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A expressão relação social, como definida por Weber (2008), é usada para designar a situação em que duas ou mais pessoas estão empenhadas numa conduta:

onde cada qual leva em conta o comportamento da outra de maneira significativa, estando, portanto, orientada nesses termos. A relação social consiste, assim, inteira- mente na probabilidade de que os indivíduos comportar-se-ão de uma maneira sig- nificativamente determinável. É completamente irrelevante o porquê de tal proba- bilidade, mas onde ela existe pode-se encontrar uma relação social (WEBER, 2008, p.45).

Kergoat (2010) explica a relação social como uma relação antagônica entre dois grupos sociais, instaurada em torno de uma disputa [enjeu]. No caso deste estudo, entendemos que essa relação se dá entre o grupo dos que cuidam: atividade que deveria ser desempenhada por todos/as, mas que é comumente desempenhada por mulheres pobres - e o dos que recebem cuidados: que podem ser ora pessoas pobres, como no SUS e nas famílias pobres, ora pessoas que contratam esse serviço. A ca- tegoria gênero adquire centralidade na construção dessa relação, na medida em que o cuidado é tra- tado de forma naturalizada como modos de sentir e agir das mulheres, sendo, sobretudo, a relação social de sexo o que define o lugar das relações de cuidado e a probabilidade de os indivíduos com- portarem-se de uma maneira significativamente determinável.

É necessário ponderar que a centralidade estabelecida da categoria gênero só é possível ao nível da análise sociológica, uma vez que as relações sociais de gênero, classe e etnia são consubstanci- ais21 e coextensivas, ou seja, elas são entrecruzadas de forma dinâmica, ajustam-se e constroem-se

e, ainda que tenham contradições entre si, estruturam a totalidade do campo social (KERGOAT, 2010)

Nesse sentido, Kergoat (2010) destaca que o cuidado é um instrumento precioso para observar a dinâmica das relações sociais. Como diz a autora, atualmente nessas atividades é possível notar, por exemplo, uma “radicalização e extensão qualitativa e quantitativa das relações de classe” (KERGO- AT, 2010, p.102): tem-se, pela primeira vez na história do capitalismo, uma classe de mulheres cujo 21 É certo que, colocadas desta maneira, em termos de “ou isso/ou aquilo”, elas parecem levar a um impasse. Co- locar o problema nos termos da consubstancialidade das relações sociais permite outra abordagem: de acordo com uma configuração dada de relações sociais, o gênero (ou a classe, a raça) será — ou não será — unificador. Mas ele não é em si fonte de antagonismo ou solidariedade. Nenhuma relação social é primordial ou tem prioridade so- bre outra. Ou seja, não há contradições principais e contradições secundárias. Quando as mulheres da rede hotelei- ra Accor enfrentam conflitos, o fazem como mulheres, trabalhadoras, mulheres negras; não fazem reivindicações separadas. Lutando dessa maneira, elas combatem a superexploração de todas, e sua luta, assim, tem alcance uni- versal. Essa abordagem exige o esclarecimento de alguns princípios, se não quisermos confundir práticas sociais, relações sociais e identidade, e se não quisermos que a idéia de consubstancialidade seja usada em todo e qualquer registro e se torne, por assim dizer, um saco de gatos. Essa análise vai contra a idéia de que, por exemplo, as rela- ções de classe se inscrevem unicamente na instância econômica, e as relações patriarcais unicamente na instância ideológica. Cada um desses sistemas possui suas próprias instâncias, que exploram economicamente, dominam e oprimem. Essas instâncias se articulam entre si, de maneira intra e intersistêmica. Tal enunciado lança um desafio à análise empírica. Como não isolar as relações sociais, se não quisermos trabalhar com categorias rei ficadas?

capital econômico, social e cultural aumentou pela entrada no trabalho assalariado e que, sem a me- diação direta dos homens (pais, maridos, amantes), são empregadoras de outras mulheres. Estas, por sua vez, são empregadas em serviços notadamente flexíveis, precarizados e com demanda cada vez maior das suas subjetividades, o que representa uma “irrupção de uma oposição de classe di- reta” (KERGOAT, 2010, p.102) entre mulheres.

No Brasil e em muitos países, as faxineiras, as babás, as cuidadoras de idosos22 exemplificam

essa questão. Junto delas, como um nó, a “racialização e 'alterização'” (KERGOAT, 2010, p.102) do cuidado fazem com que seja considerado natural ver qualidades como próprias de uma ou outra et- nia e fazem com que a construção ideológica do outro se dê ainda mais de perto: não mais distante nas periferias, o outro passa a viver e trabalhar diretamente nas casas ou com as famílias.

Para apreender as relações sociais, Kergoat (2010) aponta alguns imperativos:

− essas relações são produzidas, nela se entrecruzam exploração e opressão. No que concerne às relações sociais de sexo, a autora acredita que tais disputas são formadas pela divisão do trabalho entre os sexos e o controle social da sexualidade e da função reprodutiva das mu- lheres;

− elas possuem uma estrutura que permite sua permanência, mas seu caráter histórico é central para análise;

− as relações sociais são instáveis no tempo e espaço, mas têm alguns princípios organizado- res. Na divisão sexual do trabalho observam-se dois princípios: o princípio da separação (o trabalho do homem é distinto do trabalho da mulher) e o princípio da hierarquia (o trabalho do homem “vale” mais do que o trabalho da mulher).

Sobre as relações sociais de cuidado, algumas questões foram observadas por Guimarães, Hirata e Sugita (2011) a partir de um estudo comparativo sobre Brasil, França e Japão. Nos três países, as autoras observaram que a atividade de cuidado é regida pelo princípio da separação (entre homens/mulheres e entre migrantes/não migrantes), fazendo-se valer também o princípio da hierar- quia, uma vez que esses trabalhos valem menos que a grande maioria dos trabalhos, ou seja, salários mais baixos com perspectiva de carreira muito limitada, insuficiente formação e precária formaliza- ção do status profissional, observações corroboram a desvalorização que a expressão “tomar conta” carrega, referindo-se ao cuidado no Brasil.

Kergoat (2010) também distingue as relações sociais das relações intersubjetivas, sendo que as primeiras têm caráter abstrato e são uma construção discursiva e ideológica (de produção material e ideal), enquanto as últimas são próprias dos indivíduos concretos entre os quais elas se estabelecem. Para a autora, as relações sociais e intersubjetivas são distintas também das práticas sociais, que são 22 No Brasil é comum a contratação de auxiliares de enfermagem para esta função.

aquelas práticas que podem dar origem a formas de resistência, capazes de serem transformadoras no nível das relações sociais (KERGOAT, 2010).

O exemplo da Coordination Infirmière, movimento social do fim da década de 1980 na França, é esclarecedor. Nas reuniões do movimento, o convívio era inega - velmente feminino: as integrantes faziam questão de chamar-se pelo nome, pergun- tar sobre a saúde, comentar uma roupa nova ou uma ida ao cabeleireiro etc. São formas de relação intersubjetiva que suavizam o clima das reuniões, mas que não afetam de maneira alguma a dinâmica da dominação masculina no interior do mo- vimento. Assim que uma disputa surgia no horizonte, os velhos mecanismos volta- vam ao seu lugar (por exemplo: quem falará à imprensa?). O que pode de fato questionar as relações sociais de sexo são as práticas sociais coletivas: por exem - plo, decisões como quais as mulheres que terão as responsabilidades formais (pre- sidência da associação) e práticas (responsabilidades organizacionais durante as manifestações), ou a decisão de que haja um aprendizado coletivo em situações de fala diante de um público etc. Não é por serem mulheres que as enfermeiras são subversivas quanto à relação social de sexo — vemos com este exemplo que o su- jeito das lutas não se justapõe ao sujeito da dominação —, mas sim porque se transformaram em um sujeito coletivo produtor de sentido e sujeito de sua própria história. Elas saíram da imagem imposta de feminilidade para se tornarem mulhe- res portadoras de poder de ação na construção e no desenvolvimento das relações sociais. Por meio delas, o grupo social “mulheres” apropriou-se de outras maneiras de pensar e agir, de outras formas de “produção social da existência humana (KER - GOAT, 2010, p.95).

2.2 Intersubjetividade

É na via das relações sociais e também com o olhar sob as relações intersubjetivas, parte do co- tidiano concreto, com aporte da sociologia compreensiva, que nos propomos a focar nossas análises. Compreendemos que, de fato, pertencer a determinada posição social, ter determinado sexo ou etnia torna o acesso a certos recursos de vivências e a certas experiências - como as relações de cuidado - mais ou menos prováveis. A sociologia compreensiva nos ajuda a interpretar condutas humanas in- teligíveis, na medida em que busca perceber num contexto de modos usuais de pensamentos e senti- mentos como as partes componentes da conduta das/os agentes articulam-se entre si, para constituir ações23 orientadas para algum fim “típico”, ou seja, uma ação que seja portadora de sentido (WE-

BER, 2008, p.25).

Os indivíduos orientam sua conduta em função daqueles conceitos [referindo a conceitos coletivos, derivados de ideias legais, do senso comum] que, desta manei- ra, exercem com frequência uma influencia causal muito real, dominadora, sobre a ação desses indivíduos. Isto é verdade especialmente quando esses conceitos fazem parte de um padrão reconhecido, positivo ou negativo.

23 Ação social é toda conduta humana cujos sujeitos vinculem essa ação a um sentido subjetivo. Poderá consistir de ação ou omissão de agir. Atitudes subjetivas devem ser consideradas ação social apenas se orientadas à ação de

Nesse quadro referencial, o sentido é a unidade compreensível da ação, é o que orienta a ação e que dá um fim para que ela seja realizada. As relações sociais, na sua coextensividade e consubstan- cialidade, são fundamentais para compreender o sentido, permitindo, sobretudo, que sejam apreen- didos o caráter coletivo dos significados atribuídos ou compreendidos pelos agentes em interação e a regulamentação dada por normas sociais.

Para Weber, segundo Cohn (2003), a continuidade cotidiana de certa linha de ações traduz a per- sistência de formas de ordenação social por uma pluralidade de agentes individuais, o que se relaci- ona diretamente ao índice de dominação/legitimação nas suas vivências. Esse índice de dominação e legitimação é o que diz respeito à apropriação das pessoas de forma diferenciada e legitimada, em determinadas condições sociais, materiais e simbólicas.

O sentido na sociologia não pode ser usado como sendo obviamente “válido” ou “verdadeiro”, estabelecido metafisicamente, como, por exemplo, no caso da ética (WEBER, 2008). Assim, o que procuramos neste trabalho é conhecer as subjetividades dessas agentes, os nexos particulares dos significados atribuídos por elas a certos fatos, a atribuição causal (e não a causa, uma vez que os processos são marcados por eventualidades) das suas ações como parte das suas relações sociais. O que esperamos é estabelecer relações entre os motivos inteligíveis e interpretáveis da ação e o deba- te que vem sendo feito do cuidado, propondo um diálogo entre sujeitos históricos, inseridos numa cultura específica, com condições materiais também particulares.

Os significados, por sua vez, são as mediações através das quais podemos apreender o sentido da ação. Quando falamos em significados, como explicam Aguiar & Ozella (2006), referimo-nos, assim, “aos conteúdos instituídos, mais fixos, compartilhados, que são apropriados pelos sujeitos, configurados a partir de suas próprias subjetividades”.

De modo a aprofundar na compreensão do sentido, trouxemos também algumas reflexões de Junqueira & Ozella (2006) do campo da psicologia sociohistórica sobre as necessidades e os moti- vos. As necessidades são entendidas como um estado de carência do indivíduo, configurado a partir das suas relações sociais. Dependendo das suas condições de existência, ele as ativa com vistas a sa- tisfazê-las – embora não necessariamente esse indivíduo tenha a consciência e o controle do movi- mento de constituição das suas necessidades, tendo nas emoções um componente fundamental. As significações não necessariamente registram as necessidades, podendo essas necessidades se consti- tuírem de emoções que ainda não foram significadas.

A ação das/os agentes só acontece quando, a partir das suas necessidades, elas/es significam algo do mundo social como passível de satisfazê-las/os. “Aí sim, esse objeto/fato/pessoa vai ser vi- vido como algo que impulsiona/direciona, que motiva-os/as para a ação no sentido da satisfação das suas necessidades. Tal movimento, ou seja, a possibilidade de realizar uma atividade que vá na dire-

ção da satisfação das necessidades, com certeza modifica o sujeito, criando novas necessidades e novas formas de atividade. A necessidade completa sua função quando encontra o objeto/fato/pes- soa de satisfação na realidade social, configurando assim as necessidades em motivos. Os motivos se constituem como tal somente no encontro com outro, no momento em que o este os configurar como passíveis de satisfazer as suas necessidades. Assim, aproxima-se do processo gerador da ativi- dade, ao mesmo tempo gerado por ela.