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A Ilíada Latina nos chegou dividida em 24 livros como a obra homérica, divisão esta que foi provavelmente feita pelos copistas da Antiguidade, ou também pode remontar ao uso do texto nas escolas (para facilitar a consulta), e não pelo próprio autor. Isso justifica porque a

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Posêidon, em latim Netuno, deus dos mares.

20 O mito romano atribui a Eneias a origem de seu povo. Após escapar da guerra de Troia, ele se estabelece na Itália e se torna antecessor dos gêmeos Rômulo e Remo, míticos fundadores da cidade de Roma. Augusto, primeiro imperador romano e sobrinho de Júlio César, atribuía a origem de sua família ao filho de Eneias, Ascânio. Daí a menção à descendência de Eneias nesses versos.

41 divisão dos livros não é muito clara e, em alguns casos, parece dar-se dentro do mesmo verso. A divisão dos livros nem sempre respeita a divisão homérica, pois Bébio modifica a sucessão de alguns eventos, sobretudo na parte final, onde a narrativa é bem resumida.

A Ilíada Latina resume a Ilíada de Homero de maneira bastante irregular. Os cinco primeiros livros correspondem à metade da obra, enquanto os outros 19 livros se condensam na outra metade. Isso poderia indicar que o autor não teve interesse, ou ânimo, de fazer um resumo proporcional. Alguns episódios são retratados de maneira bem detalhada, enquanto outros são completamente excluídos.

A extrema condensação de alguns livros os torna simples passagens de transição. Os livros mais resumidos da Ilíada latina são o XIII e o XVII, sendo este último reduzido a apenas três versos. Às vezes o autor também funde vários episódios em apenas um e, por consequência, atribui a uma mesma personagem ações que em Homero são desempenhadas por personagens distintas.

Os versos iniciais são praticamente iguais a Homero, o que denota que Bébio os sabia de cor. Têm-se ainda graves confusões com nomes e personagens secundários, que poderiam ter sido causadas pelo próprio poeta ou pela tradição manuscrita. Sobre a forma de resumo da

Ilíada Latina, temos:

A forma de condensar o texto homérico parece indicar que (...) a Ilíada latina não pretendeu ser, ainda que esse tenha sido o seu destino, um simples resumo do original grego destinado à escola, o que faria esperar um resumo mais equilibrado do original; porém é mais uma antologia de distintos episódios da Ilíada, já extraídos e tratados em latim por outros autores, que poderiam circular com certa autonomia. Isto explicaria, na opinião geral, que alguns destes episódios tenham na Ilíada latina uma extensão similar a que têm no poema homérico, quando resultam por seu conteúdo, mais adequados que outros para serem eliminados do que pretendeu ser só um resumo do tema: e se trataria de passagens para as quais o nosso autor teria maiores possibilidades de imitação por contar com modelos latinos; fáceis de narrar no estilo virgiliano ou ovidiano, acessíveis, portanto, a seu limitado talento poético.21

21 “La forma de condensar el texto homérico parece indicar que (...) la Ilíada Latina no pretendió ser, aunque

esse acabara siendo su destino, un simple resumen del original griego destinado a la escuela, lo que haría esperar un resumen más equilibrado del original, sino más bien uma antología de distintos episodios de la Ilíada, extractados y tratados ya en latín por otros autores, que podrían circular con cierta autonomía. Esto explicaría, en la opinión general, que algunos de estos episodios tengan en la Ilíada Latina una extensión similar a la que tienen en el poema homérico, cuando de hecho resultan, por su contenido, más adecuados que otros para ser eliminados de lo que pretendiera ser sólo un resumen del argumento: y es que se trataría de passajes para los que nuestro autor tenía mayores posibilidades de imitación por contar con modelos latinos; fáciles de narrar en estilo virgiliano u ovidiano, asequibles, por tanto, a su limitado talento poético.” (Vega, López, 2001, p. 25)

42 Ao contrário de um epítome, no qual há um resumo metódico e regular de cada livro, a obra de Bébio resume a Ilíada de forma seletiva. A narrativa se desenrola com o uso de fórmulas e símiles semelhantes à obra homérica, buscando imitar o aspecto formal do poema grego.

Na realidade Bébio foi apenas um modesto representante da poesia épica de cunho classicista, e reelabora Homero sem visar a mais do que seus modelos canônicos. Sua única intenção é produzir um exercício de tradução poética do grego, sem deixar-se envolver em um refazimento de perspectiva total da Ilíada. (Scaffai, 1997, p. 27).

Da herança manuscrita temos trinta espécimes, sendo os mais antigos dos séculos X e XI. Têm-se, do século IX, as primeiras notícias dos códices da Ilíada Latina, que começaram a circular juntamente com outros textos da Antiguidade por causa do Renascimento impulsionado por Carlos Magno. Scaffai (1997, p. 46) afirma que a obra deve ter recebido na época carolíngia o genérico título de Liber Homeri (seguindo a nomeação de obras como

Liber Catuli, etc) ou simplesmente Homerus. Posteriormente foi adotado o título Ilíada Latina. O texto da Ilíada Latina nos chegou em condições assaz boas, privado de corruptelas,

lacunas e interpolações vastas (Scaffai, 1997, p. 48).

O texto sobreviveu aos dias atuais por ter sido adotado pelas escolas, o que justifica o bom número de manuscritos e a boa preservação da obra, pois nos primeiros séculos da nossa era não há sequer menção à Ilíada Latina.

A tradução da Odisseia por Lívio Andronico não foi integral, como vimos acima. A

Ilíada só foi traduzida posteriormente. A esse respeito Butler afirma:

Com o crescimento do conhecimento do grego e seu crescente uso como meio de instrução nas escolas por um lado, e o surgimento de Virgílio e a ascensão da saga de Eneias por outro, a demanda por uma tradução da Ilíada naturalmente diminuiu. A Idade de Prata chegou com o problema não resolvido. Foi um período no qual os escritores abundavam em quem seria melhor empregado na tradução do que em qualquer tentativa de trabalho original.22

A ampla difusão da Ilíada Latina se deve à inclusão do poema entre os séculos XII e XIII na miscelânea dos “Livros Catonianos”, particularmente nos “livros manuais” amplamente lidos nas escolas medievais, nos quais a Ilíada Latina representa o componente épico. No curso do século XIII, porém, a Ilíada Latina se separa do corpus do “Livro

22“With the growth of the knowledge of Greek and its increasing use as a medium of instruction in the schools on the one hand, and the appearance of Virgil and the rise of Aeneas saga on the other, the demand for a translation of the Iliad naturally became less. The Silver Age arrived with the problem unsolved. It was a period when writers abounded who would have been better employed on translation than on any attempt at original work.” (Butler, 2008, p. 158)

43 Catoniano” para entrar em outra miscelânea de caráter variado, por uma tendência a colocá-la a par com outra obra clássica de extensão análoga, a Aquileida de Estácio. (Scaffai, 1985, p. 1930) 23

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Para uma análise detalhada da herança manuscrita e família de pergaminhos recomendamos o livro de Marco Scaffai, Ilías latina, já que o autor italiano estabeleceu uma edição crítica da obra e fez acurada análise dos manuscritos.

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3 – Facetas de Ílio

Nesse capítulo veremos, de maneira sucinta, a estrutura narrativa e o estilo de composição da Ilíada, além da construção das personagens.

Pretendemos, ainda, fazer um levantamento e estudo das passagens mais relevantes da

Ilíada que Itálico mantém em sua adaptação, bem como analisar os aspectos importantes que

ele omite, visando a estabelecer relações entre as duas obras.

Também abordaremos alguns aspectos da latinidade da obra, como, por exemplo, os de ordem ideológica e a influência de outros poetas de Roma, como Virgílio e Ovídio.

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