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Tentaremos agora responder à questão: em que momentos, nos quais se referiu ao método de trabalho da sua criação, Freud o associou ao termo “ciência”

90 “Ademais, é inteiramente anticientífico julgar a análise como calculada para solapar a religião, a autoridade e a moral” (FREUD, 1923[1922]/1980, p. 305).

dando-nos, assim, nova confirmação de seu posicionamento quanto à cientificidade da psicanálise?

Comecemos por uma afirmação escrita ainda em 191 7, na conferência “O estado neurótico comum”: “Como ciência, a psicanálise não se caracteriza pela matéria de que trata, e sim pela técnica com que trabalha” (FREUD, 1917/2014b, p. 419).

Nos “Estudos sobre a histeria” (1893-1895/1980), ao discutir o caso clínico de Elisabeth Von R., Freud (1893-1895/1980, p. 172) manifestava desapontamento com seu aprendizado médico de neuropatologista que, conforme suas palavras, não o levava “a parte alguma” no tocante àquela afecção. Por outro lado, causava-lhe estranheza que parecesse faltar a “seriedade da ciência” aos seus próprios relatos de casos. Tal estranhamento talvez pudesse ser explicado pelo fato de que ele ainda estava sob a influência da formação neurocientífica recebida. Mas, reconhecendo a falta de resultados dos “diagnósticos locais e eletroprognósticos” aprendidos em sua formação, ele esboça seu método: uma descrição pormenorizada dos processos mentais e o “emprego de algumas fórmulas psicológicas” (a sugestão hipnótica), que lhe possibilitava alguma compreensão sobre o curso das histerias.

Em um texto sobre a etiologia da histeria, Freud (1896/1980, p. 202-203) afirmou que as conclusões a que chegara sobre o tema eram frutos de um método laborioso, “novo e de difícil manejo”, cuja base era um “minucioso exame individual dos pacientes” que consumia, pelo menos, cem horas de trabalho com cada um deles. Só esta dedicação garantiria a validade dos “fins científicos e terapêuticos” de seu trabalho.

Na primeira parte de A interpretação dos sonhos, Freud (1900/1980) situa o problema científico de sua época referente àquele assunto: o de explicar se o estimulo à produção onírica teria uma causa psicológica ou fisiológica91. O que subjaz à discussão é, como vimos acima, a querela dos métodos e da divisão das ciências do século XIX em ciências naturais e do espírito. Freud (1900/1980), então, assume uma posição: “Nosso exame científico dos sonhos parte do pressuposto de que eles são produtos de nossas próprias atividades mentais” (p. 78).

Vejamos o método do pensamento psicanalítico de Freud utilizado para construir sua teoria sobre a realização de desejos nos sonhos, a partir de fragmentos de casos clínicos e de sua autoanálise. No clássico A interpretação dos sonhos, Freud (1900/1980) escreve que “Quando, no decorrer de um trabalho científico, deparamos com um problema de difícil solução, muitas vezes constitui uma boa medida tomar um segundo problema juntamente com

91 A ciência foi imediatamente confrontada com a questão de determinar se o estímulo ao sonho era sempre o mesmo ou se haveria muitos desses estímulos; e isso envolvia a questão de a explicação das causas dos sonhos se enquadrar no domínio da psicologia ou, antes, no da fisiologia (FREUD, 1900/1980, p. 57).

o original – da mesma forma que é mais fácil quebrar duas nozes juntas do que cada uma em separado” (p. 152). É um método semelhante, também em sua surpreendente simplicidade, ao que o matemático utiliza, segundo Badiou (2012a), quando se depara com a dificuldade de uma divisão em dois: ele resolve o problema criando para o mesmo, uma divisão em três92.

O método “quebra-nozes” de Freud é aplicado à sua teoria quando, no mesmo capítulo de A interpretação dos sonhos, ele discute o problema dos sonhos de angústia. Estes parecem contrariar o postulado fundamental de sua hipótese, assim enunciada: “Quando o trabalho de interpretação se conclui, percebemos que o sonho é a realização de um desejo” (FREUD, 1900/1980, p. 140). Então, ao problema de como podem os sonhos aflitivos e os sonhos de angústia serem realizações de desejos, Freud (1900/1980) aproxima outro: “qual a origem da distorção onírica?” (p.152).

Para responde-los e após fazer um percurso pela análise de alguns sonhos seus e de seus pacientes extraindo disso intuições que o ajudam a compor seu raciocínio, Freud (1900/1980) resolve primeiramente o segundo problema para dele extrair a solução do primeiro. A solução do segundo consiste em que a origem da distorção onírica está no erguimento de uma defesa contra um desejo, o que leva este a se expressar de forma distorcida (p. 157). Como decorrência lógica disto, ele soluciona o primeiro problema: “os sonhos de angústia são sonhos de conteúdo sexual cuja respectiva libido se transformou em angústia” (p. 174).Teria ocorrido, então, uma transformação, uma distorção do desejo em angústia.

A técnica da interpretação dos sonhos é retomada no posfácio do “Caso Dora” (FREUD, (1905[1901]/1980), no qual Freud informa que incorporaria a técnica à própria psicanálise. Sua intenção, escreve ele, era a de despertar o interesse para uma série de manifestações que a ciência de sua época – muitas vezes colocada em oposição à psicanálise e nomeada por ele como “ciência oficial” – ignorava por completo (FREUD, 1905[1901]/1980, p. 111). Neste caso clínico, ao mencionar a “transferência”, ferramenta teórica e mola-mestra de todo tratamento psicanalítico, ele atribui a ela a explicação científica da cura das neuroses, bem como a “dependência cega” presente na atitude de muitos enfermos frente a seus médicos: “mas a explicação científica para todos esses fatos pode ser encontrada na existência de ‘transferências’, como são normalmente dirigidas pelos pacientes sobre seus médicos” (FREUD, 1905[1901]/1980, p. 114).

92 “Muitas vezes a passagem da estrutura clássica dialética a um novo quadro dialético é a passagem de dois para o três, ou às vezes do três ao quatro. Esse é um tipo de truque de fato: quando você está em dificuldade, com uma divisão em dois, você cria uma divisão em três” (BADIOU, 2012a, p. 8).

Em “Recomendações ao médico que pratica a psicanálise”, Freud (1912/2010) faz uma advertência. Ele propõe que o psicanalista deve trabalhar sem preconcepções e sem pressupostos enquanto dura o tratamento de um paciente seu. Para isto, não deve “trabalhar cientificamente” no caso enquanto o atende; não deve elaborá -lo conforme a teoria psicanalítica, pois “o êxito é prejudicado, nesses casos destinados de antemão ao uso científico e tratados conforme as necessidades deste” (FREUD, 1912/2010, p. 114-115).

Instado cada vez mais pelos acontecimentos de sua clínica, pelos desdobramentos de ter abandonado os modestos métodos clínicos da neuropatologia, e pela recusa a agir como os psiquiatras de sua época (cuja prática era asilar ou hospitalocêntrica), Freud reflete sobre os métodos da psicanálise tornando-a mais e mais uma prática de linguagem e de elaboração sobre a mesma. É o que o vemos fazer quando, em 1917, depois de descartar a indiferença dos médicos que tratavam as neuroses como “degenerescência”, “inclinação hereditária” e “inferioridade constitucional”, ele afirma: “a psicanálise... empreende pesquisas longas e acuradas, produz conceitos auxiliares e construções científicas” até que comunique algo ao paciente (FREUD, 1917/2010, p. 185).

Em 1920, seus textos já eram escritos com os termos próprios que ele criara (inconsciente, recalcamento, pulsão etc.) e, quando reflete sobre as pulsões de vida e de morte em “Além do princípio do prazer”, Freud (1920/2010, p. 168) assevera que os termos científicos da psicanálise se apresentam com uma “linguagem figurada”, peculiar a ela própria. O uso de uma linguagem figurada não poderia ocorrer sem o auxílio de hipóteses ou suposições que parecessem estranhas ao pensamento habitual e ao ponto de vista dominante (a hipótese do inconsciente é a mais óbvia). Segundo Freud (1940[1938]/2014a, p. 210) seria difícil dizer se as hipóteses ou suposições são atribuíveis aos pressupostos ou aos resultados de seu trabalho.

Em um de seus últimos textos, o “Compêndio de psicanálise”, Freud (1940[1938]/2014b) observa que, assim como nas outras ciências, também na psicanálise o método empregado é o da observação e de experiências mediadas pelo aparelho psíquico de que dispomos. A diferença está em que, enquanto os outros cientistas fazem inferências sem levar em conta o aparelho psíquico, o psicanalista faz suas observações justamente sobre o aparato psíquico, auxiliado pelas lacunas desse aparelho, complementando o que falta “com inferências plausíveis e traduzindo-as em material consciente” (FREUD, 1940[1938]/2014b, p. 50-51).

Ou seja, o que da natureza externa ao homem, os físicos e biólogos não compreendem, eles inferem/deduzem a partir do que acessam parcialmente com seus aparelhos de linguagem

(além dos sofisticados instrumentos tecnológicos de pesquisa, que nada mais são do que aperfeiçoamentos externos das capacidades de nossos órgãos sensoriais). E, deste modo, “fazem a natureza falar”. Para o homem, então, há lacunas sobre o mundo à sua volta (não- saber) que as ciências da natureza tentam preencher. Por sua vez, na psicanálise, é o próprio aparelho psíquico que é tomado em estudo. E trata-se de um aparelho de linguagem. A estratégia de Freud, então, é de buscar nas lacunas (não-saber) de toda a fala, e por meio de inferências plausíveis, a verdade do que não está dito pelo paciente, mas que subjaz inconscientemente, em seu discurso. Podemos dizer que assim como o físico em seu laboratório infere e lança hipóteses a serem verificadas e que correspondem ou não a alguma verdade sobre a natureza, assim também o psicanalista lança ao paciente uma interpretação ou uma construção hipotética sobre o funcionamento daquele psiquismo e aguarda para ver se sua/s inferência/s alcançaram ou não alguma verdade sobre aquele paciente. Freud (1940[1938]/2014b) é assertivo: “A relativa segurança de nossa ciência psíquica repousa na capacidade de conexão entre essas inferências” (p. 51). O que nos remete à terceira característica do procedimento científico proposta por Heidegger que diz, como vimos no primeiro capítulo: as ciências são conexões de proposições verdadeiras.

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