6 Discussion
6.2 Standardisation and knowledge
O Estudo de Caso é um método que se enquadra na abordagem qualitativa e serve geralmente para coleta de dados, principalmente em in- vestigações na área de ciências humanas, sendo que seu foco é a compre- ensão de fenômenos, principalmente com base em conhecimentos tácitos. Segundo Yin (2005), o Estudo de Caso pode envolver um ou mais objetos na análise (caso único ou múltiplos casos). Nos casos múltiplos, o estudo preocupa-se mais em estabelecer similaridades entre situações e, a partir daí, definir uma base para generalizações.
Com a intenção de identificar padrões e características comuns em documentários científicos, foram selecionados os três filmes mencionados no Quadro 1, cujos critérios de escolha estão descritos na “Delimitação do Estudo”, e se procedeu ao estudo através da metodologia descrita a seguir, envolvendo os processos de Desconstrução e Análise do material desconstruído:
1.5.3.1 Desconstrução dos filmes
Analisar um filme ou um fragmento é, antes de mais nada, no sentido científico do termo, assim
como se analisa, por exemplo, a composição química da água, decompô-lo em seus elementos constitutivos. É despedaçar, descosturar, desunir, extrair, separar, destacar e denominar materiais que não se percebem isoladamente “a olho nu”, pois se é tomado pela totalidade. Parte-se, portanto do texto fílmico para “desconstruí-lo” e obter um conjunto de elementos distintos do próprio filme. Através dessa etapa, o analista adquire um certo distanciamento do filme. Essa desconstrução pode naturalmente ser mais ou menos aprofundada, mais ou menos seletiva, segundo os desígnios da análise. (VANOYE, 1994, p. 15)
Cada filme analisado foi submetido ao seguinte procedimento de desconstrução: primeiramente foi feita a captação de um fotograma de cada cena (ou de cada sequência que represente uma ideia) e todos foram posicionados em um quadro. Quando o filme não possuía legenda, fez- -se a transcrição das falas do filme, a tradução para o português (quando em outro idioma) e o posicionamento do texto em uma coluna ao lado da imagem correspondente. Juntamente ao texto e às imagens, foram posi- cionados os elementos sonoros, sejam ruídos, músicas ou efeitos. Estes elementos, portadores de significado, quando relevantes, também foram considerados, pois podem contribuir com a construção do sentido do filme e com a defesa da ideia por ele apresentada.
Desta maneira, facilita-se o trabalho de análise da estrutura das ideias e da lógica do discurso contidas no filme, assim como dos recursos fílmicos constituídos de valor e significado.
Não incluímos em nossa análise alguns elementos que não forne- ciam dados muito relevantes, como a duração dos planos e a descrição dos movimentos de câmera. Apesar disto, nos planos em que tais elementos carregam significado importante, fizemos sua identificação e registro. Os enquadramentos e a iluminação não precisaram ser descritos, uma vez que é possível identificá-los observando a imagem do fotograma no quadro.
Este trabalho permite ao pesquisador dispor de material adequada- mente organizado para a realização de uma análise eficaz, uma vez que esta se realiza por meio de cruzamentos dos elementos que compõem o filme.
1.5.3.2 Modelos de quadros de desconstrução
Abaixo, apresentamos os modelos de quadros que foram utilizadas para o trabalho de desconstrução dos filmes que serviram ao estudo de caso na presente pesquisa:
Quadro 2: Modelo de quadro utilizado na desconstrução dos filmes
Cena Imagem Texto Som Observações
1.
Este quadro foi desenvolvido para análise do filme Why Beauty
Matters, pois o filme não possuía legendas, o que exigiu uma coluna para
o texto. A trilha sonora percorre todo o filme e é muito significativa para o estudo. Trata-se de um filme que aborda uma questão filosófica e a mú- sica está carregada de significado, principalmente pela tradição na qual ela se inscreve e pela sua historicidade. As imagens utilizadas em cada cena funcionam de maneira muito estreita com o texto na construção do significado. Neste sentido foi necessário o levantamento de um fotograma de cada cena.
Quadro 3: Modelo de quadro simplificado
Imagem Contexto Observações
Este é um modelo de quadro simplificado, utilizado na descons- trução dos outros dois documentários. Ele não possui uma coluna para a trilha sonora, pois o objetivo da presente pesquisa é observar a cientifici-
dade dos documentários. Apesar da música ter papel importante na cons- trução do discurso de um filme, Uma Verdade Inconveniente praticamente não tem trilha musical e a trilha de Precisamos da lua? tem um papel motivacional e condicionador de valores que pôde ser analisada sem sua descrição no quadro.
1.5.3.3 Análise do material desconstruído
Para Vanoye (1994), a análise de filmes exige uma observação dis- tinta de um espectador “comum”. O analista deve estabelecer um eixo de observação em função do seu foco de pesquisa, descrever e analisar.
A análise consiste em buscar como o filme gerou determinada ideia, provocou certa emoção, promoveu alguma associação específica. Para isto, são estabelecidos elos entre os elementos que foram isolados, a fim de compreender como eles se associam e se tornam cumplices para fazer um todo significante.
Apesar de estar focando seu estudo principalmente na análise de filmes de ficção, o trabalho de Vanoye (1994) cabe da mesma maneira aos filmes documentários, os quais utilizam as mesmas ferramentas e dispo- sitivos idênticos.
Consideramos na presente pesquisa os elementos fílmicos que in- terferem no discurso por serem providos de significado. No entanto, a maneira como analisamos tais elementos difere do método sugerido por Vanoye (1994), pois nosso foco principal não é a estrutura do filme do ponto de vista estético, mas a estrutura e a lógica do discurso, a maneira como o filme leva o conhecimento ao espectador, ou como o filme leva o espectador a compreender a ideia apresentada nele.
Bauer (2010) afirma que nunca haverá uma análise que capte uma verdade única do texto. Segundo ele, ao transcrever material audiovisual devemos tomar decisões sobre como descrever as imagens, se vamos in- cluir pausas e hesitações na fala, como descrever os efeitos especiais, mú- sica ou mudanças de iluminação. Diferentes orientações teóricas levarão a diferentes escolhas sobre como selecionar para transcrição.
As representações da mídia são mais que discursos. São um amalgama complexo de texto, escrito ou falado, imagens visuais, e as várias técnicas para modular e sequenciar a fala, as fotografias e a localização de ambas.
Alguma informação será sempre perdida, outras poderão ser acres- centadas, e desse modo, o processo de analisar falas e imagens é igual à
tradução de uma língua para outra. O produto final será uma simplificação. Na presente pesquisa, foram analisados os seguintes itens:
• a estrutura das ideias articuladas nos filmes,
• como o conhecimento científico se apresenta em cada um deles • quais imagens, recursos narrativos e elementos sonoros são em-
pregados.
Para analisar a forma como o conhecimento científico é articulado em cada filme, buscamos organizar o conteúdo nas seguintes categorias, para verificar se ele contempla os elementos essenciais característicos do conhecimento científico:
• apresentação do tema, • definição da área científica, • justificativa,
• explicitação dos objetivos, • definição do problema,
• apresentação das perguntas de pesquisa, • explicitação da metodologia,
• apresentação de provas e evidências, • uso de argumentação e visão crítica,
• apresentação de referências e fundamentação teórica, • apresentação de resultados e conclusão.
Além disso, buscamos em cada filme os dispositivos utilizados para torna-lo atraente para o público, a partir dos elementos sugeridos por Léon (2000), ou seja:
• apelo visual; • apelo sonoro; • apelo ao inesperado; • características poéticas;
• características dramáticas – que levam o documentário próximo ao drama através de estrutura baseada em conflito (ideias contrá- rias, forças em oposição, o bem versus o mal, o honesto versus o duvidoso, oposição de pontos de vista – polêmicas e controvér- sias), de proposição de problema e obtenção de resolução e que tenha começo, meio e fim;
• utilização de um personagem central; • estruturação em torno de uma história;
• uso do recurso de suspense, provocando sensações como curio- sidade, mistério, perigo e dificuldade;
• apelo retórico – persuasão baseada em argumentos objetivos e preciso, adaptação ao nível de conhecimento do público e uso de recursos como metáforas, analogias e hipérboles;
• características da narração e narrador – boa impressão, simpatia, estilo convincente e agradável, credibilidade, caráter, competên- cia;
• uso do senso de humor (para diminuir a tensão).
1.5.4 Da relação entre documentário científico e conhecimento