A intenção das revistas de atingir um público leitor diversificado não significava que elas deixavam de dar preferência às camadas mais privilegiadas da sociedade, publicando suas fotos, divulgando seus encontros festivos, comemorando suas personalidades destacadas, seus gostos e hábitos como padrão chic a ser seguido por todos. Fon-Fon era o periódico que mais se comprometia com a exibição dos eventos sociais da elite (bailes, corrida de cavalos, recepções, competições esportivas, etc.), enquanto que Careta era a que, em comparação com as demais, menos atenção concedia a esse tipo de interação social. Percebemos que as revistas operavam dentro de um equilíbrio precário, buscando ao mesmo tempo agradar, ter acesso e divulgar tudo o que dizia respeito aos grupos sociais privilegiados (que despertavam grande fascínio), e, ao mesmo tempo, criticar seus costumes, apontar sua hipocrisia, seu distanciamento e sua indiferença para com o restante dos brasileiros.
É provável que essa flutuação das revistas entre a adesão e a rejeição aos comportamentos dos grupos abastados também integrasse uma estratégia de sobrevivência dos periódicos, no sentido de que se eles se limitassem a tecer pesadas críticas a essa elite
político-social, em sua faceta pública e privada, os profissionais da imprensa provavelmente sofreriam restrições para frequentar os círculos políticos, deixando de ser aceitos nas recepções, nos banquetes comemorativos, nos clubes, nas convenções partidárias e residências particulares, perdendo o trânsito e a acolhida aparentemente cordial que gozavam dentro desse meio privilegiado, de onde emanava boa parte das informações e dos boatos estampados nas páginas desses semanários. Por sua vez, os políticos tendiam a aceitar ou pelo menos tolerar as críticas e as sátiras veiculadas pelas publicações, já que eles também se utilizavam das mesmas para reafirmar perante seus pares uma autoimagem de poder, privilégio, riqueza e influência, tendo a oportunidade de exibir suas figuras nas colunas sociais, nas fotografias e nas notas comemorativas publicadas pelos periódicos.
O envolvimento dessas revistas com o mundo da política institucional gerou alguns atritos entre as publicações e os políticos retratados, sendo que os episódios conflituosos podiam ser interpretados como mera brincadeira, um mal entendido, ou então levados a peito como grave ofensa, tanto da parte dos impressos como dos políticos. As revistas, ao levar perante o leitor essas disputas buscavam sempre favorecer o seu ponto de vista e suas escolhas editoriais. Em algumas situações elas tentavam contemporizar, acalmar os ânimos e assegurar a ausência de qualquer má intenção; em outros momentos, quando sua reputação estava em jogo, não aceitavam qualquer tipo de acomodação. Vejamos um desses episódios:
Tendo chegado ao nosso conhecimento que o deputado Ribeiro Junqueira
disse, diante de algumas pessoas, num barbeiro, que “Careta” lhe pedira dinheiro, fazemos este público apelo à honra do “leader” da bancada mineira
na Câmara Federal, pedindo-lhe que declare quem o procurou em nome desta revista 94.
Na semana seguinte, diante do silêncio do referido deputado, a revista estampa um ataque indignado contra as “caluniosas palavras” do “leviano leader”, portador de uma “máscara de nobreza” 95, acusando-o de tentar retaliar a revista por conta das críticas que ela
fazia às atitudes políticas da referida bancada. Impressiona ao leitor de hoje como um simples “disse me disse” originado no ambiente prosaico de uma barbearia (local de convivência masculina), e levado ao conhecimento da revista, tenha sido suficiente para embasar um pedido público de reparação e, posteriormente, um ataque frontal ao suposto caluniador.
Quando o ofendido era a figura política as revistas buscavam defender-se por detrás da muralha do humor, argumentando que este não poderia magoar, já que operava fora do registro da fala séria, dando a entender que somente esta poderia ferir intencionalmente;
94 Careta. Rio de Janeiro, Ano VI, N. 248, 1 de Março de 1913, s./p. 95 Idem., N. 249, 8 de Março de 1913, s./p.
tratava-se de uma estratégia para escapar de uma eventual escalada de tensões e ao mesmo tempo reafirmar, de forma enviesada, o conteúdo veiculado, pois, como esclarece Verena Alberti, “A inocência, como toda qualidade, também é uma relação política, que abre possibilidades. Dizer “é só uma piada” é também sugerir que poderia ser outra coisa além de uma piada” 96.
Essas publicações frisavam constantemente sua independência com relação a qualquer corrente política da época, proclamando a todo o momento serem veículos isentos, apartidários, comprometidos apenas com a verdade dos fatos, sem rejeitar ou aderir a nomes e projetos políticos específicos. Esse discurso de imparcialidade certamente servia para fixar as opiniões ali divulgadas como mera observação dos fatos, de forma que as críticas veiculadas aparentavam provir da simples constatação de uma realidade transparente. O certo é que em muitos momentos esses periódicos tomaram posição a favor ou contra nomes e movimentos políticos. Achamos bastante interessante que a revista O Malho, muito conhecida pela historiografia por suas críticas políticas tenha sido a publicação mais explicitamente partidária dentre as estudadas, provavelmente em razão de que ao longo do tempo seus proprietários tiveram ligação direta com a política institucional, notadamente no caso do Senador Azeredo. Tal vínculo se expressou de forma muito clara nos posicionamentos tomados pelo periódico. O senador Azeredo foi inicialmente amigo de Rui Barbosa, tendo trabalhado junto com o jurista baiano no jornal Diário de Notícias 97, contudo, a relação entre ambos se deteriorou quando da campanha presidencial de 1909-1910, momento em que Azeredo apoiou o candidato oficial Hermes da Fonseca, amparado pelas forças políticas lideradas pelo poderoso senador Pinheiro Machado 98.
Embora o senador Azeredo proclamasse que não se envolvia com as decisões editoriais de O Malho, alegando que a revista “faz a crítica independente de tudo quanto ocorre” 99, uma leitura rápida da publicação impressiona pela virulência dos ataques contra
Rui Barbosa e pela adesão irrestrita à plataforma política do general Hermes da Fonseca. Tal alinhamento político causou mal-estar entre alguns colaboradores do semanário, aí incluindo,
96 In: Prefácio. LUSTOSA, Isabel (org.). Imprensa, Humor e Caricatura: a questão dos estereótipos culturais.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011, p. 19.
97 In: ABRANCHES, Dunshee de, op., cit., p. 428.
98 Por ocasião da Campanha Civilista Fon-Fon procurou se manter isenta com relação aos candidatos, mas é
difícil não perceber sua simpatia por Rui Barbosa. Já Careta era explicitamente pró-Rui e com a eleição de Hermes da Fonseca nunca deixou de fazer oposição ao Presidente eleito, o que lhe angariou diversos problemas.
99 AZEREDO, Antonio Francisco. O País, 06/09/1910. apud GÓMEZ, Hernán Eufemio. Consagração da
imprensa maciça e transformação dos significados da opinião pública. O caso da charge d’O Malho (Rio de Janeiro, setembro de 1910). XXIV Simpósio Nacional de História - História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos. São Leopoldo, RS, 2007, p. 4. Disponível em: < http://anpuh.org/anais/wp- content/uploads/mp/pdf/ANPUH.S24.0669.pdf > Acesso em: 10/08/2013.
segundo Herman Lima, “todos os desenhistas [...] contrários à atitude assumida pela revista”. O autor atribui a essa postura a queda da tiragem do periódico, que ao longo da campanha teria perdido o apoio de parte dos leitores, passando de 40.000 para 18.000 exemplares 100. Os funcionários, para manter o trabalho, precisavam submeter-se às diretrizes editoriais dos chefes, daí ser problemático concluir que pelo fato de um desenhista criar uma composição atacando certo político, ele estaria exprimindo sua posição política pessoal. Nesse sentido, fazer a análise isolada da produção de certo autor nesses periódicos na tentativa de mapear suas preferências políticas é algo arriscado, pois os colaboradores estavam emprestando seu talento para um empreendimento comercial, que visava lucro e que seguia diretrizes editoriais pautadas por vínculos sociais, econômicos e políticos.
[...] era do feitio do programa de “O Malho”, através de seu Diretor Luís
Bartolomeu mandar as “notas”, ou seja, recados, para que os artistas
executassem as charges políticas, ao gosto do interesse da revista. Luís Bartolomeu não era um artista. Era o diretor de uma empresa jornalística, e geria os negócios de acordo com os interesses econômicos e políticos a que essa empresa estava ligada. Tais notas, recados, pois, obedeciam a um interesse todo privado 101.
Porém, no que se refere ao acompanhamento da vida parlamentar em geral, O Malho fazia uma cobertura próxima das demais publicações estudadas, não poupando a instituição legislativa de admoestações severas. Acreditamos que os políticos se sentiam de alguma forma afetados pelo conteúdo e pelas opiniões veiculadas por essas revistas e, obviamente, pela imprensa como um todo. Esse não é o tema principal do trabalho e temos poucos elementos para auferir tal hipótese, mas levantamos fortes indícios de que os homens públicos do período não eram alheios ao que se publicava sobre eles nas revistas ilustradas.
Um caso emblemático foi a publicação de uma charge em O Malho no dia 3 de setembro de 1910, intitulada LESMAS PERNICIOSAS, reproduzida a seguir.
100 In: História da Caricatura no Brasil. Vol. 3. Rio de Janeiro: José Olympio, 1963, p. 1.041.
101 MURUCI, Lucio Picanço. Seth: um capítulo singular na caricatura brasileira. Tese de Doutorado. Pontifícia
Ilustração 1: Lesmas Perniciosas
No topo da imagem constava o seguinte texto: “A Câmara dos Deputados só teve número para votar... a prorrogação subsidiada das suas sessões... Tem-se notado com tristeza que o maior culpado da esterilidade da Câmara é o Dr. Sabino Barroso, presidente, etc. (Trecho de uma correspondência)”. Na legenda, abaixo da imagem, estava escrito:
Seabra (líder da maioria): - Para varrer a minha testada, preciso varrer fora
esta lesma, que não tem força nem jeito para ocupar o lugar que ocupa!
Zé Povo: - Pois, varra, seu Seabra, varra! Si a “cousa” dependesse de mim,
eu já teria despachado a lesma para as “alterosas montanhas”! Confiar lugares de importância e responsabilidade a tais bichos de concha é chover no molhado: é querer a repetição das ratas em que essa gente é fértil, quando ocupa esses lugares... Varra, seu Seabra! Sinão... varro eu... tudo!...102
A imagem representa o líder da bancada da maioria na Câmara dos Deputados, José Joaquim Seabra, mais conhecido como J. J. Seabra, varrendo para fora do recindo da Câmara uma lesma cujo rosto representava o deputado Sabino Barroso, Presidente da Câmara. Na carapaça do animal podemos ler as seguintes palavras: incapacidade, impotência e inatividade. Na parede do cômodo se vê uma nota pregada com os seguintes dizeres: “Lotação
patriótica e unânime para a prorrogação das sessões da Câmara! Sabido Barroso – Presidente”. A charge criticava o pretenso fato de que a Câmara só tinha quorum para votar a prorrogação dos seus trabalhos (mediante remuneração das sessões extras), e que após esse feito não se conseguia número suficiente para votar as matérias pendentes na pauta. A culpa de tal situação, na imagem, foi imputada ao presidente da Casa, retratado como fraco, lento e inoperante. Já J.J. Seabra, como líder da maioria, foi representado como alguém forte e disposto, desejoso de se ver livre dos obstáculos que dificultavam o trabalho. Zé Povo, figura muito comum nas revistas da época, representando o povo, foi retratado como seu aliado, dando-lhe respaldo, legitimidade e apoio. Sabino Barroso, deputado mineiro, era varrido em direção a “Minas”, como é possível ler na imagem e na menção que a legenda faz às “alterosas montanhas”.
Apesar de charges como essa serem bastante comuns na publicação e seu conteúdo não ser mais forte do que outras que tivemos a oportunidade de verificar, ela provocou grande comoção na Câmara dos Deputados. De acordo com Hernán Gómez, depois que a edição veio a público Sabino Barroso não compareceu à sessão seguinte, a bancada minera também se ausentou em solidariedade ao conterrâneo e por considerar que as referências ao Estado foram ofensivas. Diversos parlamentares subiram à tribuna para desagravar o presidente da Casa e criticar o que se considerou como desrespeito do semanário para com uma figura pública. É provável que a questão tenha repercutido fortemente pelo fato de que O Malho pertencia ao Senador Azeredo, membro da maioria no Legislativo e, portanto, teoricamente aliado da bancada mineira e do próprio Presidente da Câmara, vítima da charge. Barbosa Lima, líder da minoria, em discurso na tribuna interpretou o episódio como um sinal de racha e desentendimento nas forças políticas que elegeram Hermes da Fonseca para Presidente da República. O imbróglio foi tamanho que o senador Azeredo veio a público negar qualquer envolvimento com a questão, alegando que não tomava conhecimento, previamente, do conteúdo da revista 103.
O próprio semanário, nas edições seguintes, defendeu sua posição orgulhosamente, alegando que procuraram “atribuir a este periódico intenções que ele nunca teve nem podia ter [...] que estavam em jogo o pundonor e a dignidade de Minas”. A revista, como era de praxe, recorreu ao humor, alegando que tal ilação era uma tentativa de “misturar pólvora e dinamite a uma pitada de rapé, destinada, apenas, a fazer espirrar”, dando a entender que a charge desencadeou reações desmedidas, desproporcionais e que por isso mesmo tais respostas
seriam improcedentes e deslocadas. Contudo, apesar de não se retratar, a revista dá por encerrada a questão, “não retaliemos” diz o autor, procurando ao mesmo tempo demonstrar ao leitor que o semanário não temia o confronto e que não estava ali para satisfazer os poderosos, “pouco se lhe dá que a filáucia da intriguice o alfinete com a filigrana das costumeiras... lorotas” 104.
Apesar dos protestos do semanário contra o que julgou ser uma reação exagerada da parte dos políticos com relação ao que foi publicado, as revistas desejavam sim impactar a opinião política do país, defendendo seu papel e sua especificidade frente aos outros veículos da imprensa.
Há muita gente que dá a maior importância ao que contra ou a favor dela publicam os jornais diários. Entretanto, não liga ao que digam as revistas. Não posso compreender essa tolice. [...] a revista é, do ponto de vista da publicidade, muito mais valiosa que o jornal. Este morre depois de lido, no mesmo dia, e somente na capital. A revista espalha-se pelo Brasil inteiro, penetra por toda a parte e dura quase tanto quanto o livro. Ninguém guarda os jornais velhos e é bem raro quem não guarda velhas revistas ilustradas 105.
Temos aí uma preciosa e atual reflexão sobre o lugar das revistas no mundo dos impressos. O jornal seria efêmero, frágil, descartável, de circulação restrita ao local onde se publicava, alcançando, portanto, um público menor. Já as revistas, no caso das mais populares, eram distribuídas em diversas partes do país, sua qualidade material era atestada pela durabilidade maior, quase igual a de um livro (comparação que trazia prestígio), e os seus consumidores tendiam a colecioná-las, podendo consultar seu conteúdo ao longo dos anos, subentendendo, assim, que o que esses periódicos tinham a dizer possuía relevância para além do imediato 106. Claro que se trata de uma caracterização dotada do interesse explícito de
valorizar o próprio produto, mas nem por isso o trecho deixa de ser revelador, pois indica que os profissionais da imprensa estavam cientes do potencial de cada veículo, e que existia uma disputa por prestígio e pelo impacto dos diferentes tipos de periódicos entre o universo mais amplo dos leitores.
104 J. BOCÓ. Crônica. O Malho. Rio de Janeiro, Ano IX, N. 418, 17 de Setembro de 1910, s./p. 105 Garatujas. Fon-Fon. Rio de Janeiro, Ano XXI, N. 48, 26 de Novembro de 1927, s./p.
106 A prática de colecionar as revistas tinha possivelmente um lastro na realidade, pois a própria Fon-Fon
anunciava, em dezembro de 1909, a venda da sua “coleção anual [...] Os 52 exemplares [...] reunidos em volume, como fazem inúmeros dos seus leitores em todo o Brasil [...] de grande utilidade para coleções e consultas futuras”. O periódico indicava que o seu conteúdo possuía um interesse que se estendia no tempo, para além do presente, pois “sintetiza [...] pela fotografia, pela “charge”, pelo humorismo, os acontecimentos mais dignos de realce, na política, bem como em todas as manifestações da vida nacional [...] precioso resumo da vida contemporânea brasileira”. Note-se que a política foi o único assunto nominalmente citado, e que a publicação destaca, como chamariz para os leitores, dois aspectos: sua vocação ilustrada e humorística. In: Fon-Fon!. Fon- Fon. Rio de Janeiro, Ano III, N. 51, 18 de Dezembro de 1909, s./p.
Independentemente da real influência das revistas na vida pública do país é interessante ressaltar que os parlamentares, mesmo quando discordavam do conteúdo das publicações e da forma como eram retratados, tendiam a suportar as críticas sem recorrer a atitudes arbitrárias, violentas ou de censura. As revistas ilustradas não foram publicações incendiárias, que lutavam para subverter o status quo, pelo contrário, no que toca ao conteúdo sobre política elas apenas demandavam uma reforma do sistema vigente que ampliasse a participação das camadas “esclarecidas” da população nas decisões do país. Solidarizavam-se com as condições precárias de vida dos segmentos pobres através de discursos genéricos e superficiais, mas em nenhum momento prestaram apoio a movimentos de cunho fortemente contestador. A duplicidade da postura das revistas, criticando os políticos no exercício de suas funções, mas festejando-os no seu papel de elite social e cultural, certamente lhes angariou um grau maior de tolerância por parte dos poderosos, desejosos de exibir publicamente sua prosperidade e civilidade, diferenciando-se do restante da população. Mesmo assim acreditamos que existiu por parte dos parlamentares da época uma considerável tolerância diante das críticas e das piadas de que eram alvo. Alguns podem argumentar que a simples observância da lei não pode ser travestida de ato de magnanimidade, e que os legisladores não mereceriam crédito por respeitar a liberdade de imprensa. Contudo, em um período em que a máquina estatal podia ser facilmente usada para retaliar e calar opositores e descontentes consideramos que, de modo geral, deputados e senadores conviviam bem com a expressão de opiniões negativas a seu respeito, permitindo o trânsito dos profissionais da imprensa nas dependências do Legislativo e em outros locais de sociabilidade.
A título comparativo não se pode dizer o mesmo dos membros do poder Executivo. Talvez por conhecerem bem o terreno por onde circulavam, os limites implícitos de cada círculo de poder e as peculiaridades de cada instituição política, as revistas tendiam a se abster de tecer críticas pesadas ao Presidente da República. A irreverência e o deboche também eram usados para falar do ocupante da Presidência 107, mas as piadas tinham por alvo manias e hábitos inofensivos como, por exemplo, a forte religiosidade do presidente Afonso Pena, que tinha o costume de ir à missa quase todos os dias. Não encontramos qualquer tipo de referência direta a um comportamento inadequado do presidente e dos ministros no que se refere ao desempenho de suas funções ou de como lidavam com a coisa pública. Insinuações nesse sentido podiam até ser feitas, mas sem citar o nome do ocupante do Executivo Federal.
107 Isabel Lustosa aborda a relação entre a imprensa e os Presidentes da República no Brasil entre os anos de
1897 e 1960, em: Histórias de presidentes: a República no Catete. Rio de Janeiro; Petrópolis: Fundação Casa de Rui Barbosa; Vozes, 1989.
Essa cautela também pode ser atribuída à experiência conturbada dos anos iniciais da República, momento em que aqueles que ousaram criticar os Presidentes, notadamente Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, sofreram violenta retaliação, com empastelamento de jornais e até a morte de funcionários 108.
Consideramos também que outro ponto relevante para essa atitude mais aberta de deputados e senadores para com a imprensa é que o Parlamento funcionava de modo mais transparente e público do que o poder Executivo. Adentrar a sede presidencial e privar com