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Ao referendarmos sentido e significado, não podemos omitir Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895/1975), famoso linguista russo, cujos estudos verteram sobre formas de estudar a linguagem, a literatura e a arte. Para Bakhtin (2000), o ser humano não vive sem o signo, necessitando deste para compreender o mundo, a si mesmo e aos seres humanos com os quais estabelece relações sociais. Portanto, as noções de signo são muito mais amplas e discutíveis do que podemos imaginar e o autor nos permite visualizar isso, ao afirmar que:

Um signo é um fenômeno do mundo exterior [...] a ideologia é um fato de consciência e que o aspecto exterior do signo é simplesmente um revestimento, um meio técnico de realização do efeito interior, isto é, da compreensão [...] a própria consciência só pode surgir e se afirmar como realidade mediante a encarnação material em signos [...] (BAKHTIN, 2002, p. 33).

Significado consiste em como a palavra quer descrever no exato, denotação, aquilo que está explicitado no dicionário, fechado em si mesmo, unívoco. Emana da palavra signo, que é a representação de uma ideia, um objeto, uma atividade, um resumo. Deste modo, o significado é o que aquilo realmente representa para alguma pessoa, em sua consciência. Porém, um signo pode ter diferentes definições e pode variar entre as pessoas, entre as culturas, entre diferentes idades, espécies. O significado é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos, no qual o significado é apenas uma pedra no edifício do sentido (VYGOTSKY, 2009, p. 465).

Sentido consiste em como a palavra se comporta em um contexto, num discurso. Está ligado a uma interpretação. Não é a simbolização de algo, mas sim o fator causador deste, a descoberta de um fator proposital, a interpretação de uma consequência e a sua definição. É a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciência. Assim, o sentido é sempre uma formação dinâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. O

significado é apenas uma dessas zonas do sentido que a palavra adquire no contexto de algum discurso e, ademais, uma zona mais estável, uniforme e exata. Como se sabe, em contextos diferentes a palavra muda facilmente de sentido (VYGOTSKY, 2009, p. 465).

Pereira (2006, p. 214), afirma que o homem situa-se num contexto histórico, dotado de significações, portanto, apropria-se delas. Ainda de acordo com a autora, toda e qualquer significação não reflete à maneira de um espelho, o homem a possui como sua parte integrante no seio da realidade da qual se constitui. No contexto escolar, o professor, também através das interações com outros professores, modela a sua pratica pedagógica. Assim, a compreensão do sentido da prática docente deve ser promovida pelas instituições responsáveis pela formação inicial e continuada dos professores. No caso dos professores, o significado de seu trabalho é formado pela finalidade da ação de ensinar. Estas etapas podem ser consideradas individualmente, mas com certeza exigem uma análise grupal, ou seja, quando os professores da mesma ou de diferente etapa trabalham juntos, numa mesma atividade de formação profissional (GARCIA, 1999). Portanto, a atividade pedagógica do professor é um conjunto de ações intencionais conscientes, dirigidas para um fim específico, que é o ensinar.

Se o sentido do trabalho docente atribuído pelo professor que o realiza for apenas o de garantir sua sobrevivência, trabalhando só pelo salário e sem ter consciência de sua participação na produção das objetivações na perspectiva da genericidade, haverá a cisão com o significado fixado socialmente. Esse significado é entendido como função mediadora entre o aluno e os instrumentos culturais que serão apropriados, visando ampliar e sistematizar a compreensão da realidade, e possibilitar objetivações em esferas não cotidianas. Nesse caso, o trabalho alienado do docente pode descaracterizar a prática educativa escolar (BASSO, 1998, p. 27).

Na especificidade da docência, o significado de seu trabalho é formado pela finalidade da ação de ensinar, que se caracteriza por quatro elementos básicos: alguém que ensina (o professor), alguém que é ensinado (o aluno), algo que o primeiro ensina ao segundo (o conteúdo) e a intenção (para que ensina). Há, ainda, o saber acerca dos conteúdos escolares que o professor traz consigo e que é operacionalizado em suas aulas. Monteiro (2001) define esses saberes docentes como os conhecimentos que os professores dominam para poder ensinar, ou seja, é a ação instrumentalizadora da sua prática pedagógica.

No âmbito educacional, a compreensão do sentido da prática docente deve ser promovida pelas instituições responsáveis pela formação inicial e continuada dos professores. Na graduação os futuros professores necessitam desvencilhar-se do comodismo e da certeza de que, ao final, estarão aptos a ingressarem no magistério. Estarão sim, apenas iniciando numa profissão que necessita sempre ser realimentada, revigorada, e que além das práticas concernentes ao âmbito escolar, o desejo do saber, a ânsia pelo ―querer mais‖ deve estar sempre latente. Paulo Freire (2001) afirmava que ―como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino‖.

Consequentemente, o discurso de que os salários são baixos, não há investimentos, os alunos não querem nada, o ambiente familiar influencia negativamente a aprendizagem dos alunos, bem como o desinteresse governamental para com a educação, não podem suprimir, ofuscar, limitar o trabalho apaixonado do professor, que mesmo diante dessas adversidades, persiste na profissão. Mas, como encontrar forças para prosseguir? Neste âmbito, acreditamos que um processo de formação continuada pode contribuir com o delineamento dos caminhos a serem tomados.

Assim, compreendemos que os professores sabem da relevância do seu trabalho, estudam, procuram aprender mais, buscar por inovações, entre outros, porém muitas vezes não transparecem tais convicções, e assim coexistem no contexto escolar com outros professores, e a partir desta interação social entre seres humanos que se relacionam no ambiente de trabalho, personificam as diversas compreensões acerca das inúmeras faces que permeiam tal cotidiano. A partir desta interação, surgem as representações sociais, comuns a determinados grupos de indivíduos, e que são o conjunto de explicações, crenças e ideias que possibilitam evocar um dado acontecimento, pessoa ou objeto.

Face à especificidade do nosso estudo, nos concentraremos em estudar o universo consensual, as representações sociais, que é uma forma do indivíduo se apropriar da realidade, estabelecendo um saber de caráter cotidiano, o chamado conhecimento do senso-comum, indispensável à organização da vida em grupo.