A execução de grandes empreendimentos, tais como as usinas hidrelétricas, é um modo de transformação tanto do território quanto do modo de vida das pessoas. Inicialmente,
quando se apresenta um projeto dessa envergadura o discurso utilizado está relacionado ao desenvolvimento, ao bem comum. Todavia, nesse momento, quase nunca se levam em consideração as intervenções que serão feitas na vida das pessoas afetadas direta ou indiretamente pela execução da obra. Nesse sentido, a proposta deste capítulo é analisar a forma como os indivíduos atingidos pelo complexo enérgico, composto pelos AHE’s Amador Aguiar I e Amador Aguiar II se incorporaram ao processo de mudança e, principalmente de deslocamento compulsório.
Esse movimento pode ser percebido nas palavras de Silva (2007, p. 22) quando ressalta que “A mobilidade permite que se criem novos lugares. Isso significa que o lugar antigo ou o lugar que tenha passado por um processo de transformação ainda terá, por certo tempo, um significado para aqueles que o viveram (...).”
Em contrapartida, para o setor hidrelétrico os processos de deslocamento, são analisados sob a ótica do tecnicismo, não considerando de forma adequada as relações sociais e não buscando maneiras de minimizar o sentimento de perda do patrimônio imaterial e cultural dos atingidos. Ainda de acordo com Silva: “Para os agentes responsáveis pelos projetos o ato de migrar é entendido apenas como mudar de um espaço para outro. (...) O espaço socialmente construído não é indenizado e nem sequer considerado pelo setor elétrico”. (2007, p. 03).
Além disso, o discurso utilizado pelos responsáveis pela construção de uma hidrelétrica, muitas vezes faz com que aqueles indivíduos que não concordam em negociar suas propriedades se sintam como os que “(...) retardam o progresso e o desenvolvimento do capital e do país” (MAB, 2007, p. 23).
No caso da construção das UHE’s Amador Aguiar I e II, como mencionado, houve como efeito socioespacial que foi a criação de dois assentamentos. Cada um desses assentamentos assume características particulares, principalmente no que se refere às
potencialidades de geração de renda para as famílias beneficiadas, considerando que as pessoas que vivem nos assentamentos, juntamente com os demais indenizados pelo empreendedor, sejam os deslocados compulsórios.
Ao considerar a relevância científica da elaboração deste trabalho buscou-se conhecer e estudar mais a fundo as melhores formas teórico-metodológicas para contar a história das pessoas que hoje compõem o Assentamento Vida Nova. Na literatura acadêmica encontrou-se respaldo nas prerrogativas dos estudos de campo e de história oral.
De acordo com Pereiro (2005) o trabalho de campo nas ciências humanas não é apenas um momento de coleta de dados e informações. É, por meio dessa atividade, que se constrói uma forma eficiente de perguntar e escrever, a partir das quais serão produzidas sensações e percepções diferentes sobre os modos de vida dos estudados.
Pode-se considerar, de acordo com o esquema a seguir, que as bases do trabalho de campo são três: o que as pessoas falam, o que elas fazem e, por último, o que elas pensam que devia ser feito. Para apreender essas bases teóricas sem ser leviano e não descrevendo um modelo irreal e incorreto das comunidades pesquisadas o estudioso deve se munir, durante o trabalho de campo, de também três instrumentos de averiguação: observação, documentos e entrevistas.
Esquema 2 - Bases e instrumentos de averiguação do trabalho de campo.
Como foi possível observar, o trabalho de campo é instrumento de excelência nas pesquisas das ciências humanas. No entanto, quando o que se deseja é reconstruir um cenário que remonte à história de vida de uma determinada comunidade, essa atividade é ainda mais importante, pois, nada mais justo e ético do que ouvir os próprios envolvidos no evento estudado.
Desse modo, a realização dos trabalhos de campo torna possível o diálogo livre entre os envolvidos no evento a ser estudado e o pesquisador. Todavia, como assegurar que as atividades in loco sejam, efetivamente, produtivas e não estejam envolvidas numa esfera de dúvidas e incertezas?
Para responder a tal questionamento tomou-se por base o pensamento de Portelli (1997) quando indica que o comportamento do pesquisador deve ser adequado a cada situação, o que não significa apenas usar bom tom de voz e palavras cordiais. É preciso que o estudioso se comporte de forma a não persuadir seu interlocutor e menos ainda a expô-lo a situações vexatórias, colocando-o em posição de inferioridade. Nesse sentido, em um ambiente de respeito mútuo existem maiores possibilidades de que o entrevistado exponha suas percepções de maneira clara e de acordo com seus próprios limites e decisões.
Assim, no caso apresentado, as pesquisas de campo tiveram como objetivo ouvir as pessoas atingidas pela construção das barragens de Amador Aguiar I e II e que receberam como forma de indenização moradias no Assentamento Vida Nova.
Em um primeiro contato com os assentados, consideramos fundamental o registro fotográfico e a aproximação informal, com a intenção de criar laços de confiança entre os pesquisados e os pesquisadores. Posteriormente, em outras visitas, conversamos com os assentados a fim de conhecer melhor o estilo de vida atual e as marcas de um passado e de memórias materiais inundadas pela represa.
Ao nos apresentar enquanto pesquisadores interessados em conhecer melhor como se dera o processo de deslocamento compulsório e como essas pessoas passaram a se organizar culturalmente, tanto individualmente quanto dentro do grupo, as pessoas se mostraram receptivas e muito interessadas em expressar seus sentimentos em relação às intensas transformações a que foram submetidas. Todos os entrevistados se dispuseram a contar sua história de vida, desde o lugar onde viviam, passando por fatos marcantes e finalizando pelas lembranças do processo de indenizações e de deslocamento.
A sequência do trabalho deverá ser organizada de acordo com os depoimentos mais marcantes das nossas vivências in loco e com as percepções abarcadas pela pesquisadora nos trabalhos de campo.
Os depoimentos foram coletados com a autorização prévia de cada entrevistado e sem seguir um roteiro preestabelecido. Entretanto, opiniões sobre alguns assuntos são recorrentes e serão agrupadas, por temas.
Nos primeiros contatos com a comunidade assentada no Vida Nova foi possível identificar os fatores positivos e negativos que mais influenciaram o modo de vida das pessoas. Em relação aos acontecimentos positivos pode ser destacada a melhoria do acesso, que recebeu pavimentação; o acompanhamento do PAS com a realização de cursos de capacitação para a comunidade; o recebimento das casas e lotes (todos com três hectares) além de cestas básicas e dinheiro para a compra de móveis. Já no que se refere aos aspectos negativos narrados pelos próprios moradores pode-se indicar a mudança da paisagem; onde antes era o rio agora é o lago da Usina; a inundação da casa que guardava a história das famílias; ausência de elementos simbólicos da cultura local (organização dos quintais, por exemplo).