Para que pudéssemos dar início à constituição do material de análise, a primeira medida tomadafoi a solicitação da autorização, junto à direção da escola estadual em que o estudo foi realizado, para o desenvolvimento da pesquisa no seu espaço. Após o recebimento dessa autorização, realizamos o encaminhamento do projeto de pesquisa ao Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul para avaliação. Somente depois da análise e aprovação efetivada pelo Comitê14 foi possível darmos início
à pesquisa, seguindo as seguintes etapas: a) apresentação da pesquisa e convite aos possíveis participantes, b) formalização, via assinatura do Termo Livre Esclarecido (Anexo A), da participação dos sujeitos que se disponibilizaram a colaborar com o desenvolvimento do trabalho.
A partir disso, tendo como base a interlocução entre as perspectivas teóricas adotadas neste estudo, teoria dialógica do discurso e ciências do trabalho, a presente pesquisa, de cunho qualitativo, configurada como um estudo de caso, que tem como foco aprofundar aspectos de uma dada realidade, foi desenvolvida partindo da criação de espaços de fala para que os sujeitos, distanciados de sua atividade laboral, pudessem refletir e discutir sobre ela. Cabe ressaltar que não seria possível que todos os aspectos que englobam a complexidade da atividade fossem verbalizados, o que pode ser justificado de acordo com a abordagem teórica adotada, que defende a ideia de que “a impossibilidade de recuperar totalmente pela linguagem a atividade de trabalho (sempre ressingularizada) remete à impossibilidade de o enunciado ser repetido” (DI FANTI, 2012, p.324). Dito de outra forma, assim como todo enunciado é único e irrepetível, a atividade de trabalho também o é. De acordo com essa abordagem, a cada vez que o sujeito for
verbalizar sobre a atividade laboral que realiza, estará enunciando em um outro contexto, com outro projeto enunciativo, de outra maneira, envolvendo outro interlocutor, criando, assim, um evento discursivo único, que não reproduz fielmente o que foi realizado. Nessa perspectiva teórica, as atividades de linguagem e de trabalho são
plurais, constitutivamente dialógicas, e singulares, únicas, irreproduzíveis. Tal compreensão não anula a importância de o trabalho ser verbalizado; pelo contrário, a verbalização possibilita, sobretudo, a reflexão sobre a vivacidade da atividade laboral e sobre o (re)conhecimento da sua complexidade. (DI FANTI, 2012, p. 325)
Isso significa que, apesar de a verbalização sobre o trabalho não nos proporcionar um acesso direto e transparente ao que é efetivamente realizado pelo trabalhador, visto que os atos (de linguagem e de trabalho) são únicos, irrepetíveis e sempre constituídos por certa opacidade, a atividade de falar sobre as atividades laborais permite que o sujeito reflita, repense suas ações e possa melhor compreendê-las. Sendo assim, oportunizamos essa verbalização a fim de apreendermos a complexidade constitutiva da atividade de trabalho do professor de Língua Portuguesa em três etapas: (a) entrevistas individuais, (b) questionários e (c) participação em um grupo de discussão. As diferentes etapas foram realizadas na escola e marcadas de acordo com a disponibilidade de horário dos professores efetivos e dos professores em formação. Cabe ressaltar que a ideia inicial era de trabalhar com entrevistas individuais e grupo de discussão, entretanto, em função de problemas de tempo dos participantes e de organização dos horários não foi possível. Sendo assim, optamos por solicitar que os professores em formação participantes respondessem a um questionário, em substituição às entrevistas. Entendemos que há diferenças significativas entre o material constituído a partir desses dois espaços de verbalização (questionário e entrevista), visto que são contextos de enunciação diferentes. As entrevistas oportunizariam, possivelmente, um maior desenvolvimento acerca das questões apresentadas se comparadas aos questionários, visto que possibilitariam uma interação com a pesquisadora e um espaço mais abrangente para a verbalização. No entanto, acreditamos que o grupo de discussão possa, de certa forma, ter suprido essa lacuna, pois foi um espaço de interação em que as professores em formação discutiram e apresentaram seus posicionamentos em relação aos temas apresentados, diante de seus pares e da pesquisadora.
Em relação às entrevistas individuais, que correspondem à primeira etapa de constituição do material de análise, destacamos que foram concebidas sob uma perspectiva discursiva (ROCHA; DAHER; SANT´ANNA, 2004). De acordo com os autores, a entrevista configura-se como uma “nova situação de enunciação que reúne entrevistador e entrevistado, situada num certo tempo, num espaço determinado, revestida de um certo ethos, com objetivos e expectativas particulares” (p.174). Nesse sentido,
partindo de um roteiro elaborado previamente pela pesquisadora (Anexo B), buscamos criar uma situação de enunciação em que se possa dialogar sobre aspectos relevantes que constituem a prática docente dos participantes. A entrevista semiestruturada possui nove questões-chave que desencadearam a verbalização sobre o fazer docente e foi realizada com duas professoras efetivas de LP que atuam na escola em que desenvolvemos esta pesquisa. A duração de cada entrevista foi de 30 minutos, aproximadamente. Fizemos a gravação em áudio, para posterior transcrição e análise.
Como segunda etapa, realizamos a aplicação de um questionário às três professoras em formação, bolsistas do PIBID, que participam deste estudo. Esse questionário é composto por seis questões abrangentes (Anexo C), a partir das quais foi oportunizado que as participantes escrevessem sobre a sua atividade docente, sobre a relação entre teoria e prática no desenvolvimento da atividade do professor, bem como sobre suas concepções acerca do que significa ser professor de Língua Portuguesa.
Em relação à terceira etapa, a participação das docentes em um grupo de discussão, destacamos que realizamos um encontro do grupo, que teve como objetivo a realização de debates acerca de questões teóricas e práticas relacionadas ao ensino de LP. O grupo foi formado por três professoras em formação, participantes deste estudo, e pela pesquisadora, que mediou a discussão, motivada por temas elencados pela pesquisadora que surgiram nos questionários respondidos pelas professoras, os quais desencadearam outros aspectos a serem discutidos (Anexo D). Essa metodologia é relevante por oportunizar aos participantes da pesquisa a verbalização sobre a atividade laboral, na interlocução com o pesquisador, com vistas a desenvolverem conhecimento sobre o fazer docente, levando em conta os saberes acadêmicos e práticos. Assim como nas entrevistas, no grupo de discussão também realizamos a gravação em áudio, que foi posteriormente transcrita para o desenvolvimento das análises discursivas.