A relação de Getúlio com o prisioneiro é uma das mais complexas do romance, pois ela parece condensar muitos sentidos alegóricos. Por um lado, trata-se da inversão do jogo de poder: o político rico da “cidade” está sob o jugo cruel do homem pobre do interior. Por outro lado, coloca em evidência, através das ameaças e torturas de Getúlio, o importante lugar da dominação masculina nos jogos de poder da região.
O nome do prisioneiro não é mencionado durante todo o romance. Ao invés disto, ele é nomeado das mais diversas maneiras por Getúlio: peste, cachorro bexiguento capão do rabo entortado, nego fujão, trempe, fidumaégua, fidumavaca, fidumajega, viado corredor, cão da pustema apustemado, pirobo senvergonho, pirobão sacano, xibungo bexiguento, chuparino do cão da gota do estupor, mija na vareta, maricão estrumado, capadócio. Comentaremos adiante a óbvia primazia dada aos
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vitupérios homofóbicos. Por enquanto, frisemos esta ausência de nome do prisioneiro, garantida pelo esquecimento voluntário de Getúlio:
Ninguém se lembra mais do nome dele, ninguém se lembra mais nem do nome da gente, quer dizer eu me lembro do meu nome e me lembro do nome de Amaro e se quisesse me lembrava do nome do peste, mas não quero e esqueci. E pronto. (SG, 103)
Contraposta a esta ausência do nome próprio, a profusão de epítetos chega ao neologismo:
Seu peste, puto, peste, peste, peste, seu pirobão. Perde a força os nomes, quando eu lhe xingo e por isso vou inventar uma porção de nomes para lhe xingar e de hoje em diante todo mundo vai xingar esses nomes. Crazento da pustema, violado do inferno, disfricumbado firigufico do azeite. E invento mais. (...) Carniculado da isburriguela, retrelequento do estrulambique. (SG, 138)
Como interpretar esta contraposição? A ausência do nome próprio marca também a ausência do espaço social que garante a legitimidade e a força deste nome. Para Getúlio, o político “udenista” não passa de um objeto ou de um animal a ser mal- tratado. As novas nomeações, em forma de injúria, demarcam simbolicamente uma outra relação de poder. Aqui nunca foi tão claro que nomear é ter poder sobre o que se nomeia.1 Talvez por isto os neologismos: Getúlio quer garantir que estas novas
nomeações signifiquem ofensas novas, ainda mais humilhantes do que as que já existem. Importante notar que não se trata de um vocabulário particular, pois ele mesmo diz que “todo mundo vai xingar esses nomes”.
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Note-se, de passagem, que a questão dos nomes no romance parece importante. Assim como o prisioneiro, a irmã e a mulher assassinada são os outros dois personagens importantes não nomeados. Dado que nos parece pertinente. Tirar o nome próprio de alguém não pode ser interpretado como um sinal de ódio?
A questão da nomeação é metonímia de uma outra, a da linguagem, a todo momento lembrada nesta relação. Retomemos à questão que precede a extração dos dentes do prisioneiro: “– Vosmecê sabe o termo bonito para arrancar dente?” (SG, 60). Tal questão parece querer dizer que, para Getúlio, não há lugar para eufemismos, mas ele sabe que “termos bonitos” são usados para mascarar ações, por assim dizer, feias.
Esse Amaro é meu irmão, porque só tem ele no mundo, essas alturas, posso crer, só tem ele no mundo que escuta o que eu estou dizendo, possa ser que só tem ele no mundo que não acha que eu estou bobo da idéia, até mesmo que eu estou um pouco abestalhado da idéia mesmo, com essas léguas todas que eu tenho comigo, inda mais com o peste de arreio, só posso chamar isso de arreio, quase que só vive dependurado em mim e fica se arrastando, é mesmo uma fraqueza por demasiado, só dá para política de prosa. (SG, 102-3)
Esta passagem deixa ainda mais claro como a questão da linguagem é importante na relação entre Getúlio e o preso. A “política de prosa” é o campo do poder simbólico contraposto ao campo do poder físico, a uma outra política, aquela que Getúlio nomeia ao dizer que é político, pois “não mato à-toa” (SG, 24). No entanto, Getúlio sabe que esta “fraqueza” da política de prosa não é sempre tão frágil:
É uma finura. Como se nunca tivesse dado uma ordem de morte, como se nunca tivesse anulado uma urna, como se nunca tivesse um pecado nas costas, que tal? Por essa razão que o bandido sou eu aqui, eu que nunca dei tiro por trás de ninguém, nunca. Pois sou o bandido aqui. Arreceio que, se demorar muito tempo, termina ele saindo e eu ficando, como cachorro ruim, um capuco amarrado no pescoço, uma corda no pé. (SG, 45)
Getúlio tem plena consciência de que as regras de nomeação podem mudar. De um momento para o outro, ele passa de “sargento” a “bandido”. Depende apenas do político de prosa que esteja no poder. Em nenhum momento, o sargento se esquece de que seu poder é momentâneo e limitado. Na fazenda de Seu Nestor, quando estão pra
decidir como punir o prisioneiro por ter bulido com a filha do fazendeiro, Getúlio adverte:
(...) por mim podia sangrar logo, mas vai ter de sangrar em Aracaju. Isso é boi de matadouro é animal cheio de idéias. Não pode morrer no mato. Assim mesmo, não sei se nem em Aracaju, ele é despachado. É todo importante, está um sistema, os jornais, tudo. A política está mudando, eu disse, está ficando uma política maricona. (SG, 56).
É boi, mas “de matadouro”, isto é, não pode morrer de qualquer jeito, em qualquer lugar. É justamente por saber disto que Getúlio se aproveita desta oportunidade rara de nomear o outro, como sempre fizeram com ele. Agora é ele quem detém a linguagem, mesmo sabendo que não é qualquer linguagem que servirá para nomear e se apoderar do outro:
(...) e não me incomodo se vosmecê me diz que tem ginásio (...) Tu tem curso de ginásio, Amaro? Que eu sei, você andava lavando a escada do Ateneu. Se lavar escada do Ateneu dá ciência, você vai bem. Pergunte a esse comunista daqui, esse maricão estrumado, esse capadócio desse udenista, esse peste ruim! pergunte, mas não vá pensando que ele responde, que ele não responde. Só fala com doutor, mas está aí de beiço tremendo como rabo de largatixa, com medo que eu dê um fim nele agora. Dou mesmo, peste! (SG, 27-8)
A linguagem que determina o lugar de poder é aquela aprendida nas instituições de ensino. Getúlio demarca bem a diferença entre quem entra e quem está do lado de fora ao brincar com Amaro: lavar as escadas do Ateneu não dá ciência a ninguém. Todavia, o político que “só fala com doutor” agora não pode falar, pois é o poder físico e não simbólico que toma a frente nesta sua trágica relação com Getúlio. Notemos ainda que Getúlio quando se dirige ao preso o faz marcado pelo pronome “vosmecê” e emprega o “tu” com Amaro. Como interpretar este tratamento formal dispensado ao mesmo sujeito que é vítima das mais diversas torturas? Talvez seja para lembrar o preso
de seu poder (simbólico, marcado pela linguagem) que, na atual conjuntura, não vale muito.
Voltemos ao detalhe que notamos acima, o das ofensas dirigidas ao prisioneiro serem de natureza homofóbica. É neste ponto que Getúlio tenta se impor inclusive do ponto de vista simbólico. Se a moral sertaneja é uma moral falocêntrica, nomear um homem de tal forma a destituí-lo de masculinidade é ofensa fundamental. Pierre Bourdieu lembra que o desafio “à integridade masculina dos outros homens, que encerra toda afirmação viril, contém o princípio da visão agonística da sexualidade masculina (...)”1. Sob o ponto de vista da articulação entre sexualidade e poder, a pior humilhação,
para um homem, na moral sertaneja e para além dela, consiste em ser transformado em mulher. Se na relação com o Chefe, a cena do pássaro preto pode ser vista como uma metáfora da castração, na relação com o prisioneiro a castração não só é a todo momento ameaçada, como acontece também simbolicamente quando Getúlio arranca os dentes do preso.
Seja através do vitupério homofóbico, seja através da extração dos dentes (castração simbólica), seja ainda através das inúmeras ameaças de castração real, Getúlio tenta inverter a relação de poder que tem com homens como o prisioneiro. Esta relação marcada fundamentalmente pelo silêncio e pelo anonimato do preso parece inverter, mutatis mutandis, as posições agonísticas dos adversários. Getúlio, homem pobre, sempre nomeado, detentor de uma linguagem cuja força simbólica é cerceada por forças muito maiores (escola, estado etc.), tenta, o quanto pode, nomear e destituir o outro dos valores morais que porventura possuísse.