O Diccionario de la Lengua Española, mais conhecido como DRAE, teve sua primeira edição em 1789, quando o Diccionario de la lengua castellana, en que se explica el
verdadero sentido de las voces, su naturaleza y calidad, con las phrases o modos de hablar, los proverbios o refranes, y otras cosas convenientes al uso de la lengua, conhecido como “Dicionário de autoridades” (1726-1739), ao qual já fizemos referência no capítulo 1 ao falar
da criação da RAE, sofreu cortes para ser reduzido a um só volume.
Conforme já mencionamos em nossa Introdução, existe um fato curioso em torno da sigla desse dicionário, que não coincide com as letras iniciais de seu nome: Diccionario de la
Lengua Española. A sigla DRAE nos remete imediatamente à sua instituição autora, a
RAE165, – pelo menos até sua atual edição, a número 22 –, apesar de estar explícita em seu prólogo a seguinte afirmação: “El Diccionario de la Real Academia Española, en el que […]
165 Na página “Obras académicas” do site da RAE (
http://www.rae.es/obras-academicas/diccionarios/ diccionario-de-la-lengua-espanola) e na página “Obras y proyectos” do site da ASALE, (http://www.asale.org/obras-y-proyectos/diccionarios/diccionario-de-la-lengua-espanola) fica registrado que o dicionário é de autoria dessa academia. Consultado em 02/12/2013.
colaboran estrechamente las veintiuna Academias con ella asociadas”.166 Encontramos uma afirmação parecido no site da ASALE, na página intitulada “Diccionario de la lengua
española”. Nela se afirma que essa obra hoje em dia “es el resultado de la colaboración de
todas las academias”.167 Mais uma vez encontramos uma vacilação, um deslize muito significativo, que materializa um equívoco constitutivo, em termos de compreender a relação contraditória – de desigualdade –, que no capítulo 1 designamos como RAE/ASALE. Neste caso tira-se o crédito da autoria da ASALE e comenta-se no texto o trabalho de colaboração entre a RAE e essa outra instituição. Esses modos de dizer, então, estão atravessados – como já dissemos – por uma contradição (que é do registro do real, que é da ordem da história) e que, portanto, que é constitutiva do funcionamento desse discurso.
Observamos que há então um movimento de declarar que todas as 22 academias trabalham para a publicação, mas a obra continua sendo conhecida e divulgada como DRAE, conferindo à RAE, como já vimos no capítulo 1 da presente dissertação, o protagonismo no que se refere à regulação da LE. Desde sua primeira edição e até os dias de hoje, em sua 22ª edição,o DRAE construiu seu lugar na lexicografia hispânica como um dos dicionários mais
importantes de língua espanhola no mundo e, como argumenta Lara (2001, p. 97): “La
historia de los diccionarios de la lengua española ha estado determinada, hasta ahora, por la
actividad de la Real Academia Española.”
E esse protagonismo – do dicionário e de sua Instituição autora - esteve e está presente ainda no espaço de enunciação delimitado, em nossa Introdução, pelos territórios dos Estados nacionais (ex-colônias da Espanha) que, atualmente, têm a LE como língua oficial. Nesse sentido, Lara (2011, p. 324) nos ajuda a compreender um pouco mais o funcionamento desta
166
(DRAE, p. X.), disponível em: http://www.rae.es/diccionario-de-la-lengua-espanola/presentacion Neste enunciado, fica clara a designação que a própria academia confere ao dicionário. Podemos perceber também
como a RAE coloca que as “outras” 21 academias são associadas com ela, e assim não estariam em papel
igualitário realmente. Consultado em 02/12/2013. 167
Disponível em: http://www.asale.org/obras-y-proyectos/diccionarios/diccionario-de-la-lengua- espanola. Acesso em 15/11/2013.
Instituição no mundo hispânico. O autor afirma: “las independencias de las naciones hispanoamericanas contribuyeron al fortalecimiento del papel de la Academia y su ideología defensiva de la identidad de la lengua.” O autor (ibidem) argumenta, sobre este aspecto, que na América havia receio de que a independência dos países trouxesse a fragmentação do
espanhol, e que assim: “a lo largo del siglo XIX Hispanoamérica cedió el papel de dirigir la
unidad de la lengua a la Real Academia Española y adoptó su misma ideología purista.” Sua 23ª edição será publicada em 2014168, como já referimos em diversos momentos da presente dissertação. Apesar disso, desde 2004169 o site no qual pode ser consultado170 vem recebendo atualizações com as alterações que constarão nesta nova edição, sendo que até agora, segundo informações da própria página eletrônica, foram modificados 21.989 verbetes dos 88.431171 que constam em sua nomenclatura.
A consulta desta nova edição no site funciona da seguinte maneira: ao digitar no campo específico da página algum dos vocábulos que já foram reformulados para a nova edição na versão online do DRAE, o consulente se depara com uma remissão à nova edição
sob a designação “avance a la vigésima tercera edición”, com três possibilidades diferentes: “artículo enmendado”; “artículo propuesto para ser suprimido” e “artículo nuevo”.
A primeira categoria, a de “artículo enmendado”, se refere a entradas que sofrerão
modificações na edição prevista para 2014 e mostra à direita do verbete da atual edição uma
espécie de “botão” vermelho – como já foi observado em vários momentos deste trabalho. Ao
clicar nele, o plano de fundo é modificado, e com letras em cinza claro e na diagonal, como se fosse uma marca d'água, lemos o seguinte sintagma: “redacción propuesta”. Veremos isto ao
168
Informação contida no Programa de comemorações ao III Centenário da RAE, disponível em: http://rae.es/la- institucion/iii-centenario. 169 Cf. http://rae.es/diccionario-de-la-lengua-espanola/hacia-la-23a-edicion/cifras-de-actualizacion 170 www.rae.es. 171
Fonte: http://buscon.rae.es/draeI/html/drae/img/drae/variacionlemas.jpg , acessado em 08/12/2010. As mudanças previstas para o DRAE 23ª edição também podem ser acompanhadas por notícias publicadas no próprio site da RAE, no qual periodicamente atualizam-se os verbetes que sofrerão modificações, em:
http://rae.es/diccionario-de-la-lengua-espanola/hacia-la-23a-edicion/cifras-de-actualizacion, consultado em 10/10/2013.
analisar a sd39, caso o leitor já queira visualizar como funciona o que aqui estamos tentando descrever.
O segundo caso, “artículo propuesto para ser suprimido”, trata de lexemas que serão
eliminados da nomenclatura da próxima versão. Assim, na versão atual, ao consultar um
determinado vocábulo, a página mostrada já registra o sintagma: “artículo propuesto para ser
suprimido” em vermelho e, de novo, como plano de fundo, em letras em cinza claro e na
diagonal, como se fosse uma marca d'água, aparece, desta vez, o sintagma “Propuesta de
supresión”.
A terceira possibilidade, “artículo nuevo” prevê a inclusão de entradas no novo
DRAE. Ao consultar um vocábulo que não consta na nomenclatura do DRAE 22ª edição mas que passará a fazê-lo na 23ª, o consulente é direcionado imediatamente à página cujo plano de
fundo está marcado pelo sintagma “redacción propuesta” (tal como acontecia com a primeira categoria de “artículo enmendado”).
Feita esta série de esclarecimentos acerca do funcionamento do DRAE 23ª edição, fortemente vinculado, no site, ao da edição atual, estamos em condições de compreender como será realizado o sub-recorte, anunciado na introdução deste capítulo, dos verbetes da
letra “L” no DPD. Passamos, então, ao segundo item de nosso capítulo.