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4.6 An idea for a tensor-product solver

4.6.3 Step 3 of Algorithm 5

Para a construção de uma vida de maior qualidade, destaca-se a relevância da crença no próprio potencial. Isso pode ser reforçado, considerando-se que as avaliações subjetivas de qualidade de vida refletem o como os indivíduos estão enfrentando a lesão medular (Ku, 2007) e que reavaliações positivas e aceitação associam-se a redução da sobrecarga de estresse (Hansen & Tate, 1984; Kennedy & cols., 2000, conforme citado por Kennedy & cols., 2009).

A reconstrução de uma visão positiva da própria saúde, a retomada do desenvolvimento de atividades e dos intercâmbios sociais, mesmo depois de instaurada uma incapacidade física, denotam possíveis fatores de resiliência. Tanto o conceito de qualidade de vida como o de resiliência são respaldados, em grande parte, por construções, pessoais, subjetivas. A avaliação da qualidade de vida pauta-se por processos perceptivos e subjetivamente interpretados de bem-estar em diferentes dimensões da vida individual. A sua avaliação no contexto da lesão medular poderá esclarecer domínios de maior ou menor prejuízo para cada indivíduo (Dijkers, 2005). A resiliência pauta-se por ganhos individuais, familiares ou da sociedade, construídos com base na vivência de eventos traumáticos.

A reabilitação deve ser compreendida em sua natureza processual. No caso da lesão medular esse processo é dinâmico e contínuo (Formal, Ditunno e Benzel, 2000). Visa ao resgate do maior nível possível de funcionamento físico, mental, espiritual, social e econômico. Compreender a resiliência em tão complexo contexto, como é o caso da reabilitação de pacientes com lesão medular, deve contribuir para a identificação de mecanismos de proteção, proporcionando para a equipe de saúde novos recursos de intervenção que adicionem qualidade de vida.

Quando se verifica a superação do indivíduo em algumas dimensões, comparando-se aos parâmetros de adaptação anteriores a ocorrência do evento, é possível considerar-se um potencial de resiliência, que mereceria ser investigado.

Os fenômenos humanos são bastante complexos. Assim torna-se imprescindível, aos avanços científicos, abordagens multimetodológicas. Em favor de um conhecimento mais complexo, várias perspectivas e conceitos necessitam ser incluídos nas análises. Foram destacadas as diversas correlações que se estabelecem entre as variáveis que foram empregadas neste estudo, demonstrando assim como análises multivariadas enriquecem a compreensão do fenômeno em estudo (Costa Neto & Araujo, 2001; Hammell, 2004; 2007b; Matos, 2006).

Como esperado, os domínios do SF-36 ‘capacidade funcional’ e ‘limitações, correlacionaram-se, positivamente, com os resultados globais da subescala motora do FIM. Todas essas análises estariam relacionadas às interferências das perdas de movimento ao desenvolvimento de rotinas e de atividades. Os resultados da subescala motora do FIM são obtidos através de perguntas mais diretas, que suscitam respostas mais objetivadas quanto à capacidade individual de desempenhar específicas tarefas, básicas e cotidianas. Por outro lado, as respostas ao Inventário Genérico de qualidade de vida SF-36, demandam interpretação mais subjetivada dos prejuízos e não constatação mais direta e objetiva da realização de tarefas específicas. Parece mais plausível a existência de maior número de correlações (diretas) entre o os domínios físicos do SF-36 e alguns itens da subescala mental. Assim, de certa forma, justificando o porquê os resultados motores do FIM , além de correlacionarem-se com a ‘capacidade funcional’, terem apresentado uma moderada correlação com o fator, do Inventário de Resiliência, ‘tenacidade e inovação’.

Foram encontradas correlações do domínio ‘capacidade funcional’ − que investiga a percepção pessoal dos prejuízos, que decorem do problema físico, para execução de atividades especificas − com outros fatores investigados pelo estudo, entre os quais: ‘vitalidade’, Escala de Resiliência, ‘saúde mental’, ‘tenacidade e inovação’, ‘saúde geral’, ‘saúde mental’, ‘satisfação no trabalho’ e ‘aspectos sociais’. Mesmo considerando-se que, para o desenvolvimento de atividades físicas, sejam imprescindíveis habilidades motoras, verifica-se a forte e significativa correlação do domínio (‘capacidade funcional’) com aspectos que refletem a saúde socioemocional. Nesse sentindo, enfatizando a forte influência do estado psicológico para o alcance de um máximo desempenho funcional, como também para o favorecimento de posturas de reconhecimento e valorização das novas habilidades físicas em desenvolvimento (Chen & Boore, 2008; Kennedy & cols., 2010). Achados que demonstram associações entre as dimensões funcionais e psicológicas, reforçam as perspectivas de intervenções biopsicossociais. Assim, dando-se ênfase à relevância de que, mesmo que, queixas, a priori, tenham sido estabelecidas por motivos físicos e funcionais, os profissionais da reabilitação incluam nos seus procedimentos clínicos avaliações e intervenções que sejam fundamentadas no modelo biopsicossocial de saúde.

Ainda, outros autores (Hansen & Tate, 1984; Kennedy & cols., 2000, conforme citado por Kennedy & cols., 2009; Kortte & cols. 2010; Van Leeuwen & cols., 2011) demonstraram que variáveis consideradas intrínsecas à psicologia positiva (expectativas positivas direcionadas ao futuro) desempenham fundamental papel na autopercepção de bem-estar entre pessoas que participaram de programas de reabilitação para a lesão medular. Migliorini e Tonge (2009), através de estudo sobre a percepção do bem-estar subjetivo, entre pessoas com lesão medular, demonstraram que mesmo que os indivíduos sejam avaliados como apresentando prejuízos de saúde ou sendo improdutivos, do ponto de vista convencional, esses ainda podem apresentar elevada percepção subjetiva de bem-estar. Atribui-se, à percepção subjetiva de bem-estar, fatores mais intrínsecos, como características de personalidade. Preconiza-se a relevância de que as avaliações convencionais em saúde não desconsiderem as compreensões subjetivas dos próprios pacientes. Nesse sentido, que passem a direcionar o desenvolvimento de novas condutas de intervenção, ampliando as perspectivas de análises de resultados favoráveis na reabilitação.

Reconhecendo-se a interdependência dos fatores que falam a favor de uma melhor saúde emocional, deve-se destacar também as correlações estabelecidas entre os fatores ‘limitações’, ‘vitalidade’, ‘aspectos sociais’, ‘saúde mental’ e resultados aferidos à Escala de Resiliência. O domínio ‘limitações’ integra os componentes físicos do Instrumento Genérico de Qualidade de Vida, SF-36, afere quanto o indivíduo acredita que o tempo gasto ou a qualidade do seu desempenho, para a realização de determinadas tarefas usuais do seu cotidiano, estejam comprometidos pelo problema de saúde. Menor comprometimento da qualidade de vida para o domínio limitações (representada por uma pontuação mais próxima de 100) está associado a avaliações mais positivas de ‘vitalidade’, ‘aspectos sociais’, ‘saúde mental’ e resiliência, conforme aferição do Inventário de Resiliência. Isso demonstra a relevância de aspectos emocionais que ampliam a autopercepção da capacidade funcional.

Estudo, desenvolvido por Van Leeuwen e cols. (2011), demonstrou que locus de controle (de um modo mais global); sentido de adequação e coerência; percepção de mais valia; esperança; atribuição de sentido na vida; e afetos positivos, associam-se consistentemente com melhores aferições de qualidade de vida. Os fatores relacionados a aspectos socioemocionais correlacionam- se com como os prejuízos funcionais – quanto às práticas de atividades cotidianas – são avaliados. Constata-se que aqueles com melhores indicadores socioafetivos, também avaliam positivamente ou como menos prejudicada as respectivas possibilidades de praticar diferentes atividades.

A literatura evidencia que situações semelhantes podem ser interpretadas de formas distintas por diferentes pessoas, de acordo com fatores subjetivos que irão interferir no modo em que o evento será avaliado. Em estudo de revisão, Chevalier e cols. (2009) destacam que os fatores relacionados ao enfrentamento e aos processos avaliativos subjacentes são reconhecidos por estabelecerem padrões de variância em relação a outras variáveis associadas ao ajustamento psicológico. O estudo, de Kortte e cols. (2010), também foi enfático quanto à relevância da

satisfação com a vida, da esperança e da presença de afetos positivos para a percepção de bem-estar entre pacientes em fase mais aguda da reabilitação (Kortte & cols., 2010).

As correlações estabelecidas com o domínio de qualidade de vida (SF-36) ‘dor’, valem a pena ser destacadas. Conforme verificado no presente estudo, a qualidade de vida associa-se a avaliações mais positivas dos domínios que investigam a percepção da saúde em suas dimensões psicossociais. Barker e cols. (2009) verificaram que o nível neurológico, a idade e o tempo de lesão medular, não predeterminaram diferenças da qualidade de vida. No entanto, constataram que as complicações secundárias da lesão medular foram consideradas as variáveis com o maior nível de correlação (negativa) com a qualidade de vida. Conforme essa perspectiva, também é possível supor que uma avaliação mais positiva dos aspectos psicossociais pode estar mais correlacionada à menor incidência de complicações associadas à lesão medular, como a dor neuropática, e menos aos aspectos socioafetivos.

A subescala motora FIM permite melhor caracterização do nível de dependência motora apresentada pelos indivíduos com lesão medular. Em especial, garante maior compreensão e diferenciação entre pessoas paraplégicas e tetraplégicas. Nesse sentido, destaca-se a forte correlação que existe entre o domínio de qualidade de vida ‘capacidade funcional’ e os resultados dos subitens motores do FIM (p-valor < 0,01; rho=66).

9.7. Equipes multiprofissionais, algumas recomendações para a prática da reabilitação

Alguns fatores individuais de proteção foram apresentados como essenciais à adaptação após a ocorrência de um trauma medular. Práticas multiprofissionais podem enriquecer o alcance de objetivos em reabilitação (Queiroz & Araujo, 2009). Nesse sentido, sempre que reflexões sobre intervenções na reabilitação de pessoas com lesão medular são apresentadas, no presente estudo, considera-se que a prática esteja ocorrendo a partir de diretrizes estabelecidas por uma equipe. Tendo sido esclarecido esse aspecto fundamental à prática da reabilitação, serão, a seguir, desenvolvidas algumas considerações e recomendações para as equipes.

É inquestionável que condutas, em equipes multiprofissionais, facilitadoras do acesso a recursos de proteção estariam contribuindo para a otimização do processo de enfrentamento e adaptação a uma lesão medular. Assim, a partir da identificação de fatores de proteção, que permitem melhor enfrentamento da lesão medular, estabeleceram-se algumas recomendações que poderão ser úteis às equipes de reabilitação.

Verifica-se como relevante ao processo de reabilitação:

 Investir na dinâmica de relacionamentos estabelecidos pelo paciente, em busca de padrões interativos mais funcionais, visando à preservação física e emocional de todos os membros da rede de apoio mais próxima;

 explorar novos sentidos de vida, que possam ampliar as perspectivas positivas de futuro, estimulando o desenvolvimento de participações mais ativas e significativas;

 abordagens que sejam direcionadas ao autocuidado, com ênfase ao restabelecimento e modificações de conceitos disfuncionais sobre a autoestima individual;

 facilitar acesso a veículos de informações que favoreçam o conhecimento e a compreensão das diversas perspectivas de reinserção social, enriquecida através da garantia de acesso a adaptações físicas e comportamentais que possam vir a favorecer a acessibilidade;

 incentivar processo de desconstrução de crenças disfuncionais, generalizando recursos de enfrentamento e perspectivas de resgate de papéis sociais;

 acesso a intervenções para a elaboração de aspectos emocional, visando a diminuição do sofrimento psicológico;

 investimentos que priorizem concepções e comportamentos a partir de parâmetros de maior flexibilidade;

 auxiliar indivíduos em reabilitação, na capacidade de planejamento, favorecendo a integração de demandas decorrentes da lesão medular ao processo de vida, incluindo de forma abrangente projetos anteriores.