A área de investigação é o município de Assis, localizado no Oeste do Estado de São Paulo e fundado há 100 anos. Segundo dados do IBGE, Censo Demográfico 2007, esse município possui 92.965 habitantes e, pelo Censo Demográfico de 2000, 87.251 habitantes, sendo 42.438 do sexo masculino e 44.813 do sexo feminino.
A cidade de Assis tem algumas particularidades relevantes ao trabalho. É de economia rural, baseada na pecuária de corte e no cultivo de soja, trigo, milho e cana-de-açúcar. Possui também um pequeno parque industrial, com destaque para as empresas de concreto, tendo assim, um espaço urbano pequeno e com poucas indústrias de grande e médio porte. Enquanto uma cidade interiorana e de pequeno porte, não é comum a existência de espaços de lazer GLS21 (gays, lésbicas e simpatizantes) tendo apenas uma casa noturna chamada Dama de
Paus, muito mais freqüentada por homens homossexuais. As demais casas e espaços de lazer de Assis, geralmente não permitem às pessoas a expressão de afetos homoeróticos, sendo pedido que “ou parem, ou saiam”.
Dessa forma, as lésbicas geralmente ou reúnem-se nas casas de amigas, onde podem expressar-se mais livremente, ou em botecos, onde as expressões homoeróticas ocorrem dependendo da ocasião – ou seja, se parecer seguro (no sentido de evitar agressões verbais ou mesmo físicas e o assédio de homens), e na não presença de pessoas que podem de alguma forma utilizar-se do conhecimento da suas lesbianidades para prejudicá-las (geralmente diante do trabalho e da família). Por isso, são formados grupos por afinidades: morar no mesmo bairro, praticar o mesmo esporte, freqüentar os mesmos locais, gostar das mesmas atividades etc. Para ter acesso a esses grupos, é preciso conhecer alguém, tornar-se amiga, ou, mais preferencialmente, namorada de alguém do grupo, o que garante a permanência. Ser lésbica solteira e desconhecida (digamos, pouco confiável) em um grupo parece causar incômodo aos casais que o compõem. É comum, ainda, dentro dos grupos, as mulheres já terem se relacionado com outras componentes ou, mesmo, de grupos afins. Uma lésbica torna-se amiga da ex-namorada com facilidade e, quando isso não ocorre, muito vai depender da afinidade
21 Sigla de Gays, Lésbicas e Simpatizantes, utilizada com mais freqüência nas grandes capitais brasileiras. O
termo simpatizante surgiu para introduzir no Brasil a idéia de gay friendly, possibilitando uma flexibilização das fronteiras entre heterossexuais e homossexuais e uma expansão do gueto. Passaram a utilizar o conceito aqueles que mantêm uma relação de tolerância/simpatia com a homossexualidade e seu universo, clubbers,
ravers, cybermanos e os que se identificavam com uma cultura mix (estar mais ou menos aberto a experimentações sexuais com um ou outro sexo sem a rotulação de hetero, homo ou bissexual) entre outros. Sua utilização iniciou primeira metade dos anos 1990 e associada ao nome de André Fisher, um dos principais idealizadores de eventos direcionados a este público (FACCHINI, 2005, p. 176-178; TREVISAN, 2002, p. 376-379).
daquela que foi introduzida ao grupo com as demais, pois, se não for forte o suficiente essa afinidade, ela tende a se afastar ou ser excluída. Facchini (2008, p. 50-51) fala sobre sua dificuldade de entrada nas redes de amizades de suas entrevistadas (mulheres com práticas homoeróticas da cidade de São Paulo):
Creio que o fato das mulheres não me apresentarem outras em suas redes, exceto suas parceiras atuais ou raramente alguma amiga, tenha relação com algo já bem descrito na bibliografia. Nádia Meinerz (2005), num estudo sobre constituições de parcerias homoafetivas entre mulheres de ‘segmentos médios’, em Porto Alegre, aponta a ambigüidade que se estabelece a partir da coincidência entre amizade/solidariedade e parceria potencial. Maria Luiza Heilborn (2004) e Jaqueline Muniz (1992)22, sinalizavam que a
maioria das lésbicas mantém as ex-namoradas como amigas, e que os relacionamentos amorosos das lésbicas facilmente deslizam para a amizade, caracterizada pela cessação da atividade sexual.
Desde minha chegada a Assis, em 2001, por intermédio de uma colega da graduação, conheci mulheres que se relacionavam com outras, e, sendo eu assumida como lésbica, como conseqüência, fui conhecendo outras pessoas. Devido ao círculo de lésbicas ser muito invisibilizado, as notícias de “uma nova lésbica no pedaço” sempre correm muito rapidamente, da mesma forma que as garotas que se relacionam com outras conhecem ou, pelo menos, sabem quem é maioria das outras garotas que têm ou se dispõem a ter relações/práticas homoeróticas.
Outra característica de Assis é ser uma cidade universitária, que conta com quatro estabelecimentos de ensino superior: Fema (Fundação de ensino do município de Assis), IEDA (Instituto Educacional do Município de Assis), UNIP (Universidade Paulista) e UNESP (Universidade Estadual Paulista). Porém, essa última é a que se destaca, pois as universitárias da UNESP são em grande maioria proveniente de outras cidades do estado ou do país, diferentemente daquelas das outras universidades, que são, em grande parte, da própria cidade de Assis e municípios da região. Uma particularidade da forma como as primeiras são vistas de modo geral pela população de Assis revela um forte preconceito dos moradores tradicionais da cidade: são vistas como “drogadas e/ou biscates e/ou lésbicas”. As(os) “conterrâneas(os)” são “normais”, as(os) “outras(os)” são estigmatizados(as).
É também na UNESP que são possíveis estudos e eventos específicos na área dos estudos de gênero e sexualidades, contando com o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre as
22 MUNIZ, Jaqueline de O. Mulher com mulher dá jacaré: uma abordagem antropológica da homossexualidade
feminina. (Dissertação de Mestrado em Antropologia) – Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992.
Sexualidades (GEPS), formado por estudantes estagiários do Departamento de Psicologia Clínica, professores, pesquisadores pós-graduandos e graduandos e profissionais interessados em se aprofundar nos estudos relacionados às sexualidades, gêneros e suas articulações com a cultura, o social, a política, os direitos humanos e a psicologia. Entretanto, mesmo com esforços de atingir a população não-universitária, os participantes e interessados em tais estudos e eventos são em grande maioria da universidade, o que mostra forte resistência dos moradores genuínos da cidade em interessar-se pela temática das sexualidades.
Assis ainda conta com uma organização não governamental, parceira do GEPS, o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre as Sexualidades (NEPS), existente há oito anos, que tem como princípios fundamentais o estudo, pesquisa, intervenção e extensão em sexualidades, gêneros, políticas públicas nas áreas de saúde, educação e Direitos Humanos. O NEPS atua na sociedade de Assis e região visando à igualdade entre os gêneros, de raça/etnia e de direitos, laicidade do Estado, minimização da homofobia, valorização das diferentes manifestações culturais, possibilidade de reflexão sobre as próprias vulnerabilidades, desmistificação de tabus e combate a estigmas advindos, principalmente, da heteronormatividade e do viriarcado, entre outros objetivos. Um dos esforços da ONG é atingir a população não-universitária, com o intuito de incentivar a participação popular no cumprimento dos princípios da ONG, encontrando também fortes resistências dos assisenses em geral, inclusive os não heterossexuais, que preferem permanecer na clandestinidade.
Outra característica fundamental da região abrangida é a religiosidade, predominantemente católica e evangélica, que geralmente exclui pessoas com orientações sexuais homossexuais, fazendo-as manter-se na invisibilidade, buscando corresponder aos papéis que lhe são impostos. Além disso, religiões alternativas costumam desconstruir o discurso homossexual, aparentando uma aceitação inicial, mas paulatinamente buscando a “reversibilidade” de tais pessoas.
Assim, a cidade se trata de um território propício de estímulo à homofobia. Conhecida como “Cidade Fraternal”, nota-se claramente que a aceitação das diversidades sexuais não é algo que se inclui dentro dessa “fraternidade”.