Uma das tendências que se tem vindo a acentuar na população portuguesa, nas últimas décadas, é a do seu envelhecimento.
Sabe-se que tem sido permanente o aumento da percentagem dos indivíduos com idades mais elevadas, comparativamente à dos mais jovens, dentro de cada grupo etário de base (Rosa, 1996).
Da população mais jovem da Europa, passámos, em cinco décadas, para uma das mais velhas e, dentre estas, aquela que mais rapidamente está a envelhecer. Desde 2000, é maior a percentagem de cidadãos com mais de 65 anos do que a de jovens com menos de 15. Em paralelo, houve um aumento efectivo da esperança de vida. Houve também uma drástica redução da mortalidade infantil. Mas a principal razão para este envelhecimento populacional situa-se na quebra da natalidade. A dimensão das famílias reduziu-se, situando-se cerca das 2,8 pessoas por agregado. Mas também a sua natureza se alterou: é agora uma família nuclear em que o pai e a mãe trabalham. Os agregados familiares com mais de cinco ou seis pessoas apresentam uma proporção reduzida face ao número total de agregados. As formas tradicionais da família também têm vindo a modificar-se. É crescente o número das uniões de facto, das famílias monoparentais e das famílias constituídas por apenas uma única pessoa. Aumentou também o número de divórcios e de segundos casamentos, tal como aumentou significativamente o número de filhos nascidos fora do casamento (Barreto, 2005).
No que se refere ao envelhecimento populacional, é de destacar que a sua distribuição não é homogénea no território nacional. Tal como em outros aspectos sociais, também neste se verificam assimetrias regionais. Rosa (1998) é peremptória sobre o assunto quando nos diz que uma viagem por Portugal continental em que nos afastemos, quer do litoral, quer dos dois principais centro urbanos (Lisboa e Porto), nos deixa a sensação de aumentar substancialmente a vastidão de espaços sem gente. Esta constatação parece evidenciar uma situação nacional de desequilíbrio de
povoamento. A maioria dos concelhos mais populosos pertence às Áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto por oposição aos 20 concelhos menos populosos cuja maioria se situa na Beira Interior e no Alentejo. Da análise feita, é possível concluir que, em Portugal, o Norte é uma zona menos envelhecida que o Sul, e que o litoral é uma zona menos envelhecida que o interior.
Também Arroteia (2007) afirma que há uma litoralidade associada a uma população mais jovem. Com efeito, analisando-se os dados relativos à distribuição da população, podemos verificar que é nos distritos do litoral português que predomina uma estrutura demográfica rejuvenescida, fenómeno atribuível ao desenvolvimento socioeconómico que tem caracterizado aqueles distritos e que exerceu dessa forma uma atracção por parte de populações residentes em outras regiões nacionais. É assim que, em contraponto, é assinalável a elevada taxa de idosos residentes na zona Sul do país, bem assim como nos distritos do interior.
Sobre esta questão do envelhecimento da população em Portugal, diz-nos Rosa (1996) que este processo continuará por certo no futuro, embora com intensidade variável. Mais, adianta que se trata de um processo que apresenta inúmeras desvantagens para a sociedade pelas consequências que acarreta, nomeadamente, as de ordem económica. Alerta ainda para uma eventual situação de guerra entre gerações, na medida em que o envelhecimento demográfico possa gerar um conflito de interesses entre as gerações activas e aquelas que por convenção já não o são. Finalmente, conclui, dizendo que Portugal, a par de outros países europeus, embora se possa orgulhar relativamente a ganhos sociais efectivos, nomeadamente o aumento da longevidade e a melhoria das condições de vida, tais factores, paradoxalmente, não podem deixar de constituir preocupação para as gerações.
Sob o ponto de vista dos movimentos migratórios, também se verificaram alterações. Assim, a partir da década de 80 do século XX, Portugal passa de país de emigrantes a nação que acolhe outros povos, nomeadamente provenientes do Brasil e das ex-colónias. A esta situação não é indiferente, segundo Arroteia (2007), a integração de Portugal na União Europeia já que, uma vez conseguida a autorização de residência no nosso país, mais fácil era a circulação em todo o espaço Schengen.
Nos anos 90, a população estrangeira residente em Portugal alcançava já um valor correspondente a 2% da população total. A partir de 1995-1997, o número de imigrantes passou a ser mais elevado do que o de portugueses que procuravam outros países como destino para trabalhar. É nessa altura que, ao contingente de imigrantes, se junta uma nova corrente proveniente dos países do Leste europeu,
designadamente da Rússia, Ucrânia, Roménia, antiga Jugoslávia e Moldávia, o que fez rapidamente elevar para 4% da população total o número de estrangeiros residentes no país (Barreto, 2005).
A integração nacional, administrativa, territorial e social processou-se de modo completo. É uma realidade a característica homogénea do país, o facto de vigorar em todo o território o poder administrativo, tal como é também significativa a dimensão nacional de algumas realidades como as forças armadas, a moeda, as leis e a língua portuguesa. Mas tal homogeneidade não significa igualdade de circunstâncias. Grande parte do país vivia de forma diferente, a uma velocidade diversa daquela a que viviam outros portugueses residentes, quer na capital, quer nas principais zonas urbanas. Para essa integração, contribuíram ainda diversos fenómenos de que destacaríamos a mobilização para a guerra colonial, racionalização da televisão, a consolidação territorial dos serviços de saúde e da segurança social, a par do estabelecimento de redes escolares, de correios e de telecomunicações, com uma cobertura de âmbito nacional. Mas, segundo Barreto (2005), o elemento verdadeiramente decisivo foi a integração da população activa com especial relevo para as mulheres. É que estas passam a estar presentes em todas as empresas, profissões, escolas e Universidades. Este fenómeno assume particular importância se tivermos em conta que, no início da década de 60, as mulheres constituíam 20% da população activa empregada, valor este que se eleva para 50% nos anos 90 do século XX. É assinalável que em diversos sectores, nomeadamente na administração pública e em serviços como os de educação e saúde, as mulheres sejam maioritárias. Também nas Universidades estão em maioria, alcançando 56% da população estudantil daquele sector, tal como é também relevante que, anualmente, 65% dos diplomas universitários sejam obtidos por mulheres.
A par destas alterações sociais, outras se têm vindo a verificar. De acordo com o recenseamento de 2001, há uma quebra acentuada do número de portugueses que exercem a sua actividade no sector primário, quebra esta que tem vindo a ser compensada por um peso crescente do sector dos serviços, com um valor na ordem dos 50%. Complementa esta distribuição o sector industrial, responsável pelo emprego de cerca de 30% da população activa. Outro dado que merece destaque prende-se com a distribuição do tecido social e produtivo por regiões geográficas. Essa análise permite-nos situar a população activa empregada predominantemente nas áreas de melhores acessibilidades, nomeadamente as regiões do litoral, segundo uma lógica de assimetria regional a já que anteriormente havíamos feito referência (Arroteia, 2007).
Também Barreto (2005) nos fala deste fenómeno da terciarização referindo que foi um processo rápido e completo, associado a uma redução drástica do sector primário e a uma estabilização da população industrial. O sector primário que era maioritário nos anos sessenta reduz-se a menos de 8% em 2000. A este propósito devemos referir que, ao contrário da maioria dos países da Europa Ocidental, nunca a indústria foi o sector mais importante sob o ponto de vista da ocupação da população activa. Desse modo, pode-se afirmar que o sector dos serviços passou directamente do último para o primeiro lugar, quer na ocupação de mão-de-obra, quer no emprego. Parte desta mão-de-obra desempenha funções na Administração Pública, sector que ocupava 196 mil funcionários em 1968, 516 mil em 1983 e mais de 716 mil em 2001. Mas, também o desenvolvimento de outros sectores, oferece uma explicação para este fenómeno da terciarização. É o caso de sectores como a saúde, a educação, a banca e as telecomunicações. Este fenómeno de primazia do sector terciário surge associado aos da urbanização e da litoralização, segundo os quais, tal como já referimos, o país se tem vindo a desenvolver assimetricamente com predomínio para as zonas situadas junto à costa e principalmente junto dos principais centros urbanos. Ao longo dos últimos 25 anos, a população activa foi acrescentada de cerca de um milhão de pessoas, totalizando actualmente cerca de cinco milhões, o que representa sensivelmente metade da população residente em Portugal.
Quanto aos números relativos ao desemprego, importa referir que, estando este directamente ligado à conjuntura económica, nem sempre reflectem tendências sociais profundas. No entanto, pode afirmar-se que o desemprego feminino é sempre superior ao masculino (em regra 15 a 20% mais), valores estes que chegam aos 50% a mais em período de crise económica. Os mais afectados por esta situação são as populações jovens, os trabalhadores (homens e mulheres) da indústria e transportes, as empregadas em serviços domésticos, os contratados a prazo por conta de outrem e os trabalhadores masculinos e femininos de baixas qualificações técnicas/académicas (Barreto, 2005).