Georgia i sovjettiden
STALIN OG AVSTALINISERINGEN
O objetivo desse capítulo foi apresentar algumas considerações importantes a respeito da concepção tradicional que descreve a criação da escola normal de São Carlos como o resultado do esforço da elite local para introduzir uma escola para as filhas dos fazendeiros. Essa concepção, ao mesmo tempo em que identifica a escola normal como uma escola vinculada aos interesses oligárquicos, descreve sua constituição a partir do que foi convencionado como uma espécie de catecismo republicano.
Procuramos, então, apresentar algumas observações sobre a constituição dessa oligarquia são- carlense para que se pudesse identificar qual a sua posição no complexo jogo político que caracterizou o fim do império e o início do período republicano, de forma a identificar o discurso e a identidade construída por essa oligarquia. Um dos primeiros pontos que foi possível estabelecer refere-se a própria concepção de oligarquia, conceito multifacetado, e que pode assumir uma constituição distinta em cada situação.
No caso estudado, a descrição das condições de constituição da oligarquia de São Carlos não permitiu que se adotasse uma descrição mais geral dessa categoria, uma vez que os seus interesses frequentemente não coincidiam com as demais oligarquias nacionais. A própria designação de fazendeiros e cafeicultores paulistas foi problematizada, uma vez que foram desenhados diferentes grupos de cafeicultores, que podiam ser desde cafeicultores dedicados exclusivamente à cultura do café e também grandes cafeicultores ligados ao complexo cafeeiro voltados para a acumulação de capital por meio não só da agricultura, mas também do comércio, bancos, exportação, setores
cafeeiros ligados ao capital internacional chegando-se até à representantes de uma concepção que pretendia estabelecer e fortalecer as estruturas republicanas por meio de um Estado que não poderia se constituir a reboque das questões cafeeiras.
Não se pode, portanto, simplesmente afirmar que a escola republicana tinha sua concepção determinada pelos fazendeiros do café ou pelas oligarquias. A complexidade da política e economia do período exigiria, assim, uma abordagem que permitisse que se estabelecesse alguns elementos mais particularizados e próprios a sua situação. No caso de São Carlos, era necessário estabelecer o papel que os fazendeiros locais assumiram no intrincado tabuleiro político nacional.
O papel desses fazendeiros, entretanto, não poderia ser determinado, simplesmente por meio de fontes que descrevessem suas ações. A documentação consultada mostrou a existência de discursos cuidadosamente elaborados com o intuito de estabelecer diferentes tradições.
Em São Carlos, toda a documentação remete à uma tradição segundo a qual a família Arruda Botelho seria a fundadora, responsável pela riqueza e crescimento da cidade e sua protetora. A constante citação do conde do Pinhal como fundador da cidade de São Carlos, a imputação da criação da escola normal e de outros elementos importantes na própria constituição da cidade construíram uma identidade segundo a qual os Arruda Botelho e São Carlos fossem fruto de um mesmo movimento histórico.
A força dessa tradição é tal, que mesmo o nome de São Carlos, foi atribuído ao fato de ser Carlos ser um nome comum a essa família. Em torno dessa família foi criada toda uma relação simbólica que mistifica, remodela e reescreve cada um de seus passos como monumentos à cidade.
A figura central dessa mística seria o conde do Pinhal, descrito sempre como um nobre, amigo de D. Pedro II, que lhe atribuiu o título nobiliárquico, conservador e fazendeiro tradicional. O conde do Pinhal era, entretanto, um dinâmico homem de negócios, banqueiro e intermediário financeiro das transações cafeeiras. Embora defendesse concepções monárquicas e centralizadoras, como o poder moderador, não era um fazendeiro tradicional, como muitas vezes parece se fazer crer. Por outro lado, o conde do Pinhal não era o maior fazendeiro de São Carlos, como vem sendo propalado há cem anos.
Alfredo Ellis teria sido um magnata do café, proprietário da maior e mais importante fazenda de café do país. Descrito internacionalmente como um magnata do café, era um republicano da primeira hora, abolucionista, liberal e adepto do liberalismo norte-americano. É interessante observar que, as atividades econômicas desses dois homens não eram muito distintas. Ambos eram grandes fazendeiros e construíram sua fortuna a partir do café e do capital cafeeiro. O que tornou suas trajetórias tão díspares foram às diferentes tradições criadas como narrativa de suas vidas. Ellis,
liberal, abolucionista, republicano, magnata moderno, político agressivo, um verdadeiro self made man. O conde do Pinhal um nobre romântico, monarquista e escravocrata.
Não se pode afirmar categoricamente, pela documentação consultada, que o conde tenha sido um defensor da escravidão. O que é frequentemente citada é a sua astúcia em perceber que a escravidão estava com os dias contados e por isso contribuiu para a vinda de imigrantes às suas fazendas. Por outro lado, são constantes as descrições saudosistas de bucólicos momentos da vida na fazenda Pinhal no período da escravidão. Na simbologia da nobreza oligárquica está a condição de senhor de escravos, denotada pelas descrições dos grandes momentos do conde, condessa e descendentes na emblemática fazenda do Pinhal.
Preservados, na fazenda, encontram-se até hoje toda documentação e manifestos de compra e venda de escravos, determinando, assim, sua identidade como casa-grande.
Ellis, por sua vez, não era identificado à terra e às fazendas como o conde do Pinhal. Seus negócios eram variados e as fazendas eram adquiridas e vendidas de acordo com sua situação pessoal. Seus descendentes preservaram principalmente sua condição de homem político e senador defensor da república.
Assim, concluímos, preliminarmente, que a família Arruda Botelho pode ser considerada como uma elite local, constituída segundo uma tradição específica. É interessante que se observe que já na década de 1910 os cafeeiros de São Carlos tinham entrado em decadência. A produção local, a exceção da fazenda Santa Eudóxia, nunca fora tão expressiva como em outras regiões do estado e neste momento entrava em franco declínio. Sem a riqueza produzida pelo café sobrava a preservação da tradição de um passado que deveria ser preservado por meio da reprodução constante de uma nobreza sempre reluzente e renovada.
No próximo capítulo procuraremos identificar as relações entre esta tradição criada e a criação e educação promovida pela escola normal de São Carlos.
Capítulo II
A INVENÇÃO DA TRADIÇÃO BANDEIRANTE: MODERNIDADE E PROGRESSO