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Identificando-me com esta tendência de pesquisa é que me propus a desenvolver esta pesquisa autobiográfica. Esta é um processo de autoformação, na medida em que sou, simultaneamente objeto e sujeito da formação, pois ao mesmo tempo que caminho pesquisando, conhecendo e experienciando a Arte de Viver, desenvolvo um olhar consciente sobre mim mesmo, sobre a situação, sobre o processo de formação em curso, os processos de aprendizagem e de conhecimento. É um “caminhar para si”, imagem escolhida por Josso por condensar as várias idéias que estão no centro do questionamento sobre a formação e a autoformação.

[...] se trata de fato, da atividade de um sujeito que empreende uma viagem ao longo da qual ela vai explorar o viajante, começando por reconstituir o itinerário e os diferentes cruzamentos com os caminhos de outrem, as paragens mais ou menos longas no decurso do caminho, os encontros, os acontecimentos, as explorações e as atividades que permitem ao viajante não apenas localizar-se no espaço-tempo do aqui e agora, mas, ainda, compreender o que o orientou, fazer o inventário da sua bagagem recordar os seus sonhos, contar as cicatrizes dos incidentes de percurso, descrever as suas atitudes interiores e os seus comportamentos. Em outras palavras, ir ao encontro de si visa a descoberta e a compreensão de que viagem e viajante são apenas um (JOSSO, 2004, p. 58).

Querendo contribuir para reinventar as práticas multiformes que compõem o método biográfico, criei uma metodologia inovadora que denominei de meditação autobiográfica, uma metodologia diferenciada dos modelos de escrita autobiográfica que, em geral, propõem um caminho reflexivo, racional ou segundo um plano pré-estabelecido. Esta foi uma experiência que enveredou pelos caminhos da incerteza, da intuição, da inspiração, acessando níveis de consciência sempre mais profundos. O caminho escolhido foi o do Yoga, mais especificamente, aquele ensinado e praticado por Sri Sri Ravi Shankar, fundador da Arte de Viver. Consistiu em escrever uma autobiografia temática, isto é, a minha história espiritual na Arte de Viver após a prática do s dhana6da Arte de Viver ( sanas, pranay mas,

sudarshan kryia® e meditação), em um estado meditativo de elevada calma e tranquilidade, no estado de sam dhi. Este caminho constituiu-se simultaneamente instrumento e objeto de pesquisa, na medida em que experimentando e conhecendo as suas práticas, descortinava o universo da cultura hindu e eu-mesma em relação com esta, as transformações físicas, pessoais, afetivas, profissionais e espirituais em processo.

O método foi construído no processo de pesquisa, a partir da minha experiência, e estruturado em três fases distintas: a primeira fase abrangeu a prática de sanas, pranay mas e sudarshan kirya®, com a intenção de eliminar as diversas perturbações advindas do corpo físico, das emoções e da própria mente, alcançado um estado de calma e tranquilidade, totalizando um tempo aproximado de 1 hora; a segunda fase consistia em realizar a meditação proposta pelos ensinamentos de Sri Sri Ravi Shankar, a meditação chamada Sahaj Sam dhi, a qual se utiliza de sons ou mantras pessoais para chegar ao estado meditativo, totalizando vinte minutos. Para este mestre, a meditação é a arte de não fazer nada. Meditar não é concentrar, não é focalizar o pensamento em algo. Meditar é repousar no Ser. É uma prática sem esforço, leve e delicada. Para chegar ao estado meditativo não servem técnicas de controle do pensamento. A meditação é o estado que surge naturalmente quando praticamos o Sudarshan Kriya®.

Uma mente sem agitação é meditação. Uma mente no momento presente é meditação. Uma mente que se torna não-mente é meditação. Uma mente que não tem hesitação nem antecipação é meditação. Uma mente que voltou para casa, para sua fonte é meditação (SRI SRI RAIVI SHANKAR, 2004, p. 199).

Quando a mente se aquieta, os desejos cessam e se deixa ir tensões, preocupações, a meditação acontece, o descanso total acontece. Daí surge o centramento e o foco de modo natural. Meditar é aceitar o momento presente, pensamentos, sentimentos e emoções. Aceitando e observando, estes se dissolvem, passam como nuvens no céu. Descobre-se outro estado de consciência, diferente daquele desperto, ou daquele dormindo. Sri Sri Ravi Shankar (2004) fala através de uma belíssima metáfora: “a meditação é como um vôo para o espaço sideral em que não há pôr-do-sol, amanhecer, nada além do vazio” (p. 209).

A terceira fase, já tendo alcançado um estado meditativo, de calma e tranquilidade, consistia na aplicação de samyama às experiências vividas e evocadas pela memória através da vontade e expressas em frases sugestivas. Em seguida, alcançando o estado de sampraj ta sam dhi, que pode acontecer em um tempo variável, iniciava a quarta fase, onde o fluxo de pensamentos era observado e transcrito para o papel sem

julgamentos ou racionalização. Era um mergulho no meu Ser mais profundo, uma visita às profundezas da vida, onde não existiam mentiras ou acusações, julgamentos ou auto-enganos. Esta não é uma prática intimista, mas uma prática que busca o silêncio interior, a vacuidade, o calar dos pensamentos. Foi a partir do silêncio dos pensamentos automáticos, habituais, conceituais, que a dimensão da interioridade mais profunda pôde ser alcançada.

Como recurso complementar ou de apoio às memórias referências que emergiram no processo de escrita, recorri à fotobiografia. A fotografia hoje tem sido cada vez mais valorizada nas pesquisas qualitativas, seja como documento ou como registro do cotidiano, e até como provas e evidências. Desde a sua invenção a fotografia está associada à ideia de realidade, de comprovação do real, prova de que os fatos captados e fixados no instantâneo aconteceram e da maneira como estão retratados. Porém, se sabe que uma fotografia não representa a total veracidade dos fatos e uma visão neutra da realidade. Na fotografia está presente a subjetividade de quem registra, a qual interferirá no resultado da imagem e do seu sentido. Apesar disso, imagens fotográficas têm sido utilizadas. Nos estudos autobiográficos ou de História Oral é utilizada como ativadora da memória. Segundo DELORY- MOMBERGER (2006), a fotografia é ampliadora da experiência e através dela é possível extrair lembranças e conteúdos esquecidos. Sempre gostei de fotografia, apesar de ser bastante crítica à minha própria imagem quando retratada em papel fotográfico, uma imagem fixa que não mente e que apreende um momento no tempo, um registro do real que não deixa dúvidas sobre a sua existência, mas que pode nos dizer muito mais ao longo da nossa vida.

Para Delory-Momberger,

[...] não é a representação de um real pré-existente do qual ela registra a marca de que ela guarda a impressão. Ela não é tampouco o indício de um referente ao qual está ligada. Nada se oculta sob a imagem, tudo está lá, é suficiente ler. E cada um faz isso à sua maneira. A fotografia é um processo em curso que coloca em contato e em variações com outros elementos materiais e imateriais (2006, p.108).

Neste sentido, fotografias da minha história na Arte de Viver poderão ser incluídas no texto como outra forma narrativa e referência para novas narrativas.

Em síntese, este trabalho de pesquisa de doutorado se constituiu como um projeto de autoformação em que na caminhada formo-me a mim mesmo e torno-me formador. Tendo a minha própria experiência como fonte da pesquisa, eu-sujeito em formação como centro, a minha história de vida na Arte de Viver foi narrada progressivamente compondo uma rede, uma teia que foi tecida com elementos teóricos, abrindo um diálogo com a sabedoria védica,

com a experiência formativa e com autores do campo da pedagogia. Nesta viagem, interpretações e reflexões emergiram como voos de um pássaro que necessita sobrevoar, olhar do alto, para chegar ao lugar desejado, a viagem ao universo de “A Arte de Viver” seguiu em busca de novos olhares, sentidos e significados. Assim, o texto foi-se estruturando segundo um eixo ou núcleo central escrito a partir da meditação autobiográfica, o qual posteriormente foi sendo complementado com dados, reflexões e pesquisa bibliográfica. O resultado é um texto que contém uma linguagem literária e poética, formal e acadêmica, que se complementam, caminhando lado a lado, tecendo uma história que é a história de um ser em busca de si mesmo, caminhando para si.

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3 UMA AVENTURA INESQUECÍVEL À ÍNDIA: CAOS E PAZ INTERIOR

Paz individual, paz na sociedade, paz coletiva... Começam onde estamos. Dentro de cada um de nós,

nós podemos criar a paz. Sri Sri Ravi Shankar

Todos querem paz na vida. Mas quem está preparado para os conflitos e para as perturbações da vida? O que é a Paz? Como obter a Paz? É possível viver em Paz? Onde está a Paz? Em toda a minha vida eu jamais soube viver o conflito com aceitação ou paciência. Cada evento considerado por mim como desequilibrador ou portador de sofrimento era fortemente combatido. A minha vontade era fugir de tudo aquilo, sumir, acabar com o sofrimento imediatamente. A minha capacidade de suportar era inexistente. O sofrimento interior era grandíssimo. Ansiedade, angústia eram as emoções que predominavam. Assim, eu buscava a paz e a felicidade de forma quase compulsiva. No fundo, foi a minha incapacidade de viver momentos de conflitos e sofrimentos que me levou à Arte de Viver. E é nos ensinamentos do Mestre Sri Sri Ravi Shankar que estou encontrando o equilíbrio entre os opostos na vida. É nos ensinamentos do Yoga e dos Vedas que estou compreendendo o sofrimento como uma dimensão essencial da experiência humana, descobrindo a sua importância e significado para o crescimento do ser humano em todas as suas dimensões, principalmente a espiritual.

Toda a realidade humana e na terra é dual. Tudo tem o seu oposto, e se alternam constantemente. Os opostos são aparentemente contraditórios, eles coexistem e são complementares. A dialética pré-socrática já o dizia, através de Heráclito (540 a.C. - 470 a.C.), reaparece no Renascimento e no Iluminismo, e seja na versão hegeliana ou marxista, ou outras, esta visão de dualidade, contradição, movimento e devir, tem sido uma das filosofias mais prementes da atualidade. Esta concepção de dualidade também está presente na sabedoria hindu, nos Vedas (ANEXO 3). Por alguns anos conheci esta “verdade” a partir do intelecto, porém, foi através de uma experiência que realmente vivi este conhecimento de modo muito marcante e profundo: a experiência da Paz Interior em meio ao caos.

Em fevereiro de 2006 eu viajei à Índia. Ir à Índia era um sonho que me parecia inatingível. Antes mesmo de fazer o curso da Arte de Viver eu já pensava em um dia, depois que terminasse o doutorado, dar-me este presente. Parecia uma viagem em um tempo muito longínquo, a um mundo que não parecia real. Atraíam-me as imagens, a arquitetura, as cores,

as histórias, os templos, a espiritualidade dos Mestres, e, principalmente, o exótico, o que é diferente da nossa cultura, o que é estranho, o que diverge do meu ponto de vista. Era apenas um sonho. Eu tinha muitas desculpas para não realizar este sonho: o medo do desconhecido, a língua, a falta de companhia (jamais pensei em fazer tal viagem sozinha), a falta de dinheiro etc. Mas três meses após eu ter feito o curso parte 1, o grupo da Arte de Viver no Brasil começou a organizar uma viagem à Índia, para as comemorações do Jubileu, 25 anos da fundação da Arte de Viver e dos trabalhos humanitários de Sri Sri Ravi Shankar. Eu não pensei duas vezes. Todas as minhas desculpas se esvaneceram, evaporaram. Eu tinha que ir. Eu precisava ir. Era a minha oportunidade e assim o fiz.

Foram três meses de preparativos. Meses em que eu praticava cotidianamente o Sudarshan Kriya de casa e lutava contra o cansaço, a insatisfação, a tristeza e o estresse do trabalho e das tarefas domésticas. Em meio aos preparativos da viagem, dois eventos importantes aconteceram: acompanhei minha filha Marília a uma cirurgia de adenóides e mudamos de casa. Ufa! Mais cansaço! Mas, finalmente, estava no aeroporto de Guarulhos esperando o embarque. Apesar de haver mantido contato com o grupo da Bahia e Rio de Janeiro, por e-mail e telefone, não conhecia ninguém pessoalmente. Eu era um misto de ansiedade e tranquilidade. Por algumas horas gastei o tempo passeando pelo aeroporto, fazendo os últimos preparativos: comprar dólares e comprar um presente para o Mestre Ravi Shankar. Esta última recomendação do grupo me pareceu um tanto estranha. Como vou levar um presente para o Mestre? Eu não o conheço, ele não me conhece. Imagine se todos resolvem levar um presente? Onde ele colocará tudo isso, milhares de presentes? Na verdade, eu não via muito sentido nisso. E, além do mais, era um gasto a mais, além das passagens, hospedagens, gastos com o curso parte 2 que eu deveria fazer pela primeira vez... Várias razões passavam pela minha cabeça. Mas procurei e encontrei algo que me pareceu apropriado: um pássaro em pedra semipreciosa, branco com as asas alaranjadas abertas, o bico verde, iniciando um voo. A mesma figura que está no site da Arte de Viver. Um pequeno objeto, mas muito representativo e bonito. Era este o meu presente para Sri Sri Ravi Shankar.

Encontrei o grupo na hora do embarque, por volta das três horas da tarde. Olá, sou Lúcia Rejane, de Fortaleza, muito prazer! Falei com algumas pessoas, todos ansiosos, um pouco eufóricos, como eu mesma me sentia. No grupo tinha pessoas de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Logo me identifiquei com uma jovem senhora de Salvador, Lia1, e

conversamos um pouco já na sala de embarque. A nossa viagem pela Air France deveria fazer uma escala em Paris, após, aproximadamente, 13 horas e depois outro voo diretamente para Bangalore, na Índia, cidade onde está localizado o Ashram da Arte de Viver. O longo tempo (24 horas) e o desconforto da viagem não me preocupavam, a vontade de estar lá era maior, estava disposta a qualquer sacrifício. Minha mente já estava na Índia. A viagem era apenas um detalhe técnico a ser cumprido.

Entramos no avião com quase meia hora de atraso. Um belo avião, amplo, com quase 300 lugares. Estava lotado e com calma alcancei o lugar a mim destinado na parte traseira do avião. Algumas outras pessoas do grupo estavam próximas e logo o clima de brasileiros em viagem foi criado. Quem já fez viagens aéreas internacionais percebe imediatamente que o grupo de brasileiros é sempre o mais barulhento, despreocupado, e este, especialmente, era muito alegre e divertido. Sentia-me um pouco deslocada, não participante do clima. O meu modo de ser calado, introspectivo, sério, talvez um pouco triste, saltou-me aos olhos. Tomei consciência de mim mesma. Ao meu lado viajava uma carioca do grupo e um rapaz de nacionalidade oriental, talvez coreano. Sentia-me um pouco apertada, limitada no espaço estreito da cadeira forrada de veludo azul, confortável, mas estreita, como a maioria das poltronas da classe econômica. Havia várias opções para passar o tempo: música, cinema (cada poltrona possuía a sua própria tela para escolha individual da programação, que chique!), revistas e bate papo. De vez em quando as baianas ensaiavam algumas músicas que deveriam ser apresentadas nas comemorações do Jubileu, e as pessoas próximas observavam aquele grupo com estranheza. Aliás, manifestar alegria em lugares incomuns e em momentos impróprios não parece ser bem aceito pela nossa sociedade. É uma quebra da rotina, das regras de convivências, das normas de comportamento que poucos apreciam. Ser adulto é ser sério, responsável, brincadeira é coisa de criança, a alegria deve ser contida e reservada às festas, às horas de lazer. Eu observava aquela cantoria alegre com um pouco de inveja, ensaiava cantar algumas frases com timidez e vergonha. Os versos permaneciam na minha mente, assim como a vontade de sentir esta alegria, assim, simplesmente, naturalmente, livremente. Eu não tinha idéia de que esta alegria fazia parte da Arte de Viver de Sri Sri Ravi Shankar.

As horas se passavam e para mim era difícil concentrar-me em algo. Não conseguia ler ou ver um filme. A minha mente estava a mil por hora; talvez na mesma velocidade do avião que atravessava o oceano... A maior parte do tempo eu dormi. E finalmente chegamos no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, nossa única escala antes de chegar na Índia. As horas ali foram gastas entre desembarque em um setor do aeroporto que

estava em reformas e que nos fez passar um bom tempo no frio (era inverno na Europa) e em uma longa fila, e o embarque. Neste intervalo, após sermos liberados dos procedimentos de desembarque, me deliciei com um croissant quentinho, um “cappuccino” ao estilo francês e com os perfumes das lojas especializadas. Relembrava os odores e sabores europeus, um pequeno “revival” dos bons tempos de quando eu morei na Itália.

Embarcamos na hora prevista. Da viagem entre Paris e Bangalore não me lembro de absolutamente nada. Creio que dormi sempre. Terá sido o cansaço? Ou a ansiedade? Não importa, chegamos à Índia! Era por volta da meia noite e o aeroporto estava deserto. As primeiras imagens que vi foram a de um prédio simples, andar térreo, lembrando os aeroportos brasileiros de trinta anos atrás. Nada parecido com os aeroportos modernos, amplos e elegantes do mundo ocidental. Senti o vento que fustigava minha face trazendo odores estranhos, fortes, entre o agradável e o desagradável, indecifráveis à minha capacidade olfativa. Para Bernasconi (2004), os odores da Índia são como um alarme que desperta todos os nossos sentidos, antes mesmo de descermos do avião. São uma mistura, no ar, de fumaça de incenso, essências preciosas, do sândalo e dos numerosos floristas que vendem flores em todos os ângulos das estradas; que traem a profunda superposição entre a vida religiosa nos templos e a vida cotidiana. Senti uma grande emoção: não era um sonho! A Índia existia mesmo e eu estava lá! Senti-me em contato com uma grande história da humanidade, com uma grande tradição. Era demais para mim. Respeito, honra e admiração eram os sentimentos que brotavam. Creio que quem me observasse veria uma pessoa com o olhar de uma criança que a tudo observava e admirava com curiosidade. Talvez um pouco estupefata e abobalhada. Era assim que eu me sentia, uma criança que estava descobrindo o mundo.

As primeiras horas foram gastas com a alfândega, câmbio e retirada das bagagens. Nada parecido com os procedimentos que eu já havia experimentado antes. Uma grande tenda colorida colocada ao centro do salão abrigava as bagagens que retirávamos uma a uma. Pessoas de várias nacionalidades criavam um vozerio incompreensível. Eu seguia o grupo e me guiava por algumas pessoas que estavam fazendo a viagem pela segunda vez. Logo no hall de entrada do aeroporto, uma grata surpresa. Algumas brasileiras que haviam chegado alguns dias antes nos aguardavam, vestidas com túnicas indianas, pareciam verdadeiras indianas. Receberam-nos com uma chuva de pétalas de rosas, guirlandas de flores e uma tikla (pequena marca vermelha) entre as sobrancelhas. Que bela gentileza! Às duas horas da manhã, deixaram as suas camas confortáveis e vieram nos recepcionar. Fiquei emocionada com tanto carinho. Quantas vezes nos negamos a fazer um pequeno favor que nem exige um grande esforço? Foi uma aprendizagem. Uma pequena gentileza pode nos encher o coração.

Em uma das paredes, um banner de tamanho médio com a foto de Sri Sri Ravi Shankar, o selo do Jubileu e a frase, Welcome to Bangalore (Bem-vindos a Bangalore). Senti-me em casa, não via a hora de iniciar as atividades do Curso Parte 2, que, para mim, era o grande objetivo da viagem.

Fotografia 1 – Recepção do grupo brasileiro no Aeroporto de Bangalore, fevereiro 2006.

Após uma pequena confusão com malas e carros na saída do aeroporto, vi-me dentro de uma pequena van, junto com outras três brasileiras. O nosso motorista era um hindu e falava um inglês incompreensível. Seguíamos na noite escura, por ruas estranhas e vazias, para uma direção ignota. Imaginávamos que estavam nos levando para o Ashram, onde ficaríamos hospedadas; no entanto, certo medo me acompanhava. O mesmo medo que me acompanha no Brasil quando preciso estar na rua tarde da noite; há sempre a expectativa de um assalto. E, subitamente, o motorista parou no meio da avenida. Sem nos dizer nada desceu