãe-de-santo e fundadora da casa.
Inúmeras vezes, Joana repetia que ainda criança, sua mãe virou benzedeira famosa na região em que vivia, pois tinha uma “mediunidade” fortíssima e curava as pessoas da fazenda em que morava a ponto de realizarem fila na porta de sua casa:
Com sete anos já fazia cura, sem saber que estava fazendo cura, porque uma criança de sete anos não sabe nada. Então uma pessoa estava sentindo dor, ela ficava passando a mão, passando a mão, meu avô que contava, meu avô e ela, a pessoa ficava boa, aí ela ia brincar para lá e a pessoa ficava boa, não sentindo nada. Às vezes tinha gente doída lá, histérica, quebrando tudo, ela entrava no meio e ia conversando, conversando, e a pessoa ficava boa (...) Porque naquela época, há cinquenta, sessenta, setenta anos atrás, não existia,
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A maioria das vezes, mas nem sempre, redigia títulos para os cabeçalhos de meus registros de campo.
106 Sobre o usual atraso dos pais e mães de santos nas interações com os pesquisadores de religiões afro-
assim, centro. Era mais as pessoas que benziam, mas não tinha santo, sabe? Assim, imagem não tinha, imagem de caboclo, preto-velho, baiano, não tinha. Se tinha, era muito longe daqui, né? (...) há cinquenta anos atrás, quer dizer, sempre existiu a umbanda, tudo, só que era diferente, não tinha as imagens. O povo então, se tivesse que fazer uma cura, a pessoa quando estava conversando pegava um pauzinho e fica... [riscando], no chão, dali a um pouquinho, se fosse um feitiço para matar, matava, se fosse para curar, curava. Era assim (Entrevista com Joana colhida por Fábio Leme).
Joana relatou ainda que quando D. Chiquinha se casou, o marido não aceitava alguns de seus comportamentos, e levou a esposa para médicos psiquiatras. No entanto, o próprio médico afirmou que não poderia ajudá-la, pois não se tratava de uma louca, mas de uma médium.
Foi quando o pai de Joana levou a esposa para um centro espírita no qual foi de fato atestado que D. Chiquinha era uma médium „muito forte‟. Joana afirma que sua mãe, no entanto, começou a trabalhar na “mesa branca”, mas não gostou e foi-lhe indicado que procurasse um terreiro de umbanda.
A mãe-de-santo conta que logo que sua mãe pisou num centro de umbanda pela primeira vez, incorporou um preto-velho sem nunca ter visto um antes. Tratava-se do centro de Dona Maria Abadia, célebre mãe-de-santo de Ribeirão Preto, mas logo depois D. Chiquinha fundou seu próprio centro em Jardinópolis, e por sessenta anos o chefiou, tornando-se uma das mães- de-santo mais célebres da região de Ribeirão Preto.
Joana conta que antes de sua mãe falecer, há pouco mais de dez anos, sua mãe anunciou para toda a família o dia de sua morte. Sabia o dia exato que morreria e preparou sua família. Apesar disso, ninguém dizia quem ocuparia o cargo de mãe-de-santo, pois apesar de Joana acompanhá-la desde muito nova, sua mãe nunca havia dito nada a respeito.
Joana dizia que não queria, pois sabia que o terreiro tomaria muito tempo de sua vida e ela tinha filhos e maridos pra “cuidar”. Antes de falecer, no entanto, D. Chiquinha anunciou à filha que seria ela quem ocuparia seu cargo. Joana ficou aflita, pois respondeu não saber tudo o que sua mãe sabia. Ela, por sua vez, tranquilizou-a: “espera, você vai saber”.
Dias depois da morte de sua mãe, Joana teve um sonho em que D. Chiquinha revelou-lhe todos os “segredos” sobre o terreiro: levou sua filha a cada ponto do centro e explicou cada coisa para o que servia. Até hoje, quando tem alguma dúvida, Joana diz receber recados de sua mãe através de sonhos. Além disso, Joana diz que passou a incorporar as entidades de D. Chiquinha após sua morte e estas também lhe ensinaram muito sobre os fundamentos da umbanda.
Mas apesar de não saber explicitamente que seria ela a ocupar o posto de mãe-de- santo, Joana diz que de toda a família, ela sempre foi a mais presente no centro. Desenvolveu sua mediunidade a partir dos sete anos e desde então, trabalhou ao lado de sua mãe e continua ainda hoje, pois, segundo ela, em todos os dias em que há ritual no centro, sua mãe está sempre “presente”.
D. Chiquinha é reverenciada e lembrada não só por Joana, mas também pelos médiuns, pois em todos os dias de ritual cumprimentam tocando na sua foto pendurada à parede no início e no fim de cada trabalho107.
Em relação às pombagiras, Joana contou que ela, assim como era com sua mãe, não as incorpora com a mesma frequência que outras médiuns, mas frisa o quanto estas entidades trazem benefícios às pessoas. Ao falar delas, Joana evidencia que não trabalham para o “mal” e repete esta ideia inúmeras vezes.
Mais tarde, percebi que esta insistência em negar a “maldade” da pombagira era sintoma do medo de maledicências e é isso que faz com que os rituais de “esquerda” sejam muitas vezes “fechados” ou desconhecidos do grande público.
Mas após aquela conversa, senti que as portas começavam a se abrir, a empatia havia sido recíproca e fiquei confiante. Joana afirmou que, por ela, a pesquisa estava consentida, mas eu teria primeiramente que pedir autorização à Maria Padilha, pombagira principal da casa e entidade de sua irmã.
107“Trabalho” é utilizado para se referir ao ritual e “trabalhar”pode ser compreendido como o ato de participar
Foi quando Joana convidou-me para uma festa de pombagira que seria realizada em breve e lá eu poderia pedir a autorização. Fiquei feliz, ninguém sabia como seria a esquerda do centro do “Pai Benedito” , havia uma grande curiosidade e seria a primeira vez que eu veria uma pombagira.