Estermann, através do depoimento de Zacarias38 – “um cuanhama inteligente” –, des- taca a influência das mulheres na convivência familiar:
(...) “Se queres uma coisa de um mucuancala – disse Zacarias – fala primeiro com a mulher. Se conseguires convencer esta, o homem não fará oposição. Quereis saber de que ‘força’ são estas mulheres? Ouvi! Há tempos um leão devorou um homem que ia de um acampamento a outro. Aconteceu isto ao pé de uma cacimba, onde se encontraram alguns restos do desgraçado. Como já tinha havido, algum tempo antes, outro caso semelhante, os homens, cheios de medo, não quiseram ir à caça da fera. Mas as mulheres não os deixaram em paz. Que homens são estes, que não querem vingar tal morte?! – repetiam elas constantemente. Enfim os homens resolveram-se e foram tão felizes que abateram o bicho assassino. Logo depois de ter caído, despedaçaram-no, sem sequer lhe tirarem a pele, e pusarem-se a dançar e a cantar a sua vitória”. (Es- termann, 1956, p. 28)
Estermann descreve a vida cotidiana numa aldeia, o chamado eumbo, dos humbes, do grupo nhaneca-humbe:
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Zacarias foi um dos informantes de Estermann, citamos ele e outros informantes, mais adiante, no tópico As
Terminado o jantar e tirada a “louça”, continuam todos reunidos à vol- ta do fogo, que, no tempo fresco, será constantemente avivado com boas a- chas de lenha. São então os momentos mais familiares e mais afectuosos do dia. Cada um dos presentes terá a comunicar aos outros alguma novidade ou- vida durante o dia, por ocasião de uma saída, ou de contar algum aconteci- mento interessante ou mesmo extraordinário. Esgotados os temas habituais de conversa, facilmente se recorrerá, para manter a atmosfera de recreio alegre, ao tesouro da literatura oral da tribo. É a ocasião de narrar contos e fábulas e de resolver adivinhas. Com isto vão os velhos rememorando e vão os novos aprendendo. Nem sempre, porém, a gente nova toma parte nestas horas de re- creio, levando-o todo até ao fim. Os mais miúdos serão entretanto vencidos pelo sono e os mais espigadotes, sabendo de alguma reunião dançante nas re- dondezas, não resistem à tentação de ir dar o gosto à perna. Aliás, é-lhes fa- cilmente concedida a autorização para estas folganças com a outra gente nova do sítio. (Estermann, 1957, p. 131)
Mais adiante, Estermann escreve a respeito da função exercida pelos chefes, fazendo a devida distinção entre estes e os antigos régulos ou soberanos. Os chefes exerciam seu po- der assistido de seus ministros e conselheiros:
(...) em muitas partes, era o poder legislador do chefe soberano guiado e de certo modo limitado pelo costume de ouvir os conselheiros. Entre os Ambós, esta tradicional instituição existia também, mas, em tempos históricos, (...), os régulos pouco ou nenhum caso faziam dos alvitres dos conselheiros. Não há dúvida nenhuma de que, quase em toda a parte, reinava o mais requintado e absoluto despotismo. (Estermann, 1956, p. 139)
Parece que antes da ocupação portuguesa efectiva, quando os régulos gozavam ainda de todas as suas prerrogativas, a tendência era antes para o absolutismo e o despotismo. Todos os autores antigos são unânimes em ob- servar e censurar as arbitrariedades cruéis praticadas pelos potentados do Sul de Angola. (Estermann, 1957, p. 166)
As diferenças entre os clãs também eram respeitadas no exercício do poder pelos chefes:
Se a chefia de uma tribo é exercida pelos membros de um determinado clã, não significa este facto que todos os representantes do referido organismo clânico participam do exercício do poder. Pelo contrário, um uso, ainda mal estudado, parece indicar que os ministros e conselheiros obrigatórios de um soba devem pertencer a clãs diferentes. (ibidem, pp. 160-161)
É indubitável que o soba representa ou representava o centro religioso e governativo da tribo ou da fracção de tribo cuja chefia havia assumido. O caráter sagrado do régulo ressalta da crença em que nele habitavam as almas dos seus antecessores, sobretudo daqueles que houvessem deixado boas re- cordações entre os súbditos. (ibidem, p. 162)
No entanto, diversos grupos ainda possuíam sobas que decidiam sobre questões que os che- fes estavam impossibilitados de resolver:
A grande maioria dos casos era da competência dos chefes de cantão, e só quando estes se viam impossibilitados de dirimir a questão ou de impor a sua decisão se recorria ao tribunal do soba. (Estermann, 1957, p. 169)
Estermann escreve sobre endogamia tribal que era observada com frouxidão entre os nativos do grupo herero:
A regra da endogamia tribal observa-se hoje em dia com bastante frouxidão. Os mais relaxados neste ponto são os Dimbas, que se cruzam fa- cilmente com todos os vizinhos, mesmo com aqueles que não pertencem ao seu grupo étnico, como são os Gambos e os Humbes. (Estermann, 1961, p. 87)
Os Hacavonas são neste assunto tão pouco severos como os Dimbas. Fora do agregado tribal contraem com frequência uniões com Cuanhocas. Es- tes, por seu lado, gabam-se de serem admitidos ao convívio íntimo dos Cuva- les. Mas tais casos devem ser bastante raros. (ibidem, p. 87)
Além disso, Estermann menciona o desprezo que estes demonstravam aos nativos não- bantos:
No desdém que os representantes do nosso grupo [herero] votam à gente tida por pertencer a raça inferior, como são os Bochimanes e os Vátuas – da primeira categoria só existem alguns indivíduos na extremidade sul da área –, distinguem-se pela intransigência os mesmos Cuvales e os Chimbas. Tomam esta atitude de desprezo para com os Cuissis e os Vátuas do Sul. Se- ria coisa inaudita uma mulher entregar-se a um homem destas raças, afirma- nos um velho chimba da região do Ruacaná. Porém, no que diz respeito ao caso inverso, o informador não foi categórico.
Considerando agora a questão da exogamia clânica, temos de confes- sar que poucas informações nos foi possível obter sobre este problema. Entre os Chimbas, parece continuar a ser observada estritamente a regra antiga que proíbe uniões matrimoniais entre membros do mesmo clã maternal. (ibidem, p. 88)
Estermann escreve a respeito da poligamia entre os nativos e menciona que a cristia- nização exercia forte influência sobre esta prática:
Se fosse verdade o que muitas vezes se afirma, que a pluralidade de mulheres num lar é condicionada pela riqueza, ou, por outras palavras, que o número de esposas de um homem está em proporção directa com a quantida- de de bens que possui, os nossos Hereros, especialmente os Chimbas e Cuva- les, deviam ser muito mais polígamos do que os componentes de outros po- vos do Sul de Angola.
Tal, porém, não é o caso. Não excedem os Nhanecas-Humbes e ficam muito aquém da média atingida pelos Ambós. Dando estes últimos como ter- mo de comparação, é necessário ter em vista a antiga organização familiar gentílica, pois presentemente perto de uma dezena de milhares de lares cris- tãos não permite que se tire uma média estatística per capita. Há que pôr em confronto pagãos com pagãos, e estes constituem nos Hereros ainda hoje a quase totalidade do seu efectivo. (ibidem, p. 89)
Estermann cita Vedder que, por sua vez, escreve a respeito da posse da terra entre os hereros:
No que diz respeito à posse da terra, o comunismo é a regra geral entre os Hereros. A terra e o solo são propriedade tribal, e não a de um soba e ainda menos a de um indivíduo. Cada qual leva o seu gado para onde haja pasto e dá-lhe de beber onde se encontre água. De facto, vários chefes indígenas di- vidiram entre si a área tribal e estabeleceram-se em residências separadas, tendo o cuidado especial de não se afastarem muito dos túmulos dos antepas- sados, por causa do fogo sagrado, e com o tempo também eles fixaram regras acerca das áreas pastoris. Mas não existiam marcos que delimitassem nitida- mente estas secções e não havia leis que proibissem a um nómada o pastoreio do gado onde lhe aprouvesse. (Vedder apud Estermann, 1961, pp. 103-104) No entanto, Estermann afirma que, mesmo com a ausência de um poder moderador entre os hereros, não faltava algum tipo de organização. Sendo que o poder colonial servia-se de “seculos” que ele mesmo nomeava entre estes nativos:
A ausência de um poder moderador central entre as tribos de Hereros de Angola não significa de maneira nenhuma que os seus povos hajam vivido outrora num estado de anarquia crónica. Na verdade, não é fácil saber-se hoje como nessa época se tratavam os pleitos e se fazia justiça em casos de crime.
Em nossos dias, o poder civilizador serve-se, para seu auxílio na ad- ministração do território, de autoridades gentílicas, os chamados “seculos” (ovo-sekulu). Como nas áreas das tribos em questão esta classe não existia,
caso diferente portanto do da orgânica administrativa das etnias regidas por um grande soba ou régulo, o Governo Português revestia de tal dignidade al- guns homens de entre os mais considerados. (Estermann, 1961, p. 122)