Apesar de serem utilizadas muitas vezes como sinónimos, tradução e interpretação são, de facto, palavras que designam atividades diferentes: a primeira refere-se à conversão de uma mensagem escrita numa língua para outra língua, enquanto a segunda diz respeito ao ato de interpretar e de dar sentido, de uma forma imediata e ao vivo, uma
mensagem produzida numa língua para outra língua. Neste caso, a língua pode ser oral ou gestual (Tuxi, 2009).
Fernandes e Carvalho (2005) argumentam que, para alcançar competências como as acima referidas, é necessário que o intérprete de língua gestual portuguesa domine, obviamente, a língua gestual portuguesa e a língua portuguesa, se bem que poderá, eventualmente, dominar línguas estrangeiras, tal como já foi referido anteriormente. Assim, Quadros (2002) define o tradutor-intérprete de língua gestual como aquele “que traduz e interpreta a língua de sinais para a língua falada e vice-versa em quaisquer modalidades que se apresentar (oral ou escrita)” (p. 11).
De facto, e de modo a que se possa estabelecer uma contextualização, a interpretação de línguas gestuais surgiu devido à necessidade da participação das pessoas surdas na sociedade em condições de igualdade com as pessoas ouvintes. Assim, a interpretação de língua gestual tem como função contribuir para a eliminação de barreiras de comunicação, de forma que as pessoas surdas possam ter uma participação plena na sociedade onde se inserem (Quadros, 2006).
Por conseguinte, Magalhães (2013) refere que os intérpretes de língua gestual devem esforçar-se por “incorporar conceitos linguísticos e culturais das comunidades envolvidas, para que todo o significado que se transporte da mente de um falante para o outro venha repleto de nuances, de minúcias da língua de quem a transporta para a outra língua” (p. 83).
A interpretação é, de facto, considerada como sendo um ato linguístico-cognitivo complexo, no qual o intérprete procede ao processamento da informação que lhe é dada na língua fonte, fazendo escolhas lexicais, estruturais, semânticas e pragmáticas na língua alvo que se devem aproximar de forma apropriada à sua origem (Quadros, 2002). Isto significa que, para que o trabalho do intérprete de língua gestual portuguesa seja, de facto, eficaz, é necessário considerar os aspetos técnicos e a correção linguística, cultural e social das línguas em questão (Almeida, 2010b), devendo, para isso, ter, conforme procuramos vincar no ponto anterior,
acesso a uma formação adequada e de elevado grau de exigência, bem como o contato permanente com a comunidade surda de modo a conhecer e assimilar a riqueza expressiva da Língua Gestual Portuguesa, as suas subtilezas e nuances, o património cultural das pessoas surdas. (p. 16)
75
Ainda no que diz respeito às técnicas de interpretação utilizadas pelos intérpretes de língua gestual portuguesa, e segundo Rosa (2008), existem muitos autores que consideram que a interpretação simultânea não conduziu a um grande avanço nos serviços de interpretação, pois julgam que a interpretação consecutiva é mais fiável e exata, uma vez que o intérprete tem tempo suficiente para refletir e analisar o que vai dizer, ao passo que na interpretação simultânea, sendo instantânea, não lhe é dada essa possibilidade. Não obstante, a economia de tempo e a naturalidade com que se produz a troca de ideias entre os intervenientes são claramente pontos a favor da interpretação simultânea.
A interpretação simultânea, que ocorre em tempo real e ao mesmo tempo que a produção na língua da fonte, exige, por parte do intérprete de língua gestual portuguesa, uma grande energia mental que se caracteriza como sendo limitada mas que, muitas vezes, tem de ser usada por ele até ou para além do seu limite, visto que é ele que dá voz ao surdo e voz para o surdo, o que faz com que se sinta como um semelhante dos seus pares (Pizelli, 2010). Por conseguinte, e segundo Janzen (2005), este tipo de interpretação exige que o intérprete de língua gestual portuguesa lide com certos desafios, designadamente:
• Capacidade de escutar e de analisar o discurso, abrangendo todas as operações de compreensão, desde que, de facto, ouve o som até ao momento da sua identificação, e de tomada de decisão quanto ao seu significado, sendo que, e como recebe mensagens linguísticas através da visão, identifica gestos combinados com pistas não manuais e toma a decisão relativamente ao seu significado naquele contexto em específico. O intérprete de língua gestual portuguesa deve ter, ainda, um vasto conhecimento, tanto do vocabulário geral como do vocabulário específico do contexto em que está a interpretar, pois caso contrário, se não perceber o discurso, não o consegue interpretar;
• Boa memória a curto prazo, que é necessária devido ao espaço de tempo que decorre desde que o discurso é produzido na língua da fonte e a produção do discurso que traduz o seu conceito na língua alvo. Discursos muito densos, com estruturas linguísticas pouco usuais ou com uma pronúncia ou estilo pouco familiares, podem requerer mais algum tempo entre o momento em que são produzidos pela fonte e aquele em que o intérprete de língua gestual portuguesa
os consegue reformular. Duas línguas com estruturas gramaticais diferentes também exigem uma boa memória de curto prazo;
• Capacidade de produção, que consiste no conjunto de operações que vão desde a representação mental de uma mensagem a ser produzida até à planificação do discurso e ao seu desempenho. O facto de a produção verbal ser frequentemente irregular pode tornar esta tarefa extremamente complexa, por isso, sempre que lhe for possível, o intérprete de língua gestual portuguesa deve procurar produzir o discurso na língua alvo com base no significado, e não nas palavras da mensagem na língua da fonte;
• Capacidade de coordenação dos três pontos anteriores, que permitirá ao intérprete de língua gestual portuguesa manter a sua concentração entre as tarefas de escutar e analisar o discurso na língua da fonte e a tarefa de produzir na língua alvo, ao mesmo tempo que mantém a auto verificação.
Fernandes e Carvalho (2005) argumentam que, para alcançar competências como as acima referidas é, efetivamente, imprescindível que o intérprete de língua gestual portuguesa domine a língua gestual portuguesa e a língua portuguesa, ou seja, o intérprete deve deter competências linguísticas nestas duas línguas.
As técnicas utilizadas para a interpretação por parte do intérprete de língua gestual, da língua oral para a língua gestual, passam pela tradução literal, adaptação, alteração da ordem, ampliação, omissão, equivalências, explicação e transposição (Waquil, 2013). A tradução literal é a que é realizada palavra por palavra, sendo assim bastante similar ao texto traduzido; a adaptação utiliza-se para criar uma nova situação que seja equivalente à língua fonte que não é conhecida na língua alvo da tradução; a alteração da ordem está relacionada com a ordem de apresentação das ideias, focando os diferentes pontos consoante a sua própria vontade ou a própria relevância; a ampliação é a introdução de elementos que não estão presentes no texto original; a omissão é quando se excluem ideias do texto principal por diversas razões (pode não ser importante ou não ser conhecimento partilhado); as equivalências são as substituições que se efetuam do texto original para o texto alvo por segmentos com função similar; a explicação é o acréscimo de informação para se esclarecer algo que não é conhecido pelo público-alvo; e a transposição é quando se realizam mudanças gramaticais no texto traduzido (idem).
77
O intérprete executa, assim, uma interpretação do que ouve ou vê, o que implica, em contrapartida, uma série de processos mentais de natureza complexa. Existem dois modelos explicativos que discriminam esses processos mentais do intérprete de língua gestual: o modelo integrado de Colonomos e o modelo processual de Cokely, sendo que foi o primeiro quem se focou nos detalhes do que acontece na mente do intérprete de língua gestual durante a tarefa de interpretação. Assim, e através do modelo integrado de Colonomos, pode-se concluir que uma interpretação eficaz pressupõe a receção dessa mensagem por um canal específico (ou auditivo ou visual), a compreensão da mesma e ainda uma série de decisões relativamente ao que produzir e como produzir a mensagem alvo (Monikowsky & Winston, 2011). É neste contexto da realização de uma interpretação, que para ser de qualidade demora cerca de 20 a 30 minutos, que o intérprete poderá, de acordo com Silva (2012), produzir um outro/mesmo discurso. Em termos sucintos, o outro discurso é o que se relaciona com a utilização de um gesto equivalente, e não de um exatamente igual, ao que é dito oralmente, podendo-se recorrer à utilização de sinónimos, e o mesmo discurso é o que se relaciona com a realização da gestualização correspondente ao ´discurso português` (Silva, 2012).
Para que tal aconteça, é essencial que o intérprete de língua gestual detenha conhecimentos amplos para conseguir compreender e transmitir os objetivos do orador de forma fiel. Deve ainda exprimir-se na primeira pessoa, conferindo maior ou menor intensidade de acordo com o discurso, utilizando todo um conjunto de expressões visuais para transmitir a mensagem, como “a visualidade simultânea de gestos, expressões, movimentos, toques pontos de articulação” (Russo, 2009, p. 68), que devem estar presentes aquando da interpretação gestual ou oral, uma vez que os termos dependem um do outro, como um fio condutor do discurso, visto que a língua gestual atribui um valor gramatical às expressões faciais (Lacerda, 2010; Quadros, 2002). No entanto, e em suma, é de extrema relevância salientar que tanto na tradução como na interpretação, manter-se fiel à mensagem da fonte significa uma procura de equivalências, o que não é tarefa simples. Na verdade, essa dificuldade remete-se ao facto de na língua alvo nem sempre existirem equivalências absolutas, visto que uma frase ou uma expressão pode, efetivamente, ser traduzida de diversas formas, não havendo termos possíveis de comparação relativamente à sua adequabilidade (Rosa, 2008).