Sobre a possibilidade de triunfo deste novo homem transvalorado e transvalorador, Zaratustra assim falou:
E será o grande meio dia, quando o homem esteja à metade de seu trajeto, entre a besta e o além-homem, e celebrará como sua esperança suprema o seu caminho para o crepúsculo: por que será o caminho para um novo amanhecer.
Então, no momento de perecer, ele se bendirá a si mesmo, a fim de passar para o outro lado, e o sol de seu conhecimento estará no meio-dia.
Todos os deuses morreram; agora queremos que viva o Além- Homem! Tal será um dia, ao chegar o grande meio-dia, o nosso último querer! (Nietzsche 2008, p.112).
O grande meio-dia neste contexto futurista significa a “hora” de maior claridade e, consequentemente, a dissipação das trevas das muitas incertezas, nascidas com a dolorosa morte dos deuses.
Porém, tal luminosidade só seria alcançada pela afirmação do “querer”; na realidade, a figura do “Além-Homem” nada mais é do que a personificação de um “novo querer valorativo” capaz de reconstruir as bases morais do mundo, desta forma constituindo um novo cenário existencial totalmente renovado. Neste novo cenário transmutado o homem deve olhar para frente em busca do além-homem, como foi dito pelo próprio Zaratustra:
Outrora, quando se olhavam os mares longínquos, dizia-se: “Deus”; mas agora eu vos ensino dizer: “Além-Homem”. Deus é uma conjectura; mas eu quero vossa conjectura não mais longe que a vossa vontade criadora. Podereis criar um Deus? Pois então não me faleis de deuses! Contudo podereis criar o Além-Homem (Nietzsche, 2008, p.118).
O “Além-Homem”, segundo esse fragmento nietzschiano, deve ser “criado” pela vontade criadora daqueles que estão dispostos a não ir além de suas próprias forças inventivas, elucubrar aquilo que não pode ser criado humanamente, na lógica ensinada por Zaratustra, é apenas um desperdício intelectivo. Daí a recomendação de não falar em “deuses”, devemos falar e divulgar a vinda do grande meio-dia, dia luminoso da manifestação do “Além-Homem”, como foi dito pelo próprio Zaratustra:
Oh! Bendita a hora do raio. Ó, mistério do que precede o meio-dia! Há de chegar um dia em que eu os converta num incêndio que se propaga, e precursores de Línguas de Fogo; e anunciarão um dia, com línguas de chamas: aí vem, já se aproxima o grande meio-dia! (Nietzsche, 2008, p.229).
Não há como não reconhecer neste trecho uma ideia próxima ao do evento mítico do “pentecoste” cristão. Aqueles que entenderam a urgência da vinda do “Além-Homem”, segundo a recomendação de Zaratustra, devem com “línguas de fogo” falar da proximidade do esperado dia do “grande meio-dia”. No entanto, diferente de um “espírito santo” o que habilita os discípulos do Zaratustra Nietzschiano, é a força ativa que muitas vezes aparece nos escritos do filósofo alemão como “vontade de poder”. Em sentido real, as metáforas do “grande meio- dia” e a do próprio “Além-Homem”, são alusões ao uso desta vontade de poder!
O filósofo Heidegger, elucidando a verdadeira essência do aclamado “além- homem”, deixa claro que tal personagem é apenas a representação figurada da vontade de poder. Sobre isso podemos ler:
O “além-do-homem” não é nenhum ideal supra-sensível; ele também não é nenhuma pessoa que se anuncia em um momento qualquer e que entra em cena em um lugar qualquer. Enquanto o sujeito supremo da subjetividade consumada, ele é a pura dinâmica de poder intrínseca à vontade de poder. [...] O Além-Homem vive, na medida em que a humanidade quer o ser do ente do como a vontade de poder (Heidegger, 2007, p. 231).
Para Heidegger, a fala poética do Zaratustra, em relação à figura “messiânica” do “Além-Homem”, não deve ser interpretada literalmente como o anúncio da chegada de uma pessoa real, mas sim como referência metafórica de uma “época” em que a humanidade estaria pronta para “valorar” segundo os critérios da “vontade de Poder”.
Mas, de fato, o que seria esta “vontade de poder”? E, consequentemente, quais os novos critérios valorativos que dela promanariam?
A vontade de poder é antes de tudo um novo posicionamento no mundo, é vontade de criar, vontade de comandar. Isso foi dito por Zaratustra assim:
Onde encontrei a vida, encontrei a vontade de potência, e até na vontade do servidor, encontrei a vontade de ser mestre. Se o fraco serve ao forte, o faz inclinado por sua vontade, que quer, por sua vez, tornar-se senhora dos mais fracos que ela; é o único prazer ao qual não pode renunciar (Nietzsche, 2008, p.157).
Onde existe vida, ensina Zaratustra, se manifesta vontade de poder, portanto, a vontade de Nietzschiana não é uma vontade por coisas “palpáveis”, é antes de tudo uma vontade subjetiva por poder.
No texto supracitado fica evidente que até mesmo na servidão à vontade de poder está presente, porém a mesma mostra-se como “passividade”; o servo é aquele que domina pela fraqueza.
Na figura do “Além-Homem” Nietzsche visualiza o fluxo mais natural da vontade de poder; neste caso a vontade é de comandar, e vontade de ser senhor.
Essa postura ativa é a base do domínio de si que esses novos homens do futuro deverão exercer para executar a transvaloração de todos os valores. Porém o profeta anunciador adverte que tal vontade de comando não é tão fácil de ser sustentada. Isso porque aquele que comanda arrisca sua própria vida, sobre isso é dito:
Em toda parte onde encontrei a vida, ouvi falar de obediência. Tudo o que vive obedece. [...] manda-se naquele que não sabe obedecer a si mesmo. [...] mandar é mais difícil que obedecer. Não somente porque aquele que manda assume a carga de todos os que lhe obedecem, e que essa carga arrisca esmagá-lo, mas porque reconheci que mandar comporta uma aventura e um risco, e cada vez que manda, arrisca a vida (Nietzsche, 2008, p.157).
Exercer ativamente a vontade de poder é muito mais difícil que aceitar ser comandado; o comandante precisa acima de tudo comandar-se, daí porque Zaratustra considera o mandar uma “aventura e um risco”, afinal, aquele que comanda é o sujeito que aprendeu a obedecer a sua própria voz de comando.
O comandante neste contexto Nietzschiano é a representação do niilista ativo que busca gerar novos valores; enquanto o comandado, é o niilista passivo incapaz de ser criativo frente ao vazio, sua postura normalmente levá-o a ficar preso num corrosivo pessimismo. Sobre essas diferenças de tipo, o filósofo Heidegger escreveu:
… O pessimismo que só vê declínio provém da “fraqueza”: ele busca por toda parte o elemento sombrio, fica à espera das ocasiões em que o fracasso se dá e acredita ver assim como tudo virá. [...] o “niilismo incompleto” nega os valores supremos até aqui, mas não faz outra? se não colocar novos ideais no lugar dos antigos (no lugar do “cristianismo originário”, o comunismo, no lugar da cristandade, a música wagneriana). Esse caráter parcial retarda a reposição decidida dos valores supremos. O retardo encobre o decisivo: o fato de com a desvalorização dos valores supremos até aqui precisa ser alijado o lugar que lhes é correspondente, o “supra-sensível” que subside em si (Heidegger, 2007, p. 212).
Como foi dito por Heidegger, o niilista incompleto é aquele que não chega a completar a transvaloração, na verdade ele só substitui os velhos “ídolos” por “ídolos novos”. Como sua transvaloração nasce da “fraqueza” e não da “vontade de poder”, ele não questiona o núcleo valorativo dos antigos ideais supremos, ele muda mais o aspecto superficial do valor, do que propriamente sua estrutura valorativa.
Segundo Heidegger, o niilista ativo é animado por outra disposição, sobre esta diferença lemos:
Para se tornar completo, o niilismo precisa atravessar o “extremo”. O “niilista extremo” reconhece que não há nenhuma “verdade eterna” em si. Na medida em que só se conforma determinantemente com essa intelecção e em que escreva a decadência dos valores supremos até aqui, ele permanece passivo. Em contra partida, o niilismo “ativo” intervém, revoluciona. [...] o niilismo extremo, mas ativo, afasta os valores até aqui justamente com o seu “espaço” (o supra-sensível) e cria pela primeira vez possibilidades para a nova instauração de valores (Heidegger, 2007, pp. 212, 213).
Neste “Niilismo Extremo” o supra-sensível é totalmente superado, assim, o existir não tem por si mesmo nem valor nem finalidade, o homem sempre foi e sempre será o criador dos valores.
Porém, como foi assinalado por Heidegger, a descrença em valores supremos não leva o niilista ativo a uma desesperança crônica ou desilusão em relação ao mundo, bem ao contrário disso, ele compreende que deve criar novos valores, porém agora sabe que todo e qualquer “sentido”, promana da sua revolucionária capacidade de comando.
É importante não confundirmos neste momento essa nova postura valorativa com uma espécie de “ditadura transvalorativa”, afinal, embora aquele que comanda, esteja obrigado pela própria essência da vontade de poder, a sempre “criar um sentido” para a existência, este sentido é provisório, pois, o novo valorar é por si mesmo uma postura valorativa aberta, não um novo “consolo” para encobrir o vazio real que nos cerca.
Isso foi dito por Lauter da seguinte maneira:
O fixar não serve apenas à facilitação da vida. Ao contrário, ele é primeiro o modo pelo qual uma vontade de potência organiza as forças a ela submetidas e pelo qual busca sobrepujar as forças ainda não submetidas. Ela impõe sua perspectiva absolutamente. Isso significa que ela aspira a dominar perspectivas que se lhe contrapõem. Visto que se trata da vontade de potência, não é permitido querer, contudo, que a fixação seja definitiva. Compreende-se o mundo, o todo das constelações de potência na transformação contínua. A vontade que sempre quer mais potência tem de levar em conta também essa transformação, à mesma que ela mesma se transforma. Mas essa mudança só pode ser bem sucedida se a própria perspectiva de verdade não for posta ou petrificada de modo absoluto (Lauter, 2011, p.190).
Quando o niilista diz não acreditar no “sentido da vida”, ele apenas está dizendo que, nenhum “sentido absoluto” pode por fim a nossa busca por “sentidos provisórios”, porém, pelo fluxo contínuo do devir, toda crença em um sentido deve ceder lugar a outras possibilidades de leitura do real, num mundo transvalorado, não há mais lugar para “verdades absolutas”. Como foi dito por Lauter, o criador de novas perspectivas deve aceitar o jogo permanente de recriação do mundo, visto que tudo se transforma, sua própria perspectiva insere-se no bojo geral destas
infindáveis transformações. É esta a vontade de superação contínua que sintetiza o que Nietzsche denomina de vontade de poder.
Para Heidegger, é essa vontade sempre presente de poder, muitas vezes afirmada por Nietzsche, que torna o discurso do mesmo uma espécie de metafísica, isso é comentado da seguinte forma:
… a vontade de poder é o caráter fundamental do ente enquanto tal. Por isso, a essência da vontade do poder só pode ser questionada e pensada com vista ao ente enquanto tal, isto é, metafisicamente. A verdade desse projeto do ente com vistas ao ser no sentido da vontade de poder possui um caráter metafísico. Ela não tolera nenhuma fundamentação que se reporte ao modo e à constituição do ente a cada vez particular porque esse conclamado enquanto tal só é demonstrável se o ente já é projetado de antemão com vista ao caráter fundamental da vontade de poder enquanto ser. (Heidegger, 2007, p. 200)
Heidegger diz que o discurso nietzschiano é uma metafísica no sentido de
buscar um fundamento último para toda expressão de vida, portanto, embora o filósofo desminta uma unidade transcendental chamada de “alma”, a algo “fixo” e “imutável” na operacionalidade do devir, este algo é aquilo que ele determinou como vontade de poder.
Parece que esta interpretação que Heidegger faz da vontade de poder de Nietzsche, está em consonância com o espírito das letras do filósofo, afinal foi o mesmo que escreveu: “[...] a essência [Wesen] mais íntima do ser [Seins] é vontade de poder [...]” (Nietzsche, 2008, p. 351).
A diferença entre a vontade de transvalorar pela metade, do niilista passivo, e a vontade forte do niilista ativo, explica-se exatamente pela razão que diz que o segundo, assume o querer sempre como essência do verdadeiro querer.
Provavelmente foi isso que levou o filósofo Heidegger a escrever sobre esse querer ativo:
Não há a vontade por si, da mesma forma que não há o poder por si, vontade e poder, tomados a cada vez por si, solidificam-se e transformam-se em fragmentos conceituais arrancados à essência da “vontade de poder” só a vontade de poder é vontade, a saber, de poder no sentido do poder para o poder. [...] Toda mera conservação de poder já é decadência da vida. O poder é o comando para o mais- poder (Heidegger, 2007, p. 203).
O poder tem como meta o próprio poder, por isso, como disse Heidegger, a vontade de poder não é nunca uma mera vontade de conservação, é sempre a busca contínua pelo “mais-poder”.
Nesta nova metafísica nietzschiana não há mais dualidade entre “ser” e “querer”, a verdadeira vontade é aquela que se expande como natural busca pelo crescimento, com disse Heidegger, qualquer tentativa de sustentar o poder no nível já alcançado, é, na visão nietzschiana, um esforço decadente.
Com isso Nietzsche negou o vínculo clássico entre ser e pensamento verdadeiro, para o filósofo a maneira de pensar está intimamente relacionada ao tipo de “vontade” exercitada pelo sujeito. Em sua concepção aquele que “é” verdadeiramente é porque aceitou dar vazão à natureza sempre ativa da vontade; este é o querer que naturalmente busca mais poder, não a conservação de um mero pensar tradicional.
Por isso, nesta nova maneira metafísica inaugurada por Nietzsche, o único “permanente” ou “sempre igual”, é a essência de uma vontade que sempre procura expandir-se à procura de mais poder, todas as outras coisas são desdobramentos acidentais desta potência natural.
Ainda falando desta metafísica do poder, Heidegger esclareceu:
Desta forma, na medida em que se essencializa como vontade de poder, todo ente é perspectivístico.
[...] A questão é que a “perspectiva” nunca permanece um mero campo de transpassamento pela visão, no qual algo é visualizado. Ao contrário, o visualizar que atravessa com o olhar visa às “condições de conservação-elevação”. O “valor” possui o caráter do “ponto de vista”. Valores valem e não “são em si”, para, então também se tornarem ocasionalmente “pontos de vista” (Heidegger, 2007, pp. 204-205).
A meta metafísica desta vontade de poder não é a “verdade”, pelo menos não aquela “verdade última” preconizada pelas metafísicas religiosas. Essa nova forma de valorar fixa temporariamente apenas “pontos de vista”, nunca “verdades absolutas”.
Portanto, toda verdade neste novo mundo do devir evoca apenas certa “perspectiva” em relação ao mundo.
Essa nova subjetividade apela não para “representação do mundo”, mas sim para uma representação que justifique a essência da vontade daquele que
representa: a vontade de poder. Em outros termos, não basta procura a verdade ou, ao contrário, como faz o niilista passivo, não buscar mais nenhuma verdade. Cabe- nos gerar “pontos de vistas” que manifestem uma vida útil e propensa a sua expansão natural.
É esse retorno contínuo do poder para seu próprio núcleo: o poder, que faz uma segunda ideia nietzschiana ser possível de ser interpretada, falamos aqui de sua tese do “eterno retorno do mesmo”.
É vital, para que possamos entender a metafísica da vontade de poder, falarmos um pouco sobre essa enigmática teoria e, ao fazermos isso, entenderemos porque a transvaloração mostra-se tão urgente neste nosso mundo desencantado.