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Em 1984, o sueco Lennart Levi47 agrupou os diversas riscos psicossociais do trabalho em quatro grupos: i) sobrecarga quantitativa; ii) carga qualitativa insuficiente; iii) falta de controle sobre o trabalho; iv) falta de apoio social em casa e por parte da chefia e dos

47 Lennart Levi, M.D., Ph.D., é professor emérito de Medicina Psicossocial no Instituto Karolinska (Suécia). Foi fundador e diretor da Divisão de Pesquisa em Stress no Instituo Karolinska e consultor temporário da OMS, OIT e UNICEF. Publicou mais de 300 artigos científicos e livros, incluindo o Guia sobre stress relacionado ao trabalho da Comissão Europeia. É Presidente da Seção de Psiquiatria Ocupacional da Associação Mundial de Psiquiatria e Presidente da International Stress Management Association (ISMA).

colegas de trabalho48. Posteriormente, Levi escreveu o capítulo “Fatores Psicossociais,

Estresse e Saúde”, parte da Enciclopédia de Saúde e Segurança no Trabalho49 da OIT. Em referido capítulo o autor atualizou as categorias iniciais de fatores psicossociais no trabalho que passaram de quatro para seis: i) sobrecarga quantitativa; ii) carga qualitativa insuficiente; iii) falta de controle sobre o trabalho; iv) papéis/funções conflitantes; v) falta de apoio social em casa e por parte da chefia e dos colegas de trabalho; vi) estressores físicos.

A sobrecarga quantitativa corresponde à soma de determinados fatores típicos como ter muita coisa para fazer, sofrer a pressão do tempo e ainda lidar com um fluxo de trabalho repetitivo. Estas são, em larga medida, as características típicas de grande parte da tecnologia de produção em massa e do trabalho de escritório baseado em rotinas nos dias atuais.

A carga qualitativa insuficiente diz respeito ao conteúdo do trabalho que é muito limitado e monótono. Trata-se de situações nas quais faltam: variações nos estímulos, demandas que exijam o uso da criatividade ou que requeiram solucionar problemas. Além destas circunstâncias, acrescenta-se o fato de a carga qualitativa insuficiente referir-se também a uma situação na qual existem poucas oportunidades de interação social. Lennart Levi observa que empregos com estas características têm se tornado cada vez mais comuns com a automação que não foi projetada de forma otimizada, com maior uso dos computadores em escritórios e processos de manufatura, embora possa haver casos em sentido contrário.

O conflito de papéis e funções pode surgir facilmente entre os diferentes papéis exercidos pelo indivíduo. Todo ser humano tem várias funções atribuídas ao mesmo tempo, como por exemplo: ser superior e subordinado, filho ou filha e pai ou mãe, marido ou esposa, amigo e membro de um clube, de um sindicato ou de um órgão de classe. Não raras vezes, os conflitos levam ao surgimento de estresse, como ocorre, por exemplo, quando o trabalho exige confronto com um pai ou filho doente ou quando um supervisor é dividido entre a lealdade para com seus superiores e lealdade para com colegas e subordinados.

A falta de controle sobre a situação instala-se quando é outra pessoa quem decide o que fazer, quando e como. É o que acontece, por exemplo, em relação ao calendário e aos métodos de trabalho quando o trabalhador não tem qualquer influência, controle ou voz. Ou ainda quando há incertezas porque não existe um padrão evidente na situação de trabalho.

48 LEVI, Lennart. Stress in Industry: Causes, Effects and Prevention. Occupational. Safety and Health Series n. 51, International Labour Office, Geneva, 1984.

49 LEVI, Lennart. Factores psicosociales, estrés y salud. In: Stellman JM, directora de edición. Enciclopedia de

A falta de apoio social em casa e por parte da chefia e dos colegas de trabalho é um fator autoexplicativo. Diversas são as situações enfrentadas na família que demandam apoio do chefe e dos colegas de trabalho e vice-versa, pois são igualmente comuns as situações enfrentadas no trabalho que demandam apoio da família. Qualquer deficiência nesta rede de solidariedade na qual se baseia o equilíbrio psicossocial do indivíduo qualifica-se como interação social negativa e, nesta qualidade, como um risco psicossocial no trabalho, quando relativa a este.

Os estressores físicos são fatores que podem afetar o trabalhador física e quimicamente. Em psiquiatria ocupacional há uma diferenciação entre síndromes psiquiátricas relacionadas ao trabalho, entre as não-orgânicas, de um lado, e as orgânicas, de outro50. Lennart Levi menciona os efeitos diretos causados no cérebro pelos solventes orgânicos51. Lembra o autor que é possível a ocorrência de efeitos secundários psicossociais cuja origem resida no contato com substâncias que produzem cheiros, luzes brilhantes, extremos de temperatura, ruído ou umidade, dentre outros. Estes efeitos também podem resultar do fato de o trabalhador estar consciente, suspeitar ou mesmo temer a possibilidade de estar exposto a perigos químicos que podem comprometer a sua vida diretamente ou indiretamente, provocando acidentes.

Por fim, Lennart Levi observa que, na vida real, as condições enfrentadas no trabalho ou fora dele geralmente envolvem uma combinação de exposições variadas (tempo e intensidade) a riscos psicossociais diversos, conforme demonstram as sete categorias que não são excludentes entre si. “A gota que faz o vaso transbordar pode ser decorrente de um fator

bastante trivial, mas incidente sobre um indivíduo que já suporta uma carga ambiental anterior considerável”.52

50 Cf. CAMARGO, Duílio Antero de; CAETANO, Dorgival; GUIMARÃES, Liliana A. M. Psiquiatria ocupacional II: síndromes psiquiátricas orgânicas relacionadas ao trabalho. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, Rio de Janeiro, v. 54, n. 1, 2005, pp. 21-33. Disponível em: <http://maxipas1.tempsite.ws/principal/pub/anexos/20081117020956artig oocupacional1_05.pdf>. Acesso em: 29 nov. 2010.

51 Solventes orgânicos são compostos lipossolúveis (solúveis na presença de lipídeos ou gorduras), voláteis e inflamáveis. São misturas de substâncias químicas capazes de dissolver outros materiais. No corpo humano, a ação dos solventes orgânicos é semelhante ao efeito dos anestésicos: inibem a atividade do cérebro e da medula espinhal, diminuindo a capacidade funcional do sistema nervoso central e a sensibilidade aos estímulos.

52 Tradução livre de: “La gota que colma el vaso puede ser por consiguiente un factor del entorno bastante

trivial, pero que se produce cuando ya se soporta una carga ambiental anterior muy considerable”. In: LEVI, Lennart. Factores psicosociales, estrés y salud. In: Stellman JM, directora de edición. Enciclopedia de Salud y Seguridad en el Trabajo. Madrid: Organización Internacional Del Trabajo, 1998, v. 2, pp. 34-35.

Portanto, as configurações que podem existir, enquanto resultados de exposições cumulativas, ou sinergicamente associadas, são infinitas. A classificação de Levi tem dessa forma importância como modelo teórico que possibilita a compreensão e a elaboração de medidas de prevenção.