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Em 1960, quando Daisaku Ikeda viajou para estruturar a Soka Gakkai fora do Japão, deparou com diferentes realidades mas com o mesmo sujeito – as mulheres Soka imigrantes-infelizes-insatisfeitas desejosas de retornar ao Japão. Nos Estados Unidos, ele encontrou as “noivas de guerra”, japonesas que haviam se casado com soldados americanos por ocasião da ocupação japonesa, e no Brasil encontrou as esposas dos colonos. Para entender as circunstâncias de vida dessas pessoas, temos de retroceder no tempo e apresentar alguns fatos ligados diretamente à colônia japonesa nos anos que antecederam a estruturação da Divisão Feminina no Brasil.

As primeiras imigrantes japonesas chegaram ao Brasil em 1908, no famoso navio Kassato Maru, como agricultoras com contratos temporários fugindo da

situação econômica precária pela qual passava o Japão, decorrente da implantação da nova Constituição na Era Meiji. Vinham com suas famílias ou como agregadas, objetivando compor o número de mão-de-obra exigido pelas autoridades. Dificuldade de adaptação, falta de conhecimento do idioma, diferenças culturais e sociais foram alguns dos problemas que enfrentaram no país.

Os imigrantes têm a tendência de juntar-se, visando à proteção individual e do grupo; assim, as japonesas começaram a viver em colônias que mantinham os seus costumes, cultura e língua, na suposição de que logo retornariam ao Japão. Esse pensamento impediu ou dificultou muito que aprendessem o português e se adaptassem aos costumes brasileiros.

O esforço da colônia japonesa em se manter coesa em torno de seus valores culturais foi interpretado como prova de que os “súditos de Makoto” formavam um corpo estranho no organismo nacional. (Takeuchi, 2008, p. 85.)

Segundo Marcia Takeuchi, entre o final do século XIX e a década de 1940 um discurso antinipônico percorria a elite brasileira – o “perigo amarelo” – e isso ao longo dos anos foi se fortalecendo e abrangendo o campo da política.

Acreditava-se que os japoneses pretendiam construir um posto avançado do Império do Sol em terras brasileiras.

Miguel Couto declara ser inegável existirem amarelos, brancos e pretos, sendo que cada um deles estava adaptado ao seu próprio meio. No entender de Couto, a principal diferença entre as raças não estava na cor da pele, mas na mente, na mentalidade, nos costumes e na sua religião. A entrada indiscriminada de imigrantes amarelos, além de trazer graves consequências para a formação da nacionalidade brasileira, produziria quistos étnicos, perigosos para a integridade do país. (Takeuchi, 2008, p. 87.)

Na década de 1940 – “anos de trevas” para a comunidade japonesa – ocorreu a Segunda Guerra Mundial e o Brasil, aliado dos Estados Unidos, viu no Japão um inimigo. As japonesas que aqui viviam logo começaram a sofrer as consequências: os bens de suas famílias foram confiscados, alguns dos homens foram presos, foi proibido falar o idioma e receber impresso japonês. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo enviou advertências e ordem de despejo aos moradores japoneses da rua Conde de Sarzedas, onde viviam cerca de quatrocentas famílias dessa nacionalidade, e ao mesmo tempo decretou o congelamento dos seus bens para ressarcir os danos causados pelo ataque inimigo. Isso trouxe sérios problemas às famílias e à comunidade, ocasionando o fechamento de empresas e organizações. O congelamento de bens perdurou até 1950.

A ordem de despejo foi cumprida com uma violência vingativa. Policiais prendiam um japonês apenas por ele ser japonês. Os japoneses eram conduzidos à força, só com a roupa do corpo, para a estação ferroviária de Santos, trancados como mercadorias em vagões fechados com cadeados e transportados aos campos de concentração em São Paulo, entre o choro de mulheres, gemidos de idosos e gritos dos agentes de polícia. (Toyama, 2009, p. 250.)

Com o fim da guerra, surgiram dois grupos antagônicos na colônia, o Kashigumi (grupo dos vitoriosos), vinculado à associação Shindo Renmei (Caminho dos Súditos), e o Makegumi (grupo derrotista). O primeiro não admitia que o Japão tivesse perdido a guerra, e fazia isso de forma tão veemente, que

chegou a atentar contra a vida dos que diziam que perdeu. Esses fatos fizeram com que a colônia se fechasse ainda mais em si mesma e atraísse a suspeita sobre todos os japoneses, homens e mulheres, e seus descendentes. Mesmo anos depois da guerra a comunidade japonesa viveu mergulhada na confusão “vitoristas versus derrotistas”.

Dos anos 1930 até o início de 1950, período denominado “hibernação das religiões” japonesas, foram cumpridas as recomendações do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão aos patrícios que emigraram para o Brasil, de acordo com as quais eles

devem ter sempre em mente que a grande maioria dos brasileiros é católica, devendo os cultos do budismo ou xintoísmo, religiões estranhas para os brasileiros, ser realizados da maneira mais discreta possível, deixando-se de lado construções de templos budistas ou xintoístas que podem dar muito na vista. Considero essas medidas mais inteligentes para o desenvolvimento futuro de nosso povo. (Noda apud SBCJ, 1992, p. 564.)

Nos anos 1950 mudanças importantes ocorreram na sociedade brasileira, provocando, a partir da segunda metade da década, a “ressurreição religiosa dos japoneses e seus descendentes” (SBCJ, 1992a, p. 575). Essa, gradativamente, estendeu-se aos brasileiros e fincou raízes no solo daqui.

A ressurreição das religiões japonesas, verificada a partir dos anos 50, foi de início um fenômeno surgido entre os japoneses e seus descendentes; mas, no período compreendido entre as décadas de 60-70 [sic], elas ultrapassaram os limites étnicos, isto é, dos japoneses, e passaram a penetrar amplamente no meio brasileiro, de não-descendentes de japoneses. (SBCJ, 1992a, p. 561.)

A partir de 1950 deixou de existir o “perigo amarelo” e a colônia ganhou visibilidade. De 1952 a 1959, mais de 30 mil imigrantes japoneses chegaram ao Brasil, quase 30% mais que nas décadas de 1960 e 1970 juntas.

Muitos nipo-brasileiros tentaram combater os estereótipos negativos fundindo as comemorações dos quatrocentos anos de fundação de São Paulo com as dos cinquenta anos da imigração japonesa, em 1958. Um enorme “Pavilhão Japonês” foi

construído no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, tendo sido inaugurado em 18 de junho de 1958. (Lesser, 2008, p. 44.)

As imigrantes da Soka Gakkai viviam nessa confusão nipo-brasileira quando Ikeda chegou ao Brasil na madrugada de 19 de outubro de 1960, e a maioria que foi receber a comitiva – integrando esta veio Yasu Kashiwabara – no Aeroporto de Congonhas era de homens. Agricultores que moravam longe da capital paulista, eles vieram deixando as mulheres em casa a cuidar dos filhos. Somada a isso estava a precária condição financeira em que viviam, o que os impedia de assumir gastos com viagem. Segundo um depoimento, nessa ocasião estiveram presentes no aeroporto três a cinco mulheres que viviam na cidade de São Paulo. Uma delas relatou:

O motivo que vim para o Brasil, além do financeiro, era que não gostava da organização japonesa [Soka Gakkai], vim fugindo da organização. No entanto, chegando aqui em 1958 senti-me completamente só, uma profunda solidão. Quando vi no jornal São Paulo Shimbun um anúncio de uma reunião da Soka Gakkai, fiquei muito feliz e comecei a participar. Nunca mais parei. (Depoimento da imigrante F, 79 anos, entrevista realizada em 30 de outubro de 2008.)

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