O conflito na Encruzilhada do Natalino foi o marco da formação da base do movimento que contou com a articulação de diversas entidades, e é também a partir daí que se pôde observar, pela primeira vez, o nível de organização e resistência dos camponeses, além da preocupação em estudarem mecanismos legais, como o Estatuto da Terra, utilizando-os para melhor se articularem e defenderem seus interesses perante o governo (FERNANDES, 2000).
Apesar de, inicialmente, ser apenas um aglomerado de algumas dezenas de famílias o acampamento chegou a mais de 600 famílias. O acampamento foi organizado por meio de comissões para resolver os principais problemas que surgissem, sendo a comissão central composta por oito membros, que se reuniam todas as noites para organizarem informações que seriam utilizadas nas pressões junto ao INCRA. A comissão de donativos organizava as doações que iam chegando, dividindo-as entre os acampados, enquanto a comissão de saneamento cuidava da coleta da água, do lixo e dos esgotos. O acampamento era dividido, também, em grupos de reflexão e todos os acontecimentos eram registrados num
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Dentro desta busca já há algum tempo um grupo do movimento busca discutir os meios necessários para a construção do Poder Popular, ou seja, a articulação entre as diversas organizações e movimentos que busquem a construção de um “Projeto Popular para o Brasil”, que organizaria a população conforme o exemplo da cidade de Fortaleza, por meio da criação de comitês populares nos bairros.
diário (MARCON, 2002).
Dessa forma, foi construído um espaço social para o exercício da luta e da militância em torno da sigla MST. Essa construção se efetua através de uma resignificação de modelos já circulantes na sociedade, como a imagem do revolucionário de esquerda do modelo marxista, assim como o pensamento cristão de assumir o “sacrifício” de construir uma sociedade mais justa. A necessidade da luta e da resistência, presentes no discurso do MST, é legitimada pela ineficiência do Estado, com o Estatuto da Terra, de realizar a Reforma Agrária no país65.
Esse acampamento contou com o apoio de diversas instituições como a CPT/RS, o Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e Cáritas, que além da orientação política e jurídica contribuíram com a aquisição de agasalhos, gêneros alimentícios, instalação de postos médicos no local e etc. Contudo, Graziano da Silva (1985) já assinalava uma das suas características fundamentais:
Paralelamente ao movimento sindical de trabalhadores rurais, organiza-se, a partir do apoio de organizações progressistas da Igreja, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Mesmo sem querer ser “paralelo” e apesar das inúmeras tentativas de “entrar” nos sindicatos rurais (particularmente nos estados do Sul) o Movimento dos Sem Terra, por dispor de uma organização própria, acabou travando uma luta quase independente do sindicalismo rural. Sua forma principal de ação constitui-se na ocupação de terras ociosas, atitude considerada muito radical para um sindicalismo que ensaiava os primeiros passos no sentido de questionar o seu atrelamento ao Estado. Em resumo, O Movimento dos Sem Terra muitas vezes somou forças à luta dos sindicatos de trabalhadores rurais; em outras, porém, dividiu.
Apesar de contar com a solidariedade dos setores progressistas da Igreja Católica, da Igreja Luterana e de diversos sindicatos, o Movimento manteve-se autônomo e estabeleceu uma forma de organização singular, que apesar de basear-se em experiências anteriores buscou adaptar-se À realidade. As bases nas quais foi organizado este primeiro acampamento certamente foram essenciais para o desfecho positivo que se deu depois de uma longa negociação com o governo, após mais de três anos de espera.
O I Congresso Nacional dos Sem Terra, realizado em 1985, se tornaria a instância máxima de deliberações do MST, nacionalmente, seguida pelos Encontros
Nacionais e Estaduais, a distribuição por regionais e os grupos de famílias. Nestes encontros são estabelecidas diretrizes a serem seguidas nos próximos cinco anos e geralmente refletem a conjuntura política do momento.
Os princípios organizativos do MST são reafirmados em toda a estrutura organizativa desde os acampamentos e assentamentos até as atividades de formação e encontros regionais, estaduais e nacionais. Eles consistem, basicamente, em sete princípios: direção coletiva, divisão de tarefas, disciplina (ou seja, respeito às decisões coletivas), planejamento das atividades, distribuição das responsabilidades e funções, crítica e auto- crítica (avaliações periódicas nas quais “cada membro tenha a humildade de realizar sua autocrítica e ao mesmo tempo criticar os erros individuais e coletivos dos demais”), estudo e a vinculação permanente com as massas (por meio do envolvimento, conhecimento e participação em todos os momentos)66.
A distribuição dos seus membros em determinadas funções e níveis permite, por sua vez, o controle e a disciplina, que se torna uma das características do movimento. Outras características a serem ressaltadas são: a criatividade em suas ações - que incluem além das ocupações, marchas67 e manifestações populares – a preocupação constante com a formação política visando à construção de uma consciência e de uma identidade coletiva fundada nos ideais ideológicos e políticos do movimento.
Durante os mais de 20 anos de atuação, o MST foi acumulando experiência na arregimentação e organização dos marginalizados e excluídos do campo e da cidade, superou diversos desafios como o de se manter coeso nacionalmente, de garantir acesso a educação para os seus integrantes, inclusive em nível superior, acesso a programas especiais de crédito, entre outros. Nesse ínterim, a formação se tornou um dos pilares do movimento que constatou a necessidade de dar formação diferenciada, principalmente política, para seus integrantes, contudo:
... a exigência da “profissionalização” de seus quadros gera novas relações de poder entre seus membros; a complexidade da organização requer redes seguras e
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Estes princípios foram retirados da cartilha “O MST: a luta pela reforma agrária e por mudanças sociais no Brasil” editada em maio de 2005 pelo MST.
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A Marcha Nacional dos Sem Terra, realizada em 1997, contou com a participação de 100 mil pessoas segundo seus organizadores e ganhou extrema notoriedade na imprensa nacional e internacional sendo considerada a maior manifestação popular após o impeachmet do ex-presidente Fernando Collor. Uma análise da marcha pode ser encontrada em CHAVES (2000).
confiáveis entre os militantes, de modo que são criados nixos dentro da estrutura organizacional; a detenção de informações por parte das lideranças distancia o conjunto de atores que participa do movimento. Assim, o grande deságio de um movimento social, que, a princípio, é composto por pessoas voluntárias, é conviver com todas essas contradições, mantendo-se eficientes na sua forma de luta, sem cair no faccionalismo. No enfrentamento das dificuldades que se apresentam, consideramos que o MST vem pautando seu crescimento em constantes reformulações, buscando manter-se consolidado. Os desafios são, contudo, muito grandes” (ANDRADE, 1998, 242).
Por outro lado, a capacidade do movimento em enfrentar as dificuldades que se apresentam tem sido impressionantes, isto se deve em grande parte ao fato de que à medida que tem crescido o Movimento tenha feito reformulações, buscando manter-se unificado, como é o caso da forma de organização dos acampamentos e assentamentos.