2.5 ToR e) Review the genetic effects of exploitation on deep-sea fishes
2.6.2 State of knowledge
É importante destacar que houve uma tentativa de construção de uma base de dados acerca dos principais consultores financeiros brasileiros circunscritos à Expo Money, com o objetivo de recuperar informações sobre formação acadêmica, pós- graduação, títulos, prêmios, livros, desenvolvimento de softwares, publicações em jornais, revistas, artigos acadêmicos – como um modo de reconstruir sociologicamente a
trajetória de vida e realizar uma análise quantitativa. No decorrer da coleta de dados, notei, no entanto, que só seria possível obter todas essas informações por meio de entrevistas pessoais, uma vez que, os consultores divulgam apenas os dados que julgam relevantes para a realização do seu marketing pessoal. Tentei abordá-los pessoalmente, mas a maioria alegou estar com agenda lotada; então, optei por lhes enviar um questionário através de e-mail, o qual não foi respondido por todos. Se por um lado, uma lista extensa com os dados de cada um dos palestrantes ou apenas daqueles que compõem a Coleção de livros da Expo Money tornar-se-ia uma leitura cansativa para o leitor, por outro, não apresentaria relevância sociológica, já que a minha inserção no campo provocou diferentes reações em certos agentes. Recebi informalmente, por exemplo, um convite para publicar minha tese no formato de livro; alguns consultores também se mostraram interessados pelo tema ao lerem artigos que publiquei durante a pesquisa sobre essa temática e que estão disponíveis na Internet; outros, ainda, entraram em contato por se sentirem “ansiosos” para ler novas matérias. Cabe revelar, entretanto, que também recebi e-mails de autores insatisfeitos com a relação que estabeleci entre seus livros e a temática da autoajuda. Através desses dados e acontecimentos, que serão relatados no decorrer desta pesquisa, evidenciei uma dinâmica que passaria sociologicamente imperceptível se ficasse preso à coleta de dados para realizar uma análise quantitativa.
A partir de algumas informações coletadas com relação aos consultores financeiros e a observação participante realizada foi possível categorizar os autores e palestrantes circunscritos à Expo Money. Notei a existência de três tipos de gurus, a partir da utilização da classificação de Huczynskin (1993) 85; isto é, há gurus heróis, profissionais e acadêmicos que formam o mundo das finanças pessoais no Brasil.
Os gurus heróis são aqueles que se utilizam da própria história de vida para se legitimar e vender seus produtos, independentemente, de sua trajetória profissional. Hoje, eles sobrevivem desse mercado e são considerados grandes conselheiros que servem de exemplo de vida para toda a sociedade. O capital que dá força a essa esfera está ligado à conquista do capital econômico que, dependendo do carisma do agente, possibilita ampliar seu capital simbólico. Nesse sentido, nem sempre o capital cultural,
85 Neste sentido, Huczynskin (1993) ao estudar o avanço do managerialism identificou três tipos principais de gurus: os acadêmicos, os consultores e os managers heróis, profissionais bem sucedidos que transformam suas ideias e experiências profissionais em produtos do mercado.
como títulos universitários, é relevante como arcabouço de sua legitimação perante o público.
Já os gurus profissionais/consultores não emergem necessariamente da área de gestão e negócios, como mostrado no estudo de Huczynskin (1993). Eles possuem perfis e profissões diversas e abordam temas distintos, relacionados, porém, com a sua formação. Por exemplo: um jornalista econômico ou um profissional do mercado financeiro busca explorar, de forma fácil, conceitos econômicos e financeiros; já um psicanalista tenta explicar por que certas emoções induzem ao consumismo e mostram como resolver tal relação emocional no que tange ao dinheiro. Estes indivíduos apoiam- se em seu capital cultural, como títulos de graduação, para ganhar destaque, mas nem sempre a formação em centros de renome é o elemento significante; na verdade, o que conta é o tempo de experiência e de trabalho e a conquista de prêmios ou certificados no decorrer da carreira – a experiência profissional é que dá autenticidade à atividade de consultor financeiro. Até o momento, nota-se que a maioria dos consultores se enquadra nesse perfil.
Os gurus acadêmicos, por sua vez, são aqueles que, de certa forma, tentam legitimar-se usando a conquista de títulos acadêmicos como graduações, pós- graduações, MBAs, passagens por centros de ensino internacionais e, também, seus vínculos com centros de excelência e universidades de renome no país. Nessa vertente, é possível perceber que existe uma militância em prol da institucionalização de certas temáticas, como a educação financeira e a psicologia econômica, na forma de disciplinas, por exemplo, esses gurus procuram distanciar-se daqueles considerados “populares/heróis” e, a todo momento, tentam uma aproximação com o campo científico como esfera de legitimação.
É oriunda desse último grupo a crítica feita ao meu trabalho no que se refere à ligação que estabeleci entre alguns livros de finanças e a vertente da autoajuda. Por essa razão, é interessante reproduzir o e-mail que me foi enviado no final de 2008, para demonstrar que há um embate implícito no campo dos gurus, e como a dinâmica de capitais empregada para a legitimação é importante e constitui-se como elemento de distinção entre tais gurus financeiros.
Foi com sincero prazer que li o paper “Autoajuda e o Desenvolvimento do Mercado Financeiro”. É um trabalho bem construído, fundamentado de maneira consistente e direta. No entanto, se por alguma vez tivéssemos conversado, você saberia que partilho
(e, aliás, triplico) muitas das críticas que o trabalho apresenta
à literatura afeita aos temas financeiros. (...) Por isso, foi com surpresa
- e algum humor mórbido, admito que me vi associada em
seu texto à “Bíblia Pai Rico Pai Pobre”. Há de haver um bocado de equívocos no meu trabalho. Milhares deles, sem dúvida. Mas me tomar por seguidora daquele horror foi muito mais engraçado do que você imagina. Para que se tenha uma ideia, antes mesmo que o lançamento do livro tivesse acontecido no Brasil, escrevi - e
publiquei- uma resenha “detonando” o primeiro livro da
(depois) interminável série. E, ironia das ironias, usei na
ocasião argumentos extraordinariamente semelhantes aos seus (...). Sinto-me livre, portanto, para publicamente fazer troça dos adoradores do Kiyosaky. (...) No que me diz respeito, seja por formação ou visão de mundo, me sinto muito mais à vontade na companhia dos seus argumentos que com a maioria dos autores citados. Eles sabem disso. Não por acaso, não sou propriamente uma figura querida entre os profissionais que seu estudo elencou (...). Assim, por inadequação, evito o quanto posso o “lado de lá”.
O trecho acima elucida claramente a existência de um conflito simbólico entre os gurus, que não abrange apenas fundamentalistas e grafistas, mas também revela uma dinâmica importante: a de que certos agentes buscam reconhecimento perante os profissionais do mundo acadêmico. Nesse sentido, qualquer argumento visto como desfavorável pode ser negativo para a construção da imagem que eles pretendem criar para com o seu público.
A trajetória dos agentes promotores das finanças pessoais tem origem em diversas profissões e perfis. Os gurus utilizam capitais econômicos, culturais, científicos e simbólicos para se estabelecerem perante o seu público e entre os próprios gurus financeiros. Assim, a estrutura dessa dinâmica organiza-se em torno de uma disputa objetiva entre consultores fundamentalistas e grafistas, mas não se reduz apenas a este embate explícito: é possível observar que diferentes instâncias de consagração são empregadas pelos gurus para conquistarem espaço e reconhecimento na sociedade.
De acordo com Bourdieu (1997), a produção de conteúdos da esfera financeira atrelada à autoajuda é resultante de um processo de práticas no qual o sujeito está presente na sua produção, e que tem como pano de fundo os contextos social e histórico como elementos imprescindíveis para a sua existência. De forma geral, os gurus procuram um capital simbólico entre seus pares, isto é, o reconhecimento de seu papel
dentro do espaço em que figuram, formando um campo no qual os diferentes agentes mantêm relações complexas para garantir seu posicionamento.
Tais fatos revelam a busca de distinção de posicionamentos no campo, onde a percepção da existência tanto de disputas objetivas quanto subjetivas entre os agentes é que constituem a formação de habitus coletivo do grupo em questão (Bourdieu, 1997; Elias, 1986). A importância do crescimento e da regularidade da Expo Money no Brasil, ao abranger diversos gurus, transforma o evento em um ritual obrigatório, que também consagra esses consultores, ao mesmo tempo, que exprime realidades coletivas, na medida em que tornam esses consultores um dos principais agentes intermediários do avanço cultural das finanças na sociedade brasileira.