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Após a desarticulação da estrutura organizativa do PCB no Espírito Santo a partir de 1969, o partido retomou suas atividades na vida política capixaba na segunda metade dos anos 1970. Analisando os depoimentos de parte dos seus ex-militantes e dirigentes do período, dados produzidos em nossa pesquisa e por outros trabalhos (FABRIS, 2007; MARTIN, 2008; MOREIRA, 2008), percebemos a convergência de alguns argumentos explicativos para esse processo, que nos forneceram pistas para tentarmos melhor nos aproximar da trajetória de reorganização do PCB capixaba.

Neste sentido, verificamos que diversos depoimentos confluem ao apontar o Movimento Estudantil da Universidade Federal do Espírito Santo (ME-Ufes), e principalmente, os estudantes do Centro de Biomédicas (CBM) dessa instituição, como o nascedouro das ações que resultaram na reorganização do PCB. Nessa direção, também indicam alguns documentos

partidários do início dos anos 1980, como o texto “Contribuição acerca do trabalho operário sindical”, de março de 1982, que afirmava o fato do partido ter se “reiniciado no movimento estudantil” (CONTRIBUIÇÃO..., 1982, f.2).

O fenômeno de reconstrução do PCB-ES a partir do movimento estudantil, na segunda metade da década de 1970 no Espírito Santo, não é algo isolado naquela conjuntura. Segundo Lima (1995, p.189-190), nesse contexto, o setor estudantil foi responsável pela reorganização do partido em centros de menor tradição pecebista, além de contribuir para ampliar, significativamente, a influência da organização, a ponto de torná-la a principal força do movimento estudantil universitário no Rio de Janeiro, Goiás, Pernambuco, Santa Catarina, Paraíba, e Mato Grosso do Sul.

A partir dos documentos analisados, identificamos a reorganização do PCB capixaba como um processo dividido em duas fases. Primeiramente, percebemos que, entre 1974 e 1977, desenvolveu-se uma aproximação e a formação de um primeiro grupo de jovens estudantes da Ufes que passaram a se identificar e a tomar contato com o ideário e a teoria partidária, sem, no entanto, haver uma organização institucional formal. Assim, o que vemos inicialmente, é o desenvolvimento de um agrupamento político entre jovens estudantes no seio das lutas do movimento estudantil, onde a experiência dessa militância começa a se cruzar com a influência teórica e política pecebista.

Numa segunda fase, entre finais de 1977 e início de 1978, procedeu-se uma reorganização formal. Doravante, teria se iniciado um processo de institucionalização organizativa, com a estruturação de um mínimo aparato burocrático, a distribuição de funções partidárias, a formação de uma hierarquia interna, para além da adequação das ações e objetivos aos estatutos e princípios partidários do PCB. Nesse momento, emergiu uma nova direção partidária oriunda, principalmente, das lideranças do ME-Ufes, reconstituindo o Comitê Estadual do Espírito Santo (CE-ES).

Partindo dessa periodização, o caminho da reorganização do partido passou, primeiramente, pela superação do impacto da repressão sobre o PCB no Espírito Santo, o que teria provocado desânimo e desinteresse inicial pela retomada das ações partidárias por parte daqueles que escaparam à repressão.

Segundo o documento oficial “Rumo ao VII Congresso” elaborado pelo CE-ES, em 1980,

após a desarticulação resultante das ações repressivas sobre seus militantes capixabas, no inicio da década de 1970, o cenário encontrado entre os remanescentes do partido era desanimador. Tal condição era aguçada pela própria orientação da direção nacional, no

sentido de se executar uma espécie de “recuo estratégico” durante os anos de combate à luta

armada. Dessa forma,

[...] ainda em princípio da década de 70, alguns militantes remanescentes procuraram reatar o contato com o CC. Receberam, então, a orientação no sentido de não reconstruir o Partido, em virtude da difícil conjuntura política da época, devendo esperar dias melhores... [...] Ainda assim, nos anos seguintes, várias tentativas foram feitas, mas permanecia, estranhamente, a mesma ordem. Disciplinadamente, foi a orientação acatada, fazendo com que, há pouco tempo atrás, no mesmo PCB que tinha uma tradição de mais de meio século de lutas em nosso Estado, restassem apenas alguns poucos militantes desgarrados de qualquer prática partidária. Verdadeiramente imobilizados e desarticulados de qualquer trabalho político nas frentes de massas [...] Pouco depois, foi o Partido reconstruído, sem que, no entanto,

qualquer auxílio pudesse ser prestado por parte da “estrutura” remanescente.

(PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO, 1980, p.2, grifo do autor).

No documento acima, podemos notar a elaboração de uma narrativa que reconstrói um passado oficial de revitalização do PCB no Estado, como obra de novos militantes, de uma nova geração de pecebistas capixabas, já que não havia disponibilidade do auxílio de uma

“estrutura remanescente”.

Nessa direção, também convergiram diversos depoimentos de ex-militantes a que tivemos acesso. Os mesmos, inclusive, nos dão pistas para o ponto inicial do processo: caberia à então

estudante de Medicina da Ufes e militante pecebista Merli Alves dos Santos, a articulação entre os atores do ME-Ufes, em ascensão a partir de 1975, e a reorganização do PCB111. Segundo sua própria narrativa, Merli Alves dos Santos (2007), na busca por remanescentes clandestinos do PCB capixaba, relatou o panorama de medo e de acuamento que tomava conta daqueles que escaparam à repressão:

[...] no momento em que eu começo a tomar conhecimento que partidos existiam e tinham umas propostas que achava interessante, no momento em que eu comecei a cutucar para me aproximar das pessoas que formavam esse partidão no Espírito Santo, eu percebi que eles estavam muito recuados, eles estavam muito amedrontados, pois a caça aos comunistas no Espírito Santo estava muito aguçada neste momento [...]

Dessa forma, sem amparo de uma organização em âmbito estadual, sua inserção nos quadros pecebistas, num primeiro momento, dar-se-ia fora do Estado. Assim, depois de entrar no curso de Medicina do Centro de Biomédicas da Ufes, em 1973, numa participação em debate na USP, em São Paulo, Merli teria conhecido militantes do PCB, como David Capistrano e o cartunista Laérte Coutinho, com o qual, inclusive, começou a namorar naquele momento, e se casaria anos depois. Dessa maneira, estreitados os laços com a militância paulista, ao retornar ao Espírito Santo, manteria contato de forma mais organizada com partido, passando a receber influencias mais diretas sobre ideias e propostas políticas pecebistas por meio do contato com

o jornal oficial partidário, o impresso “Voz Operária” (SANTOS, 2007).

Dessa maneira, a estudante universitária capixaba se tornava uma militante do partido, na medida em que, nos anos seguintes, passaria a atuar ativamente como parte do círculo interno partidário, assumindo-se como membro da sua comunidade e se responsabilizando por assegurar sua organização e seu funcionamento, desenvolver sua propaganda e a suas atividades em geral (DUVERGER, 1970).

Entre os anos 1973 e 1974, no Espírito Santo, a militante pecebista Merli Alves dos Santos iniciaria as ações para rearticular o partido tentando, primeiro, remobilizar seus remanescentes:

[...] eu estava no Espírito Santo e percebi pelas conversas que o partido tinha sido completamente desarticulado no estado, desarticulado como PC do B também tinha sido, estava todo mundo, quem não caiu na clandestinidade estava na semiclandestinidade, porque o negócio estava pesado mesmo em 1973 com o Médici. Então, frente a isso, eu mesmo percebi sem que fizesse necessário que ninguém me explicasse, eu percebi somando A com B que o melhor era tentar

111

Nessa direção confluem, por exemplo, os depoimentos de Antônio Claudino de Jesus (2015), Fernando Herkenhoff (2015), Lauro Ferreira Pinto (2016), Paulo Hartung Gomes (2006), Geraldo Corrêa Queiroz (2015).

contato com esses companheiros, era tentar fazer o que fosse possível fazer [...] (SANTOS, 2007).

Nesse processo, para além das dificuldades relativas à desarticulação e ao aparente medo que atingia aos remanescentes do PCB-ES, a militante teria se deparado com a falta de

“assistência” da direção nacional, o que, para ela, expressava a própria desorganização do

partido, provocada pelo exílio da maioria do CC naqueles tempos. Dessa maneira, o processo de reorganização partidária pecebista no Estado, pelo menos de início, não teria contado com um suporte dos órgãos nacionais do partido (SANTOS, 2007). Fato possível, se considerarmos que, entre 1974 e 1976, como vimos, o partido sofria mais uma onda repressiva fragilizando bases e direção em outros centros.

Mesmo nessas condições, a partir da leitura tática do partido, a ex-militante Merli teria buscado a formação de um novo núcleo do PCB no Espírito Santo, partindo dos seus próprios

espaços de inserção política e social, e assim como lembrou, atuando “onde estivesse”

(SANTOS, 2007).

Assim, Merli Alves dos Santos se lançou à militância estudantil do curso de Medicina que, a partir de 1975, retomava as lutas para a reabertura do Diretório Acadêmico do Centro de Biomédicas (DACBM), num contexto, como descreve Renato Santoro Moreira (2008, p.23), de reestruturação do movimento estudantil por meio da reabertura dos diretórios acadêmicos e sua organização na Ufes 112.

Dessa forma, dos encontros, discussões e lutas pela reabertura dos espaços de representação estudantil no CBM-Ufes, a partir de 1975, Merli iniciaria a formação de um primeiro grupo de novos militantes pecebistas. Segundo sua narrativa, inicialmente, isso teria ocorrido por meio

de um processo de recrutamento informal, não organizado, como algo “natural” das lutas

cotidianas na Universidade:

[...] Então, com algumas pessoas, sempre que se tinha oportunidade a discussão

avançava um pouco mais, mas sem falar sobre o Partidão, “se você quer entrar para o partidão”, não era assim, eu não acreditava nessa fórmula, eu achava que as

pessoas tinham que começar a fazer política, a discutir, que elas de repente iam começar a perceber que existiam as estruturas organizadas, partidárias, que eu era de uma delas e se elas quisessem seria muito bem-vindas, mas eu nunca saí recrutando a torto direito, nunca tive essa preocupação, as coisas foram acontecendo naturalmente. Eu vinha a São Paulo, participava das reuniões partidárias, discutia, pegava material voltava para trás e chegava lá e deixava as coisas acontecendo. [...] (SANTOS, 2007).

112

Segundo o levantamento de Moreira (2008), teriam sido reativados, entre 1975 e 1976, além do DACBM: o Diretório Acadêmico do Centro Tecnológico (Engenharia) (1976), o Diretório Acadêmico do Centro de Estudos Gerais, Diretório Acadêmico de Pedagogia (Fundado em agosto de 1976), o Diretório Acadêmico do Centro de Artes (1975) e o Diretório Acadêmico do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (1976).

Nessa direção, o primeiro interlocutor da ex-militante Merli teria sido o também estudante de Medicina, e seu companheiro de turma, Antônio Claudino de Jesus. Esse integrou aquilo que

entendemos como uma “primeira geração” de novos pecebistas que iniciaram a rearticulação do partido, segundo ele, já a partir de 1974. “Claudino”, como comumente era reconhecido

entre seus pares do movimento estudantil e do PCB, já tinha um contato formal com o partido antes de entrar na Universidade, por meio de sua inserção no movimento secundarista e popular da Igreja Católica, no Município de Colatina, na segunda metade da década de 1960. Sobre sua aproximação com Merli e com o PCB, na Ufes, narra o início do processo da seguinte maneira:

[...] eu venho pra Vitória, 72 por aí, antes até, mas em 72 eu faço vestibular e entro na UFES em 73. Já com esse contato anterior com o Partido.

[...] Já no primeiro semestre de aula, alguns de nós, já reagindo contra o sistema interno da escola, a questão da qualidade, muito dentro da questão acadêmica, nós começamos a nos juntar. Lembro-me deste período muito bem de Merli Alves dos Santos, Fernando Herkenhoff, Lauro Pinto. [...] Geraldo Correia. Que eram os expoentes mais próximos. O Biomédico começa a se rearticular e montar um núcleo de rearticulação do diretório. Neste momento, o partido já se aproxima da gente. Eu trazia uma memória, alguns tinham memória, outros não, e a Merli Alves dos Santos, talvez tenha sido a pessoa, não tenho dúvida, a pessoa mais importante nesse momento, que fez o elo de ligação [sic] da gente com o partido. Nos transformamos, a partir daí, de 74 pra frente, em núcleos formais do partido, e passamos a rearticulação do Partido [...] (DE JESUS, 2015, grifo nosso).

Em seguida, no decorrer das lutas estudantis, houve a aproximação com outros militantes do ME, na medida em que avançavam as discussões políticas e ideológicas no contexto das mobilizações do movimento estudantil do CBM-Ufes. Tal fenômeno teria conduzido Merli ao recrutamento de alguns atores, inaugurando um modelo que será reproduzido nos anos seguintes, com o partido já formalizado no Espírito Santo. Assim, contou a ex-militante pecebista:

[...] eu me lembro que a primeira coisa que me ocorreu é que a gente para avançar na discussão ideológica precisa fazer um grupo de estudos. Então, no fim de semana eu sugeri que a gente fosse estudar Gramsci, que era minha paixão [...]

[...]

[...] a primeira proposta que eu fiz para Fernandão (Fernando Herkenhoff), Geraldo (Geraldo Corrêa Queiroz), Lauro (Lauro Ferreira Pinto), Claudino (Antônio Claudino de Jesus) e Adauto (Adauto Emmerich) para juntar um grupo lá. “Então como que é?” “Então vai ser lá em casa, vai ser sábado”. Sábado à tarde

estávamos nós lá discutindo o Gramsci, [...] e depois a surgiram outros textos, e a gente começou a discutir e num dado momento deu para perceber quem é que estava mais avançado na discussão ideológica. Foi nessa hora que eu fiz o primeiro movimento no sentido de recrutá-los para o partido. [...] Aí eles foram para a primeira discussão sobre partido e então foi colocada a questão da organização partidária, mas já tinha um monte de lideranças. Não foi um ano depois não, foram

dois anos depois de começar que o movimento [estudantil] em si, sem o corte partidário, de partidão ou de quem fosse (SANTOS, 2007, grifo nosso).

Dos atores citados no depoimento acima como componentes de um primeiro grupo articulado em torno da influência de Merli e do ideário teórico e político pecebista, somente o Adauto Emmerich Oliveira, então estudante de Odontologia, ingresso na Universidade em 1975, destoa em seu depoimento sobre essa articulação e aproximação com o partido. Em sua narrativa, Emmerich (2016) é enfático em admitir que iniciou sua articulação política a partir de 1976, e mais precisamente a partir de 1977, ao se aproximar de um conjunto de militantes estudantis do CBM-Ufes “quando já tinham pessoas consolidadas”, “o partido já estava

atuando” no Movimento Estudantil deste campus.

Apesar das ambiguidades e imprecisões cronológicas presentes em sua narrativa, Geraldo Corrêa Queiroz, então estudante de medicina e amigo de turma de Merli, fornece indícios em seu depoimento a nossa pesquisa que corroboram a visão de um processo de aproximação de estudantes da turma de medicina de 1973 com o PCB, intermediado pela militante pecebista Merli Alves dos Santos. Dessa forma, relata:

[...] Eu entrei na universidade [em 1973], tinha uma aproximação, tinha uma discussão, a gente lia muito, pelo menos uma parte da turma que acabou indo para o Partidão e tal, tinha uma curiosidade grande por ler filosofia, enfim, nos aproximamos do pensamento marxista, nos aproximamos do pensamento leninista, começando a ler Gramsci, então houve uma aproximação primeiro no campo teórico (QUEIROZ, 2015, grifo nosso).

Verificando a representação construída por Merli em seu depoimento sobre o passado do processo de aproximação entre PCB e ME-Ufes, é constante a referência a uma

“naturalidade” do fenômeno. Dessa forma, em sua perspectiva, na medida em que se

consolidavam as lutas e entidades estudantis na Universidade, emergia a necessidade de uma

maior organização para “levar a frente” o movimento, com os atores, por suas posturas e

objetivos políticos, identificando-se “naturalmente” com as ideias do PCB. Assim, reconhecia, naquele momento,

[...] que o movimento [...] no seu nível mais elementar das demandas dos estudantes ele está indo muito bem, tem lideranças comprometidas, agora tem um outro patamar de organização que só é possível num recorte partidário, dentro de um recorte partidário. Foi só aí que eu com toda naturalidade fiz esse primeiro recrutamento em lote [...] (SANTOS, 2007, grifo nosso).

Consideramos importante cotejar alguns aspectos da narrativa da ex-militante Merli para

compreendermos a própria natureza deste “novo” PCB que se reorganiza a partir da sua

falta de estrutura e orientação organizativa do partido no Estado. Os encontros que

produziram a “nova geração” de pecebistas capixabas, contaram com a iniciativa individual

de uma militante recém-integrada aos quadros partidários a partir do PCB de São Paulo. Neste processo, há ainda que salientar as citações recorrentes sobre a leitura do intelectual comunista italiano Antônio Gramsci, relembrada constantemente nos depoimentos.

Achamos necessário também pensarmos acerca da “naturalidade” pelo qual o PCB teria se

inserido no movimento estudantil capixaba, como insistentemente afirma Merli em sua narrativa. Até compreendemos como possível, que num primeiro momento, não houve uma rígida organização no sentido de recrutamento de militantes e de orientação às lutas estudantis a partir de 1975 na Ufes. Mas não podemos desconsiderar qualquer relação de influência do partido sobre o processo de reorganização de seus quadros no Estado, assim como sobre o ME-Ufes entre 1975 e 1976.

Nessa direção, percebemos que a própria Merli Alves dos Santos afirma que a orientação do partido era de atuar no espaço onde seus militantes tinham inserção, no seu caso, no próprio ambiente universitário. Ao mesmo tempo, sugere que os avanços das discussões políticas e ideológicas do ME-Ufes, acabaram, por sua própria presença como vinculada ao PCB, passando por leituras que integravam parte da teoria do partido naquele contexto. Por outro

lado, o próprio recrutamento inicial por mais “natural” e espontâneo que se caracterizasse,

permitindo que as pessoas se aproximassem pelas ideias, passou pela identificação dos setores

“avançados” do meio estudantil, afinados com a postura e a visão do partido, para além das

relações afetivas de amizade e afinidade.

No depoimento de Claudino, o primeiro interlocutor de Merli, temos mais evidente a ação orientada do processo inicial de aproximação do PCB com o ME- Ufes. Sua narrativa, inclusive, além de contradizer a própria espontaneidade do recrutamento executado por aquela militante, nos sugere os indícios de uma aproximação alimentada por uma mistura de afetividade oriunda das relações cotidianas na Universidade, assim como pela comunhão de ideias e vivências dos estudantes no interior da Ufes, como vemos a seguir:

[...] No final de 73 e início de 74, teve um dia que a Merli teve uma conversa séria

comigo, e disse assim: “Eu tenho uma coisa muito séria pra te falar. Pode ser que te assuste”. E aí, entre nós dois não tem nada, porque a gente sempre foi muito ligado, quase siameses dentro da Universidade. Ela falou: “Nós estamos atuando junto com o Partido Comunista Brasileiro e só falta formalizar, se você quer frequentar a reunião do núcleo clandestino”. Eu falei: “já chegou atrasada a notícia”. Eu contei pra ela minha história pregressa. Eu falei: “não se assuste, na verdade, eu estava

esperando um contato. [...] Mas assim, o primeiro contato me vem, quer dizer, a primeira verbalização “estamos no Partido Comunista Brasileiro” foi de Merli

comigo. Com os demais eu não sei como é que foi. Com os demais eu já não sei como é que foi. E daí parti para as reuniões clandestinas. [...] Isso no mais tardar, 74 (DE JESUS, 2015, grifo nosso).

Consideramos a possibilidade de não haver uma deliberação nacional para que o partido, num primeiro momento se reorganizasse e se reestruturasse, mas entendemos que tal processo ocorreu de forma minimante orientada pela própria atuação de Merli no movimento como militante pecebista.Ao mesmo tempo, as próprias dificuldades da direção nacional, que sofria uma onda repressiva lançada pelas forças de segurança do Governo Geisel (1974-1979) entre 1974 e 1976, possibilitaram autonomia para que houvesse formas “incomuns” e mais flexíveis de recrutamento e reorganização inicial do partido no Estado. Nesses moldes se deu origem ao primeiro grupo de militantes influenciado pela teoria e a linha política do partido. Nesses termos, relata Merli Alves dos Santos (2007):

[...] fiz [o recrutamento] de uma maneira inclusive que depois foi criticada por um companheiro de São Paulo, pois para ele eu tinha que passar por um rito e eu não sabia nem como é que era esse negócio, esse ritual, porque como não fui recrutada oficialmente não estava muito preocupada com isso. Eu não sabia nem direito como é que era isso e aí no que eu achei que já tava na hora de ter uma discussão sobre partido com algumas lideranças no meu em torno eu me lembro [sic] que eu chamei, eu coloquei para a direção, para um companheiro que se ocupava do movimento estudantil aqui em São Paulo, ele designou alguém para ir a Vitória, porque eu falei:

“Oh, tem lá um grupo que a gente precisa recrutar, e eu preciso de ajuda porque eu

não sei nem como que faz isso." [...] Eu lembro que esse companheiro foi a Vitória e