2. Materials and methods
2.6 Statistics analyses
A internet e o desenvolvimento de novas tecnologias têm contribuído para que os cidadãos encontrem maior espaço na produção de conteúdo, e não apenas no seu consumo, gerando conceitos como cidadão-jornalista ou cidadão-monitor. O primeiro diz respeito ao cidadão que atua como um pretenso profissional da comunicação, colaborando com determinado veículo, ao sugerir pautas ou mesmo dados que possam complementar uma matéria:
Chamem-nos de produtores de notícias. Chamem-nos de fontes.
Chamem-nos de assuntos – e às vezes, do ponto de vista deles, as vítimas
relutantes – do jornalismo. Mas, não importa como os descrevemos, nós todos devemos reconhecer que as regras dos produtores de notícias, não apenas dos jornalistas, mudaram, graças à habilidade de todos em fazer notícias (GILLMOR, 2006, p. 45, tradução livre da autora).
O segundo conceito (cidadão-monitor), como explica Jenkins (2009), refere-se ao acompanhamento coletivo dos cidadãos sobre acontecimentos, em um determinado local ou sociedade. A possibilidade de interagir com o conteúdo disponível na rede, oportunizando aos cidadãos mais espaço para a troca de informações e opinião, aproximou o conceito de consumidor ao de produtor. Para Mattos (2011, p. 88),
[...] baseado no fato de que a internet modificou a maneira de se construir informação, o maior desafio dos veículos impressos será o de formar e fidelizar novos leitores (consumidores de informações) principalmente entre os jovens, sem deixar de considerar que, com o avanço das tecnologias digitais e da portabilidade, os leitores também se transformaram em produtores e distribuidores de conteúdos informativos.
Gillmor (2006) observa como, devido à internet, o futuro das notícias pode ser apropriado pelos cidadãos. Jornalistas profissionais não são mais os únicos
envolvidos na cobertura de um acontecimento. “Pela primeira vez na história, ao menos no mundo desenvolvido, qualquer pessoa com um computador e conexão com a internet pode ter um jornal” (GILLMOR, 2006, p. 24), avalia o autor.
Como exemplo, ele cita os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Um evento memorável para a população, que co-produziu as informações divulgadas sobre o acontecimento das mais variadas formas: vídeos amadores serviram de conteúdo para reportagens de grandes redes, assim como comentários em blogs e outros sites, com a opinião de quem vivenciou de perto um dos dias mais marcantes do início do século XXI.
Desta forma, Gillmor (Ibid.) defende uma possível nova forma de ativismo, uma vez que, estando os cidadãos na posição de produtores da informação, o espaço para a opinião e a troca de informações aumentou, consideravelmente. Neste aspecto, vale relembrar o conceito de convergência de Jenkins (2009, p. 347), quando o autor explica que,
[...] em vez de estar substituindo as velhas mídias, o que eu chamo de cultura da convergência está sendo moldada pelo crescente contato e colaboração entre as instituições de mídia consagradas e as emergentes, pela expansão de agentes produzindo e circulando mídia, e o fluxo de conteúdo pelas múltiplas plataformas e redes.
Ou seja, é na compilação de diferentes plataformas, em especial as tradicionais e as mais novas, que a convergência acontece. Para Gillmor (2006), ao testemunhar o futuro das notícias, a sociedade está, na verdade, testemunhando o presente, a realidade atual dos meios de comunicação, possibilitada pelo avanço das novas tecnologias. O embate entre mídias tradicionais e novas vem sendo reavaliado por diversos autores, mas as diferentes opiniões apresentam consenso a respeito da convergência, e não simplesmente a vitória de uma plataforma sobre outra.
Em Cultura da convergência, Henry Jenkins (2009) relata o caso do programa norte-americano “60 Minutes”, transmitido pela rede CBS19. Uma das edições alegou ter provas que acusavam o ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de ter usado a influência da família para que não fosse convocado à Guerra do Vietnã (1959-1975), no período em que prestara serviço militar para a Guarda Nacional. O resultado: blogueiros conservadores (em alusão ao partido de Bush, o Republicano) constataram que o tipo de documento apresentado pelo programa não poderia ter sido elaborado por máquinas de escrever daquele período, sugerindo que as provas eram falsas. A primeira reação da CBS foi criticar os blogueiros, chamando-os de “amadores bem-intencionados”. Por fim, a rede desculpou-se publicamente e ainda demitiu alguns de seus produtores e repórteres mais antigos.
Após relatar o caso, Jenkins (Ibid., p. 293) comenta sobre as diferentes reações entre alguns escritores, destacando a opinião do editor da revista Reason20, Jesse Walker (2004):
Os novos meios não estão substituindo os velhos; estão transformando-os. Devagar, mas de modo perceptível, a velha mídia está se tornando mais rápida, mais transparente, mais interativa – não porque quer, mas porque precisa. A concorrência está apressando o ciclo da notícia, quer se queira acelerá-la ou não. Os críticos estão examinando como os repórteres fazem seu trabalho, sejam esses olhos observadores bem-vindos ou não.
Na linha de Walker, o jornalista brasileiro Manuel Carlos Chaparro apresentou sua opinião no artigo “Internet é aliada, não inimiga”:
O que importa não é o jornalismo impresso, mas o jornalismo de texto, qualquer que seja o seu suporte material (ou digital) e o seu cheiro. Também sob esse ponto de vista, a Internet não representa qualquer ameaça ao jornalismo impresso. Ao contrário: em tempos dominados pelo fascínio da imagem, a Internet representa, de alguma forma, o resgate do
19 Columbia Broadcasting System. Ver em: <http://www.cbs.com/>. 20 Ver em: <http://www.reason.com>.
texto. Por outro lado, é sempre bom lembrar que a Internet deve ser entendida e tratada como aliada, não como inimiga, do jornalismo impresso. Estou até convencido de que, graças à Internet, aproxima-se o tempo em que poderemos, de alguma forma, imprimir em nossa própria casa o jornal que nos convém, contendo apenas o que nos interessa ler (CHAPARRO, 2005, p. 39).
Opiniões como a de Jenkins (2009), Walker (2004) e Chaparro (2005) comprovam que mídias tradicionais e novas podem encontrar um espaço de colaboração, sem necessariamente haver eliminação de uma ou vitória de outra. É por esse motivo que o debate sobre a convergência midiática se torna tão importante.