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Stiffness assessment methods

1 Introduction

1.4.2 Stiffness assessment methods

Não pretendo aqui tentar definir algum conceito de identidade. Não é o nosso objetivo neste trabalho, embora seja inevitável abordar alguns conceitos e discutir aspectos que, pela nossa proposta teórica, nos parecem intrínsecos à ideia de identidade. Não a identidade, mas sim alguma identidade.

A ideia de um mapa simbólico-identitário nos leva a algumas reflexões fundamentais que, embora óbvias, têm muitas implicações que nos interessam. A analogia de mapa nos lembra de que todo mapa é uma representação esquemática que reúne e organiza um conjunto de informações de natureza semelhante. Cognitivamente, é uma síntese de alguma distinção de realidade. E porque sua elaboração é um processo cognitivo, representa a visão de mundo de um indivíduo e a possibilidade de, a partir das referências nele contidas, encontrar sua posição no mundo social. É inevitável estabelecermos mentalmente no mapa um “pontinho vermelho” assinalando na representação de realidade social uma posição correlata de onde nos achamos no mundo representado. Só é possível navegar se sabemos onde estamos e para onde queremos ir. Fora dessa condição, o mapa não teria, talvez, nenhuma outra utilidade.

De certo modo, superpomos o mapa simbólico-identitário à realidade e assim nos vemos em duas dimensões: uma representação ou imagem de realidade e uma realidade (real percebido). Não é difícil fazer isso. Na verdade, fazemos isso tão naturalmente que nos esquecemos de que se trata de versões de realidade entre as quais fazemos transposições de locus percebidos.

Podemos pensar que o mapa que construímos tem duas funções mais imediatas. Primeiro, ele é uma representação estruturada e consolidada de nossas percepções anteriores, onde cada subjetividade imaginada está disposta em posição significante e valorada. Segundo, o mapa nos oferece as referências que nos permitem saber onde estamos, ou melhor, onde nos pensamos estar. Terceiro, o mapa, por ser uma representação de mundo, fornece ao próprio indivíduo uma imagem identitária da realidade social, pois as subjetividades e relações são situadas no espaço social em um dado momento e isso é o que vai conferir historicidade às suas ações discursivas, pois são executadas ou planejadas a partir de como seu mapa está estruturado. As operações sistêmicas de seletividade são

contingentes porque se dão nas condições e num momento situado entre o passado e o futuro, e motivadas, justificadas e orientadas “por causa de” ou “fim de”.

Portanto, uma imagem contingenciada da realidade social permite ao indivíduo se localizar de modo presentificado. Entretanto, devido às intensas dinâmicas simbólicas e sociais na hipercomplexidade, qualquer imagem de realidade que o indivíduo faça da realidade social pode caducar em pouco tempo e sua ação discursiva identitária na sociedade, porque baseada em um locus estabelecido no mapa simbólico-identitário, é algo que continuamente demanda atualização. É inerente a qualquer locus estabelecido no cenário da hipermodernidade um caráter provisório e instável.

Dentre a enorme quantidade de informações disponíveis na sociedade, distinguimos aquelas de caráter de diferenciação subjetiva, ou seja, aquelas comunicações tipificadas identitárias, e as organizamos em um esquema cognitivo particular, próprio, que representa a nossa leitura desse universo identitário social a partir de nosso ponto de vista, ou seja, de nosso sistema de relevâncias. O mapa é estruturado a partir da posição do indivíduo e, ao final, o mapa lhe diz sobre onde ele – e as demais subjetividades – estão. Até aqui Nossas considerações falam apenas de “lugar”. Entretanto, é preciso ir mais além para pensarmos sobre a ideia de identidade e sobre os processos de diferenciação.

Assim, propomos o conceito de lugar-de-ser. Mas esse conceito não trata de um lugar “do ser”, a um estar presente em algum lugar, pois isso nos limitaria apenas à ideia de algum lugar devido ou a ser ocupado pelo indivíduo, ou seja, à posição de um sujeito em algum locus no espaço social. Se assim fosse, nosso conceito teria um caráter mais estruturalista e se assemelharia em parte ao conceito de “lugar de fala” (Braga, 2000), no qual o sentido de um discurso se explica pelo lugar estabelecido no contexto por um produto cultural de onde este “vê o mundo”. Não se trata de situar produtos culturais no contexto, mas sim de posições significadas e significantes de indivíduos produtores ou leitores de discursos num contexto social identitário. Efetivamente, nosso conceito de lugar-de-ser tem outro direcionamento e trata sobretudo “de ser”. Não substantivamente, como no senso comum de “ser humano”, mas como um verbo, expressando a ação de existir de uma subjetividade. O lugar-de-ser de um indivíduo refere-se à imagem, no seu mapa simbólico-identitário, de seu ponto de acoplamento à estrutura social e no qual acredita que discursivamente dará

realização de existência à sua consciência. O ser no mundo social, portanto, é vinculado e definido a partir do lugar onde o indivíduo se imagina ou se pensa no mapa simbólico- identitário.

O sentido de “ser” que integra nossa proposta tem seus fundamentos na filosofia da existência de Martin Heidegger, em especial no conceito de ser-aí [dasein]. Ele afirmou que o “pensar e ser têm seu lugar no mesmo e a partir deste mesmo formam uma unidade” e, citando Parmênides, que “o mesmo, pois, tanto é o apreender (pensar) como também ser” (2006, p. 41). Para Heidegger, o ser está em estreita relação de unidade com um ente que o compreende como realização sua de existência. O ser não é simples presença no mundo, mas sempre o ser de um ente que existe em seu mundo. O indivíduo como unidade, na perspectiva de Heidegger, é o projeto de sentido de existência de um ente (Heidegger, 2005, p. 38–41). Isso fica bastante claro em outro texto dele, um ensaio publicado originalmente em 1938 e intitulado A época das imagens de mundo:

a imagem não significa aqui um simples decalque, mas aquilo que sobressai na expressão coloquial alemã “wir sind über etwas im Bilde”, literalmente: “nós estamos na imagem a respeito de algo”. Isto significa que a própria coisa é da forma como aparece diante de nós. [...] o ente em sua totalidade agora é tomado de tal forma que ele só passa a ser na medida em que é posto por um homem que o representa e produz. Quando surge uma imagem de mundo, uma decisão essencial se consuma a respeito do ente em sua totalidade. [...] Quando o mundo se torna imagem, o ente em sua totalidade é fixado como aquilo pelo qual o homem se orienta, portanto como aquilo que o homem coloca diante de si e quer, num sentido essencial, fixar diante de si. A imagem do mundo, entendida de modo essencial, não significa uma imagem do mundo, mas o mundo concebido enquanto imagem. (Heidegger, 2007)

Observamos que estas colocações de Heidegger se articulam de modo interessante com a sociofenomenologia de Alfred Schütz, de quem já discutimos alguns conceitos em capítulos anteriores, e que reforçam nossas propostas teóricas. Assim, o ser é a realização da existência de um ente, e nesse sentido, o lugar-de-ser refere-se à posição de um ente no mundo, que na verdade é o seu mundo, uma imagem de mundo, na qual ele dê à realização de sua existência a unidade com a consciência de si, com a sua subjetividade. Considerando que o mapa simbólico-identitário é uma particularização de uma imagem de mundo, o lugar- de-ser é a posição onde o indivíduo se imagina existindo, mas existindo de um modo como ele se imagina ser. Assim, o lugar-de-ser é uma posição cognitivamente significante e determinada no mapa simbólico-identitário à qual é atribuída uma subjetividade imaginada,

de onde o indivíduo significa e é significado. A existência social de uma subjetividade, portanto, depende essencialmente de sua sustentação discursiva comunicacional.

O conceito de lugar-de-ser tem alguns aspectos mais evidentes e que devemos discutir. O mapa simbólico-identitário é, como dissemos, uma organização cognitiva individual e, portanto, é construído a partir de uma interpretação ou imagem particular de mundo. Isso implica duas situações. Num primeiro caso, o indivíduo constrói sua posição no seu mapa a partir de autorreferenciação e heterorreferenciação. Poderia ser expressa essa situação como “eu sou assim e é aqui que eu me vejo”. Como no mapa a posição é relacional, a partir de onde ele se pensa, de sua autoimagem, todo o restante é avaliado e então, por seletividade, se constrói psíquica, simbólica e socialmente. Podemos observar que disso decorre a imagem que o indivíduo faz de si, os seus sonhos e desejos. O seu sistema de relevâncias mesmo é concebido a partir de onde e de como ele se observa e se distingue do entorno. É um contínuo de pensar-se em algum lugar e de dar-se a existir em nesse lugar. O seu lugar-de-ser poderia ser entendido como aquele “pontinho vermelho” no mapa simbólico-identitário que vai permitir ao indivíduo vislumbrar seu ponto de acoplamento discursivo à estrutura social, ou seja, ter existência e agência na sociedade.

No segundo caso, o indivíduo estabelece no seu mapa uma posição atribuída a outra subjetividade imaginada. Essa posição é definida por interpretações que faz das operações de diferenciação realizadas pela outra subjetividade. Seria algo como “daqui onde estou, é assim que eu o vejo e acho que aí é onde você deveria estar”. Nos dois casos observamos que a determinação de posição é inferencial e comparativa, mas nesse segundo caso, pela natural inacessibilidade ao sistema psíquico do outro, a avaliação é mais “objetiva” sobre as ações do outro, transparecendo muito facilmente racionalizações, pré-suposições, pré- conceitos etc.

Poderia haver ainda um terceiro caso que se refere àquelas subjetividades objetivadas, formais ou não, tais como marcas, organizações, comunidades, movimentos etc. Estas se assemelham ao primeiro caso, ainda que realizadas por outros, pois são planejadas em termos de conceito, personalidade, valores, missão etc. (um ente, uma teleologia), de manifestações discursivas, design de produtos, ações etc. (o ser de um ente), e de um

posicionamento de marca (reprodução de sua diferença-identidade nos sistemas psíquicos dos seus próprios agentes e na recepção).

Sugerimos, então, que num mapa simbólico-identitário as subjetividades são todas imaginadas, no sentido cognitivo e fenomenológico do termo, e que como sistemas psíquicos estruturados são operacionalmente fechados uns aos outros, a identidade de cada subjetividade vai ser definida, então, pelas operações de diferenciação discursiva em relação ao seu entorno. Tal entorno, porque refere-se ao ser, só é possível de ser reconhecido no subsistema das comunicações das marcas contemporâneas no qual, tal como uma arena, a interdiscursividade se realiza e o indivíduo pode, então, construir seu mapa e colocar-se nele e, desde o seu lugar-de-ser, elaborar e realizar a sua existência e o seu agir no mundo.

Como dissemos no início, o lugar-de-ser é um conceito posicional e pode nos ajudar a compreender e tornar minimamente inteligível o universo das identidades sociais, percebendo as proximidades, as oposições, bem como pertencimentos, exclusões, diferenças, entre outras comparações e avaliações. Precisamos ainda descrever o conceito de cultivação identitária com o qual também discutimos o aspecto relacional do mapa.