Apesar de o escritor ter em mente um certo tipo de leitor, toda comunicação escrita é frágil, visto que o receptor está apartado do locutor e, por isso, não participa da situação de produção do discurso. Isso é levado a seu maior grau quando se considera o texto literário, que pode ser lido segundo diferentes contextos. Embora haja um leitor virtual em todo texto escrito, é fundamental que a obra literária tenha uma abrangência maior, podendo circular em tempos e espaços muito afastados daquele de sua produção. É justamente essa “descontextualização” que promove a ambigüidade da literatura, multiplicando as possibilidades de conexão entre as unidades do texto.
Entretanto, a ausência do enunciador do texto literário não deve ser tomada como um fenômeno empírico. O autor constrói algo a ser lido, um objeto de leitura, e não um texto para ser objeto de interação oral. Maingueneau (1996, p. 32) assinala que “o narrador não é o substituto de um sujeito falante, mas uma instância que só sustenta
o ato de narrar se um leitor o coloca em movimento”.
"Um galo sozinho não tece a manhã", como disse João Cabral. O autor de um texto (impresso ou não) sempre precisará de outros galos (co-enunciadores) para entretecer sua teia. Assim, um texto nunca é totalmente original, visto que sempre dialoga com outros, também participantes da cultura na qual o autor está inserido. No caso específico do texto escrito, a necessidade de co-partilha entre conhecimentos do escritor e do leitor torna-se essencial para a atualização daquilo que, no texto escrito, é apenas latente. Já que neste os interlocutores estão apartados, o primeiro tem de trazer à tona toda espécie de elementos contextualizadores necessários para uma compreensão mais ou menos alargada da mensagem. Essa é uma tarefa bastante difícil, pois o texto tem de dialogar com outros aspectos da cultura e, ao mesmo tempo, não ser enfadonho, repetitivo em demasia.
O texto escrito dialoga não só por meio do conteúdo, mas também pela forma. Nele há maneiras singulares de constituir sentidos. Há uma linguagem verbal escrita
idiossincrática que precisa ser conhecida pelo leitor para que ele estabeleça contato com o autor.
No entanto, o texto, para comunicar, sempre precisa de uma informação nova, algo que cative o leitor, que ative seu "querer saber"; sem isso, ele perde seu interesse e não comunica. É pela conjunção de elementos conhecidos e desconhecidos que se cria o novo texto. Desta feita, o texto escrito constitui-se no intervalo entre o conhecido e o desconhecido, entre o velho e o novo, produzindo um conhecimento em rede, entrelaçando os elementos novos aos antigos, armando-se como "luz-balão" que, como lona tecida, permite-se compreender.
Percebe-se assim que o texto literário forja-se por meio de uma rede de conexões a ser costurada pelo leitor. É “o co-enunciador que enuncia a partir das indicações cuja rede total constitui o texto da obra” (Maingueneau, 1996, p. 32).
Há uma considerável tarefa a ser executada pelo leitor, deixada pelas lacunas do texto. A leitura deve fazer emergir todo um universo simbólico a partir de índices pouco determinados, como as anáforas, os dêiticos, os subentendidos, a identificação de personagens etc. Sendo assim, a leitura não é a decifração de uma palavra em estado latente, ela constrói sempre caminhos inéditos a partir da disposição de índices lacunares, bem como “não permite ter acesso a uma voz primordial, mas apenas a uma instância de enunciação que é uma modalidade do funcionamento do texto” (ibid., p. 33).
Desse interesse pelas estratégias de leitura nascem diversas linhas de pesquisa. Em primeiro lugar, pode-se citar a “gramática do texto”. Surgida na década de 1960, busca definir com rigor a coerência textual, concluindo que essa noção é diretamente dependente da atuação do leitor, pois a coerência não está no texto, mas em sua legibilidade, o que implica a ação de um leitor (ibid., ibidem).
A segunda linha, a “teoria da recepção” literária, objetiva o estudo do texto não como um conteúdo estabilizado em todos os contextos, mas como um suporte passível de interpretações dependentes do contexto de recepção.
Dessa forma, percebe-se um direcionamento cognitivo na primeira linha, e um direcionamento histórico na segunda. Percebe-se também quão instável é a própria noção de leitor. Este é muitas vezes tomado como o público de um texto; em outras, é suporte de estratégias de decifração. Maingueneau realiza a seguinte sistematização:
Leitor invocado: instância para a qual o texto se dirige explicitamente. Como
em Dom Casmurro7: “em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? (...) Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce.” (Machado de Assis, 1988, p. 73-74).
Leitor instituído: instância implicada pela própria enunciação do texto. Por
exemplo, Se um viajante numa noite de inverno institui um leitor ativo, que se reconhece na explanação feita pelo próprio autor sobre quem é o leitor (aquele que vai pedir silêncio para ler, sentar-se confortavelmente etc., conforme visto anteriormente). Maingueneau explica:
Existem tipos de romances que supõem um leitor detetive que perscrute o texto ininterruptamente ou volte sobre seus passos à procura de indícios; outros constróem suspenses que aspiram o leitor para o desenlace; outros, ainda, instituem um leitor cheio de boa vontade para aprender, etc. Pelo vocabulário empregado, pelas relações interdiscursivas, (alusões em particular a outras obras), a inscrição neste ou naquele código de linguagem (suburbano, caipira, elitizado etc.) um texto vai supor caracterizações muito variadas de seu leitor. Todavia, deve-se ter em mente que esse leitor pode ser heterogêneo. (...) É portanto a própria natureza do texto que exigiria essa pluralidade de leitura. Porém, é possível pensar que de fato existe reunificação imaginária dos leitores instituídos: o leitor ideal seria um homem total que reconciliaria através do romance sua alma de criança e o uso mais elevado de sua razão (ibid., p. 35).
Público genérico: por pertencer a um gênero, uma obra indica um tipo de
receptor socialmente caracterizável, que não se confunde com o leitor instituído. Pode-
7 Os exemplos citando autores de língua portuguesa foram extraídos de originais, não remetendo aos exemplos arrolados por Maingueneau, sendo assim de nossa inteira responsabilidade.
se presumir, por exemplo, que José Saramago e João Ubaldo Ribeiro têm um público genérico semelhante, entretanto instituem diferentes leitores.
Público atestado: refere-se ao conhecimento que se tem de uma obra, por meio
das interpretações que dela foram feitas. Para o leitor de hoje, a traição de Capitu não é mais uma questão central. Para ele, pode interessar mais o estilo ou o modo como o romance é tecido, por exemplo. “Essa perda da inocência, contudo, encontra sua compensação: libertado do trabalho de decifração da intriga e da tensão do suspense, o público moderno pode inventar à vontade percursos de prazer inéditos” (Maingueneau, 1996, p. 37).
Maingueneau conclui que não é o leitor o autor essencial do texto literário, mas que o próprio texto é o dispositivo organizador dos percursos de sua leitura. Quando se fala em leitor, não se trata de um leitor empírico ou da média de indivíduos, mas “o foco a partir do qual se oferece o volume textual. Não sua fonte ou seu ponto de absorção, mas o ‘lugar’ a partir do qual ele pode mostrar sua enunciação descentrada” (ibid., p. 59).
Retomando Barthes, que vê o leitor como “uma passagem”, talvez seja possível entendê-la como o lugar leitor, definido por Maingueneau, na esteira de Bakhtin. Ao procurarmos compreender o nascimento do leitor, tivemos a impressão, ainda que provisória, de que a inscrição na primeira tabuleta criou não um sujeito, mas um espaço virtual, configurando um lugar a ser habitado por todos e por ninguém, um espaço que se coloca disponível àquele que se empenha em colocar em marcha o fascinante ritual da leitura.
Interessa-nos, agora, nos próximos sub-capítulos, circunscrever a produção acerca das práticas de leitura. Recompondo o “estado da arte” sob esse ponto de vista, esperamos entrever a emergência desse lugar leitor, de que fala Maingueneau, como objeto de estudo da história dos livros e da leitura, bem como de seu tangenciamento no cenário escolar.
Amigo leitor, respire fundo, ajeite-se na cadeira, pois inicialmente partiremos rumo às descobertas sobre a história dos livros.