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Stiftelsen Cultiva Basert på intervju med daglig leder Kirsti M. Hjemdahl

César Vallejo chega a Paris, em julho de 1923, sem saber falar francês e desempregado. Durante dois anos passará fome e ficará doente. Em 24 de março de 1924, morre o seu pai. Essa dolorosa notícia, somada à sua má alimentação e às angústias

econômicas, provocou-lhe uma crise nervosa (VIGIL, 2006). Em outubro desse ano, adoece gravemente e é operado de hemorragia intestinal no Hospital de la Charité.

Essa experiência está registrada no poema “Las ventanas se han estremecido”, o qual apresenta 110 versos livres com variado número de sílabas métricas (versos anisossílabos). O texto alude, de modo geral, ao hospital e se relaciona à vivência do próprio Vallejo, que compartilhou um dos quartos com outros doentes. O tema da autobiografia em

Poemas Humanos é raro e serve apenas como ponto de partida para expressar, no caso deste

poema, “quão doloroso é ter que morrer de costas para os homens” (REYNOLDS, 1970):

Las ventanas se han estremecido, elaborando una metafísica del universo. Vidrios han caído. Un enfermo lanza su queja: la mitad por su boca lenguada y

sobrante, y toda entera, por el ano de su espalda.

Es el huracán. Un castaño del jardín de las Tullerías ha- brase abatido, al soplo del viento, que mide ochenta me- tros por segundo. Capiteles de los barrios antiguos, ha- brán caído, hendiendo, matando.

¿De qué punto interrogo, oyendo a ambas riberas de los océanos, de qué punto viene este huracán, tan digno de crédito, tan honrado de deuda, derecho a las ventanas del hospital?¡Ay las direcciones inmutables, que oscilan entre el huracán y esta pena directa de toser o defecar!¡Ay! las direcciones inmutables, que así prenden muerte en las entrañas del hospital y

despiertan células clandestinas, a deshora, en los cadáveres.

(...) (VALLEJO, 1996, p. 312).

QUIÉN HACE TANTA bulla y ni deja Testar las islas que van quedando. Un poco más de consideración (…)

Y el mantillo líquido, seis de la tarde DE LOS MÁS SOBERBIOS BEMOLES. Y la península párase

Por la espalda, abozalada, impertérrita

En la línea mortal del equilibrio. (VALLEJO, 1996, p. 170).

Afinal, estar em um quarto de hospital é, de certa forma, como estar no isolamento de uma prisão. Segundo a Poética do espaço (BACHELARD, 1974), pela explosão de uma imagem (como a das janelas que estremeceram ou a dos vidros que caíram devido a um estrondo), o passado longínquo (o da prisão de Vallejo) ressoa em ecos e não se pode mais discernir até onde se trata da repercussão daquela experiência ou se inicia uma nova.

As linguagens dos dois poemas seguem projetos diferentes. Contudo, ambos fazem alusão ao barulho de uma descarga de gases intestinais. Em Trilce, o tema abrange todo o poema. Já, nesse longo poema, sugere-se isso apenas nas quatro primeiras estrofes. Ao relacionar este fato com Paris, observa-se que há barulho também na cidade, devido a um “furacão”. Paris figura como metáfora pela qual os “capitéis” que caem equivaleriam ao excremento defecado. Contudo, o que fala mais alto no poema não é nem a flatulência e nem o furacão, mas uma queixa. Há um reclamo: “¡Ay! las direcciones inmutables!”, em um tom que expressa desejo de mudança. No poema entram em choque frontal os dois espaços que colidem de forma a tornar possível essa mudança, realizando o desejo do poeta: assim como a árvore ou os capitéis dos bairros antigos, desabaram os vidros das janelas que estremeceram. O mundo interior (da clínica) e exterior (da cidade) unifica-se, tornando-se o próprio universo a habitação do poeta, pois “todo espaço verdadeiramente habitado traz a essência da noção de casa” (BACHELARD, 1974, p. 200).

Vallejo foi operado dos intestinos. E o eu lírico, em outra parte do mesmo poema, questiona-se:

¿Cuánto tiempo ha durado la anestesia, que llaman los hombres?¡Ciencia de Dios, Teodicea!¡si se me echa a vivir en tales condiciones, anestesiado totalmente, volteada mi sensibilidad para adentro!¡Ah doctores de las sales, hombres de las esencias, prójimos de las bases!¡pido se me deje con mi tumor de conciencia,

con mi irritada lepra sensitiva, ocurra lo que ocurra, aunque me muera! Dejadme dolerme, si lo queréis, mas dejadme despierto de sueño, con todo el universo me- tido, aunque fuese a las malas, en mi temperatura polvo- rosa. (VALLEJO, 1996, p. 312).

Ele expressa toda a angústia que a possibilidade de ficar anestesiado lhe causa, a ponto de pensar na morte. Ele compara a dor física com a dor psicológica ou moral. A anestesia serve para mitigar a dor física, mas se tiver que servir também para diminuir a dor moral, o poeta revolta-se: “¡pido que me deje com mi tumor de conciencia!”. Porém, a seguir, ele começa um diálogo com um Deus próximo, em forma de litania, repetindo três vezes a mesma estrofe:

¡No es grato morir, señor, si en la vida nada se deja y si en la muerte nada es posible, sino sobre lo que se deja en la vida! (VALLEJO, 1996, p. 312).

Como já expressado por Reynolds (1970, p. 160), “a ideia de morrer sem realizar- se na vida, priva à própria morte de transcendência”. Entretanto, ao relacionar a noção de transcendência com o Absoluto, a Verdade, Girardot (1996, p. 519) observa que, para Vallejo, ”a Verdade não é Deus mas, um estado prévio da vida do homem que se perdeu”. Segundo Vigil (2005, p. 22), não lhe interessa dogmas, preceitos de uma catequese teológica e nem uma crença cerebral abstrata. Ele está mais interessado na divinização do ser humano e deste mundo do que com a vida no além.

Entretanto, não se trata de pensar em Paris, onde morou Vallejo nesse tempo de exílio, como uma cidade pouco acolhedora ou um lugar de purificação, apenas. A relação de Vallejo com a Cidade-Luz é tão ambígua quanto estar no Purgatório: não se está no inferno, mas não se deixa de sofrer com o mesmo fogo; e pode-se entrever o paraíso sem pertencer a ele. O poeta sente-se renascer, como ele mesmo diz: “Percebo-me em um país estranho, no qual tudo ganha aspecto de nascimento, luz de epifania imarcescível55” (VALLEJO, 1996, p.

298). E Franco (1996, p. 592) lembra que, outras vezes, Vallejo “observa uma cidade que se destrói, uma cidade não de luzes mas de janelas quebradas, de hospitais e de morte”, como, de fato, ele o expressou no poema acima:, “As janelas estremeceram”. Afinal, Paris proporciona-

55 Me advierto en un país extraño, en el que todo cobra relieve de nacimiento, luz de de epifanía inmarcesible.

lhe, por um lado, o contato com poetas, escritores, pintores, músicos latino-americanos e estrangeiros, o que enriqueceu o seu imaginário. Mas, por outro lado, Vallejo esteve, também, marginalizado pela sua pobreza.

Os anos 1930 foram, para o mundo do período entre guerras, extremamente desafiadores. Na condição de estrangeiro, Vallejo enfrentou árduas dificuldades. Porém, ele soube encontrar sentido e, por meio da arte e do seu engajamento, brindou ao mundo sinais de esperança. Paris será o palco no qual Vallejo ensaiará a sua poética do espaço, no sentido de servir-se deste, como meio para expressar o seu lirismo. Os lugares que aparecem nas suas crônicas e poesias configuram símbolos por meio dos quais transforma a realidade. Ele cria uma linguagem capaz de inverter, por exemplo, a situação de estranhamento em um lugar familiar; na rua, espaço do anonimato, cria visibilidade; na distância, proximidade. E, aos poucos, durante as viagens à União Soviética ou durante a Guerra Civil Espanhola, aperfeiçoará ainda mais essa arte: onde cidades bombardeadas ou campos de batalha, símbolos de injustiça e destruição, permeiam-se de uma ótica de solidariedade e abertura para um sentido novo.

Entre a liberdade e a pura poesia da infância e a imagem mais despida de quem o homem é na sua prisão absoluta faz-se um acordo: partir. Ir embora, dar chance ao espaço e ao tempo, nos quais se, por um lado, não conseguem dar cabo nem à infância que nos constitui e nem à prisão que nos marca, abre-se uma brecha de possibilidades para o encontro com o outro. Assim, Vallejo vai embora do Peru para, sem o saber ou desejar, nunca mais voltar. Será difícil abrir-se um caminho à força e aventurar-se no desconhecido. A sua vida na Cidade-Luz vai expô-lo ainda mais à miséria, mas também fará dele um ser mais comprometido do que nunca com o destino do seu país e solidário com as causas do povo espanhol na Guerra Civil, engajando à sua própria escrita. E se a sua obra mais inovadora fora

Trilce, será, no entanto, em Paris que ele realizará até o fim aquele destino prenunciado por

Orrego, o de amadurecer o estilo e a expressão pessoais.

É importante salientar que a Europa desse período (1923-1938) foi mergulhando em uma realidade social e política cada vez mais extremista, que só permitia posturas totalitárias, dominada pela tensão entre comunistas e fascistas / nazistas em detrimento da velha tradição humanista do Continente. A França dos anos 1930 é um país em crise política, social e econômica. A queda da Bolsa de New York, em 1929, repercute na Europa com um forte aumento do desemprego, subida dos preços e baixa produção industrial. Nos anos 1930, aumentam as ditaduras do tipo fascista. O fascismo é a ditadura do partido único, do culto ao chefe, do espírito de guerra e de exaltação da nação.

A França, que era basicamente rural, tornou-se, em 1931, majoritariamente urbana. Até então, a agricultura e as pequenas e médias empresas tinham um peso que fazia crer que o país era uma pequena ilha de prosperidade, em meio ao cenário mundial de crises e tensões. Porém, o governo vivia uma crise de estabilidade, pois os ministros e o presidente do Conselho foram depostos pelos deputados em meio a escândalos políticos e financeiros. A democracia parlamentar e o próprio regime republicano eram cada vez mais criticados. Para responder à crise política e social, surgiu o movimento dos Não Conformistas. A filosofia católica de Emmanuel Mounier cria, em 1931, a revista Espírito. Com a ajuda de Jacques Maritain, vinculado à democracia, renova-se o pensamento católico, oferecendo simultaneamente uma crítica ao individualismo liberal e ao coletivismo. A fenomenologia de Husserl e de Heidegger, por um lado, e o marxismo, por outro, se faziam sentir nos círculos filosóficos e literários.

Em 1934, a associação dos antigos combatentes e das ligas de extrema direita era vista pela esquerda como uma ameaça fascista. Então, a esquerda mobilizada conseguiu que a Frente Popular ganhasse as eleições de 1936, graças a um acordo entre socialistas, comunistas e radicais. Os comunistas cobram do governo a sua não intervenção na guerra de Espanha. Em 1937, a Frente Popular será deposta devido a dificuldades financeiras e a oposições políticas. (BERSTEIN, 2011).

Nesse sentido escreve Vallejo em “Negaciones de negaciones” (VALLEJO, 1973, p. 37): “humano é perder-se por falta de caminhos”. Conquanto consciente do seu tempo, o poeta procura não se acomodar. Caisso (1994, p. 10), ao comentar “Salão de Outono”, de Vallejo, diz que ele sonha com uma vida melhor:

Sonhar com uma vida mais justa e livre, de cuja inexistência fala com uma autenticidade sem igual a qualidade “horizontalizante” da arte: o humano seria, desse modo e, sobretudo, o espaço tortuoso da espera, daquilo que poderia desacomodar, daquilo que não deveria comparecer ao seu lugar, por incomodar e que, segundo Vallejo, os bons costumes da cultura burguesa não cessam de ignorar.56

Resgatar neste capítulo um pouco das vicissitudes e das promessas da sua viagem é uma tentativa de aproximação ao poeta. E tentar desvelar aquilo que ele nos diz em algumas

56 Soñar con una vida más justa y libre, de cuya inexistencia habla con autenticidad sin igual la calidad

“horizontante” del arte: lo humano sería, asimismo y sobre todo, el espacio anfractuoso de la espera, de aquello que podría desacomodarse, de lo que debería faltar a su lugar, incomodar, y que, según Vallejo, las “buenas costumbres” de la cultura burguesa, no cesan de ignorar (Caisso, 1994, p. 10).

das suas duzentos e cinquenta crônicas (CAISSO, 1994, p. 24) – ou em artigos que envia ao Peru (uma vez que ele se sustentava como colaborador das revistas de Lima, Mundial,

Variedades e Amauta) ou que publica na França e na Espanha – permitirá compreender um

pouco a sua procura, plural e contraditória, do novo. Os seus textos, posteriores à linguagem de Trilce (1922), expressam uma opção radical quanto a se opor a essa fé cega no progresso do mundo capitalista e contra o consumo e a cultura das grandes cidades, servindo-se de uma linguagem poética e plástica.

Vallejo sofre e, ao mesmo tempo, observa a vida em Paris. E assim como ama a cidade, ele, com a óptica de quem já possui uma vivência em outros lugares, consegue descrever aspectos retrógrados da cultura, mas também se nutre da alegria de acompanhar a “loucura insubstituível da arte” (Id., ibid., p. 12). Ele parece interrogar-se sobre as possibilidades do destino humano, como dirá em um poema em prosa: “Hay, madre, un sítio en el mundo, que se llama París. Un sítio muy grande y lejano y outra vez grande” (VALLEJO, 1996, p. 309, “Poema Póstumo I”, El buen sentido).

Entre os diversos gêneros que ele cultivou (poesia, conto, romance, ensaio) e gêneros do jornalismo (crônicas, entrevistas, reportagens) observa-se um diálogo entre as obras escritas durante o período transcorrido por Vallejo no exílio. Os textos dialogam entre si e se articulam com os de teóricos tais como Gaston Bachelard, Tzvetan Todorov, Martin Buber e Mikhail Bakhtin, entre outros. Como o próprio Todorov diz, “a literatura não nasce no vazio, mas no centro de um conjunto de discursos vivos, compartilhando com eles numerosas características” (TODOROV, 2010, p. 22).

Uma das crônicas de Vallejo, cujo título é “La Rotunda”, foi escrita em Paris em 1924 e publicada em El Norte, em Trujillo, 22 de fevereiro de 1924. Ela é densa como um conto de Jorge Luís Borges, ao fazer referência a uma quantidade considerável de pessoas célebres. O local La Rotonde é um café que Vallejo passou a frequentar quase diariamente, segundo afirma Armando Bazán, médico que cuidara dele entre 1923 e 1936 (BAZÁN, 1958, p. 69-73). Pode-se imaginar o clima de outono, à noite, em pleno centro de um bairro elegante da Paris dos anos 1930.

Figura 3 – “La Rotonde”. Paris, 1930.

Fonte: www.http://paris1900.lartnouveau.com/paris14/.../la_rotonde.ht... /. Acesso em: 22 abr. 2013.

La Rotonde ficava no bairro Montparnasse, em Paris. Encontrava-se, como até

hoje, no cruzamento Vavin, entre o Boulevard de Montparnasse e o Boulevard Raspail. Fora fundado por Victor Libion em 1910 e era conhecido ponto de encontro de artistas e escritores durante os anos que transcorreram entre as duas guerras mundiais. Foi ali que um dia César Vallejo por pouco não cumprimentou o filósofo espanhol Miguel de Unamuno. Mas como Vallejo ouvira Unamuno dizer que Rubén Darío era alguém em quem se viam as plumas de índio sob o chapéu, recusou-se a cumprimentá-lo e fez o seguinte comentário: “Respeito o Mestre por tudo aquilo que ele representa para Espanha e pela sua sabedoria... mas é fácil imaginar o que sentirá por mim, que uso chapéu inteiro de plumas” (VALLEJO, 1994, p. 32).

Há uma realidade profunda que determina a atração de Vallejo por esse lugar escolhido. Ele vai enraizando-se no dia a dia em um verdadeiro cosmos do qual participa todo tipo de artistas e intelectuais e, ao mesmo tempo, dá um lugar a suas raízes ancestrais indígenas que não parecem participar dessa cultura, mas estão presentes. Trata-se de um espaço para o real e para o sonho. Como diz Bachelard (1974, p. 25), “em interminável dialética, o ser abrigado sensibiliza os limites de seu abrigo” – e percebe a situação de La

Rotonde no mundo e dele mesmo nesse mundo.

A crônica relata a chegada de muitas pessoas ao café La Rotonde: Tristán Tzara, Max Jacob, Pierre Reverdy, “dadaístas que bebem e gesticulam para o público, desde suas máscaras de sátrapas absurdos do acaso” (Id., ibid., p. 30). O autor descreve, de modo familiar e simples, a vida cotidiana do café, as mulheres que o frequentam, e o que se passa no seu próprio íntimo. De repente, chega o ultraísta Francisco Miguel, que é um pintor espanhol,

amigo de Vallejo, e comenta admirado: “Julio Herrera Reissig é o pai de Vicente Huidobro57.

Veja só!”. E entrega a Vallejo a novíssima revista de arte Alfar, na qual se pode ler uma crítica de Guillermo de Torre: “Antecedentes do Creacionismo: Julio Herrera Reissig”. E desse modo uma conversação instigante se inicia.

Figura 4 – Dada et dadaïsme: la galaxie dadaïste. Fonte: www.http://www.dadart.com/. Acesso em: 22 abr. 2013.

Vallejo não teve uma relação de afinidade com Miguel de Unamuno, mas a teve, sim, com Vicente Huidobro, a quem conheceu em La Rotonde. Apesar de muitas diferenças de temperamento e de hábitos entre os dois, eles cultivaram uma amizade que durou por toda a vida. Mais tarde, Vallejo também publicaria na revista Alfar. Esta revista foi fundada e dirigida em La Coruña, Espanha, pelo poeta uruguaio Julio J. Casal. Por meio dela difundia-se literatura, as produções da Vanguarda e do Ultraísmo. Vallejo era bastante exigente quanto à qualidade do intelectual. Em relação à América Latina, ele elogiava somente a Rubén Darío. Como se pode observar no resumo da crônica intitulada “Proíbe-se ao piloto de falar” (publicada em Favorables París Poema, nº 2, em Paris, outubro de 1926; e em Amauta, nº 4,

57 O poeta Vicente Huidobro é o criador do Creacionismo, uma estética vanguardista que compara o poeta a um

pequeno Deus, pela sua mente criativa. Pretendia criar uma espécie de álgebra da linguagem de forma que os signos linguísticos adquirissem valor por sua capacidade de refletir o sentimento estético e não pelo objeto a que se faz referência por seu significado substancial, físico (Cf. TOVAR; JESÚS, Coord., 1985).

Em El arte y la revolución (p. 13), César Vallejo escreveu em uma nota de rodapé: “El Creacionismo de Vicente Huidobro, interpretación del pensamiento. No copia la vida, sino que la transforma, Huidobro; pero la transforma viciándola, falseándola. Es educar a un niño malo para hacerlo bueno, pero al transformarlo, se llega a hacer de él un muñeco de lana con dos cabezas e con rabo de mono, etc. Esto hacen todas las escuelas artísticas: Surrealismo, etc.”.

em Lima, dezembro de 1926), ele critica uma certa falta de autonomia dos artistas latino- americanos:

Aí estão duas palavras que na Europa têm sido exploradas por todos os arrivismos que se possam conceber: América Latina. Em nome da América Latina há gente que fica rica, conhecida e com prestigio. América Latina se presta para fazer discursos, versos, contos, exibições de filmes com música, salgadinhos, refrescos e humores de domingo. Dessas duas palavras tiram proveito pessoal todos aqueles que não conseguem fazer nada por conta própria, a não ser se apegando ao país de origem e a antecedentes e referências de família (VALLEJO, 1973, p. 129-130)58.

O tom dessa crônica é o de alguém que se indigna. Vallejo observa como alguns intelectuais latino-americanos iam passar um tempo na Europa, apenas pensando em serem aclamados ao voltarem ao seu país. Ele expressa isto também na crônica “La juventud de América en Europa”, escrita em Paris, em dezembro de 1928 e publicada em Mundial, nº. 450, em Lima, 1º. de fevereiro de 1929 (VALLEJO, 1994, p. 132): “Quando os jovens intelectuais da América vêm à Europa, não vêm para estudar honestamente a vida e a cultura estrangeiras, mas, para triunfar. Eles desejam que os jornais se ocupem deles, para ao voltarem à sua terra natal poderem contar que se ‘triunfou’ na Europa”.

Para Vallejo, na América Latina não se deveria ter um otimismo vulgar e exagerado a respeito da sua própria cultura, pois isso seria pouco construtivo. Ele observa como ao nos confrontarmos com sociedades estrangeiras, já de antemão, estamos inclinados a achar um saldo positivo de valores a nosso favor. Ele critica uma atitude cômoda, “de parti

pris que nos dispõe a sair ganhando desses balanços”. Quando, na verdade, acrescenta, “o

nosso mal não está em crises específicas de política, economia, religião ou arte. Mas em não termos construído nada, nem erros, nem verdades e nem ensaiarmos nada. O nosso é um caso de assustadora desolação vital” (VALLEJO, 1994, p. 131).

Ao mesmo tempo, ele, de forma irônica, faz também o seguinte comentário: “existem perguntas sem respostas, que são o espírito da ciência e o senso comum feito