O método de recolha de dados escolhido para quantificar os níveis de qualidade, foi uma escala de observação direccionada especificamente para amas em creche familiar, denominada “Family Day Care Ratting Scale” (FDCRS) publicada por Harms & Clifford, 1989. Esta escala resultou da adaptação de uma outra escala de avaliação de qualidade “Early Childhood Environment Rating Scale” (ECERS) às características específicas verificadas em creche familiar.
A utilização de escalas deste tipo visa obedecer a uma série de critérios e regras, as quais são adquiridas através de um treino intensivo. Tínhamos realizado um treino com a ECERS, no entanto considerou-se que seria prudente realizar um estudo rigoroso desta nova escala, após o qual se procedeu a um treino com outro observador independente, de modo a aferir os resultados, isto é, verificar se observando a mesma realidade, as noções de ambos em relação àquilo que era observado convergiam ou não.
A referida escala encontra-se subdividida em 32 itens que englobam 6 categorias: Espaço e mobiliário/estruturas para cuidados e aprendizagem; Satisfação das necessidades básicas; Linguagem e raciocínio; Actividades de aprendizagem; Desenvolvimento social e Necessidades do Adulto. Cada um dos itens que constitui a escala possui níveis de qualidade desde o inadequado (nível 1); mínimo (nível 3); bom (nível 5) e excelente (nível 7).
Aqueles que se situam no nível inadequado são considerados pelos autores da escala como desapropriados, mesmo que seja apenas para efeitos de guarda das crianças; no nível mínimo, já têm possibilidades para ter crianças ao seu
cuidado e de potenciar alguns aspectos básicos do desenvolvimento; no nível bom, conseguem salvaguardar, além de todas as anteriores, um desenvolvimento adequado e, finalmente no nível excelente, encontram-se capazes de proporcionar toda a qualidade descrita nos níveis anteriores e ainda adequar às necessidades pessoais de cada criança (Harms & Clifford, 1989).
A referida escala de avaliação foi elaborada com o objectivo de demonstrar os níveis de qualidade de forma abrangente e de poder ser utilizada com diversos fins, tais como a avaliação por parte dos supervisores e monitores; a auto-avaliação pelas próprias amas e ainda a utilização para investigação (Harms & Clifford, 1989). Desta forma, além de ser um instrumento de investigação, servirá também como instrumento de auxílio para a avaliação e auto-avaliação das amas.
A recolha dos dados com a FDCRS realizou-se através de uma observação directa, em que a observadora esteve activamente atenta ao que se passava no terreno e na realidade social envolvente, o que é essencial para minimizar qualquer tipo de constrangimento ou sentimento de invasão perante os sujeitos do estudo (Costa, 2003). Assim, embora por vezes tivesse que se concentrar e tirar algumas notas, encontrava-se a acompanhar as amas e as suas crianças ao longo dos passeios que davam, em idas ao supermercado, ao café, durante os quais conversavam descontraidamente, criando proximidade e um à-vontade essencial para o desenrolar o mais natural possível do dia-a-dia (Costa, 2003). Assim, a autora do estudo procurava estar muito atenta à rotina diária que cada ama construiu com aquelas crianças e, simultaneamente recolhia informação para a
sua pesquisa, acreditando na sua veracidade aliada à naturalidade com que era desenvolvida.
Com a finalidade de fortalecer a observação e consequentemente minimizar o impacto causado pela presença da observadora, foram realizadas previamente algumas visitas, acompanhadas pelas educadoras supervisoras, à casa das amas. Durante estas visitas, a autora deu-se a conhecer assim como o tipo de acção que pretendia efectuar nas casas das amas, por outro lado, as educadoras supervisoras mediaram o primeiro contacto e contribuíram para o estabelecimento de um clima de descontracção.
Este primeiro contacto é considerado essencial para que o observador se aproprie das principais características do local que irá frequentar durante o tempo necessário para tirar conclusões fidedignas para a investigação, de modo a não chegar de surpresa e destoar perante a realidade social e cultural envolvente, o que causaria um impacto ainda mais significativo e poderia levar à impureza dos dados recolhidos (Costa, 2003). Assim sendo, o observador tem de se esforçar por se confundir com os habitantes e realidades em que estará inserido, de qualquer modo, deverá também acautelar-se para não ser demasiado intrusivo, o que se traduzira em tentar estar ao nível dos sujeitos da investigação ao invés de se manter no seu patamar de observador. Tal como afirmam Bogdan e Biklen (1991/1994, p. 113) “por um lado o investigador entra no mundo do sujeito, por outro, continua a estar do lado de fora”. Inverter esta situação poderia levar à impureza dos dados recolhidos.
Outro aspecto importante a ter em conta é que o tempo que é passado com uma pessoa, ou, neste caso a fazer uma observação para um estudo, influencia os dados que são recolhidos, pois as organizações ou grupos de pessoas sofrem influencias e diferenças se estamos no período da manhã ou no período da tarde, ou se estamos num dia comemorativo ou num dia dito normal, se nos encontramos no final do ano ou no início do mesmo (Bogdan & Biklen, 1991/1994). Ao mesmo tempo, na tentativa de conseguir analisar e observar as mesmas rotinas em casa de cada ama, a observadora tentou ao máximo que a sua observação conseguisse cobrir um dia inteiro em cada casa, ou seja desde a chegada da primeira criança até à saída da última criança. Além, disso compactuou tudo num determinado espaço de tempo, sem grandes intervalos, pois acredita que de uma semana para a outra existem modificações. Optou, portanto, por fazer uma observação intensiva e contínua que, embora extenuante, acredita que conduzirá a dados mais coerentes e assertivos.
É de notar que a observação só pôde ser realizada no final do ano de trabalho, o que provavelmente traduzirá uma fadiga que poderá não ser tão observável no início do ano. Infelizmente, por razões inerentes à disponibilidade e organização do trabalho para esta investigação, não houve outra possibilidade.
Após a recolha dos dados, foi realizado um tratamento sobre estes, seguindo regras específicas referidas na escala FDCRS, de modo a traduzir numericamente toda a informação recolhida.