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No Latim, as formas verbais eram flexionadas a partir de uma perspectiva semântica, em que se relacionava o sujeito da ação às chamadas desinências número-pessoais. Na Língua Portuguesa, também se verifica esse fato. Os verbos latinos eram flexionados nas caracterizações das categorias aspectuais, temporais e modais, o que não acontece hoje no Português, por exemplo, com relação ao aspecto, em que não existe um morfema aspectual que delimite essa categoria, a não ser a dicotomia perfectum e infectum (no contraste entre perfeito e imperfeito).

Para Ismael Coutinho (1968, p. 32), as línguas românicas caracterizaram-se pela forma analítica dos verbos. Assim, como afirma Coutinho,

Essas construções predominaram no Latim vulgar, preenchendo as lacunas decorrentes do desaparecimento de uns tempos ou de empregos novos que outros tiveram (1968, p. 277/278)

Ainda no que diz respeito às “lacunas deixadas pelo desaparecimento de alguns tempos”, observamos o surgimento da nossa forma verbal futuro do pretérito chamado também de modo hipotético ou condicional, que evidencia modo e aspecto como fazendo parte da essência desse verbo, foi certamente, uma grande novidade, pois na língua latina, o período hipotético era composto por uma apódose (caracteriza-se por uma oração principal indicativa de conclusão de uma oração subordinada) que subordinava uma prótase (caracteriza-se por uma oração subordinada) adverbial indicativa de condição, cujos tempos verbais eram o imperfeito do subjuntivo associado ao pretérito mais-que-perfeito do subjuntivo.

Há, em Latim, para as categorias tempo, aspecto e modo, conforme Câmara Jr. (1975, p.127-142), “cinco tempos” (paradigmas flexionais) no modo indicativo: o presente, o pretérito e o futuro concluído e o não-concluído.

No contexto das línguas românicas, a não-estabilidade da forma futuro suscita questionamentos de ordem social e linguística, pois a alternância entre as formas simples e compostas pode ser esclarecida pelo fato de o indivíduo adaptar seu pensamento ao modo como ele irá expor, para que seu receptor compreenda por inteiro o enunciado e o contexto discursivo. A partir desse raciocínio, Bybee, Pagliuca e Perkins (1994) afirmam que os tempos verbais no futuro seguem uma evolução em comum. Assim, especificamente o futuro do pretérito possui uma conduta que assume dois empregos modais: realis (Alfredo não

mataria aquele bicho por ter medo dele; Alfredo não ia matar aquele bicho por ter medo dele)

e irrealis (Alfredo mataria aquele bicho?; Alfredo ia matar aquele bicho?).

Para Leão (1961, p. 46), a construção da Língua Latina arcaica infinitivo +

cantavas, bem havias de fazer). No que se refere à construção “Si cantauisset, bene faciebat”

há a terminação –sse: imperfeito ligado à noção condicional (se cantasses, bem fazias).

Observamos que, à oração condicional, eram usados o imperfeito do indicativo e do conjuntivo (subjuntivo atualmente); isso nos faz pensar que a alternância do futuro do pretérito com o imperfeito do indicativo teve sua origem ainda no processo de acomodação da ideia de condição com as formas verbais existentes para o pretérito, na medida em que se via a transição do Latim vulgar para o Português arcaico, pois, como diz Coutinho (2005), é no Latim vulgar que aparecem os primeiros indícios do futuro do pretérito, que intencionava explicar as orações formadas com o futuro perfeito ou imperfeito do subjuntivo no Latim Vulgar (amare éam). Ainda conforme o autor, a partir do século V, as formas verbais do imperfeito do auxiliar habere sofreram transformações, seguindo-se habebam, habebas para

abéam, abéas; mais tarde, outras mudanças vieram, tendo o imperfeito um ajuste de

terminação: éam, éas, éat, éamus, éatis, éant, que se transformaram, no Português arcaico, em

ia, ias, ia, íamos, íeis, iam (idem, p. 277).

Numa perspectiva morfológica, o futuro era proveniente da forma perifrástica do pretérito latino habeba (auxiliar habere) que, por sua vez, sofreu redução no Latim vulgar para habeam (habe-am) e este foi substituído pela perífrase verbal infinito + haver no

presente do indicativo: “cantare habeo”, transformando-se em uma única palavra,

“cantabo”. Desde então, originou-se uma nova forma de exprimir futuridade, em que o auxiliar verbal “habeo” tornou-se uma desinência na Língua Portuguesa: “-ei, -às, -à, -emos, -eis, -ão”, embora não se tenha posto à deriva a forma verbal composta do futuro. Além do mais, esse acontecimento facilitou, em Português, dois fatos: a “agregação” do pronome oblíquo aos elementos que compõem o futuro “indicá-lo-ei”, “avisá-lo-ei”, “far-se-à”, e a formação de uma outra perífrase “hei de vencer”, sinônima da forma simples “vencerei”.

Com relação ao futuro do pretérito – ou modo condicional em Português europeu, em Francês e em Italiano – que surgiu no Latim vulgar, Câmara Junior (1967) diz que as formas verbais da Língua Portuguesa terminadas em –ria são decorrentes das formas perifrásticas do pretérito latino habeba (auxiliar habere) que sofreu redução ainda no Latim vulgar para habeam. Esse auxiliar transformou-se, em Português arcaico, nas formas -ia, -ias, -ia, -iamos, -ieis, -iam e estas eram usadas como formas compostas do verbo principal que se encontrava no infinitivo: estudar-ia, chamar-ia, vender-ia para a idéia de futuro no passado.

Sucede, porém, que essa forma também passou a aceitar pronomes oblíquos em sua composição: chamar-lhe-ia, convidá-lo-ia, avisá-lo-ia. No Latim não havia o modo

condicional, uma vez que se empregava ou o presente ou o pretérito perfeito do conjuntivo

(subjuntivo) para que se pudesse ressaltar a ideia de futuridade. Ele era, na Língua Latina, manifestado pela perífrase “habebam cantar”, modificando-se para havia cantar no Português arcaico. Esse processo, juntamente com a formação do futuro românico cantarei (Português), fez com que Darmesteter (1940) nomeasse a forma verbal em –ria como “futuro do passado” ou do “pretérito”. Já Coutinho (2005, p. 277) assevera que a forma perifrástica constituída pelo infinitivo do verbo principal + imperfeito do indicativo do verbo habere (amare habéam) era, em princípio, a marca de futuridade em Latim, cujo auxiliar perdeu o “ab-” transformando-se em “-éam, -éas, -éat, -éamus, -éatis, - éant”, (amare éam) o que ocasionou, mais tarde, as desinências modo-temporais do futuro do pretérito no português.

Com relação à morfologia do futuro do pretérito, Cagliari (2006), baseando-se nas gramáticas normativas, destaca as formas flexionadas do futuro do pretérito como sendo unidades que se tornaram “encaixadas”, assim como todos os verbos do Português em virtude das partes morfológicas que se dividem em radical, vogal temática e desinências modo- temporais e número- pessoais. Assim, a autora reporta-se a Câmara Jr. (1970, p. 110) para esboçar o perfil morfológico do futuro do pretérito, que aqui conjugaremos, a título de ilustração:

QUADRO 1

PERFIL MORFOLÓGICO DO FUTURO DO PRETÉRITO

1ª Conjugação

Radical V T DMT DNP

part I Ria Ø

part I Ria S

part I Ria Ø

part I Ria mos

part I Rie Is

A autora (2006, p. 7) discorre sobre o fato de que essa forma verbal, surgida no Português do Brasil, não teve origem no Latim, pois o futuro que lá existia possuía formas perifrásticas, cujo auxiliar era o habére. Ela compartilha da mesma posição de Câmara Jr. (1970), que afirma ter havido uma junção da perífrase verbal no que diz respeito ao futuro do presente e ao futuro do pretérito, em que, neste último, não o verbo haver, mas sim o verbo ir se tornou auxiliar da forma infinitiva do verbo principal, ocasionando mudanças morfofonológicas como, por exemplo, ilustra a autora: em “[amar] [ia]”. Em princípio, a sílaba tônica era no elemento principal do vocábulo composto – amar. Mais tarde, com o uso das formas compostas como exemplificadas acima, a tonicidade recai sobre a última parte – o auxiliar ia, ocasionando uma mudança morfológica – o que antes era um vocábulo composto, passou a ser simples, aglutinado – e uma mudança fonológica, cuja transposição da tonicidade desloca-se para a partícula – ria.

Segundo Cagliari (2006, p.10), o futuro do pretérito, desde seu surgimento

aglutinado, traz uma situação que reside no fato de que, ao se tratar essa forma como simples,

afirma-se que o conjunto radical, vogal temática, desinência modo-temporal e número-pessoal formam blocos fixos, e que - ria, por exemplo, seria a desinência modo-temporal dessa forma verbal o que questiona quando nos chama a atenção ao fato de que, no Latim, o verbo ir era, sim, flexionado e justaposto à forma infinitiva do verbo principal; e argumenta que

[...] as formas do Futuro do Pretérito, ao invés de estabelecerem um paralelo, em termos de comportamento flexional, com as formas ‘simples’, aproximam-se mais das formas do Futuro do Presente do Indicativo, considerando Massini-Cagliari (1999, p.181) como compostas do infinitivo do verbo principal seguido da forma flexionada no verbo aver no Presente do Indicativo [...].

Ao considerar as formas de futuro compostas (presente e pretérito), a autora afirma que é a variação de “viverey e ey a viver”; “viveria e ia a viver” que favorece o uso da mesóclise. Ela toma por referência Nunes (1989), que diz que, no Português arcaico, não se tinha a noção de composição flexional das formas de futuro, ao contrário, essas formas verbais eram encaradas como compostas.

Fleischman (1982) alega que o desenvolvimento das formas futuras é ajustado pelo equilíbrio entre a temporalidade e a modalidade e, em segundo plano, interpõe-se a aspectualidade. Continuando, a autora diz que, se uma forma verbal com indícios de futuridade vem a ser mais modal do que temporal, é evidente que outras formas, isto é

variações linguísticas surgirão para que se possa exprimir a temporalidade que não é

preenchida por aquelas que são mais modalizadas.

Diante do que expusemos, percebemos que o futuro do pretérito se originou das formas perifrásticas do pretérito latino, sofrendo redução ainda no Latim vulgar numa perspectiva morfológica. Surgia, assim, um novo conceito para indicar futuridade em relação a um fato já acontecido no passado. Embora já existissem indícios para a noção de futuridade em relação a um evento passado na língua latina, o futuro do pretérito (ou modo condicional em outros idiomas latinos), somente foi assim denominado a partir das desinências modo- temporais que o caracterizaram como construção verbal, no Português arcaico.