Quando efectuamos uma pesquisa acerca de estudos realizados em indivíduos com amputação na tentativa de aprofundar conhecimentos sobre esta temática, torna-se deveras evidente a escassez de estudos realizados. Esta carência é ainda mais reveladora quando tentamos afunilar os temas desenvolvidos e centrar-nos no tema específico do nosso estudo. Deste modo, pareceu-nos fundamental expor o estado da arte a nível nacional e internacional com o objectivo de fundamentar a importância da necessidade de investigação neste âmbito e da relevância deste estudo.
Após uma pesquisa realizada através da análise de artigos, livros e bases de dados, podemos referir que os poucos estudos que encontramos abordam essencialmente aspectos que vão desde os benefícios da prática de actividade física para a pessoa com amputação (Teixeira, 1995; Seabra, 1996; Nogueira, 2002; Stam et al., 2004; Sousa et al., 2009), passando por aspectos relacionados com as próteses, a sua funcionalidade e aspectos biomecânicos (Meimoun, 2000; Hafren et al., 2002; Genin et al., 2005; Nogueira, 2005).
Assim, ao longo do tempo foram surgindo estudos que relacionam a actividade física e a pessoa com deficiência, explanando as vantagens do desporto para estas pessoas, nomeadamente a nível psicológico, físico e social, pelo que pretendemos aqui salientar as ideias mais importantes que foram surgindo associadas a esta prática.
No que diz respeito à prática desportiva por parte de pessoas com deficiência, em geral, Marques (1991) assinala o facto do desporto adaptado permitir diminuir problemas de mobilidade, aumentar o auto-conceito, facilitar a interacção social e a independência. Esta opinião é corroborada por Ferreira (1993), que acrescenta ainda o valor do desporto para pessoas com deficiência ao nível do desenvolvimento da autonomia motora, constituindo uma situação de sucesso perante si próprio e perante os outros, desenvolvendo o desejo natural de explorar as suas potencialidades e limitações, favorecendo a imagem corporal e contribuindo para a aceitação do corpo, bem como para a
consequente relação corporal e afectiva que este estabelece com os outros e que, no nosso trabalho, se mostra indispensável ter também em conta.
O desporto parece favorecer ainda a integração do sujeito no seio de um grupo, permitindo-lhe conhecer-se e reconhecer-se como indivíduo, desenvolver a capacidade de trabalho em grupo e a responsabilidade social, proporcionando-lhe vivências de sucesso. Parece tornar os indivíduos mais independentes, optimizando o convívio e a interacção em grupos sociais com interesses e problemas semelhantes, na tentativa de reverter tendências para o isolamento, bem como aumentar a percepção corporal e o gosto pelo seu corpo (Souza, 1994), que no caso da pessoa com amputação(ões) se revelam cruciais. Na realidade, como refere Bento (1995), a respeito desta relação entre o corpo e a prática de actividade física, o desporto constitui-se como espaço onde o corpo é interlocutor directo, onde este “ganha voz e fala”. Pode então dizer-se que, através do desporto, o corpo alcança visibilidade, observando-se a presença do corpo para cada um e do corpo para si mesmo. Com efeito, os benefícios da prática de actividade física são vastos para o indivíduo com deficiência e manifestam-se não só a nível físico e psicológico, mas também social.
Também Blinde e McClung (1997) estudaram o impacto da participação no desporto de pessoas com deficiência motora e verificaram alterações positivas nos seguintes aspectos físicos: o desporto possibilitou aos indivíduos com deficiência experienciar o seu corpo em diferentes formas; alterou a percepção do seu corpo próprio fazendo-os sentir mais capazes, mais fortes e melhorar a função do membro; criou uma visão mais positiva da sua identidade física ao terem sido capazes de fazer coisas que pensavam não ser capazes de fazer antes da sua experiência no desporto. Mas também a nível social foram identificadas melhorias na percepção social de si próprios, através das interacções com os outros e das experiências sociais que estas lhes proporcionaram, bem como favorecendo a iniciativa própria à participação em actividades sociais noutros contextos.
A participação no desporto promove ainda a realização pessoal, permite atingir objectivos, aperfeiçoar-se, encorajando o desenvolvimento da eficácia, a
cooperação e competição (Taub e Blinde, 1999). Para os autores, o desporto para os indivíduos com deficiências físicas e sensoriais permite-lhes sentir-se competentes como actores sociais activos, melhora a independência e autonomia, facilita o alcançar de objectivos e favorece a integração social.
Para além do desporto promover a oportunidade de as pessoas com deficiência se conhecerem melhor e se percepcionarem de forma mais positiva e competente como foi descrito nos estudos anteriores, segundo Gustafson et al. (2004), a prática desportiva permite também que os “outros” vejam a deficiência sob uma perspectiva mais positiva e humana. Apesar de os relatos daqueles com deficiência evidenciarem o sentimento de que são vistos pelos outros como “coitadinhos” e “incapacitados”, estes sentem que através da prática desportiva são capazes de mostrar aos “outros” as suas capacidades e sentirem-se mais valorizados socialmente.
Adicionalmente, autores como Ploeg et al., (2004) e Giacobbi e Stancil (2008) salientam que as pessoas com deficiência percepcionam da actividade física benefícios psicológicos, sociais e de saúde. As experiências por estas vivenciadas no desporto permitem-lhes elevar a auto-eficácia, a auto-estima, a autonomia e as crenças acerca de si mesmas, de tal modo que aumentam a sua motivação para continuar a praticar, favorecendo, consequentemente, a sua inclusão social. Segundo Giacobbi e Stancil (2008), as pessoas com deficiência que se mostram activas na prática de uma actividade física revelam: melhor estado físico; menores probabilidades de sofrerem doenças cardiovasculares; menos stress; menor tendência para desordens emocionais, depressão e ansiedade; ganhos substanciais em termos de força e de funcionalidade; um impacto positivo na percepção de si e do seu próprio corpo; melhoria na integração e a satisfação nas relações sociais, tornando-as mais capazes de enfrentar estereótipos negativos; aumento na auto-eficácia sentida no desempenho do seu trabalho. Todos estes aspectos, cruzando as várias áreas de intervenção da vida do indivíduo, revelam-se cruciais na pessoa com deficiência, proporcionando-lhe uma consequente melhoria na qualidade de vida.
Numa perspectiva mais sociológica, no nosso trabalho (Sousa et al., 2009) acerca do corpo na pessoa com amputação, percebemos que a prática de actividade física parece influenciar de forma determinante a sua percepção corporal. Nesta medida, salienta-se o facto daqueles que praticam actividade física percepcionarem o seu corpo de uma forma mais positiva, aceitando melhor a sua nova condição corpórea, do seu novo ser no mundo, opostamente aos não praticantes.
Após esta exposição de estudos, verificamos que existem vários trabalhos que identificam os benefícios físicos da participação no desporto por pessoas com deficiência, no entanto, quando nos centramos na experiência vivida por estes indivíduos no desporto, experiência vivida através de um corpo alterado que é interlocutor directo na actividade desportiva, verificamos o estado ainda embrionário de investigação acerca do tema, pelo que nos suscitou o interesse em explorar estas questões.
Tendo em conta esta necessidade de exploração das experiências vividas pelos atletas com amputação no desporto, pretendemos dar seguimento a este estudo, explorando as questões do corpo vivido e das experiências vividas através deste corpo no desporto e no tempo, guiando o nosso pensamento através de uma perspectiva fenomenológica.
3.4 Experiência vivida, corpo vivido e tempo – perspectiva