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SSGHIE Report 2009

Ayres (2004, p.22) discute o cuidado à saúde no contexto da saúde pública, definindo o conceito de cuidado como a “conformação humanizada do ato assistencial”. Assim, adota-se aqui o termo cuidado como “designação de uma atenção à saúde imediatamente interessada no sentido existencial da experiência do adoecimento, físico ou

mental, e, por conseguinte, também das práticas de promoção, proteção ou recuperação da saúde” (loc. cit) por meio de uma noção do cuidado em saúde que “requer essa dimensão ampliada da compreensão das condições de vida, considerando a individualidade dos atores, sem perder de vista o coletivo, o meio social em que vivem e se identificam” (RIQUINHO; GERHARDY, 2010, p. 421).

Nesta perspectiva, o cuidado à saúde transcende a simples assistência ao corpo doente, tendo como um de seus desafios a ressignificação do trabalho em saúde, pois apresenta “uma potencialidade reconciliadora entre as práticas assistenciais e a vida, ou seja, a possibilidade de um diálogo aberto e produtivo entre a tecnociência médica e a construção livre e solidária de uma vida que se quer feliz, a que estamos chamando de cuidado” (AYRES, 2004, p. 85).

Dessa maneira, o ato de cuidar do outro se mostra como o verdadeiro sentido no campo das práticas populares de saúde, sendo

visível no trabalho das parteiras tradicionais, nas práticas de saúde que ocorrem nos terreiros de candomblés, no acolhimento e na escuta que os erveiros e raizeiros dispensam a quem os procuram, nos benzedores, na religiosidade, enfim, o cuidar do Outro é um constante exercício de solidariedade que afirma cotidianamente a possibilidade de afirmação da vida. (PEDROSA, 2007, p.97)

De acordo com M. S. Borges et al (2009), em estudo realizado com parteiras do Distrito Federal e região do seu entorno, as representações identificadas no trabalho dessas parteiras evidenciam as estratégias de sobrevivência de sua prática social que “resiste ao longo do tempo ao silenciamento/ausências que vêm sendo impostos ao seu modo de cuidar”, elucidando que a dimensão individual não deve ser considerada separadamente da dimensão social do cuidado que “só toma corpo no convívio e respeito às carências do outro e somente se concretiza quando é possível compatibilizar os meios e a finalidade de uma vida que tem sentido, se vivida em conjunto”; assim, se sobressaem os valores, as crenças e o sentido conferido à vida que organizam a prática social das parteiras tradicionais, em torno da qual se tecem as experiências cotidianas do grupo, de maneira que

a sabedoria da experiência do modo de cuidar das parteiras tradicionais aponta que a educação popular em saúde apresenta-se como uma possibilidade para conferir visibilidade aos diferentes modos de cuidar, pois permite a articulação entre saberes, favorecendo a emergência das ausências e a construção de um novo conhecimento (id. ibid., p. 382).

A prática social do cuidado à saúde encontra-se, portanto, na luta dos oprimidos, marginalizados. Nesse sentido, “o cuidado deve ser permeado pelo acolhimento com escuta sensível de suas demandas, valorizando-se a influência das relações de gênero, raça/cor, classe e geração no processo de saúde e de adoecimento das mulheres” (COELHO et al, 2009, p. 155).

Assim como se origina o saber de experiência dos praticantes populares, o cuidado é como um “dom” (BOFF, 1999) inerente dos seres humanos e tem origem na essência do próprio ser humano:

O cuidado se encontra antes, é um a priori ontológico, está na origem da existência do ser humano. E essa origem não é apenas um começo temporal. A origem tem um sentido filosófico de fonte donde brota permanentemente o ser. Portanto, significa que o cuidado constitui, na existência humana, uma energia que jorra ininterruptamente em cada momento e circunstância (op. cit., p. 02).

Com relação aos processos educativos decorrentes do cuidado, consideramos que estes acontecem nas relações entre os sujeitos que cuidam e são cuidados enquanto educam e são educados. Esse saber é transmitido no contato com o outro, pela oralidade, pelas ações, pelas experiências que são significativas para cada um:

Tudo começa com o sentimento. [...] Esse sentimento profundo, repetimos, se chama cuidado. Somente aquilo que passou por uma emoção, que evocou um sentimento profundo e provocou cuidado nos deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente (id. ibid. p. 01).

Descrevendo o modo de cuidar das mulheres camponesas como um processo educativo-terapêutico marcado pelo seu caráter coletivo, Daron (2009, p. 391) afirma que:

As mulheres camponesas têm um jeito próprio de cuidar da vida e da saúde que se expressa nas práticas populares de cuidado que desenvolvem, articuladas com a luta para a garantia de um sistema público e universal de saúde e com um novo modo de viver no campo. Este modo singular de cuidado e de promoção da vida, saúde e cidadania, pode ser identificado como um processo educativo-terapêutico. Parte-se do pressuposto de que esse tipo de trabalho só pode ser realizado se for em grupo, com organização de base, trabalho coletivo e comunitário e o fazer com o que se tem, se sabe e se pode, sem depender de outros.

Em outras palavras, entre os vários elementos elencados pelas mulheres camponesas, destacaram-se a acolhida, a capacidade de escuta e de respeito a cada pessoa que participa do grupo, e o diálogo considerado como a base da relação na qual tanto quem cuida como quem é cuidado são sujeitos dispostos a problematizar a relação entre os sintomas aparentes de dor e sofrimento com suas possíveis causas, sendo possível notar que, “muitas vezes, as pessoas saem já sem dor porque precisam ser acolhidas e valorizadas” (DARON, loc. cit).

Esta autora conclui, então, apontando dois desafios político-pedagógicos à educação popular em saúde que emergem desta experiência: o desafio de construção de um sistema público de saúde mais democrático, capaz de ouvir a população e de cuidar das pessoas enquanto sujeitos, enfrentando as causas das doenças e articulando atores que possibilitem a intersetorialidade; e o desafio de implementar a exigência ética de reconhecimento e fortalecimento das práticas populares tradicionais e integrativas de saúde como formas de atenção à saúde que precisam de reconhecimento nas políticas públicas para repensar as políticas de saúde, deixando de se apresentar como práticas marginais e tornando- se, enfim, legítimas ao dar centralidade ao cuidado, o que significa

renunciar à vontade de poder que reduz tudo a objetos, desconectados da subjetividade humana. Significa recusar-se a todo despotismo e a toda dominação. Significa impor limites à obsessão pela eficácia a qualquer custo. Significa ditadura da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado. Significa organizar o trabalho em sintonia com a natureza e suas indicações (BOFF, 1999, p. 02).