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Statens pensjonsfond utland (SPU) 96

6.5 Kapitalforvaltninga

6.5.3 Statens pensjonsfond utland (SPU) 96

MARIANA: e também pelo jeito que a gente é. né. assim.

MARIANA: <2>é.. de ser pessoas mais efusivas. Porque a gale:ra..

MARIANA: tradicional planopilotense é um pouquinho mais conti::da né

MARIANA: e a gente é.. [dando gritinhos agudos]

BEATRIZ: =e a gente cresceu ni::sso assim

BEATRIZ: não tem ordem de fala:r

BEATRIZ: você vai querer.. transcrever essa entrevista. boa so:rte porque

NEWTON: =[gargalhando]

BEATRIZ: =na minha vó.. são quinze pessoas uma falando em cima da outra

BEATRIZ: porque assim. não tem essa de quando um fala..

MARIANA: =você vai precisar de... contratar uma equi:pe=

NEWTON: =eu vou precisar de uma equipe/

MARIANA: =ah. não/

BEATRIZ: =a gente se atravessa/ FONTE: O autor

O que a fala das duas irmãs demonstra é que existem normas de interação subjacentes em seu núcleo familiar hierarquicamente mais profundas e independentes que outras quaisquer previstas em situações comunicativas pré-determinadas. Em minha visita, fui eu quem teve de me submeter às regras de comunicação da família Oliveira, que naturalmente “se atravessa” sem que isso incorra em qualquer interpretação de rudeza ou quebra de contrato entre os participantes. Pelo contrário: a sobreposição de turnos enquanto regra, que me foi de fato um desafio na transcrição da conversa, desvela uma atmosfera coletiva e informal, palco onde todos têm voz.

Guardadas as devidas proporções, especialmente no que diz respeito os alinhamentos entre pesquisador e colaboradores, além daqueles mantidos entre os próprios membros familiares, pude constatar um padrão comunicativo recorrente em todas as interações: os eventos encadeados. Realizados no âmbito da situação comunicativa proposta nos sete núcleos familiares, os eventos comunicativos normalmente ficaram assim dispostos:

QUADRO 15 – PRINCIPAIS EVENTOS COMUNICATIVOS NOS NÚCLEOS FAMILIARES Situação comunicativa Eventos comunicativos recorrentes

Entrevista narrativa de vida 1. Small talk de recepção do pesquisador; 2. Acomodação dos participantes;

3. Apresentação das Normas de Interação (N); 4. Narrativas espontâneas;

5. Perguntas do pesquisador e esclarecimentos dos colaboradores; 6. Apresentação de Novas Normas de Interação (N);

7. Preenchimento dos formulários;

8. Perguntas dos colaboradores e esclarecimentos do pesquisador e/ou conversa informal livre.

FONTE: O autor

Os dois primeiros eventos envolviam momentos de descontração, seja porque eu não encontrava meus contatos de primeira ordem há bastante tempo, ou porque não conhecia os de segunda ordem. Nesse momento, frequentemente me ofereciam água ou café e me conduziam até o ambiente (S) onde a situação comunicativa se desenvolveria. O caso foi assim, exceto com duas famílias. Com os Souza, a preocupação inicial foi a de acomodação: uma mesa num bar lotado num sábado. Dessa forma, a small talk talvez não tenha sido tão curta assim, já que envolveu a realização dos pedidos de comida e bebida, bem como a realização da refeição em si. Só então pudemos prosseguir à etapa 3. Com os Baeza, embora a entrevista tenha ocorrido numa residência, eu cheguei nas finalizações dos preparativos de almoço, o que também alongou a conversa inicial. Nesses dois casos, evitei ao máximo abordar as temáticas previstas na entrevista antes que a gravação se iniciasse.

Participantes devidamente acomodados, eu normalmente encabeçava o terceiro evento comunicativo, na apresentação de minhas expectativas – bastante flexíveis – quanto às Normas de Interação. A gravação sempre se iniciava nesse ponto. Feito o acordo, os participantes iniciavam seus turnos de fala na quarta etapa, que, por representar a essência da situação comunicativa, durava mais tempo que as outras. As narrativas espontâneas, embora sejam um evento comunicativo dentro da situação comunicativa total, foram costuradas por distintos enquadres. Enquanto na maior parte do tempo as categorias hymesianas se mantiveram relativamente estáveis, houve, em alguns momentos, mudança na configuração dos participantes da interação, ocasionadas por interrupções pontuais. No Bar Beirute, por exemplo, um enquadre se encerrou mediante à abordagem de um vendedor ambulante da Revista Traços, mídia impressa local atrelada a um projeto social bastante popular em Brasília. Os dois colaboradores, Samuel e Neusa, interagiram com o vendedor e o indagaram sobre último número da publicação. Enquanto algumas pessoas se incomodariam com tal interrupção, ambos pareciam dispostos a se engajar naquela interação, já que apoiam a venda da revista na cidade.

Ao encerrar esse enquadre, entretanto, Samuel e Neusa iniciam um outro assunto, uma mudança na sequência dos atos (A), isto é, no conteúdo abordado.

Quando os colaboradores ofereciam pistas de contextualização, por meio de entonações descendentes finais ou de longos silêncios, eu procedia por conduzi-los ao quinto evento, em que realizava de forma mais diretiva perguntas acerca de pontos que não haviam ficado claros ou que fossem objetos de minhas asserções. Essa etapa se concluía também a partir de uma coda evidente na resposta dos colaboradores, seguida do término da gravação.

Em seguida, o sexto evento configurava uma nova etapa, em que o turno de fala principal novamente retornava a mim, para que pudesse explicar o que lhes era esperado no preenchimento dos formulários e em que momento eu lhes sanaria dúvidas. Durante o preenchimento dos formulários, no sétimo evento, eu auxiliava os colaboradores com as questões que surgissem. Finalmente, a situação comunicativa terminava com maiores esclarecimentos acerca de minha pesquisa, se os colaboradores demonstrassem interesse, ou com conversas informais acerca de pontos mencionados na conversa. Um exemplo de conversa informal final ocorreu na residência dos Carvalho. Durante a narrativa espontânea, Breno havia enfatizado a sua ação como policial civil no Gama. Somente na oitava e última etapa, eu lhe contei que tinha um tio policial civil e que, em vida, meu avô havia sido policial federal. O lanche, que me foi oferecido por ele e sua esposa, durou cerca de trinta minutos e a conversa versou mais sobre a situação prisional nas penitenciárias do Distrito Federal que sobre suas histórias de vida, por exemplo.

Uma categoria que merece especial atenção ao longo de toda a situação comunicativa narrativa de vida é a da sequência dos atos (A). Os atos representam aquilo que foi essencialmente dito pelos colaboradores, o conteúdo da mensagem fixado na elocução. Como minhas principais asserções versam sobre o que pensam os naturais do DF no que concernem alguns conceitos, essa categoria será esmiuçada na próxima seção. Antes, contudo, cabe lembrar que a autoria de determinada elocução não é a representação única de um só ponto de vista, mas a conjunção de diversas vozes precedentes àquela. Assim, os colaboradores operam como animadores de discursos moldados, nos termos de Bell (2014), por instituições e pessoas que previamente assumiram papeis emissores de responsável, autor e/ou editor (Cf. 3.2.1.1.1). Assim, quando um colaborador, por exemplo, escolhe a categoria lexical “Revolução”, em lugar de “Golpe”, para falar da deposição do ex-presidente João Goulart em 1964 – dado que ocorreu no corpus – o conteúdo da mensagem deve ser entendido a partir de quem anima o discurso, de que forma ele foi editado (talvez por uma pessoa estimada ao colaborador), a partir de que

autoria (os filmes e/ou livros que essa pessoa tenha lido) e de que responsável (nesse caso, as instituições militares).

Feitas as devidas ressalvas, como num prelúdio de uma peça teatral dividida em atos, podem entrar agora os atores. Digo, animadores.

5.3.2 Sinfonia da Alvorada (remasterizada)

Por ora deixarei a metáfora da peça teatral de lado e me apegarei à de uma sinfonia, em homenagem a Tom Jobim e Vinícius de Moraes que, em 1963, compuseram a Sinfonia da

Alvorada. Em cinco atos, a sinfonia trata da inauguração de Brasília, narrando a chegada do

homem (sim, com essa designação) à terra. Neste estudo, muitas foram às sequências dos atos (A) pelas quais as narrativas foram conduzidas. Após análise apurada, resolvi compor essa sinfonia candango-brasiliense contemporânea em quatro. Nesta seção, apresento três. Embora o quarto ato pudesse ser aqui encaixado, preferi reservá-lo ao próximo capítulo, já que versa especificamente sobre os falares da capital federal.

5.3.2.1 Ato I: Brasílias de Goiás, Brasílias do DF

Em alguma de minhas pesquisas documentais, esbarrei no seguinte decreto federal, de 1959:

DECRETO Nº 45.385, DE 3 DE FEVEREIRO DE 1959.

Autoriza o “Bank of London & South America Limited”, com sede em Londres (Inglaterra), a instalar agência em Brasília (GO).

Certamente, eu teria deixado passar esse, entre outros inúmeros documentos mais relevantes, não fosse o detalhe ao fim: “Brasília (GO)”. Brasília, Goiás. Quando a cidade do Rio de Janeiro ainda era referida como Distrito Federal, não restava outra alternativa senão tratar Brasília – a cidade que ainda não era cidade – como parte de Goiás. Igualmente surpreendente a essa descoberta foi encontrar, despretensiosamente, três núcleos familiares que haviam imigrado à capital federal antes mesmo da inauguração, quando Brasília era só uma ideia, ou, no caso dos de Abreu, nem isso. A família imigrou em 1953, antes mesmo do comício de JK em Jataí, para ocupar terras na Fazenda Sobradinho, área que é hoje tombada e que, em 1964, deu origem à RA-V. Boa parte da conversa se alongou na narrativa da vinda de seu pai, desde Uberlândia, ora em trem de ferro até Anápolis, ora em “lombo de burro”, e do senso comunitário vivenciado numa época anterior ao nascimento de Brasília: