2. Theory
2.4. Wind Forces
2.4.2. Static Wind Forces
Se, de um lado, a grande imprensa alardeava a euforia industrializante de Santo Antônio da Patrulha, a partir dos resultados oficiais do IBGE; de outro, a depressão econômica caracterizava a realidade dos pequenos produtores do município e da região, sobretudo dos minifundiários391 da cana. É o que afirma, inclusive, um dos relatórios da AGASA:
Ao findarem-se os lustros de 1950 a 1960, a região canavieira do Rio Grande do Sul – principalmente Santo Antônio da Patrulha e Osório – apresentavam um quadro desanimador. Seus milhares de plantadores de cana-de-açúcar debatiam-se com a miséria crônica, exacerbada pelo aviltamento dos preços da aguardente e do
390
CERCA de 1 milhão e 400 mil cruzeiros acima do previsto arrecadou o município no último exercício. Correio do Povo, Porto Alegre, p. 3, 20 jul.1954.
391
Décio Freitas em 1957 abordou o conceito, chamando a atenção para as imprecisões, dizendo: “O minifúndio está associado à pequena propriedade agrícola, da qual pode-se dizer que é filho. [...] O conceito de pequena propriedade é preciso ir buscá-lo na sociologia rural que a encara como uma unidade de produção familiar. [...] Manuel Serra Moret traça do minifúndio – sistema de propriedade da terra, por pequenos lotes ou frações que não bastam para sustentar uma família.” FREITAS, Décio. Diário de Notícias, Porto Alegre, 31 mar. 1957. Suplemento Especial: O Rio Grande do Sul: o homem, a terra, p. 3. Igor Moreira e Rogério Costa referem: “Segundo o Estatuto da Terra, é minifúndio ‘o imóvel rural de área e possibilidades inferiores às da propriedade familiar’, ou seja, do ‘módulo rural’, que é todo o imóvel rural que, direta e pessoalmente explorado pelo agricultor e sua família, lhe absorve toda a força de trabalho, garantindo-lhe a subsistência e o progresso social e econômico, com área máxima fixada para cada região e tipo de exploração.” MOREIRA, Igor; COSTA, Rogério H. da. Espaço & sociedade no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. p. 73-74. O módulo rural no Rio Grande do Sul varia de 2 a 90 ha, conforme a região e a atividade prioritária nela desenvolvida. Em 1920, sua área média era de 24 ha; em 1976, caiu para 13,7. Chamam a atenção os mesmos autores que, no estado, mais de 80% das unidades de produção agrícola são minifúndios, e vivem aquém das condições para a subsistência e o progresso familiar. Mesmo assim, completa dizendo que eles são responsáveis pelo sustento de cerca de 70% da população rural gaúcha. Arruda e outros apontam 82%, a ocorrência de minifúndios no Rio Grande do Sul. Afirmam que nestas áreas, a população vive num círculo vicioso de pobreza, estando impossibilitada de rompê-la. ARRUDA, Roberto et al. Reforma Agrária e industrialização. In: INDUSTRIALIZAÇÃO do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: ISCRE, 1968. p. 166. Maria Isaura Queirós contribui nesse debate, ao analisar o campesinato brasileiro. Trata do meio rural e busca nele situar o camponês, bem como verifica sua condição em bairros rurais. QUEIROZ, Maria Isaura Pereira. O campesinato brasileiro: ensaios sobre a civilização e grupos rústicos no Brasil. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1973.
açúcar mascavo – as principais indústrias que absorviam a maior parte da cana produzida.392
A permanente queixa das condições de comunicações no município denunciava uma das razões do êxodo de muitos patrulhenses que buscavam a Grande Porto Alegre como a saída para a duradoura crise. Também os pequenos produtores se retiravam para outros centros onde a vida fosse menos penosa para si e seus filhos.393
No interior, a verminose, nesse tempo, era endêmica – realidade não exclusiva de Santo Antônio da Patrulha, mas uma característica do Nordeste do Rio Grande do Sul, conforme informação do médico-chefe do posto de saúde do município.394 Na cidade, o isolamento se impunha também pela inexistência de linha telefônica. A falta de água era um problema que há muito vinha arrastando-se, provocando insistentes reclamações, inclusive nos jornais da capital, como se lê nesta matéria:
Estatísticas de alguns anos passados, mas não muito distantes, revelam ser Santo Antônio da Patrulha o município que apresentava maior número de estabelecimentos industriais no Estado. Se bem essa situação se possa ter modificado, ainda assim o índice de progresso industrial da antiga comuna continuará a ser dos mais expressivos, em relação a suas co-irmãs. O que mais caracteriza as atividades industriais de Santo Antônio não é apenas a multiplicidade das mesmas. Tanto quanto esse fator altamente preponderante na formação da riqueza pública e particular, verifica-se larga difusão de empresas industriais por todo o interior do município. (sic) Mercê de tão cariada operosidade dos patrulhenses, a primitiva “Guarda Velha”, de tão ricas tradições históricas, um dos núcleos pioneiros de nossa formação social, continua a sê-la, também, no que toca ao nosso progresso material. Sua contribuição para os cofres públicos, através dos mais diversificados tributos, é, com efeito, de grande significação no balanço das rendas estaduais ou federais. Com todas essas credenciais, Santo Antônio não foi, entretanto, contemplada entre as 99 comunas gaúchas constantes do plano de saneamento, há pouco lançado pela Secretaria de Obras Públicas. Diante dessa preterição, que por certo nada tem de intencional e poderá, até ser justificada à luz de mais rigoroso planejamento técnico, a população patrulhense vem manifestando profunda estranheza e não menor pesar. [...] Santo Antônio ainda pode invocar, a favor de tão justa reivindicação, a sua tradição histórica, como título bastante para que sem prejuízo das demais comunas contempladas pelo plano de saneamento, se elevasse de mais um, apenas, o número das comunas, dando esse centésimo lugar aos detentores de tradição que tanto têm sabido honrar, com descendentes dos pioneiros da primitiva “Guarda Velha”.395
392
AÇÚCAR GAÚCHO S.A. – AGASA. Relatório da safra 1974/1975. Santo Antônio da Patrulha, 1975. Não- paginado. A afirmação é justificativa da idéia da criação da usina, como “[...] vetor de assistência político- social do Governo do Estado aos plantadores de cana.” Idem, ibidem. (Grifo nosso).
393
A respeito pode ser examinada a matéria SANTO Antônio da Patrulha pede estradas para seus distritos. Informação, Santo Antônio da Patrulha, a. I, n. 13, p. 1, 21 mar. 1958.
394
Este quadro denunciado pelos próprios moradores, especialmente os de Evaristo e Baixa Grande, fez desencadear uma campanha que ganhou destaque em primeira página no jornal Informação. Ver: VERMINOSE no interior do município. Informação, Santo Antônio da Patrulha, a. I, n. 14, p. 1, 31 mar. 1958.
395
ÁGUA para Santo Antônio. Informação, Santo Antônio da Patrulha, a. I, n. 19, p. 1, 30 maio 1958. Matéria reproduzida do Correio do Povo de 13 maio de 1958.
Fotografia 25 – Condições de abastecimento de água em bairro da Cidade Baixa, Santo Antônio da Patrulha – década de 1960
Fonte: Acervo de Jorge Pedro Nehme.
Em outra reportagem de página inteira do Diário de Notícias de maio de 1949, se lê:
O serviço de abastecimento de água, à população da cidade, é feito ainda aqui pelo sistema usado ao tempo de Pedro Alvarez Cabral: pipas que se enchem numa fonte centenária e são conduzidas pela cidade, vendendo-se água à razão de vinte centavos a pipa.396
No mesmo órgão de imprensa, em 1947, é divulgado que “[...] a população de Osório e Torres e seus distritos é superior a 20.000 habitantes, mentalmente a mais atrasada do Rio Grande. A maioria é analfabeta, pelas endemias, pela falta de higiene elementar, pela pobreza em que vivem.”397
E passados alguns anos, no final da década de 1950, ainda não havia água encanada na Cidade Alta, o núcleo inicial do povoamento realizado havia mais de 200 anos. O promotor público Dr. Reginald Felker, que atuou em Santo Antônio da Patrulha, entre os anos de 1957 e 1960, recorda que:
[...] era uma cidade pacata, bem pacata, com uma população muito cordial. [...] Não havia água encanada. Ou se trabalhava com cisterna ou com água do pipeiro. Quando terminava a água da cisterna, se comprava água da pipa. Não havia televisão [...] No interior se via pobreza. As casas eram muito precárias. Tinha
396
STO. ANTÔNIO da Patrulha, seus problemas, suas reivindicações. Diário de Notícias, Porto Alegre, p. 11, 08 maio 1949. (Grifo nosso).
397
DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Porto Alegre, p. 6, 06 nov. 1947. Nos anos de 1960, a maioria dos canavieiros da região ainda era analfabeta; para assinar o contrato de financiamento no banco, nem o nome escrevia. Depoimento de Ary Ilmar Frank concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 10 jan. 2001.
gente que sobrevivia com um salário mínimo anual; era a renda da família. Dava para comprar uma muda de roupa e sal. O resto eles tinham que produzir ali. Era horta, pomar, uma lavourazinha. Eles produziam para a sobrevivência. Agora, o rendimento em dinheiro era mínimo. Para comprar o mínimo. Quer dizer, uma mudinha de roupa, compravam tecido, faziam a roupa... Isso eu me lembro direito. Nesse sentido, a zona lá de Santa Rosa, onde atuei, era bem mais adiantada, tinha um nível de vida bem melhor. [...] O rendimento daquelas famílias que plantavam cana era muito pequeno.398
Outros também lembraram-se desse tempo e de suas dificuldades:
[...] na colônia faltava emprego [...] nem toda família podia pagar peão. O pessoal da casa é que tinha que dar conta. Dentro de casa a maior parte era de barro. Eu não sei até quem é que fabricava aquilo. Tinha bacia, tinha gamela, tudo de madeira. Era tudo coisa feita em casa. Se lavavam os pés numa gamela de madeira; tinha alguma ferramentinha. Quando nós viemos de Santo Antônio, a minha mãe trouxe um cuscuzeiro com uma bacia, tudo de barro.399
Era uma região muito pobre, muito pobre. No Montenegro, aquilo ali, a senhora só via rancho e ranchinhos [...]. Era sem fim do mês. A senhora sabe, é brabo...400
Não tinha luz elétrica; era com lampião, às vezes pesando uma carreta de açúcar.401
Nós descobrimos em campanhas políticas lugares de gente que nunca tinha vindo à sede do município. Nunca. [...] para se chegar lá, só a cavalo.402
Era contado que, naquela, época aqui, as pessoas que tinham geladeira dentro de casa eram os mais fortes. Os da cana não tinha nada dentro de casa.403
A maior parte, dona, vivia na miséria. [...] O filho não tinha nem tamanca para calçar de noite. A roupa era de riscado. Isso aí, todo mundo vivia só naquilo.404
Quantas vezes ouvimos falar do bolsão de pobreza do Litoral Norte, local onde existia o maior índice de verminose do estado. Tanto é que, durante muitos anos, os órgãos governamentais consideravam o Litoral Norte como a zona mais pobre do estado, [...] onde grassava a pobreza, a verminose, a mortalidade infantil, a ponto de ser comparado ao Nordeste brasileiro. [...] O que mais me chamou atenção era o baixo nível de vida, as construções rústicas, muitas sem assoalho e cobertas com palha. [...] casas quase totalmente desprovidas de móveis e utensílios como pratos e talheres.405
Alto índice de verminose não combina com desenvolvimento econômico.
A Missão Rural de Santo Antônio, instalada em 1956, foi muito atuante no município, desde sua instalação, em 1956. Naquela altura era prefeito Jorge Von Saltiel. Ele se
398
Depoimento de Reginald Delmar Hintz Felker concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 23 set. 2004.
399
Depoimento de Antônio Machado Cardoso concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 12 jan. 2003.
400
Depoimento de Pedro Pacheco Fernandes concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 23 fev. 2000.
401
Depoimento de Angelino da Costa Neto concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 1º fev. 2001.
402
Depoimento de Antônio Nazir Ferreira concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 04 fev. 2005.
403
Depoimento de Renato Rolim Machado, ex-canavieiro no Ribeirão do Meio, Santo Antônio da Patrulha, concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 12 fev. 2000.
404
Depoimento de Júlio Pereira Sobrinho concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 12 fev. 2000.
405
manifestou à Folha da Tarde, quando da amostra educativa da batata inglesa e de trabalhos manuais, atividade da Missão Rural, no município, reconhecendo, publicamente, que o colono de Santo Antônio da Patrulha vinha empobrecendo cada vez mais.406
O médico baiano Dr. Raimundo de Carvalho Reis e Silva, recém-formado, chegara no município, juntamente com o engenheiro agrônomo Manoel Vaz Costa e sua esposa, Diva Vaz Costa, agente de economia doméstica. A eles juntaram-se a assistente social Isabel Rekzigel, o motorista Jari de Oliveira Remião e a professora de corte e costura Iracema Cardoso. Teriam que fazer educação rural no interior, com aparelhos e materiais vindos dos Estados Unidos, diante do quadro problemático que encontraram. O agrônomo pregava a preservação do solo, o médico dava palestras e ensinava os primeiros socorros, a agente de economia doméstica orientava na melhoria da dieta com os alimentos de que dispunham. E, assim, centros comunitários foram criados em algumas comunidades, na tentativa de reverter os problemas encontrados, sobretudo em lugares escondidos, hoje quase desabitados, como o de Fundo Quente. Recorda Dr. Raimundo: “Nós andávamos por esses córregos todos, passamos por pontes pênseis sobre o Rio dos Sinos. Fomos descobrir a Toca Santa, que até então ninguém tinha dado muita importância.”407 A Missão percorreu, especialmente, o norte do município, acidentado e de difícil acesso, tendo como meta acionar a reversão do quadro de pobreza e abandono que se encontravam muitas comunidades rurais de Santo Antônio da Patrulha.
O ex-vereador do PTB Antônio Nazir recorda:
Essa zona da serra era muito pobre. [...] Montenegro, Sertão, Palmeira do Sertão, Içara, Ribeirão, isso não tinha estrada, isso não tinha nada. Dava uma chuva, os rios passavam por dentro dessas áreas, esses lugares, atacava tudo, ninguém passava, trancava tudo. Então, sempre foi muito difícil a zona colonial dessa época. Basicamente a zona maior produtora de cana, o primeiro distrito e parte do segundo era a nossa zona pobre; muito pobre.408
406
EM SANTO Antônio: amostra educativa de batata inglesa e trabalhos manuais. Folha da Tarde, Porto Alegre, p. 43, 15 fev. 1960. Além da Missão Rural, fora designado, pela Secretaria da Agricultura, o agrotécnico Edwin Bach. Examinar também: MISSÃO Rural deveria em Santo Antônio atender aos problemas dos agricultores locais. O Clarim. Porto Alegre, p. 2, 13 jan. 1955.
407
Depoimento do Dr. Raimundo Reis e Silva concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 21 maio 1999. A precariedade dos hábitos de higiene familiar e a existência de parasitas entre os escolares, o isolamento nas comunicações eram problemas a serem enfrentados. A profª Eddy Flores Cabral, de Porto Alegre, nomeada para o distrito de Caraá (zona canavieira), na localidade do Bocó, relata, em suas memórias como professora em Santo Antônio da Patrulha, nos anos de 1940, que lá faltava tudo, e que tudo precisava ser feito para atingir, através dos alunos, as suas famílias, que viviam com extrema precariedade em vários sentidos. Por exemplo: cada casa tinha sua escova de dente, uma só, de uso obrigatório aos domingos e nos dias de passear. CABRAL, Eddy Flores. Num vale distante. Porto Alegre, 2002. 32 p. e anexos digitados. Posteriormente, seu trabalho foi publicado: CABRAL, Eddy Flores. Num vale distante: Bocó, Linha Padre Viera (Caraá). In: BARROSO, Véra Lucia Maciel et al. (Org.). Raízes de Osório. Porto Alegre: EST, 2004. p. 814-823.
408
Na análise do engenheiro agrônomo Wilson de Oliveira Castro, a área agrícola da região era, de fato, a localizada nas encostas dos morros da Serra Geral, restando a planície apenas para o arroz e o abacaxi. O agricultor, primário e sem recursos materiais, em busca das terras para plantio, localizou-se nessas encostas, cobertas de matas naturais, desenvolvendo ali a sua atividade, aliado ao machado e ao fogo. A agricultura promovida se caracterizou por uma
lavoura de rapina, às custas das reservas orgânicas do solo, que foram acumuladas em
séculos de uma progressiva elaboração de húmus. Desfeito o equilíbrio natural solo-planta, a erosão foi reduzindo os solos a terras exauridas e pobres, e tornou-se responsável, naquela altura, em parte, pelo estado de pobreza em que se encontrava a maioria dos agricultores da zona norte-litorânea.409
Relativamente à produção canavieira, não só em Santo Antônio, como também em Osório e Torres, há anos vinham sendo feitas várias reivindicações às autoridades competentes, visto os produtores se sustentarem, vestirem e educarem seus filhos com os rendimentos oriundos apenas de seus canaviais, e não ser-lhes dada a devida atenção. De safra em safra vinham encontrando maiores dificuldades para continuarem na atividade da cana, vendo-se obrigados a abandonar, por falta de amparo, as lavouras, cuja produção, desde a mocidade, proporcionara-lhes meios de subsistência, como também representara grande parcela de contribuição à economia local e regional.
A cana-de-açúcar, conforme afirmou o engenheiro agrônomo Wilson Castro, naquela altura, poderia “[...] melhorar radicalmente a economia do colono do litoral gaúcho, que com terras cansadas, e um minifúndio acentuado, não dispõe de uma cultura econômica básica, pois os produtos que colhe atualmente em pequenas porções (milho, feijão, mandioca, etc.) apenas servem para, como costumam dizer ir tapeando.”410 Mas ele próprio reconhece, anos depois, que o Estado só poderia, com o amparo à cana-de-açúcar, socorrer o Litoral Norte, que vivia em:
[...] condições de miserabilização progressiva [...].
Fugiu das imediações do mar que lhe dava o peixe como fonte proteica, mas não lhe permitia, praticamente, cultivo algum nos seus areais. Afastou-se tanto em demanda da serra que para buscar os frutos do mar, a distância era grande demais e, sem condições para produzir leite e carne, foi-se carenciando proteicamente, assim que a caça foi-se tornando mais e mais escassa. Carenciando, sua capacidade em todos os aspectos foi declinando e a verminose se instalou, sugando-lhe o resto de suas energias.
409
CASTRO, Wilson de O. O açúcar e o Rio Grande. Correio do Povo, Porto Alegre, 06 fev. 1964. Suplemento Rural, p. 7.
410
Hoje astênico, abúlico, ignorante, analfabeto, vegeta à margem do progresso do País, cuja grandeza ignora, de cujos destinos não participa, cujos valores não o motivam.411
Eram eles os minifundiários que viviam da cana-de-açúcar e através dela se mantinham vivos, com muitas dificuldades, como recorda Antônio Machado, cuja família subiu a serra para livrar-se da pobreza: “[...] tinha muita gente que nem plantava cana porque não tinha maneira de colocar um engenho. Só quem tinha engenho perto que cedia. Saía caro montar um engenho.”412 Wilson Castro, que viu de perto a realidade canavieira, reconhece que ampará-los era um dever de Estado.413
Essa visibilidade do quadro de carências da região comparece em vários depoimentos de testemunhas, que, vivendo essa realidade, focaram-na a partir dos lugares postos de atuação e inclusive de partidos políticos opositores, chegando todos ao mesmo reconhecimento conclusivo. Por exemplo: os olhares mais próximos dos professores Juracy Pasquoto414 e Benito Izolan,415 da Escola Rural de Osório, que destacaram a pobreza da economia familiar da região; do canavieiro Julio Pereira Sobrinho,416 que recordou viver na miséria a maior parte das famílias no morro do Montenegro, onde reside; do ex-canavieiro Zé da Tamanca,417 que se impressionou, ao chegar na região, por não usarem calçado: “Tudo andava de pé no chão.”; do engenheiro agrônomo Wilson de Oliveira Castro, membro da Comissão Técnica que estudou as condições da região para a implantação da usina açucareira e na entrevista afirmou com ênfase: “[...] a realidade dos canavieiros era péssima. As famílias eram muito pobres, plantando na encosta do morro, onde a erosão tomara conta. [...] O Litoral Norte sempre esteve muito isolado.”418
Diferente não é a ótica dos olhares mais distantes, como a do ex-deputado estadual, depois federal, o trabalhista Harry Sauer,419 atuante na região, o qual se lembra de lugares a que nem com jipe se conseguia chegar e de que tudo era muito difícil, porque a comunicação
411
RIO GRANDE DO SUL. Assembléia Legislativa. Relatório da Comissão Especial para o Estudo da Agroindústria açucareira. Porto Alegre, out. 1975, p. 237. (Grifo nosso).
412
Depoimento de Antônio Machado Cardoso concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 12 jan. 2003. Frisou também que nem todos tinham uma junta de bois; às vezes, nem vaca de leite.
413
Depoimento de Wilson de Oliveira Castro concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 24 jan. 2001.
414
Depoimento de Juracy J. Pasquoto concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 20 jan. 2003.
415
Depoimento de Benito Barbosa Izolan concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 08 jan. 2005. Destacou que, antes da AGASA, milhares, na região, viviam numa situação bastante precária.
416
Depoimento de Júlio Pereira Sobrinho concedido a Véra Lucia Maciel Barroso em 12 fev. 2000.