Para Marcuschi (2010), gênero textual é um artefato situado sócio-historicamente, relativamente estável do ponto de vista da composição e do estilo, que serve como instrumento comunicativo específico e como forma de ação social. Partindo desta concepção, perceberemos que a partir do momento que novas formas de comunicação surgem, interferindo nessas condições de processamento textual, teremos, consequentemente, uma interferência na natureza do gênero produzido.
Essa interferência acontece desde a invenção da escrita, que trouxe com ela inúmeras possibilidades de uso da linguagem. Tivemos, nesse processamento histórico, a placa de barro, o pergaminho, o papel e, revolucionando uma época, a invenção da imprensa. Para Xavier8, a cada novo surgimento de contextos comunicativos, consequentemente, surgirão novos gêneros textuais, que nascem para atender às necessidades emocionais, físicas e econômicas em determinado momento histórico, pressionando os usuários da língua a se adequarem aos novos contextos.
Assim, hoje, com o acelerado desenvolvimento tecnológico e com a internet refletindo a pluralidade de contextos comunicativos, inúmeros gêneros textuais emergiram na mídia eletrônica, uns realmente novos e outros como um hibridismo de gêneros pré-existentes, “Sabe-se que o nada nada cria, logo é natural que os novos gêneros que emergem das
8 Xavier é doutor em linguística pela UNICAMP e orienta pesquisas em gêneros eletrônicos e letramento digital.
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tecnologias recém criadas misturem gêneros, façam uma composição de características de um certo gênero com a possibilidade técnica de efetivar uma determinada ação antes impossível.” (XAVIER, p. 7). Outra característica, tida como essencial, é “a centralidade da escrita, pois a tecnologia digital depende totalmente da escrita” (MARCUSCHI, 2010, p. 21).
Essa característica das novas tecnologias muda nossa visão a respeito dessa habilidade humana, que tinha como propriedade típica a relação assíncrona – defasagem temporal entre a produção e a recepção -, pois “os bate-papos virtuais são síncronos, ou seja, realizados em tempo real e essencialmente escritos.” (MARCUSCHI, 2002, p. 23), o que nos leva a perceber um caráter inovador no que concerne ao contexto das relações fala-escrita, acelerando enormemente a evolução dos gêneros textuais.
Os novos gêneros também nos permitem observar uma maior integração entre som, imagem e palavras, tornando a sua linguagem cada vez mais plástica. Vemos emergir um espaço de apreensão de sentido em que ganha relevo não apenas a palavra escrita, junto com ela encontramos imagens, sons, formas, tudo no mesmo campo visual, formando um todo significativo. Para Xavier (2010, p. 209), “Com ele, ler o mundo tornou-se virtualmente possível, haja vista que sua natureza imaterial o faz ubíquo por permitir que seja acessado em qualquer parte do planeta, a qualquer hora do dia e por mais de um leitor simultaneamente.” Xavier (2010) recorre às ideias de Paulo Freire “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” para nos mostrar que esse novo local de apreensão de sentidos envolve mais que linguagem, os gêneros digitais permitem comunicação simultânea, permitindo ao leitor se inserir em discussões em curso no mundo inteiro, ou, se preferir, se ater a discussões mais particulares, tornando o sujeito um verdadeiro cidadão do mundo. Sem dúvida o mundo digital exige de seus interlocutores bem mais que a simples decodificação do código linguístico.
Para Cynthia Selfe e Susan Hilligoss apud Marcuschi (2010), “o computador mudou nossa maneira de ler, construir e interpretar textos e mostrou que não há formas naturais de produção textual e leitura.” O advento tecnológico veio nos mostrar como a cultura e a tecnologia interagem para interferir nas práticas de leitura e produção escrita, sendo um espaço cognitivo que exige que revisemos as nossas formas de lidar com o texto.
Marcuschi (2010, p. 37) elaborou um quadro expondo os principais gêneros existentes no ambiente virtual, relacionando-os a gêneros já existentes em outros contextos:
QUADRO III9: Relação entre os gêneros textuais
Gêneros emergentes Gêneros já existentes
1 E-mail Carta pessoal/bilhete/correio
2 Chat em aberto Conversações (em grupos abertos?)
3 Chat reservado Conversações duais (casuais)
4 Chat ICQ (agendado) Encontros pessoais (agendados?)
5 Chat em salas privadas Conversações (fechadas?)
6 Entrevista com convidado Entrevista com pessoa convidada
7 E-mail educacional (aula por e-mail) Aulas por correspondência
8 Aula chat (aulas virtuais) Aulas presenciais
9 Videoconferência interativa Reunião/de grupo, conferência/debate
10 Lista de discussão Circulares/série de circulares (?)
11 Endereço eletrônico Endereço postal
12 Blog Diário pessoal, anotações, agendas
Todos esses gêneros emergentes citados por Marcuschi realizam-se através da escrita, mesmo que seja uma escrita mais informal, com menor rigor com as regras e uma maior fluidez, o que não acontece com a sua contraparte, em que, na maioria dos gêneros, prevalece a oralidade.
No entanto, não podemos confundir os gêneros digitais com a sua contraparte, achando se tratar da mesma coisa, esses gêneros têm identidade própria, são diversificados em seus formatos, versáteis e dependem de software para a sua produção, merecendo, portanto, um trabalho diferenciado. “Se a escrita é em si mesma uma tecnologia, a escrita através de um computador é, por assim dizer, uma dupla tecnologia, porque ela acrescenta ao ato de escrever
a singularidade do meio computador.” (VIOLI, 2009, p. 48). A aprendizagem dessa forma é mais eficaz e tem efeitos duradouros, tendo em vista que foi produzida pelo processo ativo em um simulacro da realidade.
Como o mundo contemporâneo está repleto de máquinas, é necessário ir além do letramento alfabético, precisamos tornar nossos jovens digitalmente letrados, fazendo-os cidadãos do mundo, como diz Paulo Freire.
A tabela dos gêneros textuais para o trabalho com a leitura e com a escrita, em contextos orais e escritos, proposta pelos PCN não aborda os gêneros digitais, porém, no final desse documento, é feito um comentário sobre a inclusão das tecnologias digitais nas aulas de Língua Portuguesa, mais especificamente sobre os editores de texto, que para os PCN trazem algumas vantagens: podermos corrigir o texto quantas vezes forem necessárias; utilizarmos o corretor ortográfico para fazermos comparações e escolhermos a melhor forma; termos disponível um layout bem próximo dos textos que são impressos e divulgados para a sociedade. Além disso, outra característica abordada é:
Um outro aspecto interessante é a possibilidade de, estando conectado com alguma rede, poder destinar os textos produzidos a leitores reais, ou interagir com outros colegas, também via rede, ampliando as possibilidades de interlocução por meio da escrita e permitindo acesso online ao conhecimento enciclopédico acumulado pela humanidade. (PCN, 1998, p. 90)
Mesmo não abordando os gêneros digitais, os PCN colocam em evidência características importantes da escrita nesse novo contexto. O texto como forma de interação e produzido em situações reais de enunciação foram aspectos observados, devendo ser levado em consideração pelo professor que deseja criar ambientes de aprendizagem que ultrapassem os muros da escola. Como os PCN não abordam os gêneros digitais, utilizaremos como base para essa pesquisa alguns gêneros publicados por Marcuschi (2010).
2.4.1 E-mail
O e-mail é um termo inglês utilizado para designar três objetos diferentes: canal de transmissão de uma mensagem, a própria mensagem produzida e o endereço eletrônico de cada usuário. Como correio eletrônico, inova-se na forma de comunicação, pois através dele podem-se enviar vários tipos de dados, como textos, imagens, som e vídeos. Como mensagem eletrônica, pode-se afirmar que hoje é um dos textos mais produzidos nas sociedades letradas (PAIVA, 2010), apresentando inúmeras vantagens em relação aos textos impressos, dentre
elas podemos destacar: a velocidade na transmissão dos dados, assincronia, baixo custo, mensagem enviada para várias pessoas ao mesmo tempo e facilidade na criação de comunidades discursivas.
Bronckart (2009, p. 73) afirma “que qualquer espécie de texto pode atualmente ser designada em termos de gênero e que, portanto, todo exemplar de texto observável pode ser considerado como pertencente a um determinado gênero.” Assim, o meio de transmissão de mensagem - e-mail - criou um novo gênero textual, também chamado de e-mail, com características peculiares de bilhetes, cartas, memorandos, mas se distinguindo de todos os demais textos devido às características típicas do meio de transmissão como autor, leitor, tecnologia, texto, contexto e normas de interação.
Neste gênero textual, o autor do e-mail, na busca por uma comunicação mais rápida, interage com outros usuários com finalidades semelhantes e são mediados por um artefato cultural eletrônico. Para que essa comunicação aconteça, é necessário que os usuários sejam eletronicamente letrados, possuindo habilidades que vão desde o manuseio do computador até o conhecimento do gênero em questão.
Quanto aos que interagem, para Marcuschi (2010, p. 47), os e-mails podem ser: “a) de um emissor a um receptor; b) de um emissor a vários receptores, no caso de se mandar mensagens com cópias.”
A formatação do gênero segue a mesma orientação da carta pessoal, assim, temos alguns elementos que são automaticamente preenchidos como o endereço do remetente, a data e a hora. Outros elementos precisam ser preenchidos pelo remetente como endereço do receptor; cópias para outros endereços; assunto; corpo da mensagem com ou sem vocativo, texto e assinatura; possibilidade de anexar documentos; inserção de carinhas e desenhos. (MARCUSCHI, 2010).
2.4.2 Fórum de discussão
Também conhecido como lista de discussão, o fórum é um dos gêneros virtuais mais usados na internet, promovendo a interatividade entre seus participantes, a partir de temas para debates.
Apesar de ser uma ferramenta de comunicação assíncrona, em que os usuários podem deixar suas reflexões a qualquer tempo, é interessante que não haja um espaço de tempo elevado entre a mensagem original e as respostas, sob o risco de quando a resposta for postada já não ser mais interessante, ou seja, é necessária uma intensa participação dos seus usuários.
Antônio (2009) diz que os fóruns podem ser públicos – todos podem postar – ou privados – apenas os usuários cadastrados podem postar; podem ser mediados ou não – quando o fórum é mediado, existe um mediador que pode excluir mensagens, arquivos ou até mesmo bloquear participantes; podem ser temáticos – os temas são propostos para discussão periodicamente pelos mediadores – ou livres – os próprios usuários propõem o tema para discussão.
Na perspectiva de seu uso pedagógico, os fóruns podem favorecer o desenvolvimento da expressão, da autonomia e da reflexão. Antônio (2009) nos diz ainda que os fóruns podem ser utilizados como forma de organizar o estudo de determinado tema; espaço para aproximar as pessoas, estreitando os vínculos sociais; local onde troca de experiências e informações acontece; meio de organizar uma biblioteca através dos textos e arquivos que são anexados às mensagens; lista de avisos e coleta de informações sobre determinados temas; forma de documentar e relatar projetos educacionais.
Desta forma, de acordo com Xavier (p. 6)10, “Os fóruns eletrônicos, além de provocarem a participação escrita de seus usuários, desenvolvem o senso crítico, a capacidade de argumentação e síntese diante do acesso a opiniões bem divergentes entre si”. Para que este desenvolvimento aconteça, é importante lembrar que o foco do trabalho não é a ferramenta – fórum –, mas sim as situações de aprendizagem criadas envolvendo o gênero, de modo que favoreça o debate e a construção do saber, assim, o fórum é apenas um meio para que a aprendizagem aconteça de forma autônoma e participativa.
2.4.3 Blog
Os blogs emergiram na rede em 1999 com a utilização do software Blogger, que foi criado como alternativa para popularizar a publicação de textos online. O termo blog é uma corruptela de weblog, e há, como afirma Komesu (2010, p. 137), ao menos dois fatores que tornam o uso dessa ferramenta popular: “(1) a ferramenta é popular porque não demanda o conhecimento do especialista em informática para sua utilização e (2) a ferramenta é popular porque é gratuita, não se paga (ainda...) por seu uso ou pela hospedagem do blog no site que oferece o serviço.”
Para Marcuschi (2010), os blogs têm uma linguagem informal, funcionando como diários íntimos virtuais, são organizados por ordem cronológica e comportam textos, imagens,
músicas e outros materiais que ficam acessíveis a qualquer pessoa na rede. Geralmente os textos que são postados no blog são curtos e têm caráter descritivo ou opinativo, aberto a comentários do público. Um blogueiro pode manter ativo um ou mais blogs, dependendo da temática e do público alvo escolhido, ou simplesmente há aqueles que preferem não manter blogs e escrevem comentários nos blogs dos outros.
Com a expansão das tecnologias digitais, os blogs ultrapassam a ideia de diário íntimo, sendo, segundo Komesu (2010, p. 139), “concebido como um espaço em que o escrevente pode expressar o que quiser na atividade da sua escrita, com a escolha de imagens e de sons que compõem o todo do texto veiculado na internet.” Possuindo, portanto, características diferenciadas de um diário íntimo tradicional. Primo e Smaniotto (2006) enfatizam ainda que não se pode reduzir o blog a um único gênero, pois nele podemos encontrar textos como diários – escrita sobre si; publicações – comentários feitos sobre assuntos diversos; literários – publicações de poemas, crônicas, contos; clippings – links de outras publicações; mistos – uma mistura de publicações pessoais e informativas com comentários do autor.
Devido a esse ecletismo proporcionado pelo blog, ele se torna um local de encontro, onde as pessoas podem se expressar de forma simples e podem ser compreendidas por outras. No âmbito educacional, Brazão (2011) salienta que essa ferramenta pode ser observada sob dois prismas, primeiro por ser um artefato sociotecnológico, um instrumento de comunicação que permite práticas multissituadas; segundo por ser um artefato de interação social, em que os blogs permitem aos estudantes a oportunidade de construir conhecimento, através de uma prática que exige constante interação entre alunos, professores e leitores.
A partir dessa interação e diálogo constantes com os seus leitores “o autor expressa-se e constrói sua identidade.” (BRAZÃO, 2011, p. 5), pois não podemos deixar de considerar que a língua constitui fonte de interação e ação humana, sendo, portanto, necessária a presença do outro para a constituição do sujeito.
2.5 Os gêneros digitais em processos de aprendizagem autônoma e