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Jonny Beyer, Torgeir Bakke og Marianne Olsen, NIVA

3. Resultater fra risikovurdering

3.2 Miljørisikovurdering Trinn 2A – risiko for spredning

3.2.3 Spredning av dioksiner

A arte é o social em nós. Vygotsky

Há, basicamente, dois pontos principais sobre os quais recai nossa atenção ao pensarmos no discurso poético:

1) O processo de criação artística, em que o poeta trabalha de forma singular com a linguagem, num espaço e num tempo determinados. Aqui, estamos pensando em autoria, que abrange, na concepção bakhtiniana, não somente o produtor de um enunciado, mas as relações entre o autor (autor-criador), o herói (objeto) e o ouvinte (contemplador); e

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As referências às obras de Bakhtin estão aqui apresentadas pela data original de seus textos e não pela edição que consultamos.

2) O produto da criação – o poema – em suas múltiplas realizações. Aqui, estamos vislumbrando o gênero, pensando antecipadamente, não em gêneros literários, na acepção tradicional, mas em gêneros do discurso, conforme a formulação de Bakhtin18.

Ao nosso ver, estes dois pontos estão imbricados e, em alguns momentos, como no texto de 1926 - Discurso na vida e discurso na arte –, é explícita a crítica às dicotomias, a algumas tendências que privilegiam a forma, operando uma

fetichização da obra artística enquanto artefato e desprezando o conteúdo/sentido, e

a outras em que a atenção recai sobre a psique do criador e/ou contemplador ou às teorias sociológicas de cunho mecânico. Devem-se levar em conta os dois momentos, uma espécie de processo-produto, se podemos nos expressar assim, considerando-os relacionalmente:

O artístico é uma forma especial de interrelação entre criador e contemplador fixada em uma obra de arte. (Bakhtin/Volochinov, 1926: 4)

Para podermos pensar, com Bakhtin, o que faz de um conjunto de palavras no papel, de frases enfileiradas, de versos agrupados, uma obra de arte, ou seja, o que lhes confere significado estético, será necessária uma visita aos textos em que foi tratada a relação entre ética e estética e, em seguida, àqueles que focaram, precisamente, o discurso literário.

Num dos primeiros manuscritos do autor russo, datado de 1919-1921, e mais tarde intitulado Para uma Filosofia do Ato, o jovem Bakhtin, então com 20 e poucos anos, num texto denso, de teor filosófico, já lançava as sementes de seu pensamento, sempre às voltas com as relações entre estética e ética. Categorias que são trabalhadas em obras posteriores, como a questão da autoria, relações autor-herói, exotopia, cronotopo etc. são encontradas neste texto, de forma embrionária e com designações ainda flutuantes.

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Para o teórico, gêneros do discurso são tipos relativamente estáveis de enunciados, com conteúdo

temático, estilo e construção composicional. (Bakhtin, 1952-1953/1979: 279). Voltaremos

Nessa obra inicial, Bakhtin concebe a atividade ética como um ato responsável, no seu processo de “estar se fazendo” num momento único, concreto, de sua realização. Sempre partindo de e se endereçando a um ser humano, envolvido neste evento19, o ato pode ser entendido como uma ação de qualquer natureza, um pensamento, um enunciado verbalizado ou não, escrito ou não. Ao ato, ao evento único do Ser, Bakhtin alia, numa simultaneidade, num todo indissolúvel, os valores que são mobilizados por meio da relação eu e outro, num tempo e lugares também únicos. Segundo Clark & Holquist (1998),

Bakhtin supõe que cada de nós “não tem álibi na existência”. Nós próprios precisamos ser responsáveis ou respondíveis, por nós mesmos. Cada um de nós ocupa um lugar e um tempo únicos na vida, uma existência que é concebida não como um estado passivo, mas ativamente, como um acontecimento. Eu calibro o tempo e o lugar de minha própria posição, que está sempre mudando, pela existência de outros seres humanos e do mundo natural por meio dos valores que articulo em atos. A ética não se constitui de princípios abstratos, mas é o padrão dos atos reais que executo no acontecimento que é minha vida. Meu self é aquilo mediante o que semelhante execução responde a outros selves e ao mundo a partir do lugar e do tempo únicos que ocupo na existência. (Clark & Holquist, 1998: 90)

Neste trecho de Clark e Holquist, é fácil perceber o peso das categorias, ainda seminais nos escritos do jovem Bakhtin, e que vão nortear todo o seu pensamento nas obras posteriores: a relação eu-outro, que compreendemos aqui como uma síntese ainda da inter-relação complexa autor-herói-ouvinte; as categorias espaço-tempo que são circunscritas, por fim, pelo termo cronotopo, e aliado às anteriores, e de primaz importância, como veremos adiante, o relevo dado ao componente axiológico, ou seja, à atitude valorativa (do eu, do falante, do autor, etc.) em relação a um objeto.

Apesar de, neste texto, não tratar ainda especificamente da linguagem, dos discursos, Bakhtin já inicia um movimento muito próprio seu, que é o de

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“Ser-evento único”, ou “evento único do ser” também são outras expressões usadas por Bakhtin, nesse mesmo texto, para se referir a este tópico.

correlacionar a atividade estética e a atividade real da vida cotidiana. Para exemplificar o que ele chama de arquitetônica real do mundo realmente

experimentado ele lança mão da análise de um poema de Pushkin20 “Separação”, para clarificar a disposição arquitetônica do mundo na visão estética em torno de um

centro de valores (Bakhtin, 1919-1921/1993: 83). Ou seja, para o leitor compreender

suas considerações filosóficas sobre o Ser e sobre a vida, ele vai verificar como se dá essa arquitetônica na arte:

Para dar uma idéia preliminar da possibilidade de uma arquitetônica valorativa concreta, vamos analisar aqui o mundo da visão estética – o mundo da arte. Em sua concretude e sua impregnação com o tom emocional-volitivo, este mundo está mais perto do mundo unitário e único do ato realizado do que qualquer outro mundo abstrato cultural (tomado isoladamente). Uma análise desse mundo nos ajudaria a chegar mais perto de um entendimento da estrutura arquitetônica do mundo-evento-real. (Bakhtin, 1919-1921/1993: 79)

Revendo o texto de 1926, Discurso na vida e discurso na arte, verificamos repetir-se essa correlação; entretanto, o foco já é explicitamente a linguagem e o movimento é examinar a “vida” para compreender a arte:

O propósito do presente estudo é tentar alcançar um entendimento do enunciado poético, como uma forma desta comunicação estética especial, verbalmente implementada. Mas para fazer isso nós precisamos antes analisar em detalhes certos aspectos dos enunciados verbais fora do campo da arte – enunciados da fala da vida e das ações cotidianas, porque em tal fala já estão embutidas as bases, as potencialidades da forma artística. Além disso, a essência social do discurso verbal aparece aqui num relevo mais preciso e a conexão entre um enunciado e o meio social circundante presta-se mais facilmente à análise. (Volochínov, 1926: 4-5)

Mas voltemos à análise do poema de Pushkin. Apesar de que o objetivo, então, não seja realizar uma análise literária do poema, nos cânones estabelecidos (na época, em plena efervescência do Formalismo), ou que possa, ainda hoje, ser

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reconhecida por nós como uma análise literária típica (ainda herdeira do Formalismo), Bakhtin, deslocando o foco de atenção para o que ele denomina na época “centro de valores”, ou “centro valorativo concreto” - em que o ser humano como centro de valor é o ponto do qual emanam e para o qual se dirigem todas as categorias, seja na vida, seja na realização estética -, deixa-nos uma brecha para que possamos afirmar que a preocupação dele estava no processo de instauração do estético, grosso modo, no processo-produto, e não no produto isoladamente, no material textual e seus aspectos formais:

A unidade do mundo na visão estética não é uma unidade semântica ou sistemática, mas uma unidade que é concretamente arquitetônica: o mundo se dispõe em torno de um centro valorativo concreto, que é visto e amado e pensado. O que constitui esse centro é o ser humano: tudo nesse mundo adquire significado, sentido e valor apenas em correlação com o homem – como [sic] aquilo que é humano. (Bakhtin, 1919-1921/1993: 79)

Voltaremos ainda, neste trabalho, ao termo “arquitetônica”, cujo sentido dado por Bakhtin nos interessa especialmente. Vejamos agora como a arte se dispõe para podermos compreender a estrutura arquitetônica do mundo-evento-real. Transcrevemos aqui o poema de Pushkin e o início da análise de Bakhtin, em que ele localiza esses centros de valor e já trabalha algumas categorias como a

exotopia, as relações dialógicas e as noções de espaço, tempo e valor:

Com destino às praias de sua pátria distante Você estava partindo desta terra estrangeira. Naquela hora inesquecível, naquela triste hora, Eu chorei diante de você por um longo tempo. Minhas mãos, mais e mais frias,

Lutavam por trazê-la de volta.

Meus lamentos imploravam que você não interrompesse A angústia terrível da despedida.

Mas você arrancou os seus lábios Do nosso beijo amargo;

De uma terra de sombrio exílio

Você disse: “No dia do nosso encontro Sob um céu eternamente azul

Na sombra de oliveiras,

Nós mais uma vez, meu amado, uniremos nossos beijos de amor.”

Mas lá – oh! – onde o arco celeste Brilha seu azul radiante,

Onde as águas dormem sob o abismo, Você para sempre adormeceu:

Sua beleza e seus sofrimentos Desapareceram no túmulo –

E o beijo do nosso encontro desapareceu também...

Mas eu estou esperando por esse beijo que você me deve...

Há duas pessoas ativas neste poema – o herói lírico (o autor objetivado) e “ela” (Riznich), e, conseqüentemente, há dois contextos de valor, dois pontos de referência concretos com os quais os momentos valorativos, concretos, do Ser estão correlacionados. O segundo contexto, além disso, sem perder sua auto- suficiência, é valorativamente abrangido (afirmado e fundado) pelo primeiro, e ambos os contextos são, por sua vez, abrangidos pelo contexto estético unitário valorativamente afirmado do autor-artista, que está situado do lado de fora da arquitetônica da visão de mundo do poema (não o autor-herói, que é um participante dessa arquitetônica) e do lado de fora da arquitetônica do contemplador. O lugar único, no Ser, do sujeito estético (do autor, do contemplador), o ponto do qual surge ou flui sua atividade estética (seu amor objetivo de um ser humano concreto) têm apenas uma determinação: estar situado do lado de fora [vne-nakhodimost´] de todos os momentos da unidade arquitetônica [ilegível] da visão estética. E é isso que, pela primeira vez, cria a possibilidade de o sujeito estético abranger a arquitetônica espacial e temporal inteira através da ação de uma auto-atividade afirmadora e fundadora e valorativamente unitária. A empatia estética (a visão de um herói ou de um objeto de dentro deles) realiza-se ativamente deste lugar único exotópico e é nesse mesmo lugar que a recepção estética se realiza, isto é, a afirmação e a

formação do material absorvido através da empatia – dentro dos limites da arquitetônica unitária da visão. A exotopia do sujeito (exotopia espacial, temporal e valorativa) – o fato de que o objeto de empatia e visão não sou eu – torna possível pela primeira vez a atividade estética da formação. (Bakhtin, 1919-1921/ 1993: 83-84)

Pela simples leitura do início da análise proposta por Bakhtin, vemos que as categorias - autor-artista (escritor); autor-herói (o herói-lírico); contemplador; o evento/ato (o enunciado poético); a exotopia (estar situado temporalmente, espacialmente e valorativamente do lado de fora do evento) - estão inter- relacionadas, levando-se em conta a atitude valorativa de um participante em relação ao outro. Podemos ainda vislumbrar outros níveis de relação, em que, por exemplo, o evento/ato possa ser descrito como o evento/ato narrado no enunciado poético.

A partir daí, outra vez, como em cascata, desenha-se a inter-relação entre os participantes, os centros de valores: o herói e “ela” - sobre quem se fala e a quem se dirige o enunciado - o escritor e o contemplador. Ou seja, autoria sobre autoria, podemos vislumbrar diversos níveis, diversos participantes, nós autores- contempladores exotopicamente orientados para um evento estético, o poema, construído a partir de um excedente de visão valorativamente marcado, do autor- criador, a dizer um evento ético – o sentido da partida e morte de Riznich para o autor-herói.

Pensamos que Bakhtin nos fornece, aqui, outros elementos para que possamos pensar o artístico – e destacamos, o poético - em categorias tais que não apenas a análise das formas, das imagens-tropo, das configurações rítmicas e sonoras. A nosso ver, é daí mesmo, na instauração de uma visão estética, que se encontra a ponta do fio de Ariadne a nos conduzir, primeiramente, à compreensão do pensamento bakhtiniano sobre o discurso poético e, em seguida, à proposição de uma releitura de alguns gêneros poéticos.

Retornando ao texto Discurso na vida e discurso na arte (1926), a preocupação com a esfera artística, com a comunicação estética toma corpo e investe-se de um espírito crítico:

O que caracteriza a comunicação estética é o fato de que ela é totalmente absorvida na criação de uma obra de arte, e nas suas contínuas recriações por meio da co-criação dos contempladores, e não requer nenhum outro tipo de objetivação. (Volochínov, 1926: 4)

Este texto dialoga incansavelmente, e de modo tenso, com o método formal, reafirmando o caráter imanentemente social da arte e a importância da consideração do autor, do herói e do ouvinte como fatores constitutivos essenciais da obra artística.

Ao tratar da questão da forma, do conteúdo e do material, no mesmo texto, dada a grande elaboração teórica por parte dos formalistas em relação aos aspectos formais do poema, sobretudo os fônicos/sonoros, Volochínov é incisivo ao, novamente, não dissociar forma e conteúdo, mas relacioná-los à apreciação valorativa do autor em relação ao objeto (herói) e ao ouvinte:

A significância avaliativa da forma é especialmente óbvia no verso. O ritmo ou outros elementos formais do verso abertamente expressam uma certa atitude em direção do objeto. (Volochínov, 1926: 12)

Num momento anterior, no texto de 1924, O problema do conteúdo, do material

e da forma, atribuído a Bakhtin ele mesmo, localizamos a mesma afirmação sobre a

forma, ampliada:

Assim, a forma é a expressão da relação axiológica ativa do autor-criador e do indivíduo que percebe (co-criador da forma) com o conteúdo; todos os momentos da obra, nos quais podemos sentir a nossa presença, a nossa atividade relacionada axiologicamente com o conteúdo, e que são superados na sua materialidade por essa atividade, devem ser relacionados com a forma. (Bakhtin, 1924/1975: 59)

Nada passa ao largo do criador, de seu universo valorativo. A atitude valorativa do autor em relação ao conteúdo é que vai selecionar e organizar as formas. Como aponta o próprio Bakhtin, esse processo não é cronológico, mas hierárquico. Além disso, o artista depara com a própria resistência do material bruto

a que pretende dar forma e precisa superá-la. No caso de um escultor, exemplo dado por ele, o mármore é o material sobre o qual, por meio de uma técnica, mas não apenas uma técnica, chegará a determinada forma. No caso de um poema, contudo, trata-se do material verbal. Bem, um mármore não está em todo lugar, está na natureza, no ambiente. O material verbal, ao contrário, está em todo lugar em que se encontra o humano, está antes na boca de cada um, depois, abstratamente, num compêndio do sistema ou das palavras de uma língua. Talvez seja também por isso que Bakhtin insista tanto na correlação entre o discurso da vida cotidiana e o discurso da arte.

Em “O autor e o herói na atividade estética”, datado da mesma época dos anteriores, entre 1920 e 1930, Bakhtin vai desenvolver as relações antes anunciadas entre o autor, o herói e o ouvinte, associando-os, de forma sistemática, às categorias de tempo, espaço e valor. No mesmo ensaio, trata da questão do conteúdo, da forma e do material, além de questões sobre o estilo, elementos que balizarão, definitivamente, alguns anos depois, sua noção de gênero do discurso.

A mesma analogia com o artista que trabalha o mármore reaparece então, e questões sobre o trabalho do artista com a língua e sobre a ação dos lingüistas afluem com mais vigor21:

Realmente, o artista trabalha a língua, mas não enquanto língua; ele a supera enquanto língua, pois não é em sua determinação lingüística (morfológica, sintática, lexicológica, etc.) que ela deve ser percebida, mas no que a torna um recurso para a expressão artística. (A palavra deve deixar de ser sentida como palavra.) A criação do poeta não se situa no mundo da língua, o poeta apenas serve-se da língua. No tocante ao material, a tarefa do artista, que é condicionada pelo desígnio artístico, consiste em superar um material. Superar o material não é um processo somente negativo que visaria instalar uma ilusão. No material, supera-se a eventual determinação extra-estética que lhe é inerente: o mármore deve deixar de se opor sua resistência em sua qualidade de mármore, ou seja, enquanto determinado fenômeno físico, e deve expressar a plasticidade das formas do corpo, porém sem criar a ilusão do corpo; o que é físico no material é justamente superado no que tem de físico. Será que devemos perceber as

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Pedimos desculpa ao leitor pela longa citação, mas julgamo-la importante para a compreensão de questões que serão colocadas mais adiante, como as da relação do poeta com a língua, com as imagens, no ato da criação.

palavras na obra de arte enquanto tais, ou seja, no que causa sua determinação lingüística? A forma morfológica enquanto tal? A sintaxe enquanto tal? A semântica enquanto tal? Será que o todo da obra é um todo verbal? A obra, claro, também deve ser estudada como todo verbal, e é tarefa dos lingüistas; mas um todo verbal que for percebido como todo verbal deixará de ser um todo artístico. Superar a língua como se supera a matéria física só pode ser feito de forma imanente; não se supera a língua negando-a e sim propiciando-lhe um aperfeiçoamento imanente em função de uma necessidade determinada. (A língua em si mesma é indiferente, é sempre auxiliar e não tem finalidade, serve indiferentemente à cognição, à arte, à comunicação prática, etc.). (Bakhtin, 1920- 1930/1979: 206-207)

Então o estudo das formas, dos recursos que a língua oferece ao artista, e que este mobiliza com mestria, é um estudo insuficiente da estética literária? Todas as escolas herdeiras do formalismo, ou que com ele polemizaram, produziram compêndios e compêndios de análise literária em vão?

Cremos que não, mas acreditamos que a visão estética proposta por Bakhtin traz uma contribuição específica aos procedimentos já correntes de análise poética, atualizando-os, para nunca perder de vista o ato de criação em sua completude. Como o diz o próprio Bakhtin, no mesmo ensaio sobre o autor e o herói, não se trata de “contestar o direito de estudar tais elementos” mas “simplesmente recolocá-los

nos respectivos lugares” (Bakhtin, 1920-1930/ 1979: 208).

É bom relembrar, em outra obra, o chamado bakhtiniano à formulação de uma real poética sociológica. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem (Bakhtin/Volochínov, 1929: 124), ao enunciar a ordem metodológica para o estudo da língua, o terceiro momento referir-se-ia ao “exame das formas da língua na sua

interpretação lingüística habitual”. Pensamos que, ao fazer uma transposição para o

estudo dos fenômenos literários22, as correntes formalistas e suas aparentadas, que

22 Bakhtin (1924/1975: 17), faz uma crítica à pesquisa que se move na periferia da própria obra de

arte, frisando que a poética agarra-se à lingüística, temendo afastar-se um passo dela (na maioria dos formalistas e em V. M. Jirmúnski), e às vezes chega mesmo a querer ser apenas um ramo da lingüística (em V. V. Vinográdov). É interessante, ainda, sob este tema, consultar o artigo de

Voloshinov, de 1929, Les frontières entre poétique et linguistique (In Todorov, T. Mikhail Bakhtine – le principle dialogique. Paris: Éditions du Seuil, 1981, p. 243-285), que defende, em posição crítica em relação ao trabalho de Vinográdov, o rompimento entre a lingüística e a poética e uma independência metodológica desta última.

propõem de uma forma ou de outra uma análise imanente do texto literário (estruturalismo, new criticism, escola morfológica), ocupariam este papel terciário no método sociológico do círculo bakhtiniano

A primeira ordem “As formas e os tipos de interação verbal com as condições

concretas em que se realiza” referir-se-ia, assim, às relações entre ética e estética

instauradas por Bakhtin, sobre a qual discorremos a partir da leitura de alguns de seus textos iniciais. Podemos evocar aqui a epígrafe desta seção, em que Vygotsky (1926/ 2001: 315) afirma que a arte é o social em nós. O artístico, como denominamos há pouco, constitui-se, no dizer de Bakhtin, numa relação entre vida e

arte, concebidas indissociadamente, Em todas as facetas da atividade humana

mediadas pela linguagem, vislumbra-se uma unidade, uma totalidade, integrando processo-produto: o ato ético, como posicionamento valorativo diante do mundo social e o ato estético como consubstanciação em forma-conteúdo desta valoração.